por Bruno Marise

Algumas cenas musicais locais têm uma identidade tão forte que acabam tornando-se um verdadeiro gênero. O hardcore de Nova York se encaixa nessa definição, apesar de ser um “gênero” bastante diversificado, dentro do possível. Nas suas origens, o hardcore tomou força do outro lado do Estados Unidos, na ensolarada Califórnia, que pariu bandas como Dead Kennedys, Black Flag e Descendents. Enquanto a primeira mesclava guitarras de surf music com a crueza e agressividade do punk rock, a segunda definiu o gênero com as letras ácidas e de cunho social e a fúria do som e a última foi a pioneira do hardcore melódico. Em Washington, também se consolidava uma cena forte, capitaneada pelos Bad Brains e posteriormente “organizada” pela turma do Minor Threat e a Dischord Records. Já em Nova York, se formava a faceta mais agressiva do gênero. As bandas e a “cena” foram formadas por jovens da classe operária e que viviam a realidade das ruas, muitas vezes membros de gangues. Por nascer nesse meio, a sonoridade do NYHC incorporou muitos elementos do Oi!/Streetpunk, principalmente os sing-alongs. Foi também a primeira vertente do gênero a se aproximar mais do thrash, se utilizando de vocais berrados, riffs metálicos  e solos de guitarra. As letras geralmente abordam a mesma temática: violência, irmandade, exaltação do underground e unidade da cena. A influência do movimento respingaria mais tarde em diversos outros grupos e gêneros, desde o Thrash com toques de hardcore dos conterrâneos do Anthrax, o rapcore do Biohazard até o recente metalcore. Com vocês, toda a brutalidade, sujeira e porradaria do mais legítimo hardcore novaiorquino.


 Agnostic Front – Something’s Gotta Gi1320246950_folderve [1998]

O Agnostic Front é uma das pioneiras da cena e síntese do hardcore nova iorquino. Poderia citar qualquer um de seus três primeiros e influentes discos, mas optei por esse álbum de retorno, lançado em 1998 após um hiato de seis anos. Em Something’s Gotta Give, a banda incorporou fortemente as influências de Oi!, fugindo um pouco da aproximação com o metal que vinha desde Cause For Alarm (1985). Esses elementos, como mais melodias e sing-alongs deixam as composições mais cativantes e casam perfeitamente com as letras sobre irmandade, união e classe trabalhadora. Destaque para as grudentas “Gotta Go”, “Do Or Die”, “Before My Eyes” e o cover de Iron Cross, “Crucified”.

Formação: Roger Miret (vocais), Vinnie Stigma (guitarra), Rob Kabula (baixo) e Jim Colletti (bateria).

1. Something’s Gotta Give
2. Believe
3. Gotta Go
4. Before My Eyes
5. No Fear
6. Blinded
7. Voices
8. Do Or Die
9. My War
10. Bloodsucker
11. The Blame
12. Today, Tomorrow, Forever
13. Rage
14. Pauly The Dog
15. Crucified


Cro-Mags – The Age Of Quarrel[1986]Cromags.Age

Talvez este seja o melhor debut de uma banda de NYHC. O Cro-Mags soube unir de forma perfeita a pegada e agressividade do hardcore com os riffs e timbres de heavy metal. Foi uma das primeiras bandas a injetar uma dose extra de peso no estilo e ficou conhecida por associar a cena de NY com uma postura mais violenta. Porém, o vocalista e líder John Joseph que na época já era adepto da doutrina Hare Krishna, acabou deixando o grupo um ano depois do lançamento do disco, pois a filosofia de paz contrastava com o ambiente e os shows agressivos do Cro-Mags. Ele retornaria nos anos 90, após toda a banda aderir o Hare Krishna, incorporando a filosofia no conceitos, artes e letras dos discos, mas nunca mais eles conseguiram o impacto e o frescor de Age Of Quarrel, e a sonoridade passou a tender muito mais para o heavy metal, deixando de lado a origem hardcore da banda.

Formação: John Joseph (vocais), Parris Mitchell Mayhew (guitarra), Doug Holland (guitarra), Harley Flanagan (baixo) e Mackie (bateria)

1. We Gotta Know
2. World Peace
3. Show You No Mercy
4. Malfunction
5. Street Justice
6. Survival Of The Streets
7. Seeker Of The Truth
8. It’s The Limit
9. Hard Times
10. Be Myself
11. Don’t Tread On Me
12. Face The Facts
13. Do Unto Others
14. Life Of My Own
15. Signs Of The Times


gorilla_biscuits_start_today.kpgGorilla Biscuits – Start Today (1989)

O impacto do Gorilla Biscuits na cena de NY foi tão grande, que mesmo lançando apenas um disco e um LP a 25 anos atrás e encerrando as atividades dois anos depois, a banda continuou cultuada como uma das melhores do gênero e desde 2005 retornou e vem fazendo shows baseados apenas nos dois registros, sem lançar nada novo e mesmo assim consegue renovar o público e lotar as casas de show por todo o mundo. Isso se deve à qualidade das composições do vocalista Anthony Civarelli (CIV). Ao contrário das demais bandas já citadas, o GB tem uma sonoridade bem mais melódica e sem puxar para o lado do metal, mas sem perder a agressividade, e principalmente a velocidade, já antecipando a predominância que iria acontecer no hardcore durante a década seguinte.

Formação: Anthony “CIV” Civarelli (vocais), Walter Schreifels (guitarra), Alex (Guitarra), Arthur (baixo) e Duke (bateria)

1. New Direction
2. Stand Still
3. Degradation
4. Good Intentions
5. Forgotten
6. Things We Say
7. Start Today
8. Two Sides
9. First Failure
10. Competition
11. Time Flies
12. Cats and Dogs
13. Sitting Around At Home
14. Biscuit Power


Sick Of It All – Scratch The Surface [1994Scratch_the_Surface_(Sick_of_It_All_album_-_cover_art)]

Formada no Queens, mesmo bairro de onde vieram os Ramones, a banda dos irmãos Lou e Pete Koller começou no circuito nova-iorquino em 1986, e lançaram seu álbum de estreia três anos depois, mas só foram chamar maior atenção com o terceiro álbum, Scratch The Surface lançado em 94, além da melhor distribuição por estarem em um selo major (Eastwest Records), a evolução nas composições é gritante em relação aos discos anteriores. Apesar do som bastante pesado e extremamente agressivo, principalmente nas letras e nos vocais de Lou Koller, a influência de heavy metal não é tão presente, e se resume apenas a algums riffs mais thrash. Alguns anos mais tarde o SOIA flertou com um som mais punk rock e menos hardcore, mais depois acabou retornando à origens.  O quarteto continua na ativa e inclusive lançou um novo disco esse ano,Last Act Of Defiance.

Formação: Lou Koller (vocais), Pete Koller (guitarra e backing vocals), Craig Setari (baixo e backing vocals), Armand Majidi (bateria).

1. No Cure
2. Inssurrection
3. Consume
4. Who Sets The Rules
5. Goatless
6. Step Down
7. Maladjusted
8. Scratch The Surface
9. Free Spirit
10. Force My Hand
11. Desperate Fool
12. Return to Reality
13. Farm Team
14. Cease Fire


$(KGrHqZ,!qwFHmDqNjFMBR8)S2rKPg~~60_35H2O – F.T.T.W. [1999]

A história do H2O é relacionada a duas bandas já citadas nesta seção. O vocalista Toby Morse foi roadie do Sick Of It All, e costumava cantar algumas músicas no bis. Em 1995, decidiu ter seu próprio grupo, e fundou o H2O com seu irmão Todd Morse. O som é bastante influenciada pela velocidade do Gorilla Biscuits, só que ainda mais melódico e com toques mais acessíveis, refletindo o som de bandas da época como Rancid, Pennywise e NOFX. Ainda assim, os elementos do hardcore tipicamente nova-iorquino estão presentes, principalmente nos refrãos em sing-along e nas letras pregando a irmandade e o companheirismo, exaltando o underground  e falando sobre a vida rueira. Esse disco traz vários convidados, entre eles Roger Miret (Agnostic Front), Tim Armstrong (Rancid), Dicky Barrett (The Mighty Mighty Bosstones), Freddy Cricien (Madball) e CIV (Gorilla Biscuits). Toby Morse é adepto do Straight Edge, uma subcultura diretamente relacionada com o hardcore e criada pelo Minor Threat, que defende a abstinência de qualquer tipo de droga e algumas vertentes também adotam o vegetarianismo e o veganismo. Apesar disso, o H2O não se enquadra como uma banda Straight Edge, apesar de abordar o tema em algumas letras.

Formação: Toby Morse (vocais), Todd Morse (guitarra e vocais), Rusty Pistachio (guitarra e vocais), Adam Blake (baixo) e Todd Friend (bateria e vocais).

Agnostic Front

 

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