Por Bernardo Brum

“Irmãos e Irmãs! Eu quero ver um mar de mãos! Me deixem ver um mar de mãos! Eu quero que todo mundo faça barulho. Eu quero ouvir um pouco de revolução, irmãos. Eu quero ouvir uma pequena revolução. Irmãos e Irmãs, chegou a hora de cada um de vocês decidir se vocês serão o problema ou se vocês serão a solução. Vocês devem escolher, irmãos, vocês devem escolher. Leva cinco segundos, cinco segundos de decisão, cinco segundos para perceber o seu propósito aqui no planeta. Cinco segundos para saber que é tempo de se mover. É hora de começar com isso. Irmãos, é hora de testemunhar e eu quero saber, vocês estãos prontos para testemunhar? Vocês estão prontos? EU LHES DOU UM TESTEMUNHO, O MC5!”

Oito anos de atividade e uma pequena discografia. Foi tudo o que o MC5, os “Cinco da Cidade do Motor”, precisaram para mudar a cara do Rock and Roll para sempre. Apaixonados pelo som enérgico e elétrico de gente como Chuck Berry, Dick Dale e The Ventures e pela viagem libertadora de jazzistas como John Coltrane e Sun Ra, a banda de Detroit (maior polo automobilístico americano, logo, “A Cidade do Motor”) logo chamou a atenção ao abrir shows e roubar a atenção do público de Cream e Big Brother & The Holding Company e mais ainda quando se afiliou politicamente ao poeta e ativista de esquerda John Sinclair para ser o empresário da banda fazendo uma ponte até então inédita entre o jovem gênero musical e o marxismo assumido – em plena época de paranoia e perseguição anticomunista.

Membros do “Panteras Brancas”, grupo de extrema-esquerda anti-racista fundado por Sinclair, a banda mais politicamente comprometida à época misturava junto ao discurso anti-capitalista explícitas referências ao trinômio “sexo, drogas e rock and roll” sendo pregado como contracultura em shows que eram além de concertos de música verdadeiras intervenções políticas e artísticas, sempre com provocações que não poucas vezes terminaram em quebra-quebra, prisões e controvérsia.

Pessoal e artisticamente, o MC5, com sua clássica line up de Rob Tyner (vocais), Wayne Kramer (guitarras, vocais), Fred “Sonic” Smith (guitarras, vocais), Michael Davis (baixo, vocais) e Dennis Thompson (bateria), é uma das verdadeiras representações dos excessos do Rock and Roll. Visceral, rasgado e primal, seus três discos gravados 69 e 71 inspirariam no final da década de setenta junto com outras bandas o punk, o hardcore e praticamente tudo que era pautado por velocidade e volume.


mc52 Kick Out The Jams [1969]

Não obstante ser um debut ao vivo, é um registro que abre com o discurso citado no início do texto a plenos pulmões pelo vocalista Rob Tyner, sendo logo seguido por “Ramblin’ Rose”, que pega o soul em falsete de Ted Taylor para acelerar em 500 por hora, com Wayne Kramer emulando Ted de forma de forma bradada e desesperada. E em sequência “Kick Out The Jams”, cujo brado inicial “Kick out the jams, motherfucker!” promoveu uma sinuca de bico entre a banda, a gravadora Electra e a loja de departamentos Hudson que se recusava a vender o álbum. A corda acabou estourando em seu nó fraco quando a banda comprou um anúncio de página inteira mandando a Hudson “ir se foder”, causando a demissão dos músicos da gravadora. As guitarras barulhentas de Kramer e Fred “Sonic” Smith (pai dos Ramones em som, visual e atitude) criam aquela que é talvez a primeira canção punk da história: a velocidade anfetamínica, os brados e gritos e a distorção e intensidade criam algo no mínimo deslocado em 1969. A porrada continua comendo solta em “Come Together” e “Rocket Reducer No. 62 (Rama Lama Fa Fa Fa)”, com refrãos fortes e riffs impactantes. A piração chega ao auge no soul-rock apocalíptico “Motor City Is Burning” (com o groove de baixo ornamentando belos e chapados solos de guitarra) e a versão da banda para “Starship” de Sun Ra, com a improvisação rolando desenfreada com distorção de guitarra, sons estranhos e harmonias vocais correndo livres e desimpedidas, sem estrutura definida. “Kick Out The Jams” quebrou com a moda do rock “bicho grilo” que discursava sobre paz e amor com baladas folk com um registro “quente”, sonora e liricamente revolucionário. Mesmo o sucesso à época sendo moderado, nada impediu o novo paradigma aberto de crescer vigorosamente: nada mais seria como antes.


MI0003549917Back In The Usa  [1970]

Agora assinados com a Atlantic, o som do debut em estúdio do MC5 deve muito à paixão do seu produtor Jon Landau (co-produtor da obra-prima de Bruce Springsteen “Born To Run”, entre outros discos do Boss) pelo rock cinquentista e sua pouca afeição ao rock psicodélico. O resultado foi que, justamente, a banda concentrou todos seus esforços em fazer uma versão pesada e alucinada do que os pioneiros do estilo tocavam, o que se vê na abertura e no fechamento do álbum, os covers “Tutti-Frutti” de Little Richard e “Back in the USA” de Chuck Berry. Menos politizado mas ainda fazendo música barulhenta o suficiente para fazer qualquer conservador ficar de cabelos em pé, na hora de compôr material próprio a banda investe na delinquência e no hedonismo, como dá pra ver em “Teenage Lust” e “Call Me Animal”, rythm and blues com guitarras pesadas, cozinha marcada e vocais raivosos. Também se sai muito bem nos temas mais elaborados, como na balada “Let Me Try” e “Looking At You”, com os solos de guitarra de Wayne Kramer antecipando aquele hard rock mais rápido praticado no final da década e o baixo “na cara” levando a música. A pedrada política da vez fica por conta de “The Human Being Lawnmower”, com uma cozinha tensa e explosiva, em uma música que varia entre o tom pulsante e as frases rapidíssimas para a época (construção que lembra muito do que o pessoal do hardcore viria fazer na década seguinte) para criticar o histórico de violência e opressão da raça humana, definidos na música como uma “raça ancestral de primatas assassinos”. Afiados e diretos como nunca, o MC5 estava em sua melhor forma ao fazer Back in the USA, legítimo disco de rock mal educado, desordeiro e desobediente – trilha sonora perfeita para exorcizar angústias.


MC5_-_High_TimeHigh Time [1971]

Banda libidinosa que só eles, o MC5 fez do seu canto de cisne “High Time” o resultado de uma transa entre seus dois registros anteriores. O mais criticamente elogiado e menos vendido álbum do grupo (que causou a demissão da gravadora e pouco após a dissolução do grupo, que jamais veria a sua formação original novamente – Tyner morreria de ataque cardíaco em 91 e Fred de overdose em 94) é de longe o álbum mais elaborado da banda, apresentando além do trinômio guitarra-bateria-baixo vários outros instrumentos pouco usuais no rock. Isso logo se vê na introdução, a obra-prima de sete minutos “Sister Anne” (com a ponte-refrão emprestada pelos Dead Kennedys em “Let’s Lynch The Landlord”), com o ritmo pesado da banda sendo acompanhado por um piano cinquentista com solo de gaita e backing vocals femininos dando uma belíssima adição, com um final marcial de percussão marcada e instrumentos de sopro dando um final hilário à música que versa sobre uma moralista. Disco de composições mais longas, a banda mostra ser formada por compositores de mão cheia, cruzando tudo bom feito na música americana até então; para os amantes de barulho, as porradas de três minutos “Gotta Keep Movin’” e “Poison”, um grooveado hard rock que antecipou a sonoridade da década seguinte em alguns anos; há também a a balada groooveada “Miss X”, e de quebra a banda ainda entrega duas peças mais experimentais, “Future/Now”, metade metralhadora sônica e metade cadência etérea e a influenciada por free jazz e sobretudo Sun Ra “Skunk (Sonically Speaking)”, pesada e viajante, com os tradicionais instrumentos mais percussão, conga, trompete, trombone e sax tenor desenhando uma música intensa e cheia de camadas. Fechamento com chave de ouro para uma banda com fome de tudo que era novidade para quela juventude: liberação de costumes, experimentações sonoras e ativismo político se mostraram os ingredientes certeiros para um fenômeno trangressor que definitivamente não se ouve todo dia.

Homenageados e regravados por artistas tão diferentes como Rage Against The Machine, Jeff Buckley, Monster Magnet, Pearl Jam, The Damned, Corrosion of Conformity, Bad Brains e Entombed, a sensação de ouvir MC5 permanece com um inedistismo fresco e vigoroso até hoje. Dá pra entender o saudosismo de uns dos anos sesenta/setenta: poucas vezes na história da música popular se viu em quantidade tão grande artistas rompendo os limites impostos de maneira tão desavergonhada.

whitepanther4

7 comentários

  1. Mairon Machado

    Banda cujo álbum de estreia poderia ter estado no Recomenda da semana passada. Já os demais não me disseram muita coisa …

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    • anonimo

      Concordo, o primeiro é ótimo, os que vieram depois são regulares. Mas era impressionante a potência do MC5 ao vivo nessa época, e o Wayne Kramer é um guitarrista injustiçado, e ele sabia tocar. O Kramer além de ótimos riffs também sabia solar. O MC5 era uma banda proto-punk que sabia tocar. E vou acrescentar uma curiosidade bem pequena: a música Looking at You do álbum Back In The USA de 1970, já tinha sido lançada em 1968, só que como single e mais suja e podrona do que a versão dessa álbum.

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  2. Marcello

    Kick Out the Jams é um dos discos ao vivo mais furiosos de todos os tempos! Em estúdio, a banda nunca rendeu o mesmo – um problema enfrentado pelo Grateful Dead, mas, neste caso, por motivos diferentes.

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  3. Anônimo

    Fred “Sonic” Smith e o Johnny Ramone deviam ser irmãos gêmeos, pois é impressionante a semelhança que o Johnny tinha com o Sonic Smith.

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  4. Anônimo

    No primeiro álbum do MC5 eles gravaram uma cover, que é I Want You Right Now do The Troggs que diga-se de passagem, superou a original. O riff arrastado dessa música na versão do MC5 lembra um pouco a Sweet Leaf do Black Sabbath lançada dois anos depois.

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  5. Pergaminho

    Ao trazer uma matéria sobre a discografia de um artista, ou seja, no caso, o conjunto de discos/obras fonográficas, seria muito instrutivo e informativo mostrar a “line-up” da banda! Abraço.

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