Por Micael Machado
Uma das poucas bandas a segurar a bandeira do progressivo durante os anos 80 do século passado, o Marillion sempre foi acusado de ser uma mera cópia do Genesis, influente banda também inglesa com a qual o grupo de Aylesbury (Inglaterra) tem vários pontos em comum, além do estilo musical: a época com o primeiro vocalista das duas formações é a mais cultuada pelos seus fãs (Fish no Marillion, Peter Gabriel no Genesis), sendo que muitos simplesmente desprezam a fase com seus substitutos (Steve Hogarth e Phil Collins, respectivamente – sendo que o Genesis ainda teve Ray Wilson nos microfones por um breve período); o fato dos dois cantores originais usarem maquiagens (e outros adereços) no palco para personificar as letras das canções, cheias de termos poéticos e metafóricos – sem falar no timbre parecidíssimo de suas vozes; o reconhecimento mundial alcançado com os vocalistas iniciais, superado em termos financeiros mas não artísticos na fase posterior da carreira; o afastamento do progressivo em direção a uma música mais “comercial” e pop após a partida destes cantores; e a eterna esperança dos fãs de ver a “formação clássica” destes gigantes reunida novamente, nem que seja para apenas uma turnê.
Como nenhum dos dois grupos parece inclinado a realizar este sonho a seus seguidores, resta-nos agraciar nossos ouvidos com as maravilhas registradas na “fase dourada” das duas bandas. No caso do Marillion, poucas são as opções melhores do que Early Stages – The Official Box Set 1982-1987, caixa com cinco shows em seis CDs que cobrem o período de Derek William Dick (Fish para seus fãs) à frente do grupo, e que serve como uma perfeita coletânea e introdução ao universo musical desta verdadeira instituição prog surgida fora da época áurea do estilo.
O primeiro show (que compõe o primeiro CD) é The Mayfar Glasgow 13th Septembet 1982. Registrado na Escócia natal de Fish, o disco captura o grupo apenas cinco dias depois de assinar seu primeiro contrato com a gravadora EMI, e seis meses antes do lançamento do seu registro de estreia, Script For a Jester’s Tear, de 1983. Com o repertório cobrindo apenas quatro canções deste sensacional disco (“Garden Party”, “The Web”, “He Knows You Know” e “Forgotten Sons“), sendo completado por dois legítimos lados B do grupo (“Three Boats Down From The Candy” e “Market Square Heroes” – primeiro single da banda, e fortíssima candidata a “maravilha do mundo Prog”, caso o responsável pela coluna, nosso colaborador e meu irmão Mairon Machado, tivesse algum interesse pelo Marillion) e por uma versão inicial da surpreendente “She Chameleon” (que só seria lançada oficialmente em 1984, no segundo disco, Fugazi). Gravado e transmitido pela Radio Clyde escocesa, com o grupo tendo em sua formação Steve Rothery na guitarra, Pete Trewavas no baixo e backing vocals (anos depois membro do Transatlantic, outro gigante progressivo, ao lado de Mike Portnoy, do Dream Theater), Mark Kelly nos teclados e Mick Pointer na bateira – além de Fish, claro -, o que temos nos pouco menos de 52 minutos deste CD é uma banda tocando já para uma plateia totalmente capturada por sua música, devido aos shows do Marillion pela Escócia em sua primeira turnê (especialmente os de Glasgow, onde fizeram três concertos lotados). Como forma de reconhecimento e agradecimento aos fãs daquela cidade, o grupo fez ali este show que serviu de apresentação formal aos executivos de sua nova gravadora, que ficaram boquiabertos com a receptividade do público, aprovando assim o lançamento do single de estreia para o mais breve possível. A qualidade sonora é muito acima do que se esperaria de um bootleg, e o empolgante registro desta iniciante formação já dá mostras do sucesso que eles teriam pouco depois. Vale o comentário de que a capa é uma versão da do single de Market Square Heroes, lançado no mês seguinte a este show, em outubro de 1982.
Os dois próximos CDs registram um show no lendário Marquee de Londres em 30 de dezembro de 1982. Último de uma série de três espetáculos no local naquele mês (sendo os outros nos dois dias anteriores) – e nos quais foram registradas as imagens que aparecem nos extras do DVD Recital Of The Script (cuja versão original em VHS data de 1983). À exceção de “She Chameleon”, todas as músicas do primeiro CD comparecem novamente aqui, acrescidas de “Chelsea Monday” e da faixa título do primeiro disco (apresentada pela primeira vez nestes três shows – aliás, como esta música é linda!), além de dois outros lados B, a roqueira “Margaret” e a épica “Grendel” (com seus quase vinte minutos que lembram em muito o Genesis, sendo que uma parte da canção é praticamente um plágio de “Apocalipse in 9/8”, uma das partes da suíte “Supper’s Ready“, do grupo de Peter Gabriel). Apesar da repetição de boa parte das canções do disco anterior, na uma hora e quarenta e cinco minutos deste espetáculo o Marillion se mostra uma banda ainda mais madura que no ano anterior, e ouvimos um público londrino mais participativo do que o de Glasgow, sendo que o grupo era praticamente um residente no local, tendo se apresentado naquele clube diversas vezes ao longo de 1982. Tanto a qualidade sonora da gravação quanto a da música da banda são excelentes, em um registro daquela época do Marillion quase tão bom quanto o presente no citado DVD gravado quatro meses depois. Um registro imperdível para os fãs!
Com a reprodução em sua capa da máscara que Fish usava na parte final de “Grendel” durante as apresentações do Marillion, o quarto CD captura a banda no mesmo Reading Festival de 27 de agosto de 1983 onde o Black Sabbath se apresentou com Ian Gillan, no concerto lançado anos depois como bonus disc da versão deluxe de Born Again. Também gravado pela BBC, como o show do Sabbath, este é o último documento da fase Jester’s presente na caixa, e introduz outra música de Fugazi, a fantástica “Assassing“, além de mais um lado B, “Charting The Single”, e de canções já presentes nos CDs anteriores desta caixa. Não é a toa que Fish afirma no livreto deste box que a banda deixou Tony Iommi e companhia com uma verdadeira “batata quente” nas mãos ao ter de se apresentar logo na sequência do incendiário show de 75 minutos do Marillion. Tanto banda quanto público fizeram um espetáculo memorável, e “Market Square Heroes”, aqui encerrando o show (com a inclusão de trechos de outras músicas em sua parte intermediária, em substituição às viagens progressivas dos CDs anteriores), é uma verdadeira celebração da audiência para com o quinteto, dando uma clara ideia da popularidade da banda na época. Este CD é também a única oportunidade que o box set nos dá de ouvirmos John Martyr na bateria, ele que substituiu a Andy Ward no posto (Andy aparece no show fazendo percussões em “Assasing”, sendo que ele ficou na banda por pouco tempo entre a saída de Mick Pointer e a entrada de Martyr). Atrevo-me a dizer que, ao lado do DVD citado anteriormente, The Last Reading Rock 27th August 1983 é o melhor registro desta fase do Marillion, para mim a mais marcante do grupo! Precisa dizer mais alguma coisa?
Hammersmith Odeon 14th December 1984, o quinto CD, captura o Marillion no final da turnê de Fugazi, atolado em problemas financeiros (o ao vivo Real to Reel havia sido lançado no mês anterior apenas para saldar dívidas com a EMI), e com sérias dificuldades para finalizar a composição de seu próximo álbum. Mesmo assim, tanto banda como público dão o sangue nesta apresentação de 75 minutos, onde os clássicos do passado perdem espaço para as músicas do segundo disco (apenas “Garden Party” e “Chelsea Monday” do primeiro LP aparecem, sendo que, das sete músicas de Fugazi, apenas “Emerald Lies” não é tocada – o show ainda ainda conta com outro lado B, “Cinderela Search”). Mas o grande atrativo do CD é mesmo a presença de praticamente todo o lado A de Misplaced Childhood, ainda em uma versão embrionária daquela que seria lançada seis meses depois, tornando-se um dos melhores lançamentos da discografia da banda. Apenas “Lavender” não é interpretada, e é curioso ouvir “Kayleigh” (um dos maiores sucessos da longa carreira do Marillion) com letras diferentes daquelas a que estamos acostumados (Fish diz no livreto que costumava recitar uma letra diferente a cada noite, até finalmente chegar à versão final). O vocalista anuncia antes de começar a executar as músicas do então vindouro disco que ele seria conceitual, teria apenas duas músicas (“Side 1” e “Side 2”), e que levaria o Marillion em uma direção que muitos não gostariam que a banda seguisse. Felizmente essa direção foi muito bem aceita pelo público da banda, e o grupo atingiu um nível de sucesso muito maior do que o que já possuía. Este é o primeiro CD do box a contar com Ian Mosley na bateria (ele que já havia tocado antes com Steve Hackett, ex-guitarrista do Genesis, e que havia entrado no grupo poucos meses antes em substituição a John Martyr, permanecendo no Marillion desde então). Também gravado e transmitido pela BBC, é desnecessário comentar sobre a qualidade sonora do CD, que captura a banda em uma fase de reconhecimento por parte de seus fiéis fãs, mas ainda distante do enorme sucesso comercial que o terceiro álbum traria. 
O último CD do box set, Wembley Arena 5th November 1987, nos mostra o grupo em outro estágio de popularidade, durante a turnê de Clutching At Straws, o quarto disco, lançado menos de seis meses antes (e, para mim, o mais fraco da “fase Fish”). A sonoridade e o visual do grupo haviam mudado, a cantora Corie Josias havia se juntado ao grupo para fazer backing vocals na turnê, o vocalista já não mais usava sua maquiagem característica nos shows (e sim modelitos coloridos típicos da época), e os outros membros pareciam mais um bando de yuppies ricos no palco do que um grupo de rock (o que pode ser conferido no DVD Live From Loreley, do mesmo ano). Mesmo assim, as sete músicas do então recente lançamento apresentadas aqui (com enorme destaque para a faixa de encerramento do LP, “The Last Straw“, e para “Sugar Mice“, que os fãs do Dream Theater logo reconhecerão, devido aos americanos terem incluído parte dela na execução de “Surrounded” constantemente a partir de 2007), junto a uma nova execução de quase todo o lado A de Misplaced Childhood (desta vez com “Lavender” presente, faltando agora “The Pseudo-Silk Kimono” para a obra ficar completa), e de duas músicas de Fugazi (a faixa título e “Incubus”) tornam os quase 75 minutos deste CD algo bastante agradável de se ouvir, mesmo com as restrições que particularmente tenho a esta fase da carreira da banda. Mais uma vez, a gravação foi realizada e transmitida pela BBC, o que garante uma excelente qualidade sonora, assim como nos outros discos da caixa.
Parte traseira do box set Early Stages
Acompanha o box um livreto de 16 páginas com textos escritos pelo próprio Fish tratando de cada show e da situação da banda na época dos mesmos, o qual é bastante interessante e instrutivo, embora a ausência de fotos e a falta de maiores esclarecimentos sobre sua partida da banda. Como o próprio vocalista escreve, “esta é uma outra história”, que começou 20 anos antes do lançamento desta imperdível caixa, e que “continua sendo escrita hoje em dia”. 
“Is it too late to say I’m sorry?”
Repertório dos CDs:

Disco 1 (Live at the Mayfair, Glasgow, 13 September 1982)
1. “Garden Party” – 8:19
2. “The Web” – 10:29
3. “He Knows You Know” – 5:22
4. “She Chameleon” – 5:39
5. “Three Boats Down from the Candy” – 5:19
8. “Market Square Heroes” – 6:20
7. “Forgotten Sons” – 10:24
Disco 2 (Live at the Marquee, Part 1, 30 December 1982)
1. “Garden Party” – 8:29
2. “Three Boats Down from the Candy” – 6:49
3. “Grendel” – 19:54
4. “Chelsea Monday” – 9:21
Disco 3 (Live at the Marquee, Part 2, 30 December 1982)
1. “He Knows You Know” – 8:24
2. “The Web” – 11:49
3. “Script for a Jester’s Tear” – 10:20
4. “Forgotten Sons” – 12:03
5. “Market Square Heroes” – 7:39
7. “Margaret” – 11:15
Disco 4 (Live at Reading Festival, 27 August 1983)
1. “Grendel” – 18:07
2. “Garden Party” – 6:46
3. “Script for a Jester’s Tear” – 9:00
4. “Assassing” – 7:45
5. “Charting the Single” – 5:22
6. “Forgotten Sons” – 11:41
7. “He Knows You Know” – 5:42
8. “Market Square Heroes” – 10:22
Disco 5 (Live at Hammersmith Odeon, 14 December 1984)
1. “Assassing” – 6:50
2. “Garden Party” – 6:53
3. “Cinderella Search” – 6:16
4. “Punch and Judy” – 3:30
5. “Jigsaw” – 7:02
6. “Chelsea Monday” – 8:13
7. “Pseudo-silk Kimono” – 2:53
8. “Kayleigh” – 3:53
9. “Bitter Suite” – 6:01
10. “Heart of Lothian” – 4:24
11. “Incubus” – 9:08
12. “Fugazi” – 10:32
Disco 6 (Live at Wembley Arena, 5 November 1987)
1. “Slainte Mhath” – 5:03
2. “White Russian” – 6:01
3. “Incubus” – 8:56
4. “Sugar Mice” – 7:03
5. “Fugazi” – 8:15
6. “Hotel Hobbies” – 4:07
7. “Warm Wet Circles” – 4:30
8. “That Time of the Night” – 5:53
9. “The Last Straw” – 6:13
10. “Kayleigh” – 4:28
11. “Lavender” – 2:24
12. “Bitter Suite” – 8:07
13. “Heart of Lothian” – 3:56

1 comentário

  1. Groucho KCarão

    Fiquei com água na boca pra ouvir esse box! Apesar de – lá vou eu de novo, jeje – não achar que o Marillion seja prog, eu curto muito a banda! Capaz de ser o melhor fruto dos anos 80! (Grande coisa. JEJEJEJEJEJE)

    O Micael falou das semelhanças com o Genesis – sendo que no som eu vejo também muita semelhança com o Pink Floyd pós-Wish You Were Here – e eu lembrei das semelhanças entre o Genesis e o… Traffic!! Além dos timbres das vozes do PG e do Winwood serem parecidos, e das flautinhas aqui e acolá, as duas bandas possuem bateristas-vocalistas (Phil Collins e Jim Capaldi) que partiram pra uma carreira-solo super brega! keke

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