Por Ronaldo Rodrigues

O tecladista inglês Dave Sinclair tem longa trajetória dentro do rock progressivo. Foi membro fundador do Caravan, grupo do qual foi responsável pela composição e arranjos de suas mais emblemáticas canções. O grupo soube fazer uma natural transição do rock psicodélico para o rock progressivo eclético dos anos 70. Tocou junto com seu primo e baixista, Richard Sinclair, tanto no Caravan quanto em uma das formações do Camel no fim dos anos 70. Seu vai-e-vem entre diferentes projetos contribuiu para a salada de músicos do que se convencionou chamar “Cena de Canterbury” na primeira metade dos anos 70. Seu estilo pode ser descrito como um discreto protagonismo – Sinclair não era tão performático quanto seus pares, mas era igualmente técnico e inventivo quanto os maiores tecladistas do rock dos anos 70. Eis aí um guia rápido para quem quiser conhecer sua musicalidade.


Caravan – Caravan (1968)

A faixa de abertura, “Place of my Own”, já tem a impressão digital de Sinclair em seu indefectível Hammond L-100 – melodioso, equilibrado e com um fraseado inesquecível. Seu timbre cheio de reverb casa-se maravilhosamente com a voz de Pye Hastings, em um disco que lembra o Moody Blues em muitos momentos. Para quem quer mergulhar no Tecnicolor da época, faixas como “Love Song with Flute” e “Magic Man” são passaporte carimbados para a viagem. A psicodelia vem pesada em “Grandma’s Lawn” e “Cecil Rons”, na qual Sinclair também faz seu órgão berrar.

Formação: Pye Hastings (guitarra, vocal), Richard Couglan (bateria), Richard Sinclair (baixo, vocal), Dave Sinclair (teclados)

1. Place of My Own
2. Ride
3. Policeman
4. Love Song With Flute
5. Cecil Rons
6. Magic Man
7. Grandma’s Lawn
8. Where but for Caravan Would I


Matching Mole – Matching Mole (1972)

Em 1972, Dave Sinclair deu uma pausa do Caravan para buscar outros horizontes. Ele já tinha participado como convidado do primeiro disco solo de Robert Wyatt (baterista do Soft Machine) chamado The End of an Ear. Quando Wyatt começou um novo projeto, Sinclair foi convidado para a empreitada. O baterista já tinha trincheiras fincadas nas fronteiras do rock, sempre buscando expandi-las; o Matching Mole foi apenas uma das maneiras de expressar essa busca por experimentação. Sinclair o auxiliou de forma decisiva nesse intento, ainda que sua veia melódica se mantivesse intacta (como pode ser ouvida na faixa de abertura “O Caroline”). Mas da faixa de abertur em diante a experimentação dá poucas tréguas – Sinclair utiliza muitos efeitos em seus teclados (inclusive wah-wah) e é o responsável pelo resultado simplesmente insano de faixas como “Instant Kitten” e “Beer as in Braindeer”.

Formação: Robert Wyatt (bateria), Phil Miller (guitarra), Bill MacCormick (baixo), Dave Sinclair (teclados)

1. O Caroline
2. Instant Pussy
3. Signed Curtain
4. Part of the Dance
5. Instant Kitten
6. Dedicated to Hugh, but You Weren’t Listening
7. Beer as in Braindeer
8. Immediate Curtain


Caravan – For Girls Who Grow Plump in the Night (1973)

A versatilidade de Sinclair fica nítida em seu retorno triunfal para o Caravan. O Caravan já vinha em ascenção junto ao público e a crítica e For Girls…é indiscutivelmente um de seus melhores álbuns. Na ocasião, seu primo Richard já não estava mais e a banda havia incluído o violino de Peter Richardson. A inclusão do violino fez a abordagem de Sinclair ficar um pouco mais contida nas bases, guardando energia para os estouros de musicalidade de seus solos, tendo como novidade o uso de sintetizadores. O Caravan conseguiu montar um conjunto de canções inteligentes e ao mesmo tempo simples e pegajosas. São muito os momentos grandiosos de Sinclair nos teclados nesse álbum, mas o maior destaque fica com a longa suíte que fecha o álbum, “L’Aubergue du Sanglier”, que é um primor em todos os sentidos, com lindos solos pairando sob uma épica base orquestral.

Formação: Pye Hastings (guitarra, vocal), Richard Couglan (bateria), John Perry (baixo), Dave Sinclair (teclados), Peter Geoffrey Richardson (violino)

1. Memory Lain, Hugh
2. Headloss
3. Hoedown
4. Surprise, Surprise
5. C’Thlu Thlu
6. The Dog, the Dog, He’s at It Again
7. Be All Right / Chance of a Lifetime
8. L’auberge du sanglier / A Hunting We Shall Go / Pengola / Backwards / A Hunting Shall We Go (Reprise)


Polite Force – Canterbury Knights (1976 – 1978)

Ainda nos anos 70, Dave Sinclair fez parte de um projeto capitaneado pelo guitarrista de jazz Mark Hewins, que era amigo da turma do Soft Machine. O projeto teve vida curta (cerca de 2 anos) e Sinclair foi seu membro efetivo por cerca de 1 ano, após ter novamente saído do Caravan. Pelas jams e ensaios do Polite Force passaram outras figuras já renomadas do rock da época, como membros do Caravan (Richard Sinclair, Richard Couglan, Peter Richardson) e do Camel (Andy Latimer e Andy Ward). O grupo não gravou nada oficial no período que esteve ativo, mas algumas fitas demos sobreviveram ao tempo e foram relançadas em CD na década de 90 pelo selo Voiceprint. Aqui temos Sinclair mostrando uma veia mais jazzista/soul, com uso intensivo dos pianos elétricos. O material do Polite Force segue a cartilha do fusion do fim dos anos 70, com muito swing e passagens instrumentais riquíssimas.

Formação: Mark Hewins (guitarra), Max Metto (sax), Graham Flight (baixo), Vince Clarke (bateria), Dave Sinclair (teclados)

1. Birdworld
2. Childsplay
3. Mr. Sax Speaks
4. Solitude
5. Food Of The Gods
6. Arabadnaz
7. Extension
8. They Shoot Indians
9. Hey Diddle Diddle
10. For Pleasure
11. Ritual / Dance #2
12. The Man From Mars


Dave Sinclair – Out of Sync (2018)

Dave Sinclair iniciou sua carreira solo em meados dos anos 90 paralelamente com retornos a ativa do Caravan, com lançamentos bastante espaçados. Em sua carreira solo o tecladista vem se dedicando a uma pegada mais suave e vinculada ao pop rock. Seu último trabalho, tem essa veia com algum tempero progressivo e a sofisticação de praxe. O disco tem uma produção caprichada, bons arranjos e muitos convidados, e contam com Dave também nos vocais em algumas faixas. “If I run” é mais agitada e tem alguma conexão com o Hatfield and the North; já “Home Again” e “Our World” tem uma abordagem próxima do Renaissance. No geral é um trabalho agradável, mas que passa longe de ser um disco para quem espera ouvir o mesmo tipo de rock com que Sinclair esteve associado nos anos 70.

Formação: Dave Sinclair (teclados, vocais), Yammy (vocais), Jim Bashford (bateria), Larry Fulimoto (baixo), Akira Nomoto (percussão)

1. Blue Eyes
2. Back With You
3. If i Run
4. On My own
5. Home Again
6. Crazie Blue
7. Island of Dreams
8. Out World
9. Rings Around the Moon

2 comentários

  1. Diego Camargo

    Engraçado. Eu adoro o Caravan na sua fase clássica (70/75), o teclado sempre se fez presente, apesar de o teclado nunca estar em primeiro plano, mas eu nunca prestei atenção. Acho que é hora de prestar mais atenção no Dave 🙂

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    • Ronaldo Rodrigues

      Sim, faça issoSim, cara! faça isso – dá uma reparada nos teclados. Muito da magia do Caravan tá ali!
      Abraço!

      Responder

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