Por Eudes Baima

Há algo de conservador na revolução sonora insinuada em Pet Sounds (1966). Brian Wilson cruzou os anos de 1960 num rumo, sob muitos aspectos, oposto ao da esmagadora maioria dos músicos que buscavam a renovação e a experimentação no rock’n’roll, sob as bênçãos de John Coltrane: de Beatles a Hendrix, do Love ao Pink Floyd de Syd Barret, de Zappa a Fripp, dos Mutantes a Hermeto Pascoal, para ficar nestes.

Enquanto a nata da aristocracia pop buscava novas formas de expressão instrumental e se inspiravam no experimentalismo jazzístico e erudito, os Beach Boys e, mais precisamente, Brian Wilson injetavam no rock’n’roll justamente a sofisticação das orquestrações clássicas da música popular (e erudita) americana do século XX: Gershwin, Berlin, etc. e tal.  Não é surpreendente que, mais recentemente, Brian tenha lançado um disco dedicado aos standards de Gershwin.

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Brian Wilson, formulando Pet Sounds

O estranhamento causado por Pet Sounds advinha muito menos da experimentação com novas fontes e tecnologias sonoras do que pela possibilidade de fazer rock usando o universo orquestral, melódico e harmônico dos standards da música estadunidense.

Há algo de conservador mesmo na suave insurreição wilsiana.

Curiosamente, esta revolução, digamos, passadista foi recebida sem nenhuma complacência pela chamada indústria cultural, num tempo em que o escândalo era a regra. Pet Sounds marca a abertura de uma fase madura dos Beach Boys. Esta fase seguiu oscilante, com o mal acabado Smiley Smile (1967), arrumado às pressas em face do malogro do Smile original, anunciado como o sucessor de Pet Sounds. Prosseguiu com o transitório Wild Honey (1967), e se concluiu com uma sucessão impressionante de maravilhas pop: Friends (1968), 20/20 (1969), Sunflower (1970), Surf’s Up (1971).

Mas Pet Sounds, de outro modo, foi o canto de cisne precoce dos Boys, se se entender a sequência citada como desdobramento do disco de 67. Depois de Holand e Carl and the Passions, eles seguiram lançando discos por mais duas décadas, com e sem Brian, mas, em todo caso, sem nenhuma perspectiva e, pouco a pouco, foram se tornando uma banda nostálgica.

Pet Sounds se tornou um exemplo singular de uma não consumada virada experimental da banda, que, depois de cravar quatro ou cinco outros clássicos, se esgotou, embora a banda, em formações diversas tenha seguido arrastando o passado glorioso gerações afora. O ciclo aberto com o clássico de 1966 trazia implícito o epitáfio da banda!

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Um dos melhores álbuns da história

O fracasso comercial de Pet Sounds precipitou as seguidas crises psicóticas de Brian Wilson, agravadas pelo abuso de álcool e drogas e pelo deslocamento dos Beach Boys da corrente comercialmente principal da indústria musical. O clichê de que o álbum é um dos melhores do rock em todos os tempos é coisa dos anos de 1980. E, como todo lugar comum, perdeu muito de seu significado hoje em dia. Pet Sounds parece, curiosamente, menos compreendido do que em seu tempo porque a admiração pela obra virou uma banalidade de bom tom, repetida por quem quer parecer expert.

Brian, com ou sem os irmãos, perambulou por vinte anos, entre crises familiares, médicos charlatões, vida sexual errante e loucura literal.

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Brian Wilson, o gênio

Só nos anos de 1990, mesmo lesado, como muitos o descrevem, Brian recompôs a carreira, lançando discos ainda mais passadistas, autorreferentes, hipercentrados na obra dos Beach Boys e … extremamente relevantes. Os discos lançados desde 1988 são, sem exceção, antológicos.

Estas questões me ocorreram enquanto dirigia, no fim da tarde, contra o sol poente do b-r-o-bró no sentido Aldeota-Centro. Um clássico, como sabem os que moram em Fortaleza, principalmente se você for pela Rua Costa Barros.

Ouvia Smile, o lost tape dos Beach Boys, finalizado em 2004 e lançado em nome de Brian Wilson.

Quando o disco saiu, os raros boysmaníacos que conheço me disseram que ficaram meio decepcionados.  Ouvi e, de fato, o álbum não me entusiasmou, principalmente porque já conhecia metade dos temas, lançados aleatoriamente nos melhores discos dos Beach Boys. Assim, aceitei a opinião dos colegas de paixão musical.

Naquele dia, contudo, dirigindo contra o sol e ouvindo Smile sem pressa, sendo suavemente arrebatado pelo espírito road movie da obra, não pude mais concordar com meus companheiros. Abandonei-me a cada metro da viagem wilsiana, me embeveci por cada paisagem desenhada, me espantei com cada imagem observada da janela do disco-trem em que embarquei.

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Sessões de gravação de Smile

Como teria sido se Brian tivesse lançado Smile em 1967 ou 1968? Nunca saberemos. Mesmo que Brian professe, hoje, praticamente as mesmas crenças que o moviam há 45 anos, mesmo assim, o tempo passa e, não duvido, o disco ora lançado é outro. Mas, numa comparação com Pet Sounds, seria, em 67 ou hoje, muito diferente.

Se, em Pet Sounds, Brian submete seu espetacular punhado de canções às orquestrações alheias ao rock, com resultados próximos do sublime, em Smile, ele abandona o formato canção e se joga numa longa suíte multifacetada, onde os temas são ligados por pequenas vinhetas ou se articulam diretamente uns com os outros.

O termo “faixa” definitivamente não se aplica a Smile. Talvez por isto a beleza cristalina do disco não seja imediatamente percebida. A genialidade da obra não está plasmada nas canções tomadas de per si, como em Pet Sounds, onde você pode se apaixonar pelo disco apenas ouvindo “Caroline, no”.

Smile exige ser ouvido inteiro e várias vezes para que a gente possa se aproximar dele e, pouco a pouco, entendê-lo. Se em Pet Sounds, o modos operandi de Wilson era aplicado, como disse, às canções antologicamente reunidas, em Smile, o procedimento está a serviço de uma obra larga, como se o autor quisesse dizer: “Olha eu posso mais do que aplicar estes arranjos às canções, posso também escrever um disco inteiro baseado nestas ideias musicais”.

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Sessões de gravação de Smile

A rigor, Brian nem foi muito original em seu tempo. Pensando bem, Pet Sounds e o eventual Smile, só concluído e editado em 2004, descendem diretamente de Phil Spector e Ellen Greenwitch, bem como daquela esquina onde se cruzaram Burt Bacharach e a Motown. Brian levou ao absurdo o conceito de pequenas sinfonias que sempre presidiram as produções de Spector e a imortal Hitsvile, USA, da Motown. Se isto é ainda residual em Pet Sounds, em Smile a aspiração sinfônica (nada a ver com ELP, por exemplo) de Wilson é explicita.

Engraçado, mas sempre achei que os parentes, em linha de sucessão, mais próximos de Smile são o célebre lado B de Abbey Road e Band on the Run dos Wings. Estarei vendo coisas?

Só para concluir. Um amigo se queixou de que Brian andou declarando que só gosta de música antiga e que não conhece nada de música brasileira. Mas Brian é um homem velho, atormentado e louco. O cenário onde se passa a vida esquizoide dele é o dos anos 60 com sua colorida pret-a-porté de ritmos. Um tempo em que era preciso saber escrever uma boa melodia, encaixá-la numa boa batida e, vejam que coisa!, era preciso saber cantar. Um tempo em que a música era delicada e a busca pelo hit perfeito era uma cruzada religiosa. Um tempo em que Brian ainda vive. Deixem-no lá.

BERLIN - JULY 2: Brian Wilson performs at the Live8 concert July 2, 2005 in central Berlin. The free concert is one of ten simultaneous international gigs including Philadelphia, Berlin, Paris, London, Barrie, Tokyo, Cornwall, Moscow and Johannesburg. The concerts precede the G8 summit (July 6-8) to raise awareness for MAKEpovertyHISTORY. (Photo by Andreas Rentz/Getty Images) *** Local Caption *** Brian Wilson

Let’s Smile, by Brian Wilson

Quanto a nós, let’s smile. Mesmo cegos pelo sol, no fim da tarde, sentido aldeota-centro.

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