01187142Por Diogo Bizotto

Uma das razões pelas quais idealizei a coluna “I Wanna Go Back” foi a vontade de desmistificar alguns conceitos que se tornaram senso comum em se tratando do gênero musical que ficou conhecido como AOR. Expor, através de obras realizadas por artistas bastante diferentes entre si, que não se trata de um estilo fechado, mas de uma experiência musical de diferentes nuances, para a qual podem convergir bandas tão díspares quanto Saxon, Toto e Rainbow. E o que dizer do norte-americano Poco, que, a princípio, tem ainda menos a ver com tudo isso?

O Poco talvez tenha sido a primeira banda country rock por definição, fruto de um objetivo muito bem definido na cabeça de seu idealizador, o guitarrista e vocalista Richie Furay, que, após o encerramento das atividades de sua banda anterior, o Buffalo Springfield (que também revelou Neil Young e Stephen Stills), estabeleceu como meta produzir uma sonoridade que cruzasse o rock com a música country de seu país. A canção Kind Woman, registrada no último disco do grupo, Last Time Around(1968), foi tomada como protótipo para a música que viria a ser feita pelo Poco. A Richie uniu-se o guitarrista Jim Messina, que havia trabalhado com o Buffalo Springfield como produtor e baixista em algumas faixas, além do multi-instrumentista Rusty Young, que havia registrado uma participação especial justamente em “Kind Woman”. Completando a formação embrionária do Poco, foram adicionados ainda o baixista Randy Meisner e o baterista George Grantham.

O primeiro line-up durou pouquíssimo tempo e, mesmo antes do lançamento da estreia, Pickin’ Up the Pieces (1969), Randy Meisner já estava fora do grupo. Suas linhas de baixo foram mantidas, mas seus agudos vocais foram substituídos pelos de George Grantham. O disco, apesar da repercussão limitada, recebeu boas críticas e, hoje em dia, é reconhecido como um lançamento seminal do gênero ao lado de outras obras essenciais, como Sweetheart of the Rodeo (1968), do The Byrds, Safe at Home (1968), da The International Submarine Band, The Fantastic Expedition of Dillard & Clark (1968), da dupla Dillard & Clark, e The Gilded Palace of Sin (1969), do The Flying Burrito Brothers. Vitaminada pelo talento de um quinteto inspiradíssimo e com total domínio de seus instrumentos, a fusão entre o rock e a música country funcionou perfeitamente, destacando as harmonias vocais entre os integrantes, algo que se tornaria ainda mais forte com o passar do tempo, incluindo momentos solo de quase todos os músicos ao microfone.

Richie Furay, Rusty Young, George Grantham, Paul Cotton e Timothy B. Schmit.

Poco de 1970 a 1973: Richie Furay, Rusty Young, George Grantham, Paul Cotton e Timothy B. Schmit.

Para o lugar deixado vago por Randy Meisner, que, dois anos depois, seria um dos fundadores do gigante Eagles, foi recrutado outro talentosíssimo músico, também peculiar por sua capacidade nas notas mais altas: Timothy B. Schmitt. Com ele, o grupo gravou o excelente Poco (1970), último registro de estúdio com Jim Messina, que abandonou a banda no mesmo ano, antes do lançamento do ótimo ao vivo Deliverin’ (1971), e foi substituído pelo guitarrista Paul Cotton, que fez sua estreia em From the Inside (1971). Com essa formação, o Poco soltou ainda A Good Feelin’ to Know (1972) e Crazy Eyes (1973). O sucesso, entretanto, não veio, e Richie Furay foi ficando cada vez mais frustrado com a situação, especialmente tendo em vista que seus ex-colegas estavam se dando muito bem. Além do reconhecimento em carreira solo, Neil Young ainda tinha seu trabalho junto ao Crosby, Stills & Nash, adicionando um “Young” ao nome do grupo, que também contava com Stephen Stills. Jim Messina formou a bem sucedida dupla Loggins & Messina com o cantor e compositor Kenny Loggins. Quanto a Randy Meisner, bem, a intensidade de seu sucesso era ainda maior, vide as cifras milionárias que rondam o nome “Eagles” desde a primeira metade dos anos 1970.

Insatisfeito com essa situação, Richie Furay deixou o grupo que havia idealizado, transformando o Poco em um quarteto, que lançou mais cinco álbuns de estúdio:Seven (1974), Cantamos (1974), Head Over Heels (1975), Rose of Cimarron(1976) e Indian Summer (1977). A qualidade continuou elevada, mas o êxito comercial seguiu escasso; suficiente para manter a banda contratada de gravadoras major e em turnê, mas decepcionante tendo em vista o enorme talento dos músicos e a posição de pioneirismo, influenciando uma série de artistas que acabaram sendo mais reconhecidos. Parecia que um velho problema seguia rondando o Poco: muito country para o público rock, e muito rock para o público country. Mesmo que a simbiose entre os estilos fosse perfeita e gerasse canções belíssimas, como You Better Think TwiceBad Weather, A Good Feelin’ to Know e Too Many Nights Too Long, o grupo não era bem sucedido em colocá-las em posições privilegiadas nas paradas de sucesso, algo quase inexplicável tendo em vista o enorme êxito do Eagles fazendo justamente aquilo que o Poco havia ajudado a criar.

Cansado da vida na estrada e de ser forçado a cantar seu hit maior, “Take It to the Limit”, Randy Meisner deixou o Eagles em 1977. A pessoa mais qualificada para ocupar seu posto, claro, era Timothy B. Schmitt, que recebeu o apoio de seus colegas e aceitou a proposta, rumando direto à fortuna. Dessa maneira, o Poco resolveu dar um tempo. George Grantham afastou-se de Rusty Young e Paul Cotton, que resolveram formar uma dupla e preparar um álbum, recrutando os britânicos Charlie Harrison (baixo) e Steve Chapman (bateria). O disco em questão é Legend, que surpreendentemente tornou-se o primeiro verdadeiro sucesso comercial da banda, cuja denominação originalmente seria The Cotton-Young Band, mas que acabou tornando-se uma extensão do próprio Poco por exigência contratual, mesmo sem contar com George Grantham, que não havia deixado o grupo efetivamente. O tecladista Kim Bullard também se uniria ao quarteto após o término das gravações.

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Poco de 1978 a 1983: Kim Bullard, Paul Cotton, Rusty Young, Charlie Harrison e Steve Chapman

Apesar das condições parecerem adversas, afinal, a banda não tinha mais seu fundador havia quase cinco anos e acabara de perder um baixista habilidoso e vocalista ainda melhor, o resultado foi muito superior ao esperado. Paul Cotton já vinha demonstrando sua grande capacidade como guitarrista, vocalista e compositor desde sua estreia, em 1970. Rusty Young, que sempre fora um ás no pedal steel (tornando-se célebre por extrair um som comparável ao de um órgão do instrumento), no banjo e no dobro, demorou mais a desabrochar como compositor e para assumir o microfone, mas, quando o fez, foi com grande talento. Em Legend, além da capacidade da dupla ter continuado afiadíssima, ficou evidente um apelo mais popular, atenuando as características country e rumando a uma sonoridade mais próxima, em diversas faixas, de um hard rock mais melódico, cheio de esmero, mas ainda assim único, essencialmente Poco.

A canção que abre o disco, “Boomerang”, evidencia justamente isso: uma tendência mais forte para o hard rock, incluindo solos de guitarra e pedal steel mais na cara, mas com o requinte típico do grupo, amparado por uma produção polida e certeira, assim como os vocais de Paul Cotton, cada vez mais bem colocados, deixando a rusticidade do passado de lado. O guitarrista destaca-se ainda mais em outra de sua autoria, a suave “Barbados”, que busca remeter justamente ao paraíso caribenho do título e tem êxito. Rusty Young, por outro lado, não ficava nem um pouco para trás, a começar pela segunda faixa de Legend, a magnífica balada Spellbound, especial em suas pequenas delicadezas instrumentais e na união das vozes de Rusty e Paul no refrão. Uma pequena obra de arte de beleza rara. Pela seara mais roqueira, mas de leve, o multi-instrumentista apresenta outra gema tão simples quanto bela, “Little Darlin’”, e “Love Comes Love Goes”, cantada majoritariamente por Paul.

A sequência no track list traz justamente as músicas que fizeram de Legend o lançamento mais bem sucedido do Poco e seu único disco de ouro, atingindo a 14ª posição na principal parada de álbuns da Billboard. Falo de “Heart of the Night” e “Crazy Love”, que finalmente atingiram altas colocações e levaram o grupo ao tão merecido reconhecimento do grande público. A primeira, composta e cantada por Paul Cotton, é uma singela balada marcada por intervenções sutis, mas essenciais, do pedal steel, e do saxofonista Phil Kenzie, inclusive com direito a um solo. Segundo single extraído do álbum e lançada em maio de 1979, Heart of the Night galgou o 20º posto no Hot 100 da Billboard. Melhor ainda foi o resultado alcançado pela acusticamente etérea Crazy Love, maior hit da carreira da banda, composto e cantado por Rusty Young, mas com o apoio de harmonias vocais no nível Poco de qualidade. Assim como tantas outras histórias de canções de sucesso, “Crazy Love” surgiu, segundo Rusty, com rapidez assombrosa, sendo composta inteiramente em meia hora. O resultado? 17º lugar no Hot 100 e 1º na parada Adult Contemporary, focada em singles mais leves e de apelo com o público adulto, algo mais do que justo tendo em vista sua beleza única.

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Paul Cotton, Kim Bullard. Charlie Harrison, Rusty Young e Steve Chapman

“The Last Goodbye” tem a cara do AOR mais sóbrio que estava por emergir com força em pouco tempo, pelas mãos de bandas como Foreigner e Journey, iniciando de leve e mostrando uma série de texturas bem trabalhadas, mas rumando para a metade final com guitarras mais presentes e um refrão de qualidade. Outra que pesa mais a mão nas seis cordas é a faixa-título, que encerra o disco no mesmo tom hard rock da abertura, dessa vez com uma dose extra de agressividade pouquíssimas vezes percebida no passado do Poco. Diferente, mas ainda assim digna de nota na história da banda.

Mais do que finalmente trazer sucesso para o Poco, Legend estabeleceu o modelo para a sonoridade que o grupo viria a praticar na primeira metade dos anos 1980, incorporando novas texturas e possibilidades ao jeito típico da banda em unir rock e country. Além disso, a própria identidade visual da banda foi repaginada, como fica evidente na simples mas belíssima capa do disco, que transmite, em pouquíssimos traços, a musicalidade do Poco. O resultado, infelizmente, não se repetiu em lançamentos posteriores, que não obtiveram o mesmo êxito comercial, recuperado apenas em Legacy (1989), que reuniu a primeiríssima formação do grupo, incluindo até mesmo Randy Meisner. Entre mudanças de formação e pouca constância em estúdio, o Poco segue em atividade até hoje, contando apenas com Rusty Young entre os integrantes originais. Inclusive, o músico recentemente anunciou que, após o término da turnê de promoção do novo lançamento, All Fired Up (2013), pretende encerrar atividades. O fim do Poco pode passar longe da euforia causada pelas apresentações finais de formações mais famosas, mas, em se tratando de qualidade, isso não quer dizer absolutamente nada, afinal, talento e capacidade nunca faltaram a esse verdadeiro pioneiro, como Legend atesta com sobras.

Track list:

1. Boomerang
2. Spellbound
3. Barbados
4. Little Darlin’
5. Love Comes Love Goes
6. Heart of the Night
7. Crazy Love
8. The Last Goodbye
9. Legend

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