Por Adriano KCarão

Se tem uma coluna na Consultoria do Rock – e quem sabe em qualquer site do planeta – que eu considero a minha cara, é essa dos “Discos que Parece que Só Eu Gosto”. Já escrevi dois textos, além deste, e poderia escrever mais um punhado. Mas isso não deve depor contra o que aqui escrevo, então peço ao leitor que deixe o preconceito um pouco de lado. Aliás, quem se dispõe a ler esta coluna deve já de antemão abandonar o preconceito ou a leitura não passará uma grande perda de tempo. Bem, vamos lá.

Roger Waters passa longe de ser uma unanimidade, mesmo entre os fãs de Pink Floyd. Embora tenha composto a maior parte das canções da banda, a voz aveludada e o enorme senso melódico da guitarra de David Gilmour são a preferência de muitos, senão da maioria dos admiradores da banda. Eu, apesar de também adorar essas características de Gilmour, bem como suas composições, tenho Waters como membro preferido do grupo, pois gosto da sua voz e da sua interpretação tanto quanto das do guitarrista e acho que as composições de Roger são mais fundamentais à banda que os lindos solos que David, via de regra, despeja por sobre essas jóias já prontas. Mas essa preferência por Waters no Pink Floyd não conduz necessariamente à admiração de sua carreira-solo. De fato, eu considero os discos solos de Roger bem inferiores aos que ele gravou durante sua estadia na banda. A exceção se chama Radio K.A.O.S.

Nem o próprio Waters gostou do disco, dizendo ter-se arrependido de tê-lo gravado! Tendo se esforçado por criar algo demasiado moderno, algo com que ele próprio não se sentia confortável, ele acabou arruinando o disco, e muitos podem concordar com ele, pois o disco soa bastante datado. Tal como o Benny da história cometeu o pecado de roubar, e isso levou seu irmão Billy à sua majestosa atitude no fim da história, o pecado da ganância fez Waters conceber meu disco favorito de sua carreira-solo. Eu só posso dizer que adoraria se ele cometesse muito mais pecados como esse.

Enquanto The Pros and Cons of Hitch Hiking (1984) e Amused to Death (1992) tiveram participações de famosos guitarristas ex-Yardbirds, que a meu ver pouco ou nada acrescentaram a cada disco, K.A.O.S. não conta com nenhum guitarrista de renome, e não há, de fato, grandes performances no instrumento, à exceção da ótima distorção hardeira na faixa de abertura e do pequenino solo lindamente melódico de “The Tide Is Turning”. Mas dizer que o mérito do álbum cabe todo a Waters seria uma tremenda injustiça com Mel Collins (King Crimson e outros), cujos inacreditáveis saxofones acrescentam um brilho extraordinário às faixas em que participa no disco!

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Mel Collins, durante a turnê de Radio K.A.O.S.

Três canções ficaram de fora da versão final do álbum e nunca foram lançadas: “Get Back to Radio”, “Going to Live in L.A.” e “Molly’s Song”. Além disso, existe um delicioso “filme”, o Radio K.A.O.S. Video EP, com quatro das faixas do disco e mais um momento de diálogo entre dois apresentadores, bem legal pra dar uma sacada no conceito do álbum.

O crítico de música Robert Christgau afirma que tem reservas com relação a discos que só se tornam interessantes ao ler o encarte, embora não considere ser esse totalmente o caso de Radio K.A.O.S. No meu caso, eu me apaixonei pelo disco sem ter ideia sequer do que suas letras expressavam, e quando fui ao conceito apenas caí uma segunda vez de amores, uma vez que as melodias, ritmos, timbres e arranjos expressam perfeitamente bem toda a atmosfera de sentimentos presente no belíssimo conceito.

Esse conceito é basicamente o seguinte: Billy é um deficiente físico e mental do País de Gales, que vive com o irmão gêmeo Benny, que trabalha em minas de carvão, e a esposa deste, Molly. Billy é um gênio e possui o superpoder de receber ondas de rádio diretamente em seu cérebro, podendo acessar quaisquer frequências de rádio. Benny é preso após “uma noite de fúria” por ter perdido o emprego. Ele havia roubado um telefone sem fio de uma loja onde televisores apresentavam Margareth Thatcher falando sobre os benefícios de sua política econômica aos mineiros, e, no momento da prisão, ele esconde o telefone na cadeira de rodas de Billy. Este, sem o irmão, vai viver com seu tio David, que fora aos EUA participar no desenvolvimento da bomba atômica e, envergonhado após Hiroshima, decidiu não mais voltar e vive em Los Angeles. Billy, doente e sempre em casa, desenvolve seus poderes junto ao telefone sem fio, controlando toda a rede de computadores mundial. Ele faz amizade com o DJ Jim (na verdade, Jim Ladd, um DJ com quem Waters fez amizade na época de The Wall e que fora demitido da rádio KMET de Los Angeles, quando esta buscava mudar a programação com objetivos comerciais), da rádio rock local, Radio KAOS. Usando seus poderes, ele simula um grande ataque nuclear global, aterrorizando a todos que vivem sob o regime do dinheiro, fazendo-os sentir como todos aqueles que são mais drasticamente afetados pelas consequências do mercado. O principal episódio que parece ter inspirado o disco foi a greve dos mineiros britânicos de 1984, decorrente da política neoliberal de Margareth Thatcher, e onde se deu o triste episódio de um taxista morto por dois grevistas que atiraram um bloco de concreto sobre seu carro, quando ele levava um “fura-greve” ao trabalho (acompanhado por dois carros policiais e um motociclista). O fato levou Waters a pensar sobre até que ponto a humanidade é levada quando se envolve em questões de dinheiro.

Um lindo detalhe a mais de Radio K.A.O.S. é que, além de se poder ouvir mensagens em código Morse durante toda a audição do disco, o código é usado já nas suas capa e contra-capa. Unindo as duas partes da mensagem, temos: ROGER WATERS WHO NEEDS INFORMATION THE POWERS THAT BE HOME THE TIDE IS TURNING RADIO WAVES. Essa mensagem aparece em forma sonora no início e no fim do álbum.

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A banda que gravou Radio K.A.O.S. e que aparece no Video EP

O disco começa com “Radio Waves”, uma das faixas que menos gosto no álbum, e ainda assim uma canção genial. O disco como um todo é bastante datado, mas essa faixa de abertura é datada de alguns anos antes do disco, parecendo um AOR do começo da década, apesar da pegada hardeira e um delicioso ar country. Nela, começa o diálogo entre Jim e Billy, que nas faixas seguintes irá contar ao radialista a sua história.

A faixa seguinte, “Who Needs Information”, é o primeiro de uma sequência quase ininterrupta de clássicos, contando com um genial arranjo de metais, que, se você reparar bem, parece ter sido retirado de uma canção do Alpha Blondy! Em seguida, mantendo o nível lá em cima, “this high off the ground”, mas mudando totalmente o clima e estilo, vem a doce “Me or Him”, na qual Waters toca o shakuhachi, uma flauta de sonoridade bem peculiar. Ela prossegue, de maneira comovente, contando a história da prisão de Benny.

Jim, então, anuncia uma canção chamada “The Powers That Be”, um lindíssimo, fenomenal arremedo de hip-hop, em cujo refrão mezzo-gospel Waters pôs o delicioso vocal de Paul Carrack (que participou também do Roxy Music e do Mike and the Mechanics). Mas eu gostaria muito de ouvir Roger cantando esse trecho, o que é perfeitamente imaginável. A letra, maravilhosamente sonora, como em todo o álbum, fala das “forças do mercado”, que gostam de “ordem, maquiagem”, de “medo e nojo”, de “peles de ovelha e vans escuras” e adoram “morte ou gloria, adoram uma boa história”.

Como um contraste aparentemente forte, surge “Sunset Strip”, que fala da vida de Billy em Los Angeles e sobre sua impossibilidade de se adaptar. Acompanha essa temática um rockzinho altamente nostálgico, deliciosamente brega. A junção dessa forte melodia à letra emocionante (na qual Billy dá as costas ao mar e ouve o chamado à sua terra natal por parte do dragão vermelho em um campo verde, isto é, a bandeira do País de Gales), mais o solo sensacional de Mel Collins sobre a belíssima base de metais, tudo isso só não me fez chorar ao ver o clipe por conta da aparição de uma das mulheres mais lindas que já pude notar em minha vida, a qual desfila com seu cachorro e ocasiona um evento em que Billy dá uma pequena demonstração de seus poderes. (Quem souber o nome dessa atriz, favor informar nos comentários.)

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Billy, na casa do tio David

A apresentação do liame entre as temáticas das duas faixas precedentes se dá na faixa seguinte, quinto clássico seguido, mas provavelmente a melhor canção do disco, “Home”, em cujo início, uma fala de Jim parece ser cantada, graças à combinação com a batida (o que o Floyd sem Waters faria posteriormente em “Keep Talking” e que se tornaria comum na eletrônica e no hip-hop, mas que já aparecia de modo incipiente noDark Side of the Moon). O título original do álbum seria “Home”, e a faixa com esse nome expressa a sua ideia central: como os conflitos gerados pela busca incessante de lucro terminam por destruir aquilo que chamamos de lar. Ouso dizer que RadioK.A.O.S. é o “Guernica” (quadro de Picasso) da música pop, e o momento de maior intensidade dessa ideia é essa linda faixa, que alia estrofes com as usuais letras de sonoridade perfeita de Waters e um estupendo senso rítmico a refrãos de forte apelo sentimental. Não cito trechos da letra porque teria de citar todos. É fato que“everybody’s got somewhere/something/someone they call home”.

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Roger e as backing vocals, em uma estação de rádio no Video EP

Clare Torry (vocal de “The Great Gig in the Sky”) faz as vocalizações em “Home”, assim como o trecho final da faixa seguinte, “Four Minutes”, na qual a ideia da perda do lar é “posta em prática” por Billy ao simular em nível mundial um grande ataque nuclear. Waters também ironiza com as transmissões de rádio e TV: Molly (isto é, Clare Torry), prestes a morrer no pretenso hecatombe nuclear, despede-se do “pequeno espião no céu”, isto é, um satélite, e pergunta se ela se sente feliz ou triste, se é boa ou má, uma vez que “as câmeras não mentem”. Este tema será propriamente o conceito do próximo álbum de Waters, Amused to Death. “Four Minutes” pode ser a faixa menos boa do disco, mas não chega a ser ruim, e seus segundos finais (a faixa tem exatos quatro minutos), com as últimas palavras de Molly e a contagem regressiva pro lançamento das bombas, tornam-se comoventes tendo em vista o conceito do disco (principalmente quando se ouve Jim se despedindo cordialmente de Billy), mas, independentemente dele, servem de boa condução à última faixa.

“The Tide Is Turning” foi inspirada no evento “Live Aid”, do qual Waters não chegou a participar, embora isso tenha sido cogitado, e a faixa só foi adicionada ao disco, como final feliz, por imposição da EMI, que considerou Radio K.A.O.S. demasiado pessimista pra vender. Doce ironia, já que as letras do disco iam justamente contra tal tipo de imposição. A faixa, após lindas passagens sobre o excesso de competitividade e guerra que os satélites registram e apresentam a nossas crianças, é de fato bregamente otimista no final, mas, se atentamos à subida que o “male voice choir” dá gradativamente no tom, acompanhado de uma guitarra agonizante, gerando um efeito quase desesperador, podemos perceber que talvez Waters não desse tanto crédito a esse otimismo.

Nem sei se concordo com Waters com essa visão talvez reacionária de que temos um lar, algo como uma resistência à mudança. Mas certamente a mudança de lar (e de tudo o mais) não deveria ser algo imposto às pessoas, mas fruto de uma decisão própria. Mas duvido que a visão de Roger seja tão simples. Acredito que o objetivo do disco seja muito mais fazer uma crítica ao uso que fazemos da técnica, por meio da qual poderíamos nos ver livres dos desastres naturais e das demais imposições sobre nossas vidas, assim como poderiam possibilitar uma maior comunicação entre as pessoas, mas cujo mau uso nos tem apenas trazido mais desastres e imposições e uma dificuldade cada vez maior de comunicação. Pra fechar, afirmo categoricamente: não tenho coragem de ir antes disso (embora talvez devesse), mas pelo menos desde The Wall, Radio K.A.O.S é o melhor disco relacionado a qualquer um dos Floyds.

!Carcass Symphonies Of Sickness CD 2002

Capa e contracapa do disco, contendo toda a mensagem em código Morse

Tracklist:

1. Radio Waves
2. Who Needs Information
3. Me or Him
4. The Powers that Be
5. Sunset Strip
6. Home
7. Four Minutes
8. The Tide Is Turning (After Live Aid)

5 comentários

  1. Mairon

    Um baita disco. Aliás, os discos da fase solo do Waters são melhores do que os do Floyd/Gilmour (TRETA)

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  2. Leonardo

    “Get Back to Radio”, “Going to Live in L.A.” e “Molly’s Song” saíram em singles.
    Get Back to Radio saiu no lado B de The Tide Is Turning
    Going to Live in L.A saiu no lado B de Radio Waves
    Molly’s Song saiu no lado B de Who Needs Information, só nos EUA

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  3. Leonardo

    Ah, a quem interessar, a edição original do vinil vem com o poster “KAOS map”

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