Por Luiz Carlos Freitas

“A arte não é um espelho para refletir o mundo,
mas um martelo para forjá-lo”
.
– Vladimir Maiakovski
.

Maiakovski foi um marco na poesia russa e mundial. Em sua obra, despiu o formalismo que tanto distanciava (e ainda distancia) a arte dos leitores, aproximando sua linguagem e conteúdo das classes que tanto queria representar. Suas palavras versavam sobre o trabalhador e seus anseios e tristezas, fazendo uso da imagem do indivíduo sofrido, porém guerreiro, num quadro de suas rotinas e batalhas diárias que eram, como o próprio definiu certa vez, “apaixonantes”. Sim, isso parece, de certo, contraditório com a citação do início do texto. E, aliás, o que ele tem mesmo a ver com um disco separado por estilo e em quase um século de sua obra?

Essencialmente, tanto o poeta russo quanto Marc Bolan, líder e vocalista da banda britânica T. Rex, carregam consigo o título de artistas. Indo mais além que isso e alheios a cronologias e classificações de formas de expressão, ambos foram artistas e agentes transformadores de seu tempo, atendendo ao clamor de determinado grupo ou movimento. No caso de Bolan, mais específicamente o Glam Rock.

Marcado fortemente pelo visual extravagante de seus adeptos (que incluía maquiagem forte, unhas e cílios postiços, saltos plataforma altíssimos e, claro, as roupas de cores berrantes, sempre carregadas de brilho e adereços), o Glam Rock foi um subgênero do Rock iniciado na Ingleterra em meados da década de 60, sendo mais difundido e ganhando força no início dos 70′s. Em sua gênese, assim como a NWOBHM (New Wave of British Heavy Metal), é um movimento essencialmente britânico, uma vez que, de imediato, as bandas representantes não fizeram tanto sucesso (comercialmente) em terras americanas. Todavia, o alcance de seus efeitos sobre a sociedade como um todo àquela época e posteriormente é inestimável. Mas vamos entender um pouco melhor o que foi oGlam Rock e em qual contexto se inseriu.

Final da década de 60 e o movimento hippie estava em seu auge. Iniciado nos EUA, era, em parte, reflexo do chamado Baby Boom, fenômeno demográfico com origens no final da Segunda Guerra. Os soldados que retornavam do conflito, ansiosos por suas esposas, “comemoraram demais”, resultando num grande aumento de mulheres grávidas que, anos mais tarde, refletiria numa população com maior número de jovens. Estes, se vendo agora em maior volume e com a iminência de outro grande conflito bélico, mobilizavam-se para reinvindicar. Isso alimentou não só os hippies, mas toda uma série de movimentos contraculturais que, além de “paz e amor”, buscavam atenção a questões que envolviam sua faixa etária, como a quebra do conservadorismo social, principalmente no tocante à libertação sexual.

Dessa forma, podemos considerar o Glam Rock como uma evolução natural e concernente com o passar dos anos que tornaria a contracultura num movimento cada vez mais impactante e brutal. Muito mais que mera parafernália visual, o Glam Rockconstituia um ataque massivo de uma juventude cada vez mais sedenta por espaço, fazendo valer-se de todos os canais dos quais a música dispunha para bradar seu espaço, chamando atenção tanto em seu visual, com roupas e apresentações extremamente performáticas, quanto na música em si, com suas composições transgressoras, seja nas sutilezas, duplo sentido, ou nas inferências mais abertas, quase explícitas, embaladas por melodias sensuais que evocavam o movimento a quem as ouvia.

Dentre os pioneiros, estava Marc Bolan. Após uma equivocada investida como modelo fotográfico, iniciou sua carreira musical com apenas 20 anos, fundando o Tyranossaurus Rex, uma banda de Folk Rock com a qual lançou quatro discos entre 1968 e 1970, mas sem muita repercussão. Em 1970, abrevia seu nome para T. Rex, lançando um álbum de mesmo nome que, agora, seguia a linha do Glam Rock, conseguindo, enfim, certo destaque no meio musical. Todavia, foi em 1971, com oElectric Warrior que o grupo despontou mundialmente. Muito além de descrições superficiais de listas que o elencam entre os melhores discos já feitos, o Electric Warrior compõe com suas onze faixas o manifesto de um dos mais transformadores movimentos culturais da história da música.

A começar da capa, de uma poderosa “falsa” simplicidade. Temos a figura de um homem (que me parece ser do próprio Bolan) tocando sua guitarra com dois grandes amplificadores atrás de si, destacando-se por uma espécie de aura em amarelo vibrante sobre o fundo negro. Há de se notar que, agora, as guitarras elétricas davam uma nova força à sonoridade das bandas, sendo um elemento importantíssimo doGlam Rock. Ela dava ao músico a necessária sensação de poder que tanto era negada à classe que representa. E ao músico, cabia transmitir isso a quem o ouvia e seguia. Ainda na capa, faz-se uso de um recurso meramente cinematográfico, a contra-plongé, quando determinado personagem ou objeto é enquadrado de baixo para cima, com a finalidade de passar a quem está em foco a ideia de superioridade ante quem o observa. Era o “guerreiro elétrico” do título, agora com seu poder legitimado, avisando do que os aguardava antes mesmo da música começar (coerente com o estilo, que se valia tanto da imagem quanto do som).

Das canções de ritmo envolvente e malicioso, até, como “Mambo Sun” (que abre a sequência), “Get It On” (um dos maiores êxitos comerciais do grupo e a única a emplacar nas paradas americanas), “Planet Queen” (vista por alguns como alusão à transsexualidade) e “The Motivator”, alternadas por baladas lentas como “Cosmic Dancer”, “Monolith”, “Girl” e “Life’s a Gas”, o blues de vocais e guitarra rasgados de Bolan em “Lean Woman Blues” e um encerramento pesado e brusco com “Ripp Off”, o que temos é uma mistura de sonoridades diferentes que, como um todo, funcionam de forma incrível, fazendo essas diferenças chegarem a ser imperceptíveis, tamanha harmonia entre o conjunto.

Suas composições eram livres, soltas, em alguns momentos aparentando não fazer muito sentido e, como já dito, carregavam mensagens de ambiguidade, a exemplo de “Girl”, onde pode-se notar, em sua divisão clara em três momentos, uma possível crítica à trindade dos postulados estereotipados pela sociedade: o papel de deus, com sua imagem perfeita e inatingível (“Oh, Deus [..] Sim, você é / Formoso e Belo”), da mulher, tendo seu potencial intelectual desprezado em detrimento à uma imagem de beleza e fragilidade (“Oh, Garota […] Visualmente bela / Sim, você é / Mas morrendo mentalmente”) e do homem, cuja imagem de “alfa” teria de ser sustentada a todo custo (“Oh, garoto / Assim como um barco / Você está afundado / Mas de alguma forma você flutua”). Tudo isso cantado de forma serena, quase em tom profético, por Bolan.

De todas as composições do disco, talvez seja “Cosmic Dancer” a mais emblemática e carregada de significado. A música fala utiliza a “dança” como uma alusão a algo natural. Acredito que não tenha uma definição específica para o que seja, mas entende-se que seja algo que o indivíduo carrega consigo em sua essência (“Eu dancei ao sair do útero / É estranho dançar tão cedo?”) e que pode ser descoberto com o tempo (“Eu dancei quando tinha oito anos / É estranho dançar tão tarde?”) e, uma vez aceito, não há como abrir mão disso (“Eu dancei até ir para o túmulo”). Podemos aplicá-la, dessa forma, a qualquer uma das características às quais o movimento Glam queria propôr à libertação (como a homossexualidade, por exemplo) e, principalmente, aceitação como algo normal e natural (“É errado entender / O medo que reside dentro de um homem? / Como é ser um lunático? / Eu comparo isso a um balão”). Além das destacadas, encontramos no Electric Warrior inúmeras outras mensagens que apenas reafirmavam os princípios de libertação e busca por uma convivência harmoniosa e livre de barreiras e julgamentos tão anseiada por todos.

Mesmo sendo deixado um pouco de lado (eu disse só um pouco) em debates do tema quando mencionado o fabuloso The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spider From Mars, de David Bowie, lançado no ano seguinte (em minha modesta opinião, o disco conceitual mais perfeito de todos), resumindo, por meio da trajetória de Ziggy Stardust, um alienígena que vem à Terra e vira um rock star, todo um conceito do que foram as grandes bandas, o público, a sociedade e o movimento Glam Rock inserido nela, o Electric Warrior continua sendo um marco na história da música, e não só por ter influenciado outros grupos que ascendiam paralelamente, como Roxy Music, The New York Dolls, Mott the Hoople e o próprio David Bowie. O estrondoso sucesso comercial atingido pelo T. Rex deu notado alcance ao movimento e, consequentemente, aos seus propósitos.

Despertando o senso crítico, contribuiu para que a arte se fizesse cada vez mais um “martelo” para forjar a sociedade. Nesse caso, uma guitarra. Os jovens, impactados diretamente na forma de pensar e agir, questionando os costumeiros questionadores e aceitando em si o que tanto era empurrado para baixo, como algo indigno, que deveria ser negado, eram os agentes da mudança. E muito do que conhecemos em termos de contracultura na música até os dias de hoje, deve-se aos pilares firmados por esses guerreiros elétricos.
Track list

1. Mambo Sun
2. Cosmic Dancer
3. Jeepster
4. Monolith
5. Lean Woman Blues
6. Bang a Gong
7. Planet Queen
8. Girl
9. The Motivator
10. Life’s a Gas
11. Rip Off

 

3 comentários

  1. Elardenberg

    Verdadeira aula de história, literatura, artes plásticas e, claro, música. Muito legal o texto.
    <>

    Responder
  2. Francisco

    Excelente texto. Espero mais artigos sobre o glam rock aqui na Consultoria.

    Responder

Deixar comentário

Seu email NÃO será publicado.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.