Por André Kaminski

O Uriah Heep passava por um período um tanto complicado ao fim da década de 70. Após lançarem vários discos com altas vendagens, várias vezes superando a marca de milhões de cópias, começaram-se alguns problemas internos entre os integrantes da banda. O clássico David Byron, apesar de grandes performances com sua voz e um carisma gigantesco com o público, não colaborava muito com suas bebedeiras que logo geravam algumas crises internas. Hensley, Box e companhia não ligavam quando ele enchia a cara após os shows, mas poucos anos antes deste álbum, as embriagadas de Byron começaram também a afetar o seu desempenho nos shows. Após a turnê espanhola de 1976, Hensley acabou demitindo o vocalista. O baixista John Wetton (que já havia substituído Gary Thain) deixou a banda pouco tempo depois. Segundo Hensley, as personalidades dele com o restante da banda também não encaixavam.

Trevor Bolder (do Spiders from Mars de David Bowie) veio para o baixo enquanto que a banda chegou a audicionar com Ian Hunter (do Mott the Hoople), Gary Holton (do Heavy Metal Kids) e até mesmo David Coverdale (que tinha acabado de deixar o Purple)para os vocais. Mas quem acabou ganhando a vaga foi John Lawton (ex-Lucifer Friend). Essa formação lançou Firefly em 1977 com uma recepção menor que os discos anteriores.

Com uma certa pressão de aumentarem as vendas e buscar um espaço maior nas rádios, o Uriah Heep segue na mesma linha do disco anterior, mas refinando melhor suas canções. A ideia é lançar um disco hard rock mas com grande influência do AOR que estava começando a se tornar visado pelo grande público. Uma pincelada de pop e boogie também foi dada. E assim, surgiu Innocent Victim, o disco da cobra banguela, lançado ainda em 1977.

Acima: Mick Box (guitarra), Lee Kerslake (bateria) e Ken Hensley (teclados). Abaixo: John Lawton (vocais) e Trevor Bolder (baixo)

Muitos enxergam com maus olhos essa fase pós-Byron do Heep. Mas eu venho aqui tentar te convencer que este disco (e muitos outros da banda) também possuem boas canções para te fazer fugir um pouco do Demons and Wizards e do The Magician’s Birthday, ambos de 1972. Temos aqui um disco de rocks muito bacanas que valem uma chance de serem apreciados.

O disco começa com “Keep on Ridin'” em que logo de cara, me impressiono com a voz de Lawton. Ela me lembra bastante o timbre de Klaus Meine, claro, sem os agudos do vocalista alemão. O baixo dessa canção e as vozes de fundo deixam uma canção divertida e animada. Confesso que não curti muito “Flyin’ High” por achar meio que um plágio da canção anterior. Poderiam ter me passado outra impressão se esta música estivesse no fim do disco. Mas aí vem “Roller” da qual adoro. É um rock com um riff de guitarra e um baixo muito sacana, uma canção funky muito boa. Já “Free ‘n’ Easy” é uma típica canção do clássico Heep. Veloz, pesada, praticamente um heavy metal, não deve em nada a outros clássicos da banda. “Illusion” ainda fecha o Lado A com o teclado de Hensley dando um toque de sutileza em uma bonita balada de fazer cair lágrimas.

O Lado B abre com “Free Me”, o principal hit do disco e que fez algum sucesso principalmente na Alemanha e na Nova Zelândia. Canção simples, pop e marcante. “Cheat ‘n’ Lie” é mais cadenciada e com o melhor solo de guitarra de Mick Box em todo o álbum. Após a mediana (e brega) “The Dance”, a melhor faixa do disco foi reservada para o final: “Choices” já começa com Hensley e Box botando para quebrar. Kerslake também dá um show na bateria. Variando entre o delicado e o tenso, a música fecha muito bem este ótimo disco.

Ao pessoal que só aprecia o Uriah Heep progressivo, deve passar bem longe desse disco. Mas para aqueles que gostam de um bom hard rock boogeado, aproveite o que esta incrível banda tem a oferecer.

Tracklist

  1. Keep on Rindin’
  2. Flyin’ High
  3. Roller
  4. Free ‘n’ Easy
  5. Illusion
  6. Free Me
  7. Cheat ‘n’ Lie
  8. The Dance
  9. Choices

Mick Box (guitarra), Trevor Bolder (baixo), Ken Hensley (teclados), John Lawton (vocais) e Lee Kerslake (bateria).

 

10 comentários

  1. Marcello

    Eu sempre gostei desse disco, e a edição em CD traz bônus interessantes, como Masquerade, que é a continuação de Illusion. Firefly e Innocent Victim são melhores que o High and Mighty, na minha opinião, e considero John Lawton o melhor vocalista da história da banda em termos técnicos (claro que ele não tinha o carisma de David Byron, mas sua voz é excelente). Para mim, o Uriah Heep só se perdeu mesmo em Fallen Angel.

    Responder
    • Mairon

      Concordo com o Marcello. O Fallen Angel é um disco abaixo na carreira do Uriah Heep até o Conquest, por que depois do Conquest, só veio bucha. Mas com o Bernie Shaw, a coisa melhorou e muito. Desse disco em especial, só “Free ‘n’ Easy” já vale a aquisição.

      E para mim, o melhor vocalista TECNICAMENTE falando que passou pelo Heep foi John Wetton.

      Valeu pelo texto André!!

      Responder
      • André Kaminski

        Até não me incomodo muito com os vocalistas. Mas sim com as composições de alguns álbuns que nem a formação clássica em sua melhor fase conseguiria fazer funcionar direito. Mas de um modo geral, a banda tem crédito comigo em relação aos caras que já assumiram os vocais.

  2. Leonardo

    Sou suspeito para falar, pois gosto muito dessa banda. Esse disco é muito bom, mas da fase com Lawton, prefiro o anterior. Tb não acho tão ruim assim o Fallen Angel. Como disse o Mairon a coisa piora com o Conquest onde contrataram um vocalista nada a ver e depois da saída do Ken, a coisa degringolou e a banda lançou os discos mais fracos que vão de Abominog (82) a Different World (91), sendo que Equator (85) é o pior de todos. A coisa começou a melhorar em Sea Of Light (95).

    Responder
    • Mairon

      Eu gosto do Raging Silence. Sonic Origami é o melhor disco desse período aí. O pior acho que é o Head First. Eita bomba.

      Responder
      • André Kaminski

        Não escutei ainda todos os discos da banda, mas de uns 17 que eu já ouvi deles (e pensar que tem ainda mais 10 para ouvir), só considerei dois muito ruins que são Different World e Head First. Este último, concordando com o Mairon, é uma bomba.

      • Marcello

        Head First é uma desgraça sonora, mas Equator consegue ser pior… Numa seção “Do pior para o melhor”, Equator e Head First seriam os últimos colocados para mim.

  3. Ronaldo

    Vou dar mais uma chance a esse disco…atualmente essa sonoridade do fim dos anos 70 tem sido mais palatável pra mim!
    Abraço,

    Responder
  4. Maxrevelations

    Parabéns pelo texto André! Olha só, apesar do Byron ser o ”Front man” da banda (eu falando) e ter gravado os melhores clássicos desta, tem coisas neste cara que me irritam. Como alguns exageros nos agudos e tal. Porém, com Lawton a conversa é outra. Ele é mais balanceado com sua voz, e sério, curto muito o visual cigano do buddie! Eu sempre dei mais atenção ao Firefly, até por que como compro LPs, o acabamento do álbum é muito bonito. Quando comprei o Victim, cheguei a devolvê-lo na loja! O__o”. Porém, é como o Ronaldo falou acima ae (mas com as minhas palavras), tem que está preparado para o som. Não adianta estar ouvindo Thrash metal, e achar que vai gostar de Rocks com uma mistura Funky ou até AOR, que o sujeito não vai gostar mesmo! Então, em suma, agora eu gosto do Innocent Victim! É um bom álbum!

    Responder
  5. Maxrevelations

    Há e outra coisa, a capa é muito feia! Cobra banguela de olhos humanos azuis…mas tá valendo! See yah folks!

    Responder

Deixar comentário

Seu email NÃO será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.