Por Bruno Marise 

O Stone Temple Pilots pode se considerar uma banda infeliz. O quarteto formado por Scott Weiland, Dean Deleo, Robert Deleo e Eric Kretz sempre esteve ligado ao Grunge, mesmo tendo origem na Califórnia. Apesar de uma venda considerável de álbuns, nunca conseguiu convencer a crítica, que sempre considerou a banda um Pearl Jam de segundo escalão.

Além disso, os recorrentes problemas de Scott Weiland com as drogas acabavam atrapalhando quaisquer planos do grupo, sem contar que desviava todo o foco das músicas para os escândalos do vocalista. Apesar de tudo, quase vinte anos após o fim do Nirvana e o fim declarado do Grunge, entre idas e vindas o STP continua na ativa, tocando e fazendo música. 


 Core [1992]

Em 1992, Nirvana e Pearl Jam já haviam se mostrado pro mundo, e o som dos anos 90 estava consolidado. Seattle era o novo santuário do Rock. Eis que começa a tocar na rádio e na Mtv uma música pesada, com um riff sujo, pegajoso e um refrão que demorava pra sair da cabeça. O que era aquilo? O nome da música era “Sex Type Thing“, e a banda, o Stone Temple Pilots. Muitos acreditavam ser mais um dos zilhões de grupos da tal cidade chuvosa.

Estavam enganados. Ao contrário disso, o som do STP vinha da ensolarada Califórnia.

Formado no final dos anos 80 pelos irmãos Robert (baixo) e Dean Deleo (guitarra), que conheceram o vocalista Scott Weiland num show do Black Flag, o grupo depois de ralar muito nos bares e clubes de San Diego assinou um contrato com a Atlantic Records para o lançamento do álbum de estreia. Core já nasceu um sucesso: Vendeu 3 milhões de cópias nos EUA, rendeu um Grammy, dois American Music Awards, dois Billboard Video Awards, um Billboard Music Awards, um Mtv Music Video Awards e Scott Weiland foi eleito o melhor vocalista em uma votação feita pela revista Rolling Stone, além de Dean Deleo ter sido escolhido como o melhor guitarrista pelos leitores da Guitar Player.

É muita coisa para o primeiro trabalho de uma banda relativamente nova. Mas a crítica não engoliu e caiu de pau em cima do quarteto californiano, acusando-os de um mero pastiche de Pearl Jam e Alice in Chains, principalmente pelo hit “Plush“, onde Weiland canta em um tom bastante parecido com o de Eddie Vedder. Talvez o “azar” do STP foi ter aparecido nessa época, justamente quando os empresários e as grande gravadoras sacaram que o tal do Grunge vendia, e fizeram de tudo para fabricar bandas a la Nirvana, tirando todo o caráter inicial do “movimento” que tinha muito do Do It Yourself, influência do Punk setentista.

Com isso, qualquer banda que se parecesse ou tivesse influência do som de Seattle era automaticamente esculachado pela crítica. Outro problema foi as rádios e a MTV tocarem Plush e “Creep” à exaustão, o que tirou o foco das várias boas músicas do disco. A influência do grunge existe, é claro, mas o rock setentista, e hard rock também estão presentes. Core está cheio de boas composições como a faixa de abertura, “Dead and Bloated” com um ritmo arrastado e o vocal vindo da garganta de Weiland. “Wicked Garden” com mais um riff pesado de Deleo é talvez a melhor faixa do disco. Temos ainda “Crackerman” e seu refrão totalmente catchy. Vinte anos depois, passada toda a polêmica da época, Core envelheceu bem e mostra uma banda com enorme potencial e ótimas composições e que apesar de se confundir com o som de Seattle, tem a sua identidade.

STP em 1992: Robert Deleo(Baixo), Scott Weiland (Vocal), Dean Deleo (Guitarra) e Eric Kretz (Bateria)


Purple [1994]

Em seu segundo trabalho, o STP mantém o clima de Core (1992), mas começa a dar mais identidade pro seu som. Existe um maior capricho com as melodias, ainda mais inspiradas, e ao mesmo tempo mais peso também, com riffs encorpados (“Meat Plow“, “Unglued“) e timbres graves.

O lado Hard Rock também fica evidente em algumas faixas, com solos mais elaborados de Deleo (Silver Gun Superman). Weiland praticamente abandona o timbre a la Eddie Vedder e aposta em um vocal mais rasgado e agudo. Os hits “Vasoline” e “Interstate Love Song” e a maravilhosa “Big Empty” com seus refrões grudentos, colocam Purple em primeiro lugar na Billboard. O clima acústico com toques psicodélicos de “Pretty Penny” já mostra uma outra faceta do STP, que seria mais explorada no próximo trabalho.

Mais uma vez, a banda atinge sucesso comercial, com 3 milhões de cópias vendidas nos EUA, e mesmo assim os problemas continuam aparecendo: Em 1995 Weiland que já tinha envolvimento com heroína, é preso por posse de cocaína e condenado a um ano de prisão. Boa parte da turnê é cancelada e a banda forçada a dar uma pausa nas atividades. Com Purple, o STP consegue se desvencilhar um pouco sua imagem das bandas de Seattle e mostrar mais personalidade com excelentes composições, em um disco que mantém o nível do começo ao fim. 


Tiny Music… Songs From The Vatican Gift Shop [1996]

Após um hiato forçado, o STP se reúne em 1996 para gravar o seu trabalho mais ousado até então. Tiny Music… mescla as diversas influências do grupo com o rock distorcido de sempre. Temos desde glam rock , psicodélico e pop dos anos 60 até uns toques de bossa nova (“And So I Know“).

As melodias estão ainda mais elaboradas e inspiradas, mostrando a herança californiana da banda e a produção vintage também contribui para o clima do disco. Em Tiny Music… Dean Deleo mostra todo seu talento e criatividade como guitarrista e Weiland aparece como um vocalista extremamente versátil que mescla os timbres graves e agudos e alterna do vocal rasgado para o melódico de uma faixa para outra.

Big Bang Baby” e “Lady Picture Show” tem os refrões grudentos típicos do STP. “Trippin’ On a Hole In a Paper Heart” é a melhor do álbum, com sua linha de guitarra espetacular. Infelizmente, os problemas cada vez mais recorrentes de Scott Weiland com as drogas, forçaram o grupo a cancelar a turnê de divulgação do álbum, que mesmo assim atinge a considerável marca de 1 milhão de cópias vendidas nos EUA. Com o STP parado mais uma vez Tiny Music…, que poderia alavancar de vez o quarteto, fica praticamente sem divulgação e a banda entra em hiato novamente. 

STP em 1999: Scott Weiland bem mais magro devido ao abuso das drogas


Nº 4 [1999] 

Em 1998, o STP se reúne para a gravação de um novo álbum, o quarto da banda, que dá nome ao trabalho. O lançamento é marcado para outubro de 1999, mas alguns meses antes, Scott Weiland é preso novamente por violar sua condicional devido a posse de drogas.

Mais uma vez, o álbum é lançado com divulgação quase nula e a turnê é adiada para o ano seguinte, quando Weiland deixa a prisão. Apesar de todos os problemas, o STP emplaca mais um hit com “Sour Girl”, e Nº 4 atinge 1 milhão de cópias vendidas nos EUA. Nesse trabalho, a banda deixa para trás todo o experimentalismo e variedade de estilo de Tiny Music… e investe num rock mais básico, soando bem mais pesada que nos outros discos.

Mesmo com as boas vendagens e aceitação do público, os recorrentes problemas de Weiland e o ambiente conturbado refletem no álbum, que é o mais fraco da carreira do STP. As composições estão bem menos inspiradas, e soam como fillers em sua maioria, apesar de algumas boas faixas como “Down” e “Church On Tuesday“. A turnê é bem sucedida e a primeira finalizada pela banda desde 1994.


Shangri-La Dee Da [2001]

Em 2001 sai Shangri-La Dee Da, trabalho bem mais inspirado que o fraco Nº 4, e mescla momentos de bastante peso com as melodias e refrões grudentos já característicos da banda. Uma curiosidade desse disco é que ele parece estar dividido em três partes.

As quatro primeiras músicas mostram a veia hard do STP (“Dumb Love“), a segunda parte traz baladas e canções mais pop (“Hello, It’s Late“), e as cinco últimas faixas tem todo o experimentalismo e influências psicodélicas que temos em Tiny Music… (“Regeneration“) O quinto disco soa como um apanhado da carreira da banda, mas por mais feio que isso possa parecer, Shangri-La Dee Da tem muita qualidade e mais uma vez mostra a versatilidade de Weiland que se adapta e arrebenta em todos os diferentes estilos do disco.

O hit “Days Of The Week” foi o único single lançado e mesmo com Weiland aparentemente fora de problemas, o trabalho foi pouco divulgado.Em 2003, o STP realizou uma turnê de 16 shows nos EUA e no fim do ano participou de alguns festivais. Mas o que parecia estar em paz, estava ruindo: No mesmo ano, a banda anunciou mais um hiato para os integrantes trabalharem em projetos paralelos. No ano seguinte, saiu a coletânea intitulada “Thank You” e o boato de que Scott Weiland estava ensaiando com alguns ex-integrantes dos Guns ‘n’ Roses se confirmou com a oficialização do projeto Velvet Revolver.

Os fãs já se conformavam com o fim da banda, que se concretizou no mesmo período com o anúncio definitivo dos irmãos Deleo, que declaravam o fim das atividades da banda. Três anos depois, Weiland e os Deleo voltaram a se falar e a tocar juntos. Com o fim do Velvet Revolver em 2008, foi anunciada a volta do Stone Temple Pilots para uma maratona de 65 shows nos Estados Unidos. Em 2009, a banda começaria a trabalhar no sexto disco de estúdio, auto-intitulado e que seria lançado no ano seguinte.


Stone Temple Pilots [2010]

O disco da volta do STP mostra que a banda definitivamente ainda tem muito a dar. O sexto trabalho soa como se eles nunca tivessem parado, e traz várias boas composições com o que o grupo faz de melhor: Unir o peso das guitarras com ótimas melodias e refrões cativantes, num caldeirão que mistura hard rock, glam, psicodélico e pop sessentista.

Dean Deleo entrega mais um trabalho de guitarras impecável, com riffs encorpados e belos solos.  Scott Weiland, livre das drogas tem mais uma performance incrível com seus vocais hora rasgados, hora melódicos. As músicas de trabalho foram a pesada “Between The Lines” (um dos melhores solos da carreira de Deleo), “Take The Load Off” (com um refrão bem característico da banda) e a bela “Cinnamon“. 

Se para os críticos o Stone Temple Pilots era apenas mais uma cópia de segunda mão do Pearl Jam, com mais de vinte anos de carreira, e passada toda a febre grunge o STP está na ativa, fazendo shows e provando que tem sim, relevância no rock atual, em um cenário cada vez mais infestados de bandas e sons artificiais, o quarteto californiano é um verdadeiro alívio para os que gostam de um rock feito com sinceridade, talento e sensibilidade.

3 comentários

  1. robert

    Bruno ,

    O STP nada tem haver com o movimento grunge e nunca foi cópia do Pearl Jam . Ao contrário de Eddie Veder que é um vocalista com poucos recursos vocais , Scott Weiland tem um poderoso arsenal vocal multitimbre mostrado em toda a discografia do STP e em seus discos solos além da participação no Velvet Revolver onde aliás ,ele conseguiu transformar em música aquilo que os ex Guns and Roses vinham tentando fazer há anos . Mesmo com problemas ,com fama de malditos por se lixarem para a crítica são um dos últimos a fazerem Rock de verdade .

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  2. brunomarise

    Talvez eu tenha entendido errado o que você disse, mas eu não quis falar que o STP era uma cópia do Pearl Jam, mas sim os críticos que disseram isso na época.

    Valeu pelo comentário

    Abraço

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  3. Anônimo

    Realmente, Bela Postagem, o STP é uma banda fantástica e surpreendente,
    Diria diversificada e arrojada, combinação perfeita.

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