Por Fernando BuenoSempre quando encontro uma banda que não usa o inglês como a língua das suas músicas o mesmo pensamento vem à minha cabeça. No início de nossas fases como ouvintes mais dedicados poucos dominavam o inglês. Muitos aprenderam a se virar com o idioma justamente depois de anos traduzindo as letras de suas bandas preferidas. No meu caso nunca tinha feito um curso específico de inglês até a época do meu mestrado quando precisei de um certificado de proficiência para poder ingressar no programa de doutorado. Desse modo podemos dizer que por muito tempo ninguém entende nada da mensagem ou sobre o que a banda está cantando. Muita gente, e posso me incluir nesse grupo, mesmo conhecendo a língua não presta atenção nas letras em si de muitas das canções que escuta. Pensando assim pergunto: qual é, então, o problema de se ouvir bandas que usem outros idiomas em suas músicas? E a resposta que encontro sempre esbarra na questão do preconceito.

Conheci o Axat por meio de um amigo que fiz lá em São Luiz, no Maranhão, quando estive para o Metal Open Air. Considero que o festival não existiu devido aos problemas que todos conhecem, mas a ocasião pelo menos serviu para conhecer pessoas de diversos lugares do país que também são amantes de música como somos todos os que estão lendo essas linhas.

O Axat, que também pode ser encontrado na internet como Ahat, é uma banda búlgara que surgiu no país, mais precisamente na capital Sofia, na segunda metade da década de 80. Foi formada por Zvezdomir Keremidchiev (vocal), Bojidar Glavev (guitarra), Antoan Hadat (guitarra), Antoni Georgiev (teclado), Yuri Kotzev (bateria) e Ivaylo Petrov (baixo), sendo que esse último foi substituído logo no início por Denis Rizov, todos estudantes de uma mesma escola da cidade. Após alguns anos tocando por toda Bulgária, tanto em shows para quase ninguém quanto em grandes festivais, o grupo conseguiu vincular seu nome na cena metálica da época e ser reconhecida na cena local.
The March (em búlgaro, Походът) foi gravado em 1989, depois do single para “The Black Sheep” ter saído no ano anterior. O enorme sucesso, inclusive até hoje, causado por essa música ajudou e muito a banda. Também pudera, “The Black Sheep” é o típico hino do heavy metal com um refrão perfeito para o público a cantar junto da banda com seus punhos erguidos ao ar caracterizando o lema de seu país natal que diz “Съединението прави силата” (que nada mais é do que “A união faz a força”).
Para quem quiser acompanhar as letras está aí a visão do encarte.
Um dedilhado típico das bandas de metal acompanhado da voz de Zvezdomir abre “Land of the Blind Men” num momento que chega a lembrar alguma música perdida de Ozzy Osbourne lá dos primeiros discos. “Our Road” é outra com cara de hino com ótimo refrão e apresentando sonoridade que lembrará muito o Alcatraz principalmente nas partes dos vocais. Alias, se tivermos que comparar o Axat com algum outra mais conhecida, a ex-banda de Graham Bonnet, Yngwie Malmsteen e outros seria uma ótima pedida.
A arrastada “The Tree” é sempre citada, nos parcos textos que encontrei, como um sucesso da época. O link disponibilizado é de um clipe que aparentemente foi gravado recentemente, pelo menos dá essa impressão pela forma e aparência dos músicos. “The Axe”, que abria o lado B do LP, é mais um heavy metal empolgante que desafia o ouvinte a tentar cantar junto em búlgaro como várias das outras músicas do álbum.
Para se caracterizar como um bom álbum de metal dos anos 80 não poderia deixar de existir uma faixa instrumental e “Gone With the Wind” faz bem o papel. Na sequência vem “Fiery Souls” que é talvez o maior destaque na parte musical. Não por apresentar virtuosismo ao extremo, mas sim pelo bom gosto na composição e é também a faixa com os agudos mais alto de Keremidchiev. Para fechar temos a lenta faixa título, a mais longa do álbum, que tem uma introdução meio sombria e clima épico.
Contra capa com a músicas em búlgaro
Como disse antes, quando você procura pela banda na internet encontra também o nome de Ahat. Pelo que entendi no lançamento do disco, em 1989, os nomes das músicas no encarte do LP vinham somente em inglês. Mais ou menos parecido com os discos que eram lançados na Argentina com nomes das músicas em espanhol. No relançamento do CD em 2003 já apareciam apenas nos caracteres em búlgaro. No próprio youtube há uma dificuldade de encontrar e também de identificar as músicas, mas nada que atrapalhe demais. Preferi usar seus títulos em inglês aqui na resenha apenas para facilitar a leitura.
Outra coisa que tem que ficar claro é que quando falo em sucesso aí no texto estou me referindo à algo restrito ao país de origem do Axat. Com “The Black Sheep” tocando em alguns lugares fora da Bulgária eles até chegaram a fazer alguns shows em países do Leste Europeu, mas nunca com muito destaque. Sua turnê em local mais distante foi em solo holandês na primeira metade da década de 90 e causou certo furor na cena. Mas talvez o maior feito do grupo foi ter aberto alguns shows do Deep Purple quando esses tocaram em Sofia.
Chegaram a gravar mais um long play em 1994 chamado Beneath the Ruins, mas com a pouca repercussão a banda terminou, mesmo que não oficialmente já que durante todos esses anos tiveram esporádicas idas e vindas. Cada integrante saiu em busca de novos horizontes sendo que Zvezdomir Keremidchiev chegou a ir embora para os Estados Unidos da América, mas voltou para o seu país natal pouco tempo depois. Chegaram até a gravar um álbum chamado Made in USA, que apesar do nome sugerir isso não é um disco ao vivo. Talvez quem mais se deu bem nessa foi Denis Rizov, que abriu um estúdio na Flórida que é usado por bandas como o próprio Deep Purple, seus maiores ídolos.
Track list:
1. Черната Овца (The Black Sheep)
2. Земя на Слепци (Land of Blind Men)
3. Нашия Път (Our Road)
4. Дървото (The Tree)
5. Брадвата (The Axe)
6. Отнесени от Вихъра (Gone With the Wind)
7. Огнени Души (Fiery Souls)
8. Походът (The March)

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