Por Micael Machado


Mais uma lenda da música se apresentou em Porto Alegre nesta semana. Aos 69 anos de idade (e cinquenta de carreira), o escocês Jack Bruce veio pela primeira vez ao Brasil para shows em São Paulo e na capital gaúcha, passando  pela capital da Argentina entre as duas apresentações.
Mais conhecido por ter feito parte do Cream (o primeiro “super grupo” do rock, onde tocou ao lado de Eric Clapton e Ginger Baker, em um dos maiores “power trios” da história), Bruce também integrou, dentre outros, a Graham Bond Organisation, o West, Bruce & Laing (com os então ex-membros do Mountain Leslie West e Corky Laing) e o projeto de curta duração BBM (ao lado de Baker e do guitarrista Gary Moore), além de manter uma carreira solo meio inconstante desde 1969 e recentemente ter gravado um disco ao lado do grupo Spectrum Road. Considerado um dos melhores baixistas do mundo do rock (e um grande vocalista), Bruce há tempos adquiriu o status de “lenda” por seus serviços prestados à música, e foi com este pensamento que muitos foram ao belo Teatro do Bourbon Country na última sexta feira para lhe assistir.
Jack Bruce em Porto Alegre
Com apenas dez minutos de atraso, Bruce entrou no palco acompanhado dos competentíssimos Tony Remy (guitarra) e Frank Tontoh (bateria, que de tonto não tem nada!), para, como um legítimo power trio, interpretarem “First Time I Met The Blues”, de seus tempos ao lado de Bond (com Baker na bateria, inclusive!). Já com Paddy Milner (piano e teclados) e o trio de metais formado por Winston Rollins, Derek Nash e Paul Newton no palco, mandaram “Neighbor Neighbor”, lançada pela primeira vez no ao vivo Cities of the Heart, de 1994 (embora tenha sido gravada em 1978 para Jet Set Jewel, que só sairia em 2003). As duas músicas não era muito conhecidas da plateia (que não chegou a lotar o teatro, embora o mesmo estivesse bem cheio), que respondeu apenas respeitosamente a elas.
Mas aí Bruce e companhia emendaram “Politician”, a primeira do Cream na noite. A casa veio abaixo, e os mais de sete minutos da canção apresentaram finalmente uma característica tão importante do trio britânico: os improvisos! Lá pelo meio da música, Bruce, Remy, Tontoh e Milner começaram a solar todos ao mesmo tempo, indo cada um para um lado e tentando um superar o outro, como nos bons tempos da swinging London dos anos 60! Pode acreditar, foi lindo de ver e ouvir (e, melhor ainda, isto se repetiria outras vezes ao longo da noite)!
Paddy Milner, Jack Bruce e Frank Tontoh

Outra da carreira solo de Bruce, “You Burned the Tables on Me”, abaixou um pouco a poeira (embora o solo de Remy nesta canção mereça ser destacado), mas “Born Under a Bad Sign“, outra que o Cream gravou (embora o original seja de Albert King), colocou o público de pé novamente. Bruce estava bastante comunicativo, falando frequentemente com o público, agradecendo bastante a presença de todos e aos músicos de sua banda (batizada de Big Blues Band). Mas, mais do que tudo, estava tocando e cantando como se o tempo não tivesse passado, e ele ainda fosse aquele rapaz que duelava com Clapton e Baker pelos palcos da América no Norte. Impressionante!
Bruce foi para o piano (com Milner ficando apenas no teclado), e abriu caminho para a entrada em cena de Nick Cohen, responsável por executar as linhas de baixo em “Tickets For Waterfall” e na emocionante “Theme For An Imaginary Western”, do primeiro disco solo de Bruce (Songs for a Tailor, de 1969), mas mais conhecida pela interpretação do Mountain no essencial álbum Climbing!, de 1970. Foi um dos momentos mais belos do show, e abriu espaço para algo que poucos estavam esperando: uma sequência de clássicos do Cream, começando por “Spoonful” (cuja versão original é de Willie Dixon, e que trouxe Bruce de volta ao baixo), passando por uma “We’re Going Wrong” ainda mais lenta e soturna que a original (e que para mim foi o ponto alto da noite), e culminando numa dobradinha de “Deserted Cities of the Heart” (apresentada com os dois baixistas no palco!) e “White Room“, que não deixaram ninguém reclamar ao longo de sua longa duração. Fantástico é pouco!
Frank Tontoh teve então o seu momento solo, onde mostrou muita técnica e simpatia, inclusive fazendo algumas marcações típicas de uma escola de samba em sua bateria. Chamando a participação do público para fazer divertidos “heys!“, o cara se mostrou uma figuraça, e chegou a dançar em seu banquinho, empolgado com a resposta da plateia. Tecnicamente, pode não ter sido o melhor drum solo que já assisti, mas acompanhar sua longa duração não foi nenhum sacrifício para este que vos escreve.
Jack Bruce and His Big Blues Band no palco
Após o momento de glória de Tontoh nos holofotes, o grupo retornou para, mais uma vez com dois baixos no palco, mandar “Sunshine Of Your Love“, seguramente a música que a maioria do pessoal estava esperando, pois foi a que teve a maior ovação por parte da plateia (além de um magnifico solo de Bruce, onde tocou trechos de “Crossroads” em seu baixo e fez vários improvisos), encerrando o show com a empolgação e a energia nas alturas, com muitos abandonando seus lugares e indo agitar na frente do palco, além de gritarem o refrão em alto volume!
Pouco tempo de espera nos separou do bis, que iniciou com a calma “The Consul At Sunset” (que parecia desconhecida para a maioria), passou pela swingada “Never Tell Your Mother She’s Out Of Tune” e encerrou com “Sitting On Top Of The World”, mais uma gravada pelo Cream (baseada na versão de Howlin’ Wolf), que satisfez a todos os presentes depois de pouco menos de duas horas de um show que, com certeza, ficará na memória de todos os que tiveram a oportunidade de assisti-lo!
Jack Bruce deu uma aula de simpatia, canto (assumindo todas as partes vocais originalmente registradas por Clapton nas músicas do Cream) e baixo (com seu instrumento sem trastes em um volume altíssimo, como nos bons tempos) para todos nesta noite, acompanhada de música de excelente qualidade interpretada por músicos competentíssimos. O que mais se poderia pedir? Apenas que momentos como estes não demorem mais cinquenta anos para se repetir!
Visão geral do palco de Jack Bruce e sua banda
“I’m sitting on top of the world”

Set list:
01. First Time I Met The Blues
02. Neighbor Neighbor
03. Politician
04. You Burned the Tables on Me
05. Born Under a Bad Sign
06. Tickets For Waterfall
07. Theme For An Imaginary Western
08. Spoonful
09. We’re Going Wrong
10. Deserted Cities of the Heart
11. White Room
12. Drum Solo 
13. Sunshine Of Your Love
Bis
14. The Consul At Sunset
15. Never Tell Your Mother She’s Out Of Tune
16. Sitting On Top Of The World

7 comentários

  1. Anônimo

    Gostei da resenha! Uma pena pra mim foi a pouca repercussão de um momento tão fantástico para a música local, senti falta dos músicos gaúchos marcando presença. Sorte para nós que fomos!

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  2. micaelmachado

    Caro(a) anônimo, obrigado pelo elogio! realmente, tanto o pré-show quanto o pós-show (principalmente este) foram pouco tratados pela mídia local também. O que é uma pena, pois Bruce merecia mais reconhecimento.

    Volte sempre que quiser e sinta-se a vontade.

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  3. diogobizotto

    Foi mesmo uma pena eu não ter conseguido ir a esse show, pois queria, e muito! Levando em consideração a não confirmação do Slayer, trata-se, ao menos para mim, do mais atraente show promovido em Porto Alegre no segundo semestre. Robert Plant? Que nada, esse não me chamou nem um pouco a atenção e sequer esbocei alguma vontade de assisti-lo. Reconheço a importância e a qualidade do Led Zeppelin, assim como a gigantesca influência exercida por Plant, mas admiro mais a musicalidade de Bruce, seu talento e o material produzido ao lado do Cream. Perdi, preibói.

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  4. Marcos Tolotti Salazar

    Realmente um show para ficar na memória para sempre. Só posso dizer uma coisa, graças a Deus que eu estava lá.

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  5. Luis Camelo

    Fui nesta tournee mas qdo a mesma passou em São Paulo no Teatro Bradesco e foi isso mesmo: sensacional!!

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