I Wanna Go Back: REO Speedwagon – Hi Infidelity [1980]

4 de Maio, 2011 | por Diogo Bizotto
Diversos
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Por Diogo Bizotto
Em um tempo de sucessos instantâneos movidos a visualizações de páginas na internet ao invés de boas performances sobre o palco, fica difícil visualizar, ao menos no mainstream, artistas que obtiveram grande êxito somente após muitos anos, às vezes mais de uma década, gravando discos e mostrando garra e determinação em suas apresentações ao vivo. Longe de mim querer afirmar que não existem mais bandas que possuem seus shows como principal veículo para consolidar seu nome, e a partir deles constroem uma carreira, mas o que parece é que, cada vez mais, artistas são produzidos no estúdio, comercializados como meros produtos culturais, e só então levados ao palco, geralmente munidos de um grande aparato a fim de esconder quaisquer falhas que revelem inexperiência e/ou a simples falta de talento.

Como escrevi acima, às vezes o sucesso só é alcançado após mais de uma década de batalha e persistência. Esse é o caso do REO Speedwagon, quinteto formado em 1967 no estado de Illinois, nos Estados Unidos. Tomando o nome de um caminhão leve bastante popular na primeira metade do século XX, o grupo tem suas origens fincadas no mais típico hard rock setentista norte-americano. Sem incursões progressivas, tendências heavy metal ou ambições épicas, o REO Speedwagon, formado de início por Terry Lutrell (vocais), Gregg Philbin (baixo), Alan Gratzer (bateria) e Neal Doughty (teclados), tinha no bom guitarrista Gary Richrath seu maior destaque e principal compositor, unindo através de seus riffs, bases e solos, o amálgama roqueiro infectado de blues que a banda praticava.

Terry Lutrell cantaria apenas no primeiro álbum, REO Speedwagon (1971), sendo substituído por Kevin Cronin, dono de uma voz anasalada e de bastante atitude, compondo sozinho três das oito faixas presentes no segundo disco, T.W.O. (1972). Entretanto, a presença de Kevin no grupo se revelou curta, cedendo espaço para Mike Murphy, que registraria três álbuns com o grupo: Ridin’ the Storm Out (1973), Lost in a Dream (1974) e This Time We Mean It (1975), destacando o primeiro e sua excelente faixa-título, dotada de uma pegada digna dos grandes da época. Lentamente, lançamento após lançamento, o quinteto foi ampliando sua audiência e conquistando plateias com seu hard rock que equilibrava os riffs de Gary Richrath com o irresistível boogie que brotava das mãos do tecladista Neal Doughty.

You Can Tune a Piano, But
You Can’t Tuna Fish

1976 marcou o retorno de Kevin Cronin à posição de vocalista do grupo, gravando R.E.O., que se traduziu em uma sensível mudança de direcionamento, confirmada no álbum seguinte, You Can Tune a Piano, But You Can’t Tuna Fish (1978), ressaltando o lado mais melódico do grupo e reforçando a posição de Kevin Cronin como um compositor a ser levado a sério, competindo com Gary Richrath pela atenção nos créditos dos discos. Já contando com o baixista Bruce Hall no lugar de Greg Philbin, You Can Tune a Piano, But You Can’t Tuna Fish obteve destaque nas paradas, auxiliado pelos singles para “Roll With the Changes” e “Time For Me to Fly”, que, apesar de terem atingido apenas as posições de número 58 e 56 na Billboard, seriam eternizadas pelo público com o passar dos anos, confirmando o valor desse equilibradíssimo álbum, que, mesmo perdendo parte da vocação hardeira do REO Speedwagon, adicionou novos elementos bem vindos à sua sonoridade, cada vez mais inclinada a levantar as arenas de todo o país.

O lançamento seguinte, Nine Lives (1979), puxou um pouco o freio das mudanças recentes, mostrando uma sonoridade um pouco mais próxima de seu passado, calcada em um som de guitarra mais pesado que o  de seu antecessor, bem exemplificado nas faixas “Heavy on Your Love” e “Drop It (An Old Disguise)”. Após esse disco, que não gerou singles de sucesso, o lado arena do REO Speedwagon falaria mais alto e nunca mais seria abandonado. O que não se esperava é que o sucesso, que já havia batido à porta do grupo no final da década, seria expandido a níveis estratosféricos graças ao álbum Hi Infidelity, lançado em novembro de 1980. O disco não apenas atingiu o primeiro posto da Billboard como ocupou essa posição por incríveis 15 semanas, destacando seis singles entre suas faixas e encerrando 1981 como o álbum mais vendido do ano, vindo a atingir anos depois a impressionante marca de mais de dez milhões de unidades comercializadas.

Mas será que o track list presente em Hi Infidelity faz jus a todo o êxito conquistado? Isso vai depender da sua expectativa em relação ao disco. Não aguarde escutar um clássico definitivo do rock, desbravador de novas fronteiras e desafiador de paradigmas. O REO Speedwagon jogou bem, mas jogou seguro, mantendo tudo em casa, trabalhando bem a faceta mais melódica e polida que havia aflorado recentemente, tomando forma através de composições dignas de atenção. Nas palavras do guitarrista Gary Richrath, a fórmula que fez do álbum um sucesso tão grande consiste de “boas canções e boa produção unidos, além do fato de que a banda estava tocando muito bem”. Ainda segundo ele, sete das dez faixas foram registradas no primeiro take, exemplificando o quão azeitado estava o quinteto, resultado dos anos passados sobre centenas de palcos diferentes.

Alan Gratzer, Bruce Hall, Kevin Cronin, Gary Richrath e Neal Doughty

Aberta com um groove sincopado de baixo e bateria, que se estende por toda a faixa, exceto no refrão, “Don’t Let Him Go” é repleta de bons licks de guitarra, além de um ótimo solo final, e revela-se uma escolha corajosa para a abertura de um álbum, ainda mais tendo em mente que a canção seguinte é nada mais nada menos que “Keep on Loving You”, que, fazendo jus ao “power” da power ballad que é, ocupou o primeiro posto da parada de singles da Billboard, posição mais que merecida em razão das cativantes linhas melódicas construídas pelo vocalista Kevin Cronin, baseadas no piano, tocado por ele nessa música. Quem não gosta da voz anasalada de Kevin tem aqui todos os motivos possíveis para rejeitá-lo mais ainda, mas quem admira o direcionamento tomado pelo REO Speedwagon aqui tem um prato cheio, especialmente pelo fato de que, mesmo nas músicas de caráter mais pop, o guitarrista Gary Richrath constrói linhas memoráveis.

A peteca não cai, enquanto Kevin canta sobre os riffs de Gary em “Follow My Heart”, dotada de um refrão viciante e de uma profusão de bons solos desse subestimado músico. Sem dúvida, digna dos momentos mais roqueiros registrados pelo grupo nos anos 70, mas com uma produção atualizada à década seguinte. Falando em décadas distintas, através de “In Your Letter” o REO Speedwagon nos leva em uma viagem de volta ao pop do início dos anos 60, pegando emprestadas melodias que parecem ter sido tiradas de grupos vocais femininos da época, incluindo os bem postados backing vocals e um solo de piano de Neal Doughty.

O outro grande hit de Hi Infidelity é “Take It on the Run”, tendo alcançado o quinto lugar na Billboard com sua melodia vocal característica, seu andamento um pouco mais acelerado e um solo de guitarra de muito bom gosto, provavelmente o mais memorável do disco, além de um acento pop irresistível, ressaltado pelas linhas de violão executadas tanto em estúdio quanto ao vivo por Kevin Cronin. “Tough Guys” é outra que marca um retorno ao pop mais inocente produzido na década de 60, esbanjando melodias que são o mais puro chiclete, muitas vezes executadas na guitarra, adicionando um toque rock ‘n’ roll. “Out of Season” e o boogie de “Shakin’ It Loose” vêm para reforçar o status desse disco que, apesar de não lançar novas diretrizes, soube como poucos condensar, em pouco mais de meia hora, um ajuntamento de canções coesas e bem produzidas, representativas da sonoridade AOR que se destacava à época, e que, principalmente, soavam bem como uma unidade ou em separado.

Kevin Cronin e Gary Richrath ao vivo

Composta e cantada pelo baixista Bruce Hall, “Someone Tonight” retoma o lado mais setentista do REO Speedwagon, enquanto “I Wish You Were There” finaliza esse curto álbum de uma maneira um pouco mais dramática, com Kevin oferecendo uma boa interpretação sobre uma base convencional, mas pontuada com competência pelos licks e solos de Gary Richrath. Certamente a faixa certa para encerrar um álbum vencedor. O REO Speedwagon pode nunca mais ter chegado ao mesmo nível de sucesso posteriormente, mas por um breve tempo, foi a atração número um nos palcos norte-americanos. Nem mesmo o êxito de “Can’t Fight This Feeling”, outra a galgar a posição mais elevada na parada de singles, conseguiu recolocar a banda no mesmo nível de evidência. Hi Infidelity não vai mudar sua vida, mas certamente pode trazer muitos momentos de deleite auditivo para quem tem um ouvido sedento de composições populares, mas com qualidade, executadas por músicos competentes. Isso o REO Speedwagon oferece com sobras.

Track list:

1. Don’t Let Him Go
2. Keep on Loving You
3. Follow My Heart
4. In Your Letter
5. Take It on the Run
6. Tough Guys
7. Out of Season
8. Shakin’ It Loose
9. Someone Tonight
10. I Wish You Were There



3 Comentarios

  1. Talvez eu dê uma chance ao REO Speedwagon, mas não sei se será esse disco. O foda é que eu li o texto inteiro tendo em mente a única música que conheço do grupo, mas quando acabei vim me tocar que a música que eu tava pensando, "Dead Ringer for Love", é do Meat Loaf! HAHAHAHAHA
    Calma, não são as dorgas.. Acontece que só ouvi os caras em uma coletânea, que conta com essa do Meat Loaf e alguma do REO, provavelmente "Take It on the Run".
    Agora, depois de ler uma penca de "I Wanna Go Back", bateu a dúvida: não existem discos de AOR que irão mudar minha vida?! São todos assim "acomodados"? #Fight

  2. diogobizotto disse:

    Então você certamente não leu todas as edições da coluna com a devida atenção, senão saberia do destaque especial que dei ao primeiro álbum, auto-intitulado, do Boston, e a "Infinity", do Journey. O segundo foi especialmente importante para mim, me apresentando uma banda que se tornaria das minhas favoritas, dotada de uma união magnífica na forma da guitarra de Neal Schon e da voz de Steve Perry.

    Guardadas as devidas proporções, outros álbuns que abordei aqui podem não ser tão importantes para o público em geral, mas para mim têm um lugar especial reservado, caso por exemplo do primeiro disco do Harem Scarem, que me revelou um grupo que, mesmo de alcance limitado, toca aqui em casa junto com os grandes.

  3. O REO Speedwagon eu conheci depois que passei a ouvir Styx, e ambas tem muitas similaridades uma com a outra. Eu gosto bastante da fase inicial do grupo, apesar de não ter nenhuma música "gravada" na cabeça para sair cantarolando ou dizer o nome, até pq não tenho os vinis do grupo, só mp3.

    O Ridin' the storm out é o que eu conheço um pouco melhor, e a fase hardeira se deve não só pela guitarra do Gary, mas também por causa do teclado do Neal.

    Dessa fase arena eu acho o Good Trouble mais interessante, mas na real, ainda não parei para ouvir ou procurar os vinis do grupo (algo q no brasil é dificil, pelo menos eu dificilmente encontro algum). O dia que fizer isso posso dar uma analisada melhor

    De qqer forma, essa é uma boa banda, que tanto a fase hard quanto a fase arena são de bom gosto, e vale a pena ser conhecida

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