Por Mairon Machado
Existem muitas bandas no rock progressivo que fizeram tantas, mas tantas maravilhas, que suas canções preencheriam facilmente um cronograma para o ano inteiro e ainda faltaria espaço. Muitos amigos me perguntaram por que eu demorei a incluir um dos principais ícones do progressivo, e a resposta é justamente por que esse ícone é um desses casos.
Desde seu início com o álbum The Piper at the Gates of Dawn (1967), o Pink Floyd enfileirou maravilhas prog como Mike Tyson enfileirou títulos nos anos 80. Portanto, para um fã do grupo como eu, escolher apenas uma maravilha era uma tarefa complicada. Certamente o Pink Floyd circulará vez ou outra nessa sessão, mas a primeira maravilha que me vem a cabeça e que talvez tenha sido aquela que me abriu os olhos para o mundo do Pink Floyd foi “The Great Gig in the Sky”.
O palco de The Dark Side of the Moon (Empire Pool, 1974)

Eu tinha cinco anos quando ouvi Pink Floyd pela primeira vez. “Another Brick in the Wall part 2” era uma das canções mais tocadas na fita BASF do meu irmão, e eu detestava aquilo. Poucos meses depois, “Comfortably Numb” entrava nas listas das mais ouvidas pelo meu irmão, e eu já começava a prestar a atenção em outra canção do Floyd, “Time”. Não demorou para que meu padrinho me presenteasse com o álbum The Final Cut, e ali eu vidrei. O Pink Floyd estava longe de ser a banda que eu pensava que fosse, e a partir de The Final Cut comecei a catar os discos mais famosos. 

Claro que o primeiro da lista foi The Dark Side of the Moon. Lançado em 1973, esse é o divisor de águas da carreira do Floyd. Antes disso, ou o grupo era um dos principais representates da psicodelia britânica do final dos anos 60, ou era quatro garotos que experimentavam de tudo sem se preocupar com vendas, fãs ou crítica, vide os álbuns Ummagumma (1969), Atom Heart Mother (1970) e Meddle (1971), além das trilhas sonoras para More (1969) e Obscured by Clouds (1972). 
David Gilmour e Nick Mason (esquerda), Rick Wright e Roger Waters (direita)
É em The Dark Side of the Moon onde finalmente o Pink Floyd encontrou seu som. Rick Wright (teclados, voz), Roger Waters (baixo, voz), David Gilmour (guitarras, voz) e Nick Mason (bateria), trabalharam intensamente durante quase um ano e meio em cima da construção de um álbum conceitual, onde seriam destacados os problemas pessoais que podem levar uma pessoa à loucura. 
Durante a turnê de Meddle, as canções que iriam cômpor o novo álbum começaram a aparecer, sendo o mesmo praticamente executado na íntegra antes mesmo de ser lançado. O resultado final de The Dark Side of the Moon foi que o LP, lançado em 1º de março de 1973 nos Estados Unidos, e em 24 de março do mesmo ano no resto do mundo, se tornou o disco mais vendido da história do Pink Floyd, e o que mais tempo permaneceu na lista dos 100 mais vendidos da revista Billboard. 

Pink Floyd ao vivo (1972)
 
Nele, canções como “Time”, “Money”, “Us & Them” e “Breathe” exalam sentimento, experimentação eletrônica, belíssimos arranjos e letras pesadas, que com o auxílio de um trabalho praticamente perfeito dos músicos contratados Dick Parry (saxofone), Lesley Duncan (vocais), Barry St. John (vocais),  Liza Strike (vocais) e Doris Troy (vocais), tornou o disco o principal da carreira do Floyd. 
Mas entre todas as canções e participações, foi a de Clare Torry, em “The Great Gig in the Sky”, onde os limites de inspiração do Pink Floyd se superaram, registrando nos sulcos do vinil uma das mais belas canções de todos os tempos na opinião deste que vos escreve (ao lado de “Bohemian Rhapsody” – Queen e “Awaken” – Yes).
 
Pink Floyd concebendo uma obra-prima (1972)

Durante a concepção de “The Great Gig in the Sky”, sua introdução contava apenas com um órgão de igreja e palavras da bíblia sendo proferidas  aleatoriamente. Efeitos sonoros, como a comunicação de astronautas durante missões espaciais, foram utilizadas, mas sem chegar a um resultado satisfatório, que só foi alcançado com a entrada de Clare.

Clare tinha 22 anos e trabalhava como cantora dos estúdios Abbey Road. Ela foi apresentada ao Pink Floyd através do prodtor Alan Parsons, que havia trabalhado com ela em um álbum de covers da Abbey Road gravado no início dos anos 70. O empresário contatou Clare, que hesitou em participar do projeto, já que ela não apreciava o som do Floyd e estava ocupada com diversos projetos pessoais. O Floyd queria uma reunião na mesma noite que a contatou, mas Clare recusou, já que ela veria Chuck Berry naquela noite.
Depois de muita insistência, a audição foi feita. Enquanto o grupo tocava a parte instrumental, Clare começou a traçar o que iria fazer, e perguntou se poderia improvisar em cima das linhas de piano, como se fosse apenas mais um instrumento para a canção. Em apenas duas sessões, Clare chegou na versão final, que é a que está em The Dark Side of the Moon.
Clare Torry
A canção abre com o piano de Wright fazendo um lindo dedilhado, chamado de “The Mortality Sequence” ou “The Religion Song”. Gilmour surge com o slide guitar, com Waters acompanhando no baixo, e uma voz é ouvida pronunciando as seguintes frases: “And I am not frightened of dying. Any time will do; I don’t mind.  Why should I be frightened of dying? See no reason for it—you’ve gotta go sometime.”.
Então, o dedilhado termina com a entrada do chimbal, e uma longa nota do slide apresenta a bateria e o órgão, com as vocalizações de Clare surgindo em um nível alto de interpretação. À medida que a bateria faz seus rolos com o baixo e o órgão acompanhando em acordes repetidos, Clare vai gritando exasperada, atingindo o auge da canção em 2 minutos e 20 segundos, onde tudo muda, ficando apenas piano e baixo, com os acordes iniciais, acompanhando a dolorida vocalização de Clare. Segure as lágrimas nesse momento, pois o que a mulher faz com a voz é algo como divino.
O piano vai aumentando o volume junto com as ondulações vocais de Clare, e fica sozinho, tendo a fala “I never said I was frightened of dying” surgindo. A cantora faz as últimas vocalizações, diminuindo o volume do piano, que tristemente, em apenas dois acordes, encerra essa maravilha em uma exaustiva, sombria e ao mesmo tempo emocionante interpretação vocal que já foi gravada em um disco.

“The Great Gig in the Sky” é a  faixa que encerra o lado A de The Dark Side of the Moon, e não à toa está nessa posição. Seu clima suave, penetrantemente sombrio e triste, é daqueles perfeitos para se refletir e muito se vale a pena virarmos o lado do vinil e ouvir o que tem na outra face, ou se paramos e apenas curtimos o orgasmo musical exalado por Clare Torry, e depois de recuperados, seguimos em frente.
Ao vivo, jamais o Pink Floyd encontrou uma cantora que pudesse repetir a perfeição emocional de Clare. Muitas cantoras até fazem bem a parte inicial, mas o momento central, onde as cordas vocais de Clare parece que vão explodir a qualquer momento, esse nunca foi alcançado. Tive o prazer de ver o Australian Pink Floyd Show fazer uma versão quase perfeita para essa maravilha. Não fosse o último agudo da australiana, que acabou se desculpando por ter falhado naquele momento, o grupo cover teria feito a proeza de repetir ao vivo o trabalho feito 30 anos antes. Nem o Dream Theater, com suas fieis e impecáveis técnica e perfeição, chegou perto. O mais próximo foi realmente a Australian Pink Floyd Show, que pode ser conferido nesse vídeo. Uma bela interpretação, que peca em pouquíssimos detalhes de uma canção que, até hoje, bate forte no coração de qualquer cidadão que entenda um pouco de música, mesmo que não goste de rock.
Wright, Waters, Mason e Gilmour (1972)
Apenas como complemento, os números de The Dark Side of the Moon são impressionantes. O LP alcançou o primeiro lugar em vendas no Canadá e na Nova Zelândia, foi o segundo mais vendido na Grã-Bretanha, Noruega e Itália e ficou em décimo na Finlândia. A fita do álbum foi a mais vendida nos Estados Unidos. 

Earls’ Court, 1973
Ainda, no geral, o LP foi platina na Polônia, platina dupla na Argentina, Áustria e Alemanha, platina ena (9 vezes) na Grã-Bretanha, platina endeca (11 vezes) na Austrália, diamante duplo no Canadá e platina pentedeca (15 vezes) nos Estados Unidos. Somente nesses países, o número de LPs vendidos foi mais de 23 milhões de cópias, sendo o estimado em todo mundo no absurdo número de 45 milhões de cópias, um marco superado apenas por Thriller (Michael Jackson), com 50 milhões, e Back in Black (AC/DC), com 49 milhões.
Na Grã-Bretanha, é o sexto álbum mais vendido da história, atrás apenas de Greatest Hits (Queen), Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (The Beatles), Gold – Greatest Hits (Abba), What’s the Story Morning Glory (Oasis) e Brothers in Arms (Dire Straits). Para completar, permaneceu 741 semanas entre os álbuns mais vendidos, desde seu lançamento, em 1973, até o ano de 1988, recorde absoluto.


Excelentes números para um excelente álbum, que apesar de não ser o meu favorito do Floyd, não pode ser desprezado, ainda mais com os maravilhosos quatro minutos e cinquenta e cinco segundos de “The Great Gig in the Sky”.

12 comentários

  1. Groucho KCarão

    O Dark Side também não é meu favorito do Floyd, mas é um ótimo disco, e "The Great Gig in the Sky" é um dos motivos. Eu lembro de meus primeiros semestres na universidade, quando eu e meus amigos ficávamos "cantando" a música INTEIRA pelos corredores! Hoje em dia eu nem chegaria perto disso, mas na época, sim, nós tentamos decorar cada notinha da Clare Torry e pagávamos esse mico por lá. Apesar disso, eu prefiro bem mais "Money" e, essa sim, eu ainda devo saber cada notinha e seria capaz de "cantar" em público os maravilhosos solos de sax e guitarra!

    Responder
  2. Mister

    Juro que eu pagava para ver o Adriano nos corredores da universidade esgoelando "feito" a Clare Torry. Isso sim é uma maravilha do mundo prog bizarro.

    Responder
  3. Mairon Machado

    Fernando, a Clare participou apenas de dois shows no dia 04 de novembro de 73 para arrecadar dinheiro para o baterista Robert Wyatt (Soft Machine). Ela recebeu 30 libras pela gravação de The Great Gig in the Sky. Os shows foram inicialmente com as Black Grass (Nawasa Crowder, Mary Ann Lindsey & Phyllis Lindsey) e depois com as Blackberries (Billy Barnum, Venetta Fields & Clydie King).

    Groucho, gostaria de ouvir tu cantando essa canção e soltando teus falsetes, é muita coragem, eoaoiaohiea

    "Money" é outra maravilha tb, assim como Us & Them. Pink Floyd até 79 quase tudo é maravilha na verdade.

    Abraço

    Responder
  4. diogobizotto

    Minha favorita no disco é "Us and Them", mas convenhamos, o álbum é uma maravilha de ponta a ponta. A maioria das faixas presentes merece tal título. Assim como os amigos disseram, não é meu favorito, honra pertencente a "The Wall" e seu magnífico conceito, mas que é uma obra-prima da música, ninguém pode negar.

    Responder
  5. Saec Torin

    Não se define Pink Floyd. Eles são simplesmente gênios e mestres do inesperado. O Dark Side Of The Moon é um ótimo álbum e eu gostaria de ver um show inteiro dessa turnê algum dia.

    Ótima resenha, Mairon!

    Responder
  6. Anônimo

    O que vocês,aqui da Consultoria do Rock,acham,da lenda,do Dark Side Of The Moon,ter sido gravado,em sincronia,com o filme,O Mágico de Oz????

    Responder
  7. fernandobueno

    Caro Anônimo
    Eu encaro isso como uma enorme coincidência. E a lenda foi ficando cada vez maior que todo mundo começou a "descobrir" cada vez mais alguma coisa e deixou a lenda maior ainda. O filme sincronizado com o disco já foi pretexto para eu tomR muita cervejas e sempre mostro para alguem que ainda não viu…mas como disse não dá para encarar de outro jeito…

    Responder
    • Eudes Baima

      Eu vi várias vezes este vídeo que era sucesso na internet há uns 10 anos e nunca vi nada de especialmente sincrônico não…

      Responder
      • maironmachado

        Putz, eu vi ele duas vezes, e nas duas vezes fiquei impressionado com a sincronidade (principalmente para TGGITS e Money)

  8. Igor Maxwel

    Ah, The Dark Side of the Moon, O PRINCIPAL (sim, com maiúsculas) disco do rock progressivo, a obra máxima do Pink Floyd e um dos melhores álbuns de todos os tempos (senão o melhor), independente de suas vertentes. Este foi o álbum que me fez gostar de verdade da banda e que fez de mim um dos fãs mais fervorosos do grupo, após um começo bem diferente com o Animals, alguns discos da fase inicial (de The Piper á Obscured by Clouds), e da fase pós-Waters (Momentary Lapse of Reason, Division Bell e os dois discos ao vivo da banda). Em suma, 1973 foi um ano muito bom para a história da música como um todo!

    Responder
  9. Anônimo de volta

    Além da música ser linda, a cantora também faz jus a música. Que mulher linda! hehehe

    Responder

Deixar comentário

Seu email NÃO será publicado.