Por Mairon Machado

Recentemente eu comentei sobre o CD Hall of Fame do The Moody Blues. Hoje vou dar uma destrinchada no DVD relativo ao mesmo show. Para aqueles que querem resgatar seus sonhos de ver e ouvir determinadas canções com orquestra, Hall of Fame é um DVD de mão cheia. A bolacha digital traz a apresentação de um dos primeiros (se não o primeiro) grupos a criar o estilo chamado rock progressivo, e que foi formado em 1964, em uma apresentação no dia primeiro de maio de 2000, no Royal Albert Hall de Londres.

 Formação do The Moody Blues em 2000. Da esquerda para a direita:
Ray Thomas, John Lodge, Justin Hayward e Graeme Edge
O grupo na época era composto por quatro dos mais importantes músicos que passaram pela banda: Justin Hayward (guitarras, voz), John Lodge (baixo, voz), Ray Thomas (flauta, percussão, voz) e Graeme Edge (bateria, percussão), e nessa apresentação, contam com a participação de Paul Bliss e Bias Boshell (teclados), bem como Tracy Graham e Sue Shattock (backing vocals) e Gordon Marshall (bateria), além da The World Festival Orchestra, regida pelo maestro Larry Baird. 
Milhares de pessoas, em sua maioria acima dos 40 anos de idade, lotaram o Royal Albert Hall, e acabaram presenciando o lindo e arrepiante início apenas com orquestra, chamado “Overture”, que faz um review sobre três das principais canções do grupo, passando por “Legend of a Mind”, “Tuesday Afternoon” e “Nights in White Satin”. Segure o coração, pois os arrepios brotam como água da pedra, principalmente com a fusão das cordas com a imagem pomposa do Royal Albert Hall, e então o The Moody Blues entra no palco, mandando ver em “Tuesday Afternoon”, um dos maiores clássicos do álbum Days of Future Passed, lançado em 1967, e que muitos definem como sendo o primeiro álbum de rock progressivo da história.

Apesar da idade já ter pegado em Hayward, Lodge e principalmente Edge (com sua longa barba branca) e Thomas, que parece um tiozão dono de padaria, o estilo e imponência clássica do quarteto permanece em alta. Eis que surge “English Sunset”, do álbum Strange Times (1999), com um estilo AOR que ganhou pontos com o arranjo orquestral.

As cordas apresentam a bela “Words To Say”, também do álbum Strange Times, a qual é cantada por Lodge, que mantém o vozeirão em alta, seguida pela pesada “The Story In Your Eyes”, onde Hayward manda ver na guitarra neste clássico do álbum Every Good Boy Deserves Favour (1971). É muito divertido quando no solo de Hayward os três velhinhos – Howard, Lodge e Thomas – vão para a frente da plateia, que em delírio, aplaude o trio que se comporta como jovens metaleiros em início de carreira.
 

O DVD então passa por “I Know You’re Out There Somewhere”, do LP Sur La Mer (1988), com outro belo arranjo orquestral com destaque para a harpa e para os sinos tubulares, e “Haunted”, outra de Strange Times, que não chega a empolgar.

A partir de então, só clássicos, começando com “Your Wildest Dreams”, de The Other Side of Life (1986), e uma bela introdução que leva a esse clássico da época em que Patrick Moraz pilotava os teclados do grupo, com divertidas brincadeiras entre Graham e Gordon, bem como um cidadão doido que começa a fazer piruetas no meio dos corredores do teatro e que levanta o público.

 John Lodge
Lodge assume o baixo de dois braços para dividir os vocais com Hayward na linda “Isn’t Life Strange”, do LP Seventh Sojourn (1972), a qual contém uma bonita introdução com Thomas na flauta acompanhado pela orquestra, e um apoteótico encerramento, para então a paulada “I’m Just a Singer (In a Rock and Roll Band)”, também de Seventh Sojourn, colocar o Royal Albert Hall abaixo, com um peso extraordinário das duas baterias e dos vocais de Lodge, Thomas e Hayward, que apesar de não serem potentes como na versão original, ainda arrepiam.

Quem não mexer o corpo com essa canção é que não tem alma, já que o pique é avassalador, e as sessões de mellotron, originalmente feitas pelo melhor tecladista que passou na banda, Mike Pinder, ficaram ainda mais belas com a orquestra viajando nas notas dessa que para mim é a melhor faixa da banda nos anos 70. Destaque principal para o público, que acompanha de pé e com palmas os mais que pesados 6 minutos de uma verdadeira panela de pressão que se torna o Royal Albert Hall, e para o show particular de Hayward, o guitarrista e compositor que substituiu nada mais nada menos que Denny Laine (Ginger Baker’s Air Force, Wings…) e que junto com Lodge, que substituiu Clint Warwick, deu ao The Moody Blues o caminho para o sucesso. 


 Justin Hayward
É justamente Hayward que puxa a mais aguardada canção da noite. Lançada em Days of Future Passed,  “Nights In White Satin” faz até o mais satânico dos metaleiros ir as lágrimas, e nesse DVD, basta o primeiro acorde para a plateia e o telespectador cairem em choro. Os vocais de Hayward acompanhado pela lenta cadência de Lodge e Edge vão ganhando espaço, assim como as cordas – fazendo as vezes do mellotron – invadem esse espaço de forma suave e pacífica, numa harmonia rara para as canções feitas na década de 60.

É impossível não segurar as lágrimas no divino solo de flauta feito por Thomas, e o arranjo orquestral imitando o mellotron é fenomenal. Tudo perfeito para uma canção perfeita. Apesar de eu não achar a melhor canção do grupo, não posso negar que é uma das maiores canções de todos os tempos. E me perdoem os fãs de Beatles, mas já procurei em toda a discografia da banda e não encontrei nada que possa chegar perto de “Nights in White Satin”. Mesmo “Yesterday”,o maior clássico dos Fab Four, não consegue carregar a dramaticidade dessa incrível faixa.

Thomas assume os vocais em “Legend of a Mind”, de In Search of the Lost Chord (1968), o mais progressivo LP da banda, aqui em uma versão mais rápida que a original e contando com outro belo solo de flauta feito por Thomas, e chegamos a “Question”, do maravilhoso A Question of Balance (1970), onde novamente o público acompanha com palmas mais uma paulada criada pelos Moodies.

O DVD encerra com outra pérola de In Search of the Lost Chord, “Ride My See-Saw”, onde o Royal Albert Hall vira um salão de festas, com todos dançando e agitando as mãos para cada nota de mais um clássico da banda, e ao final, os músicos apertam as mãos dos presentes nas primeiras filas do teatro, que ensandecidamente aplaude de pé o quarteto.


 Cartaz da apresentação no Hall autografado
O único defeito do DVD é a curta duração (pouco mais de 80 minutos) e a ausência de extras, mas enfim, ele é excelente para conhecer um pouco sobre uma das mais importantes bandas dos anos 60 e 70, ou para ver como funcionou com a orquestra aquelas canções em que você viajava ouvindo o mellotron de Pinder ao fundo de um arranjo vocal seminal tendo a potente bateria de Edge para guiar essas obras-primas.
Track list:

1. Overture
2. Tuesday Afternoon
3. English Sunset
4. Words You Say
5. The Story in Your Eyes
6. I Know You’re Out There Somewhere
7. Haunted
8. Your Wildest Dreams
9. Isn’t Life Strange
10. I’m Just a Singer (In a Rock and Roll Band)
11. Nights in White Satin
12. Legend of a Mind
13. Question
14. Ride My See-Saw

3 comentários

  1. diogobizotto

    NENHUMA, vou repetir, NENHUMA banda consegue brincar de orquestra tão bem quanto o The Moody Blues. Quem quiser amostras desse show conseguirá com facilidade no YouTube. Alguns diriam que é um espetáculo para velhos e outras coisas do tipo. Eu digo que é música de primeira em um belíssimo cenário.

    Quem não gosta de Mody Blues não é meu amigo, rá!!!

    Responder
  2. diogobizotto

    Rafael, procura os vídeos de "Question" e "I'm Just a Singer (In a Rock and Roll Band)". Se essas não pegarem, acho difícil que gostes da banda… mas vamos lá!

    Responder

Deixar comentário

Seu email NÃO será publicado.