Ouve Isso Aqui: Efemérides 6 por Anderson Godinho

Ouve Isso Aqui: Efemérides 6 por Anderson Godinho

Com André Kaminski, Davi Pascale, Mairon Machado, Marcelo Freire e Marcello Zapelini

Começamos hoje uma série de Ouve Isso Aqui baseada em lançamentos com efemérides 6. Assim, até o final do ano, 6 consultores irão trazer sua lista de 5 indicados (mais um bônus) relativos aos anos de 1966, 1976, 1986, 1996 e 2006, com o bônus podendo ser de qualquer ano terminado em 6 (inclusive 2026). Na estreia, Anderson Godinho traz clássicos da música. Veja o que nossos consultores acharam das escolhas de Anderson, lembrando que os discos indicados não podem ter aparecido nas nossas listas dos referidos anos.

Apresentação por Anderson Godinho

Apresento a minha lista de álbuns relativos à proposta do site de retomar materiais relevantes em suas respectivas épocas de lançamento e que coincidam com os múltiplos de 2026. A lista foi escolhida a dedo com a ideia de mostrar um pouco das minhas influências pessoais, mas alinhadas à proposta inicial. Ela traz clássicos em suas respectivas bases de fãs, como nos casos de Matanza, Metal Church e Arch Enemy, mas também materiais cuja importância se destaca mais no contexto atual do que em suas épocas de lançamento, como no caso de Black Sabbath e, mesmo The Who. Desejo uma boa audição a todos que se aventurarem a fazê-la!


The Who – A Quick One [1966]

Anderson: Esse segundo álbum de estúdio do The Who soa um tanto inesperado quando é considerado o que fôra apresentado no primeiro. Muitos atribuem isso ao fato de a composição ter tido maior participação de todos e ser menos centralizada em Pete Townshend. É possível reconhecer algo de R&B ou mais voltado ao pop do que a proposta mod apresentada no debut. Se, por um lado, “Cobwebs and Strange” ou “Boris the Spider” destoam do todo e soam deslocadas, “A Quick One, While He’s Away” se torna algo que a banda viria a reproduzir e incrementar de outras formas em seus materiais posteriores, como em “Tommy”. É um álbum interessante e que mostra um The Who ainda tentando encontrar seu melhor, o que viria apenas nos anos posteriores.

André: Gosto muito mesmo do The Who, mas este segundo álbum sempre me passou batido e sem muita atenção de minha parte. Não gosto muito de ficar comparando com outros discos da banda, mas nas duas poucas vezes que ouvi com essa sendo a terceira, sinto que deveria logo botar um Tommy ou um Who’s Next. A banda segue aquele pop rock mais juvenil, ainda influenciados por Beatles e outras contemporâneas do rock inglês sessentista, mas cujas composições não se destacam muito aos meus ouvidos. “Whiskey Man” e “Heatwave” são até divertidas, e é isso.

Davi: Sempre gostei muito do The Who. Esse é um álbum que não é muito comentado por aí, mas é um trabalho bacana. Nesse segundo disco, os músicos recorriam bastante à sonoridade clássica da british invasion. Influência facilmente sentida em faixas como “Run, Run, Run”, “So Sad About Us” e até mesmo em “I Need You”, que embora traga um Keith Moon endiabrado, usando e abusando de suas características viradas, ainda era uma canção pop baseada em uma forte harmonia vocal. Temos aqui, uma versão do clássico “Heat Wave” que, embora divertida, não chega aos pés da versão de Martha & The Vandellas. Sem dúvidas, a versão definitiva dessa canção é a da girl group da Motown. Os pontos altos, certamente, ficam com os clássicos “A Quick One While He´s Away” (a primeira ópera rock do grupo de Pete Townshend que, 3 anos depois, receberia uma versão explosiva no histórico Rock n´ Roll Circus) e “Boris, The Spider”. Boa lembrança…

Mairon: O segundo disco do The Who mantém a linha de seu antecessor, com bons rocks na linha tradicional das Britishs Bands dos anos 60, influenciados por Beatles, e claro, tendo destaque para a guitarra de Pete Townshend. Faixas como “Don’t Look Away”, “Heat Wave”, “Run Run Run” e “See My Way” (está inspirada em uma certa marchinha do carnaval brasileira??) apresentam os delicados vocais de Daltrey acompanhados por boas harmonias vocais, e a guitarra sendo o instrumento relevante. Ao mesmo tempo, Daltrey não é o vocalista em todas as canções. Entwistle é o centro das atenções com seu baixo e voz na divertida “Boris, The Spider”, e no rock puro The Who de “Whiskey Man” . Gosto bastante de “I Need You”, canção a cargo de Keith Moon nos vocais, e com ótima participação do piano elétrico, lembrando The Doors. Ainda tem espaço para Moon também fazer seu solo na brincadeira de “Cobwebs And Strange”, onde o que se salva é a loucura Mooniana nas baquetas, e a lindinha “So Sad About Us”, uma das minhas preferidas dos britanicos (acho que vou fazer um 10 Favoritas, quem sabe). Só que é a faixa-título quem manda em tudo. A mini-ópera rock do marido que pega a esposa “no ato”, dando uma rapidinha enquanto ele tinha saído de casa, deve ter apavorado muita gente em 1966, e mostra toda a genialidade de Townshend em criar uma história envolvente, com um final mais que surpreendente. Falando em faixa-título, a versão estadunidense, chocada com o duplo sentido da frase A Quick One, colocou “Happy Jack” no lugar de “Heat Wave” (já que a primeira havia feito um certo sucesso como single lançado semanas antes) e batizou o disco com este nome. Cho-can-te! (piada né, fala sério).

Marcelo: Eu não o colocaria na lista, embora seja um excelente disco. Um álbum que abre com a venenosa “Run Run Run” não pode ser um lançamento qualquer. Creio que a versão estéreo seja boa, mas sempre ouço a original em mono e viajo para uma época em que tenho a impressão de ter vivido, ainda que somente pela música e pelo cinema. Eu o deixaria de fora apenas por achá-lo desigual em certos momentos. Enquanto “Boris the Spider” é fraquinha – podem me tacar pedras, sei da importância da música de John Entwistle, mas nunca me pegou –, “I Need You” tem uma psicodelia daquelas. Em seu segundo álbum, o The Who começava a firmar uma identidade própria, num disco pop, roqueiro e psicodélico na medida certa, justamente em 1966, quando parecia que o psicodelismo vinha avassaladoramente para cima de todo mundo. A banda também absorveria esse experimentalismo e o levaria ainda mais longe no ano seguinte. Agora, cravando minha favorita: “Heat Wave”. Sem dúvida alguma, estaria entre minhas três músicas preferidas de 1966. Nunca entendi como uma faixa dessas acabou ficando tão apagada dentro do repertório da banda e de fora de seus setlists.

Marcello: Para mim, um dos discos que menos se destacam na discografia do The Who, mas nem por isso deve ser considerado ruim (pelo contrário); o grande problema é que ele é antecedido por My Generation, um dos melhores discos de estreia dos anos 60, e sucedido por uma sequência impressionante de obras-primas (The Who Sell Out, Tommy, Who’s Next e Quadrophenia). “Run Run Run” é uma versão piorada de “My Generation”, mas “Boris The Spider” é um clássico que ilustra bem o senso de humor perverso de John Entwistle, que também contribuiu com a razoável “Whiskey Man”, uma das músicas menos conhecidas dentre as que a banda gravou dele, e que me lembra um pouco o trabalho dos Beatles em 65-66. Keith Moon compôs “I Need You” e “Cobwebs and Strange”; a primeira é um pop agradável, a segunda uma bizarra marcha instrumental em que ele arregaça na bateria. Roger Daltrey saiu-se com “See My Way”, divertidinha, mas nada além disso, e a banda regravou bem “Heat Wave”, clássico da Motown. É nas composições de Pete que o disco ganha brilho: é verdade que a já citada “Run Run Run” não me atrai e a pouco conhecida “Don’t Look Away” sempre me soou uma música inacabada (como se Townshend não tivesse se esforçado muito para elaborá-la); músicas que estão aquém do trabalho do guitarrista, mas ele nos brinda com as ótimas “So Sad About Us” (uma balada linda, com belas guitarras e um excelente arranjo vocal com Roger e John) e a mini-suite “A Quick One (While He’s Away)”, primeira demonstração da sua habilidade de storyteller que faria a diferença na carreira subsequente do The Who; nove minutos que passam voando por personagens absurdos, mudanças de ritmo e um desempenho fantástico do quarteto – e a parte em que eles cantam cello cello cello cello é hilariante (Townshend queria um arranjo de violoncelos, mas a produção não tinha dinheiro para contratar os músicos). A versão americana do disco trazia “Happy Jack” (que tem um vídeo promocional hilariante deles como bandidos) no lugar de “Heat Wave”, e ela rebatizou o disco, pois o título original foi considerado meio arriscado.


Black Sabbath – Technical Ecstasy [1976]

Anderson: Esse é um dos meus álbuns mais queridos de todos os tempos. Lembro do dia em que meu pai me deu uma das raríssimas oportunidades de escolher um CD original para comprar. Ouvi trechos de vários materiais e escolhi esse. Não tinha acesso a informações sobre bandas, discografias, histórias e, portanto, a escolha se deu pelo ouvido! É um clássico que mereceria mais carinho e atenção dos fãs; todas as músicas são boas, musicalmente é diverso, criativo, abriu portas que o Sabbath ainda não tinha ousado abrir, possui um Ozzy Osbourne cantando muito… apesar da crise pela qual a banda passava. Vale ressaltar que é um disco criticado por muitos, controverso para os próprios membros da época, mas que defendo até a morte como uma obra grandiosa e repleta de novidades e ótimos momentos. Quem nunca ficou pensando em um final menos abrupto para “Back Street Kids” não gosta de Black Sabbath! Destaco ainda as boas baladas “It’s Alright” e “She’s Gone” (sendo esta uma pérola!), gosto muito de “Gypsy”, com seu começo gradual, e da boa “You Won’t Change Me”, que se mostra bem diversa ao longo de seu tempo em cena, flertando com um hard rock de peso. Além disso, sua capa destoa dentro da discografia e, mesmo sendo criticada até pelos membros da banda, o tempo à tornou um verdadeiro xodó para muitos! Minha camiseta que diga.

André: Com certeza o Mairon pagou uma boa maleta de dólares ao Anderson para indicar o disco preferido de 0,87% dos fãs do Sabbath. Não é um disco ruim e até envelheceu melhor do que eu esperava dele, mas ainda é parte da fase mais fraca da primeira passagem de Ozzy junto com seu imediato posterior. A banda está mais melódica e até mais “hard/blues” do que o peso de antes, e até criou canções legais como “It’s Alright” cantada por Ward e “You Won’t Change Me” que poderia estar em qualquer um dos grandes discos da banda. É um disco mediano com alguns bons momentos, mas que alguns o chamam de “injustiçado” (que na minha opinião, Headless Cross deveria receber este título).

Davi: Esse disco sempre foi massacrado por uma boa parcela dos fãs, mas eu sempre gostei bastante. O motivo do ataque acredito que seja a mudança no seu som. Aqui, eles abandonavam aquela sonoridade pesada e arrastada dos primeiros álbuns (algo que aparece somente na introdução de “You Won´t Change Me”) e apostavam em arranjos mais complexos e variados. Bill Ward entrega um bom trabalho vocal na bonita balada “It´s Alright” (que anos mais tarde receberia uma regravação, bonita e delicada, do Guns n Roses no álbum Live Era), mas é realmente nas vocalizações únicas do lendário e saudoso Ozzy Osbourne que se encontram os grandes momentos do disco. Os destaques ficam com a (ótima) faixa de abertura “Back Street Kids”, além de “Rock n´ Roll Doctor” e “Dirty Women”. Se você não espera que o artista sempre entregue mais do mesmo, você tem de tudo para apreciar esse álbum. Um grande disco que não merece o ataque que recebe.

Mairon: Para muitos, o mais fraco álbum da carreira do Sabbath, considerado “fora dos padrões” do Metal sabbáthico, mas que eu amo de paixão. Da fase Ozzy, é o segundo melhor disco dos caras, disparado. O que Iommi e Butler estão tocando aqui é fora dos padrões, e Ward simplesmente estava na sua melhor forma como música. Além disso, temos os teclados de Gerald Woodruffe, que ajudaram ainda mais a aumentar o desprezo pelo álbum, mas que fazem toda a diferença em diversas canções. Tehnical Ecstasy é uma paulada atrás da outra, abrindo com a violentíssima pedrada de “Back Street Kids”. No nível dela e tão pesadas quanto, surgem ao longo do LP a fantástica “Dirty Women” – que momento ouvir ela ao vivo com os caras em 2013 – , com leves passagens jazzísticas, “Gypsy”, um bom rock pesado para não se botar defeito, com uma virada sensacional e Iommi apresentando um estilo que iria vigorar em seus solos nos anos 80, com mutas notas rápidas, e a belíssima “You Won’t Change Me”, para gritar junto com Ozzy o refrão, e se enlouquecer com a tecladeira. Temos o divertido rock de “Rock ‘n’ Roll Doctor”, citações ao jazz no trecho instrumental de “All Moving Parts (Stand Still)”, e “It’s Alright” (coverizada ao vivo pelo Guns N’ Roses futuramente), linda, levada por piano e o vocal de Bill Ward. Por fim, como não se comover com “She’s Gone”, uma das canções mais agonizantes que já ouvi, em uma performance fantástica de Ozzy. Um dos melhores discos de todos os tempos, e que estaria na minha lista fácil e obrigatoriamente. Mas – felizmente – o Anderson trouxe ele aqui, de cara. Melhor disco da lista, disparado.

Marcelo: Aqui estou bem mais próximo do Anderson. Considerando que eu não colocaria nem o Thin Lizzy e, provavelmente, nem o Ramones na lista publicada, Technical Ecstasy seria forte candidato ao meu top 10 de 1976. Sei que está longe de ser consenso entre os fãs do Sabbath e que aparece espremido entre uma sequência quase absurda de clássicos da banda e o problemático Never Say Die!, mas sempre gostei justamente de sua disposição para sair um pouco da fórmula. “You Won’t Change Me”, “Gypsy” e, sobretudo, “Dirty Women” seriam argumentos mais do que suficientes para eu brigar por uma vaga. E ainda há Bill Ward cantando “It’s Alright”, uma das deliciosas anomalias da discografia do Sabbath.

Marcello: Um disco injustiçado. Claro, não tem o peso e a agressividade dos três primeiros e mostra a banda experimentando com melodias mais elaboradas e complexas, além de trazer mais variação nas músicas, mas como falar mal de um disco que começa com a veloz “Backstreet Kids” e termina com Iommi arregaçando no solo de “Dirty Women”? Technical Ecstasy só não ranqueia mais alto nas listas de melhores do Sabbath porque a banda tem discos absurdamente bons! O disco traz bons rocks como “Backstreet Kids”, “All Moving Parts (Stand Still”), “Gypsy” (com aquela introdução que te faz tocar air drums mesmo depois dos 50 anos…) e a divertida “Rock’n’Roll Doctor” (tola e inconsequente, mas ótima para bater cabeça), baladas como “It’s Alright” (Bill Ward se mostra um bom cantor) e “She’s Gone” (essa é de cortar o coração, com seu belo arranjo de cordas), e as bem elaboradas, quase progs, “You Won’t Change Me” e “Dirty Women”. Os arranjos são mais sofisticados, com presença bem forte dos teclados de Jezz Woodroffe, a produção (creditada ao grupo, mas sabe-se que foi Iommi quem assumiu a batuta) é clara e o disco, bem gravado (no Criteria Sound de Miami – e o Eagles gravava Hotel California no mesmo lugar!). A Super DeLuxe Edition de 2021 é bem interessante, com um remix do disco que tornou “All Moving Parts…” mais de meio minuto mais longa, alguns outtakes que incluem duas versões diferentes de “She’s Gone”, uma delas instrumental e a outra com acompanhamento da bateria de Bill, bem como material gravado ao vivo em Pittsburgh (dezembro de 1976), em que três músicas do disco original são apresentadas. Apesar do que muita gente diz por aí, acho que vale muito a pena ouvir Technical Ecstasy.


Metal Church – The Dark [1986]

Anderson: Não vou mentir dizendo que sou um fã incondicional do Metal Church; pelo contrário, deixo os estadunidenses no segundo escalão do thrash metal. Porém, esse álbum é um dos melhores da banda e, ainda, conta com curiosidades, como o fato de ter sido dedicado a Cliff Burton, recém-falecido. Aliás, o material foi lançado apenas nove dias após o acidente fatal. Esse álbum foi o último gravado efetivamente com a formação clássica, composta por David Wayne, Kurdt Vanderhoof, Craig Wells, Duke Erickson e Kirk Arrington; foi o primeiro álbum produzido no contexto da gravadora Elektra e, portanto, bem produzido. Esse fato ajuda a entender o bom desempenho comercial do material, que seria divulgado em turnês distintas com Metallica, Anthrax, Megadeth e King Diamond. Para mim, “The Dark” e “Method to Your Madness” funcionam muito bem, mas muitos gostam de destacar a cadenciada “Watch the Children Pray” como a maior do álbum, o que discordo, mas sem considerá-la ruim. Enfim, material fundamental para entender a banda, ainda mais que em 2027 estarão por aqui.

André: Gosto muito deles e deste disco. Uma banda que nunca alcançou a primeira divisão, mas que dificilmente decepcionou ao longo de sua vasta discografia. The Dark vem de uma fase que a banda também apostava no thrash, mas sem soar tão agressiva quanto Slayer ou o Metallica da época, ainda contendo muitos riffs do metal tradicional e do nascente power. Dá de banguear o pescoço facilmente ao som de pedreiras como “Start the Fire” e “Burial at Sea”.

Davi: Meu primeiro contato com o Metal Church foi na década de 90 quando um amigo mais velho me emprestou o primeiro disco deles. Aquele de capa preta que tem a guitarra. Lembro que fiquei bem impressionado. Depois de alguns anos, consegui comprar o LP que aparece na matéria. Engraçado que ao longo dos anos, vi muitos jornalistas criticando a produção desse álbum, dizendo que não soava tão forte quanto o anterior, mas acho a produção dele mais forte que a do debut. Em termos de repertório, acho o debut superior. Para quem não conhece o grupo, a jogada aqui é fazer um heavy metal tradicional com influências de thrash (gênero que estava no auge, na época). E para curtirmos o disco, precisamos entrar numa máquina do tempo e nos transportarmos para a década de 80. Não tem como não notar que a mixagem do álbum (ainda que superior à estreia) soa datada, assim como os trabalhos vocais exagerados de David Wayne. Em relação ao tracklist, minhas faixas preferidas ficam por conta de “Tons of Bricks”, “Start The Fire”, “Over My Dead Body” e “Western Alliance”. Foi bacana redescobri-lo.

Mairon: Lembro de quando era um fominha da Consultoria do Rock, e buscava ler todas as matérias publicadas por aqui, além de ir atrás das bandas que não conhecia. Foi assim que numa lista de Cinco Discos Para Conhecer: A Seattle que Não É Grunge que cheguei ao Metal Church. Nunca me aprofundei na história da banda, mas este disco de estreia dos estadunidenses é pesadíssimo e muito bom de se ouvir. O guitarrista Kurdt Vanderhoof é um monstro nas seis cordas, e o vocalista, David Wayne me lembra muito Rob Halford, rincipalmente na faixa-título, paulada na cabeça! Curto bastante “Method to Your Madness”, “Over My Dead Body” e “Western Alliance”, mas principalmente a fantástica “Psycho”, com um riffzão fodido de veloz, e “Ton of Bricks”, ótima faixa que abre o disco lá em cima. Para quem gosta do Metallica fase Kill ‘em All (e lembrando que Cliff Burton é homenageado no encarte, com a frase “This album respectfully dedicated to Cliff Burton”, falecido dias antes do lançamento), “Watch the Children Play” é tiro certo! Baita lembrança

Marcelo: Olha, sendo bem sincero, num ano em que ficaram de fora Black Sabbath com Seventh Star, Engenheiros do Hawaii com Longe Demais das Capitais, o ótimo e esquecido Snake com Let the Music Begin, Europe com The Final Countdown, Crimson Glory com seu disco de estreia e alguns outros bons álbuns, não seria do Metal Church que eu me lembraria primeiro… Ok, The Dark é um bom disco, tem “Ton of Bricks”, “Start the Fire” e a excelente “Watch the Children Pray”, mas 1986 é simplesmente concorrido demais. Aqui, o problema não é o disco escolhido pelo Anderson; são todos os outros que também ficaram do lado de fora.

Marcello: Essa era uma banda que eu ouvia falar quando comecei a gostar de hard e heavy nos idos de 1985, e esse era um disco que na época que saiu foi muito elogiado nas revistas de rock que lia, mas nunca tinha ouvido (não por falta de vontade; não tinha dinheiro para comprar o disco e nenhum dos meus amigos possuía um para emprestar). O som é legal, e em especial os riffs de “Start the Fire” me agradam bastante. Outros destaques incluem “Method to Your Madness”, “Watch the Children Pray” (bem mais elaborada, e mostra que Wayne podia cantar bem quando queria), o peso insano de “Psycho” (adoraria ver um Rob Halford nos vocais dessa), a mais leve “Line of Death” (bom solo de Craig Wells) e os bons riffs de “Burial at Sea”. No todo, um bom disco de heavy metal oitentista que eu vou ouvir menos do que deveria por causa do vocal… Sobre a banda em si, Craig Wells e o chefe Kurdt Vanderhoof formam uma dupla afiada de guitarristas, o baixista Duke Erickson não se destaca muito e o baterista Kirk Arrington é perfeito para esse tipo de heavy. O vocalista David Wayne arrisca uns agudos muito bons, mas a voz rasgada que usa na maior parte do tempo não me atrai muito (mas pelo menos não compromete). No fim das contas, se tivesse ouvido o disco em 1986, provavelmente teria me tornado fã da banda, mas hoje fica como algo que gosto de ouvir de vez em quando, sem me preocupar em comprar os discos. Aliás, o Metal Church lançou um disco nesse ano de 2026 (com Dave Ellefson no baixo), e, em que pese os vocais continuarem aquém do que aprecio, gostei bastante. Espero que Kurdt Vanderhoof mantenha a banda em funcionamento, pois o som do grupo continua honesto e fiel às suas raízes.


Arch Enemy – Black Earth [1996]

Anderson: Como um adorador do dito metal de Gotemburgo, não pestanejei em incluir esse álbum como o meu representante oficial de 1996. O contexto é de um Michael Amott pós-Carcass lutando para imprimir suas ideias de modo mais independente e criativo. O resultado é um marco do death metal melódico sueco e o disco que apresentou a fórmula que definiria o Arch Enemy: riffs melódicos afiados, bateria agressiva, velocidade e vocais guturais. Estes, por sua vez, são talvez o pequeno pecado inicial; Johan Liiva não está à altura da proposta, e isso pode ser experimentado ao ouvir as regravações que aparecem no álbum “The Root of All Evil”, em que a poderosa Angela Gossow apresenta suas versões para alguns clássicos como “Bury Me an Angel” e “Dark Insanity”, derivadas do Black Earth. Porém, o material de 1996 é épico em vários momentos: “Fields of Desolation”, as duas citadas, “Eureka” (clássico absoluto!) ou “Transmigration Macabre”, com uma levada mais direta. Destaco ainda a instrumental “Demoniality”, que traz algo que seria muito comum nos álbuns de bandas do gênero: curtas transições instrumentais, muitas vezes leves, limpas, mas tensas. Por fim, é um material obrigatório para os que curtem death metal melódico, para quem curte Arch Enemy e para quem gostou da nova vocalista da banda, Lauren Hart! Esta que retoma a versão mais agressiva da banda, perdida em parte com a ex vocalista Alissa White-Gluz, cujo estilo é um tanto mais melódico.

André: Nada demais por aqui. A banda mesmo só se diferencia de várias outras quando entra Angela Gossow uns anos depois. O instrumental é muito bom, há ainda muita referência ao lendário Heartwork do Carcass – gravado também por Amott – mas faltaria ainda uma certa criatividade que a o Arch Enemy só iria alcançar a partir do quarto disco.

Davi: Essa é uma banda que ainda preciso parar para ouvir a discografia com a devida atenção. Claro… Sei de quem se trata, sei da influência deles e da enorme base de fãs que possuem. Sendo honesto, já cheguei a ouvir algumas coisas por conta de alguns amigos que são fãs do grupo. Lembro de ter assistido, na época, o DVD Live Apocalypse, por exemplo. Portanto, estava ansioso para a audição desse disco e, infelizmente, me deu uma frustrada. O instrumental é matador, onde vale uma menção para o trabalho de bateria de Daniel Erlandsson e para as guitarras de Michael Amott (principalmente, para o belíssimo solo de “Cosmic Retribution”). No entanto, o trabalho vocal de Johan Liiva não me convence. Acho o vocal dele bem fraco. Dentro do estilo deles, acredito que os vocais de Alissa White-Gluz e, principalmente, de Angela Gossow funcionam bem melhor. A menção é válida pelo lado histórico. Afinal, é o início da trajetória de uma banda que se tornou um ícone dentro da cena, mas é um disco que não compraria para a minha coleção.

Mairon: Estreia matadora dessa bandaça, e comprovando ao mundo o talento do monstro Michael Amott, um dos grandes guitarristas de sua geração. A abertura com “Bury Me An Angel” já mostra para o que os caras vieram, uma pancadaria com ótimos riffs e solos de guitarra, Minhas favoritas vão para o peso de “Dark Insanity”, “Idolatress” e a brutal “Transmigration Macabre”. Depois, o Arch Enemy mudou bastante, mas Amott continua sendo um guitarrista fantástico.

Marcelo: Mesmo considerando que acho a lista de 1996 muito ruim – eu salvaria os discos do DJ Shadow, do Sepultura e, claro, do Mestre Glenn Hughes –, provavelmente não colocaria o petardo do Arch Enemy entre os dez melhores. Gosto demais de “Cosmic Retribution”, “Losing Faith” e “Transmigration Macabre”, e Black Earth já traz muito do que faria a banda crescer nos anos seguintes, mas ainda assim acho que há discos melhores naquele ano. Boa escolha do Anderson; entre os esquecidos de 1996, porém, eu teria outros nomes à frente.

Marcello: Disco de estreia da banda que conhecia apenas de nome (acho que por causa da muito comentada Angela Gossow) e nunca tinha me animado a ouvir antes – e não me arrependo, pois não gosto de death metal (I’m too old for this, still too young to die). Não consegui ir além da primeira audição, admito. O álbum original é curtinho (menos de 33 minutos), mas parecia que se arrastava por horas a fio. Gostei das duas covers do Iron Maiden que aparecem na edição especial – mas não me animei a escutar as várias músicas ao vivo que completam a versão que consegui no streaming. E a vinheta instrumental “Time Capsule” mostra que existe capacidade para escrever músicas interessantes dentro da banda, mas esse lado não aflorou. Considero que o disco deve ser uma verdadeira festa para quem gosta do estilo, pesado, violento, com guitarras sujas e distorcidas e aquele vocal que parece que o cantor está com ódio de si mesmo para forçar a garganta daquele jeito, mas não tenho muito o que dizer de um álbum com um estilo de heavy metal que não faz minha cabeça. Agora pelo menos posso dizer que ouvi e não gostei…


Matanza – A Arte do Insulto [2006]

Anderson: O mais recente dos álbuns aqui apresentados é o quarto da banda e, por muitos, considerado o melhor de todos. Com seu já tradicional estilo “countrycore”, a banda traz elementos de metal, hardcore e punk rock às levadas que remetem ao country. A temática completamente fútil continua sendo brigas, mulheres e bebida, embebida em sarcasmo puro, mantendo a fórmula que criou e deu cara ao Matanza. No entanto, esse material, além de ser o mais pesado até então, apresenta algumas das melhores composições já criadas pela trupe. Particularmente, gosto de absolutamente todas as músicas; são quase 40 minutos de diversão sem compromisso. É importante destacar quão importante era o papel de Donida para a composição e a sonoridade — logo, a identidade da banda! Em tempos de dois Matanzas existindo, percebe-se nitidamente que era dele a alma do Matanza. Sobre as músicas, como dito, todas são legais e divertidas, mas, se fosse sugerir, traria: “Eu Não Gosto de Ninguém”, a ótima e pesada “Meio Psicopata” e a “balada” “Tempo Ruim”, mas, sinceramente, poderiam ser “Clube dos Canalhas”, “Whisky Para Um Condenado” ou “Quem Perde Sai”. Enfim, na ressaca de bandas como Raimundos, Planet Hemp ou O Rappa, esses caras conseguiram trazer algo novo para o cenário da época.

André: O que me fez me afastar deles e pegar certo ranço (assim como com Velhas Virgens) é que essa era uma das bandas favoritas daqueles jovens do início dos anos 2000 que só sabiam conversar sobre bebedeiras e do quanto aguentavam em festas universitárias chatas que eu evitava nos meus tempos de ensino superior. E as letras são feitas justamente para agradar este público-alvo: bebidas, o quanto eu bebo, o quanto sou foda e temas afins. Passo longe desse tipo de banda e este disco só reforçou o meu desgosto.

Davi: Essa é aquela famosa banda ame ou odeie. Você irá encontrar uma série de fãs ardorosos que berram aos plenos pulmões as letras cantadas pelo divertido personagem criado por Jimmy London e outros que vão dizer que a banda é horrível e etc. Na real, a banda é bacana e a proposta deles – fazer um um rock n roll mesclando influências de country e hardcore (daí, o termo countrycore) com uma pitada de heavy metal e letras falando sobre bebida, mulher, briga de bar e sentimento de raiva/ódio  (sempre repletas de humor negro) funciona bem. Aqui, é o ápice do conjunto. Os músicos estavam no auge (depois de terem atingido o sucesso com músicas como “O Bom é Quando Faz Mal” e “Pé Na Porta, Soco Na Cara”) e o tracklist apresentado aqui é o mais consistente de sua discografia. Acredito que 9 ou 10 músicas daqui sejam consideradas clássicas por seus discípulos. Meus momentos favoritos ficam por conta de “Clube dos Canalhas”, “O Chamado do Bar”, “Eu Não Gosto de Ninguém” e “Tempo Ruim”. Despretensioso e divertido.

Mairon: Nunca fui muito fã do Matanza, uma banda que tem uma série de seguidores só que, para meus ouvidos, acho muito comum. Este disco não mudou em nada minha opinião sobre a banda. Os caras fazem um rock simples, que até soa divertido vez ou outra, mas sei lá, é algo que não cabe na minha mente não só as letras, mas um som tão simplório e irrelevante. Não há um grande solo, um vocal marcante, um arranjo sensacional. É um bando de musiquinha faceirinha, curtinha, com letras que nada agregam, enfim, perda de tempo …

Marcelo: Um disco que tem o hino “Clube dos Canalhas”, por si só, já deveria ter entrado na lista; aí você descobre que ele ainda tem “O Caminho da Escada e da Corda”, “Ressaca Sem Fim”, “Tempo Ruim” e “Eu Não Gosto de Ninguém” e começa a se perguntar quem diabos vota nos insossos discos do J Dilla e da Joanna Newsom e deixa um discaço desses de fora… A Arte do Insulto talvez seja o momento em que o Matanza melhor equilibra tudo aquilo que fazia a banda funcionar: riffs simples e certeiros, a mistura de punk, hardcore, country e rock and roll, letras de humor corrosivo e aquela persona de boteco, violência, ressaca e mau humor que poderia facilmente virar caricatura – é o melhor disco deles e ponto final. É um álbum sem gordura, cheio de refrões que grudam e com uma sequência de músicas que, para mim, representa o Matanza em seu auge. Na minha lista dos melhores de 2006, ele seria pódio. Ah, e ainda tem “Eu Não Gosto de Ninguém”: se um dia eu tiver uma banda de rock, vou compor essa música.

Marcello: Matanza era, até essa audição, uma banda que me era desconhecida – acho que já tinha ouvido falar a respeito, mas não tenho certeza. Agora que ouvi, preferia não o ter feito. Ao menos o disco passa rápido (pouco mais de 35 minutos); achei o título bem adequado, pois o disco é um insulto ao ouvinte. Vocal péssimo, instrumental mixado muito baixo, músicas sem qualquer atrativo e letras que beiram o primário, enfim, uma completa perda de tempo para mim. Fico curioso em ler os comentários dos colegas, pois depois de três audições, não consegui encontrar uma razão sequer para gostar do disco (“Estamos Todos Bêbados” é divertida, mas só merece ser mencionada por causa desse detalhe). Eu nunca escondi de ninguém que, com algumas exceções, não gosto do rock produzido no Brasil, e o Matanza (está mais para Mazanza, xingamento comum aqui em Floripa) só reforça o meu desgosto. Diferentemente do Arch Enemy (outro que não é minha praia), não encontrei nada que pudesse destacar, mas não posso deixar de fazer uma ironia: Jimmy London canta que não gosta de ninguém (a única música que chegou perto do razoável para mim) – a recíproca é verdadeira, também não gostei dele.


Bônus

Theatre of Tragedy – Velvet Darkness They Fear [1996]

Anderson: Trouxe esse material como um extra ao identificar sua presença nos lançamentos de 1996. Algo me remeteu a ele e, ao ouvi-lo novamente depois de décadas, me surpreendi muito positivamente. Lembrava de ser clássico e importante para o gênero em si, mas o álbum é muito melhor do que isso! Sua perspectiva gótica/doom está no ponto certo para não ser algo melancólico demais ou denso em demasia e, consequentemente, chato. O contraste entre os vocais masculinos guturais — e mesmo com passagens limpas — e os vocais femininos límpidos soa único frente aos destaques do gênero à época, como quanto ao Paradise Lost. A banda traz um teor mais teatral, duetos entre os vocalistas, e a forte presença de pianos e sintetizadores traz algo quase folk para o material. Inaugurou uma forma distinta para o gênero; muitas bandas vieram a beber de suas bases (Lacuna Coil, Tristania, After Forever, outras). Destaco “Fair and ’Guiling Copesmate Death” como uma das mais interessantes pela sua construção lenta e gradual, que escala para um clímax muito doom. A ótima “And When He Falleth”, que, tanto por sua temática quanto pelo seu peso, é um dos melhores momentos do álbum, e ainda “On Whom the Moon Doth Shine”, cujo ponto alto é a voz de Liv Kristine; só ouvindo para entender a sutileza! Baita material!

André: Melhor disco da discografia deles que eu já comentei. Adoro o Theatre of Tragedy, suas letras em inglês antigo são um diferencial e Liv Kristine era um destaque com sua voz de anjo. Talvez o melhor disco para representar as características mais marcantes do gothic metal. Aliás, tá aí um álbum que merecia uma remixagem e uma remasterização bem feitas para captar melhor ainda suas qualidades.

Davi: Lembro que, na década de 90, tivemos uma enxurrada de bandas de heavy metal liderado por belas cantoras. Muitas vezes, as beldades acabavam dividindo os vocais com um vocalista masculino que, muitas vezes, cantava no gutural. Me lembro do After Forever (da Floor Jansen), do Within Temptation (da Sharon Den Adel) e, é claro, tínhamos o Theatre of Tragedy (da Liv Kristine). Esse último foi o único grupo, dentre os citados, que não me chamou a atenção. Escutei o álbum todo e não curti. Temos aqui, Liv Kristine dividindo os vocais com Raymond Rohonyi, que canta no gutural. O álbum aposta em um metal que mesclava elementos do gótico com o death metal. As canções são longas e, para meus ouvidos, monótonas. A produção também não é das melhores. Som de bateria bem pobre. Sei que muitos fãs cultuam esse disco, mas não bateu.

Mairon: O Theatre of Tragedy é daquelas bandas que só tinha ouvido falar, mas nunca havia parado para escutar um disco. Curti os vocais de Liv Kristine Espenæs, não é chato como o do Nightwish, mas ainda acho que esse casamento de vozes guturais com vozes soprano não é algo que meus ouvidos curtem. A melhorzinha é “On Whom the Moon Doth Shine”, onde a doce voz de Liv surge com mais espaço, mas no fim das contas, o som das músicas acaba enchendo a paciência por ser bastante repetitivo, sem solos marcantes ou riffs empolgantes. Os tecladinhos chegam a dar sono por vezes. Só não foi o pior disco da lista por que nada supera o Matanza aqui!

Marcelo: Esse, sim, é bom! O Theatre of Tragedy é aquela banda norueguesa que ficou conhecida pelo contraste entre os vocais masculinos guturais e os femininos líricos, fórmula que posteriormente ganharia até o simpático rótulo de “a bela e a fera”. Já falei em alguma outra postagem, creio que na lista dos melhores de 2025, que não curto muito esse lance de vocal gutural, salvo raríssimas exceções. Esta é uma delas. Gosto demais desse disco e o colocaria tranquilamente entre os dez melhores de 1996. A nota triste, para mim, é que alguns anos depois a banda mudaria drasticamente de direção, aproximando-se do metal industrial e da eletrônica. Fiquei com esta fase.

Marcello: Nunca tinha ouvido falar do grupo, e quando vi a descrição não botei muita fé. O som do grupo é pesado, distorcido, e ao mesmo tempo suave no uso do piano e das cordas – e o interplay entre as vozes feminina e masculina dá um contraste interessante. A vinheta introdutória que confere título ao disco trouxe a cantora Liv Kristine Espenaes sobre um piano e uma base instrumental mais leve do que esperava, e a música seguinte, “Fair and ‘Guiling Copesmate Death” introduziu o vocal gutural de Raymond Rohoni (pessoalmente, teria preferido uma voz diferente, mas ele não incomodou); a música é lenta e pesada, com bom arranjo de cordas – e novamente o vocal quase lírico de Liv dá um bom contraste. No todo, as duas músicas impressionam positivamente. Os acordes de guitarra que iniciam “Bring Forth Ye Shadow” me lembraram um pouco Pearl Jam, mas o que veio depois não tem nada a ver com a turma de Eddie Vedder. Bons riffs de guitarra, os dois cantores se alternando (quer dizer, a cantora e o arrotador de letra) para aprofundar a ambiguidade do som do grupo, e o resultado é uma música no mínimo curiosa. Músicas como “Seraphic Deviltry” e “Der Tanz der Schatten” reforçam a proposta da banda – a segunda, com sua introdução imponente, “salta aos ouvidos” -, e “Black as the Devil Painteth” vai mais longe, com uma guitarra limpa e outra pesadamente distorcida (provavelmente a que mais gostei). “On Whom the Moon Doth Shine” e “The Masquerade and the Phoenix” encerram (bem) este disco inesperadamente bom. Minhas únicas críticas são a falta de guitarras solando nas músicas, e “And When He Falleth”, única música que considerei ruim, especialmente o trecho que parece ser tirado de um programa de TV. Veredito final? Dos três discos que não conhecia, foi o que mais surpreendeu, e junto com o Metal Church, o que dá vontade de ouvir novamente.

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