Winter Rose – Winter Rose (1997):
Por Davi Pascale
Muitos comentam sobre o impacto da cena grunge quando nos remetemos ao rock dos anos 90. Entretanto, é sempre bom lembrar que não foi apenas o grunge que marcou a década. Vários trabalhos marcantes foram lançados naquele período. Alguns exemplos: Follow the Leader (Korn), Antichrist Superstar (Marilyn Manson), Visions (Stratovarius), Oceanborn (Nightwish) e, é claro, Images and Words (Dream Theater).
Tive a sorte de descobrir o Dream Theater justamente quando lançavam o álbum. Acabei adquirindo o disco, por uma indicação do pessoal da Aqualung (loja de CDs da Galeria do Rock). Os vendedores sabiam que gostava de rock clássico, hard, blues, metal e progressivo e mandaram: “Já ouviu isso? Acabou de chegar. É uma mistura de rock progressivo com heavy metal”. Quando ouvi o disco, pirei. As músicas eram excelentes e o nível dos músicos, impressionantes.
Embora muitos critiquem o trabalho vocal de James LaBrie, sempre gostei muito de sua voz e sempre o considerei um diferencial dentro do trabalho do grupo. Lembro que voltei na loja, no mês seguinte, e comprei o When Dream and Day Unite empolgadaço com a audição do Images e lembro que a sensação foi de: “o disco é legal, mas esse vocalista não é tão bom quanto o atual”. Não tenho a menor dúvida de que a entrada de Labrie foi determinante para o sucesso deles.
Costumava ler todas as revistas de rock da época, não demorou muito, e começaram a ser falados por aqui. Começaram a pintar as primeiras matérias e acabei descobrindo que James LaBrie já havia gravado um álbum antes de entrar na banda. Contudo, não era um álbum de prog, nem de metal, era um álbum de hard rock. Sempre fui fã do gênero. Enquanto muitos torciam o nariz, ficava mais e mais curioso para ouvir o tal disco. Ainda mais depois de descobrir que LaBrie havia substituído o Sebastian Bach. Na época, Tião largou o grupo para entrar no Madam X, mas quando descobri o Dream Theater, ele já havia conquistado o mundo ao lado do Skid Row, outro conjunto que sempre admirei.

Sendo assim, quando descobri, em 1997, que o CD do Winter Rose estava nas lojas, meu pedido de presente de Natal não poderia ser outro. Para quem não está por dentro da história… James Labrie cantava na noite fazendo o que qualquer músico iniciante faz, se apresentando com bandas covers. Uma dessas bandas era o Positive Touch, um tributo ao Journey. Não demorou muito, eles começaram a criar suas próprias músicas e a gravar algumas demos. Até que um convite surgiu, meio que por acaso.
“O que aconteceu foi que o baixista do Positive Touch, o Brian, estava comprando uma TV de um cara, e quando foram até a casa dele descobriram que era músico”, relembra James LaBrie em depoimento ao livro Lifting Shadows – A Biografia Oficial do Dream Theater. “Brian pediu para ele ouvir uma música nossa e tocou ‘In The Hall’. Esse cara se chamava Rich Chycki, e perguntou ao Brian se poderia falar comigo. Acho que Brian ficou meio paranóico, pensando que ele iria me ‘roubar da banda’, mas enfim, passou meu número e Rich me ligou”.
Durante o telefonema, o guitarrista disse que não queria que James saísse de sua banda, mas que gostaria que ouvisse algumas músicas que havia escrito e que, caso aprovasse o material, cantasse em algumas delas. James topou. “Ele me deu a fita e fui para a casa ouvir. Era muito legal. Soava bem refinado e bem composto, embora fosse algo mais na linha ‘Whitesnake misturado ao Skid Row’. Então me juntei ao Rich, gravei algumas coisas e montamos uma banda muito boa chamada Winter Rose”.
É justamente daqui que nasce o disco. O Winter Rose nunca passou de uma promessa. Passaram 3 anos fazendo shows, chegaram a dividir palco com alguns artistas grandes, mas nunca conseguiram firmar um contrato com uma grande gravadora. Tanto que depois de algum tempo acompanhando a banda, descobri que o disco, na verdade, nunca havia sido lançado. O que ocorreu é que algumas demos vazaram e foram publicadas em alguns bootlegs e, em 1997, James Labrie decidiu fazer um lançamento oficial desse material para brecar a pirataria. Ele pegou as demos gravadas entre 1988-1989, masterizou e assim nasceu o disco que temos em mãos.

O líder da banda era o guitarrista Rich Chycki, era ele quem tomava as decisões e quem compunha o material. Nas gravações, eles contaram com a bateria de Randy Cooke. Os baixos foram gravados por Rich, exceto “Asylum City” e “My Time”, que contaram com o auxílio de Rob Laidlow. Sim, Randy tornou-se um celebrado músico de estúdio/turnês (já tendo trabalhado com músicos do porte de Alanis Morissette, Mick Jagger e Ian Gillan), mas suas baterias aqui são bem simples. Quando escutei pela primeira vez, até acreditei que era programada. Os grandes destaques são, de fato, os vocais de LaBrie e as guitarras de Rich. E não sei se concordo muito com a definição de Labrie. Essa definição Whitesnake meets Skid Row dá a impressão de um hard rock blueseiro com bastante peso. O que temos aqui é um hard rock bem comercial, bem melódico. Está mais para Firehouse do que para Whitesnake.
Os vocais de LaBrie são impressionantes. As linhas vocais são altas, sua voz está bem forte e as melodias são excelentes. Em alguns momentos, me lembra um pouco o Tony Harnell nos tempos auge do TNT. Rich também entregou um ótimo trabalho de guitarra com riffs cativantes e solos virtuoses. Se esse disco tivesse sido lançado em 1990, com o auxílio de uma grande gravadora e com uma qualidade de gravação profissional, talvez nunca tivéssemos o James LaBrie no Dream Theater. Já em 1997, não tinha como o disco deixar de ser obscuro. Afinal, o Dream Theater já havia se consolidado, sua base de fãs busca outro tipo de som e o hard rock melódico já estava fora de moda.
Para aqueles que curtem o hard rock dos anos 80, o disco é excelente. As músicas são muito boas. Minhas preferidas ficam por conta de “Rough Boys”, “Never Let Me Go”, “Nothing But The Best” e “Thrill Of The Night”, mas o disco é bem consistente. A introdução de guitarra de “Asylum City” chega a lembrar um pouco o Van Halen. “I´ll Never Fall In Love Again” conta com um ótimo refrão. Manja aquelas linhas vocais que o Jeff Scott Soto curte fazer no Talisman e em seus discos solo? Meio por aí…
“One Last Time” e “My Time” também são bem resolvidas, bem comerciais, com refrão pegajoso, do jeito que o estilo pede. A balada “Saved By Love” poderia ter caído nas rádios facilmente. O único senão é “Dianna”. É a única que considero fraca e até um pouco brega. Essa poderia ter ficado de fora.

Como já disse no texto, quando esse CD finalmente chegou ao mercado, o Dream Theater já era um grande nome do prog metal. Talvez, pensando nisso, e sabendo que esse álbum seria adquirido basicamente pelos fãs do grupo, eles criaram um segundo disco, que era uma coletânea de outros grupos que estavam crescendo na cena prog. Os nomes escolhidos foram: Enchant, Symphony X, Vanden Plas, Tiles, Mindfeed e Eldritch. Foi a partir daqui, inclusive, que descobri e virei fã do grupo de Russell Allen.
Resumindo: o disco é excelente e o trabalho vocal de James Labrie é de primeira. Dá para entender porquê os músicos do Dream Theater ficaram impressionados quando ouviram o material. Agora, se você é fã do Dream Theater e irá ouvi-lo pela primeira vez, tenha em mente 3 coisas: esse não é um trabalho de prog, a música apresentada aqui foi feita com o intuito de ser comercial e se adequar ao mercado da época (os registros aqui são da década de 80) e o álbum foi criado em cima de demos. Portanto, não espere algo com a mesma complexidade e nem com a mesma qualidade de gravação. Tendo isso em mente, você tem de tudo para se divertir com esse material que tinha, sim, um enorme potencial.
Faixas:
CD 1:
- Asylum City
- I´ll Never Fall In Love Again
- Rough Boys
- Dianna
- One Last Time
- Never Let Me Go
- My Time
- Nothing But The Best
- Saved By Love
- Thrill of the Night
CD 2:
- Enchant – Blindsided
- Symphony X – The Accolade
- Vanden Plas – Fire Blossom / Rainmaker
- Tiles – Beneath the Surface
- Midfeed – Unreal World
- Eldritch – Lord of an Empty Place
