Os Irmãos Gurvitz e uma das grandes linhagens ocultas do rock britânico
Por Fernando Bueno
Uma das histórias mais interessantes do rock britânico inicia-se ainda na década de 60 no então fenômeno cultural beat com dois irmãos chamados Adrian e Paul Curtis. ‘Curtis’ era um sobrenome adotado, pois eles entendiam ser mais palatável para as pessoas. O pai dos garotos era um gerente de turnês que trabalhava com os Kinks, Cliff Richards e The Shadows. Adrian tocava guitarra desde seus 15 anos e em 1967 lançou um single com uma banda chamada Rupert’s People. Eles eram ligados ao movimento beat pré-psicodélico britânico e lançou “Reflections of Charles Brown”, um single relativamente cultuado hoje A música não chegou a fazer sucesso em sua terra natal, mas se deu bem nas paradas da Austrália.
Seu irmão Paul estava arquitetando uma banda chamada Gun em que seria o baixista e vocalista. Adrian se junta ao irmão e além de tocar guitarra também faria vocais de vez em quando. O Gun era uma banda mais alinhada ao rock psicodélico, bastante em alta na época, mais pesada e agressiva e, com a perspectiva temporal, podemos classificá-los também como hard rock. O Gun pode ser considerado como uma das sementes do hard rock e do heavy metal. Após algumas mudanças no posto de baterista (uma constante na carreira dos irmãos, como será entendido na sequência do texto), Louie Farrel, completava a formação que gravou o primeiro álbum autointitulado. O disco além de ser conhecido por ter a primeira capa feita pelo então artista iniciante Roger Dean, tem também “Race With the Devil”, que chegou no Top 10 das paradas inglesa no concorridíssimo ano de 1969. “Race With the Devil” foi regravada por várias outras bandas como o Black Oak Arkansas, que até batizou seu disco de 1977 com esse nome, entrou no álbum Demolition (1980), estreia da banda feminina Girlschool e também pelo Judas Priest na época do Sin After Sin.
O Gun durou ainda um segundo álbum que, se não tem a qualidade do primeiro faz valer a pena a audição por seus ótimos momentos como as duas partes de “Lady Ink” e “Head in the Clouds”. Porém a banda não tinha mais como seguir e Adrian já estava até pensando em fazer um disco solo e com material já bastante avançado. Por fim, decidiu continuar a parceria com seu irmão, adotaram o sobrenome de fato de sua família, Gurvitz, e chamaram alguns bateristas para participarem da gravação do primeiro disco de sua nova banda, o Three Man Army. O nome foi escolhido porque os músicos entendiam que a formação em power trio potencializava os instrumentos e podia produzir um som tão poderoso quanto uma banda com vários integrantes. Um dos convidados para a bateria foi Buddy Miles, que era integrante do Band of Gypsys e outro que também gravou algumas músicas foi Mike Kelly do Spooky Tooth. Um pouco depois quem assumiu a bateria de vez foi Tony Newman.
A Third of A Lifetime (1971) é um excelente disco que apresentava ainda mais peso do que na época do Gun em um hard rock blueseiro e intenso. Nesse período também encontramos em seu som aqueles elementos mais progressivos e um refinamento maior nas músicas, que essas bandas de hard rock do período começaram a incorporar, o que gerou aqui no Brasil um termo bem brasileiro: o hardão progressivo. O grupo com essa formação duraria mais dois álbuns com praticamente o mesmo nível de qualidade: Three Man Army (1973), lançado em alguns mercados com o nome de Mahesha e Three Man Army Two (1974) – sim, o terceiro disco tinha Two em seu nome. Infelizmente eles não tiveram um sucesso comercial compatível com a qualidade do grupo, algo super comum em bandas do período, afinal a concorrência era ferrenha. Décadas depois foi lançado um mediano disco de sobras chamado apenas de 3. Mais detalhes sobre o Three Man Army você encontra nesse texto de Ronaldo Rodrigues clicando aqui.
Com alguns problemas com Tony Newman a dupla precisou procurar outro baterista. Nessa época um medalhão com passagens em grandes bandas estava livre no mercado e o salto para eles foi enorme. Após anos com o Cream e o supergrupo relâmpago Blind Faith, Ginger Baker tinha passado um tempo se aprofundando no jazz e música africana e era um dos bateristas mais conhecidos e cultuados do mundo na época. Ele se juntou aos irmãos e fundaram uma das mais subestimadas bandas da época. O Baker Gurvitz Army foi mais um passo em relação à evolução da música que os dois irmãos faziam.
No primeiro disco autointitulado dessa nova banda lançado em dezembro de 1974, Adrian Gurvitz fazia os vocais principais, mas Ginger Baker também participava nessa função. Para o segundo álbum, Elysian Encounter (1975), um vocalista dedicado foi incorporado ao grupo. Mr. Snips era o pseudônimo de Steve Parsons, que tinha participado do Sharks, banda de Andy Fraser (ex-Free). Sua voz rouca é bem característica. Outra curiosidade é que após a morte de Bon Scott, em 1980, Steve Parsons esteve entre os nomes considerados para assumir os vocais do AC/DC, embora a vaga tenha acabado ficando com Brian Johnson. O som trazia hard rock, jazz rock, um pouco de virtuosismo e um pouco de liberdade criativa. Chegou a ter uma boa repercussão na Inglaterra e Estados Unidos, porém, no fim das contas, teve vida curta. Em 1976 seu último disco, e já um pouco irregular, Hearts on Fire. Nesse período final aconteceu um acidente aéreo que acabou levando a vida do empresário da banda, Bill Fehilly, que ajudou a desestruturar ainda mais a banda. Além do mais a já conhecida personalidade difícil de Baker perturbava todo o processo.
Nesse meio tempo de incertezas o ex-baterista do Moody Blues entrou em contato com Adrian e o chama para ajudá-lo a compor e produzir, além de ser o cantor em seu álbum solo que ele estava trabalhando. Adrian leva seu irmão à tiracolo e os três gravam dois álbuns para a Graeme Edge Band, que acabou sendo creditado como Graeme Edge Band featuring Adrian Gurvitz.
Na prática o primeiro disco lançado pelo trio, Kick Off Your Muddy Boots (1975) é um álbum dos irmãos Gurvitz. Eles compuseram praticamente tudo sozinhos e Graeme apenas tocou com eles. Já no segundo, Paradise Ballroom (1977) a participação do baterista foi mais efetiva. O resultado desses discos foi um rock mais melódico, sofisticado e progressivo, com forte ênfase em arranjos e canções acessíveis. Era mais um passo da evolução dos irmãos, o que acontecia desde o Gun.
Chegou um momento que os irmãos acabaram indo para caminhos distintos. Paul sempre foi um músico mais preocupado com o instrumento em si do que a composição. Além do mais ele se interessava muito pela parte de produção, composição para outros músicos e dos bastidores da música. Adrian era um músico mais irrequieto que se interessava pelos novos caminhos musicais. Nunca houve uma confirmação sobre isso, é mais uma impressão que ficou, quando li as histórias.
Adrian na sua carreira solo afastou-se gradualmente do hard rock e aproximou-se do AOR e do pop sofisticado. O ápice comercial veio com Classic (1982), um grande sucesso nas paradas britânicas. Posteriormente, consolidou-se como um requisitado compositor e produtor para diversos artistas grandes, mostrando um talento melódico que já estava presente desde os tempos de Three Man Army.
Se o leitor se interessar assim como eu nesses desenvolvimentos que acabam acontecendo ao longo dos anos nas carreiras das bandas tem, nesse texto, diversas opções para escolher e conhecer. É muito curioso como que as carreiras de músicos vão se entrelaçando e se desenvolvendo. Então leitor, vai começar com o Gun, com o Three Man Army, Baker Gurvitz Army ou o Graeme Edge Band? Quem sabe voltar lá para o período beat do Rupert’s People ou o soft rock de Adrian nos anos 80? Seja como for, aproveite a jornada e comente aqui o que achou.

Muito legal chamar a atenção para os irmãos Gurvitz, dois ótimos músicos que merecem mais atenção do que normalmente recebem. Conheci o Adrian por meio do disco-solo “Classic”, que fez um sucesso gigante quando saiu – a faixa-título tocava direto nas rádios aqui, muito gostosa de ouvir; eu era um moleque de 12-13 anos, fanático por Stones, mas gostava de ouvir coisas diferentes na FM. Pena que nunca encontrei o disco para comprar, nem na época do vinil. Das três bandas, para mim a melhor no todo é Baker-Gurvitz Army, gosto muito dos três discos (incluindo “Hearts on Fire”, que costuma ser meio malhado), mas os dois discos do Gun também são bem legais e os dois primeiros do Three Man Army também são muito bons (não conheço o “Three Man Army Two”). Os álbuns da Graeme Edge Band eu nunca ouvi – adoro Moody Blues, mas dos discos-solo só tenho o Blue Jays (que não me chama muito a atenção) do Justin e John. Pelo visto preciso ir atrás!
No geral o BGA é a melhor coisa pelo conjunto e contexto, mas como disco acho que o primeiro do GEB é o melhor.