Sheryl Crow – Sheryl Crow (1996):

Sheryl Crow – Sheryl Crow (1996):

Por Davi Pascale

 

Em 3 de Setembro de 1996, chegava ao mercado o segundo álbum de Sheryl Crow. O disco que tinha a missão de firmar o nome da cantora/compositora, se viu envolto de polêmicas. Contando com uma nova parceria, nova imagem e muita determinação, a artista encontrou forças para sobreviver à uma série de ataques. Vamos lá entender um pouco dessa história…

Para os olhos do público, Sheryl era uma nova cantora. Na realidade, nem tanto. Seu debut Tuesday Night Music Club era meio que um ou vai, ou racha. A artista de Missouri já tinha trabalhado como professora de música, já tinha visto um disco seu ser engavetado, já havia trabalhado como backing vocal de artistas como Michael Jackson e Don Henley e já havia chegado aos 30 anos de idade.

A história começou a mudar depois que seu então namorado, Kevin Gilbert, a apresentou à um grupo de amigos com quem costumava se reunir para fazer jams e compor. A garota se juntou à turma e a parceria deu liga. Além de seu namorado, o grupo incluía David Daniels, Brian MacLeod, David Baerwald e Bill Botrell. Esse último era o dono do estúdio, onde se reuniam todas as noites de terça. Foi daí que surgiu o título de seu primeiro álbum e sua primeira banda de apoio.

Aqui, no Brasil, ela estourou com o single “All I Wanna Do”. Contudo, nos Estados Unidos, a história é diferente. Por lá, ela já havia feito sucesso com “Run, Baby, Run” e “Leaving Las Vegas”, música que deu origem à primeira grande confusão. O rolo todo se iniciou após uma aparição da cantora no programa de David Letterman. Durante a curta entrevista, o anfitrião questionou: “E essa sua música?  É autobiográfica?”. Crow respondeu: “yeah, sort of”. No português seria algo como “é meio que..” ou “um pouco”… Na verdade, não era, mas ela se sentia conectada com a letra. E isso… Bem… Foi o suficiente para o início de uma guerra interna.

 

Capa da primeira edição do livro

 

A letra havia sido inspirada em um livro, de mesmo nome, de um autor chamado John O´Brien, grande amigo de Baerwald. Tanto John, quanto David Baerwald acusaram Crow de traição. Tudo piorou, depois de alguns meses, quando O´Brien cometeu suicídio. Baerwald culpava a cantora de ter incentivado a morte do colega com sua atitude, o músico chegou a fazer a declaração publicamente, inclusive. Para sua sorte, a família do rapaz pensava diferente. Diziam que ele havia ficado magoado ao ver que não havia sido citado na entrevista, mas que seu suicídio não tinha nenhuma relação com a exibição do programa e, sim com uma luta que vinha travando há anos contra o alcoolismo.

Se, internamente, o clima não era dos melhores, perante o público era diferente. Após “Leaving Las Vegas” ser trabalhada, a cantora lançou “All I Wanna Do” como seu novo single, o que lhe rendeu seu primeiro sucesso mundial. Seu nome foi ficando, comercialmente, cada vez mais forte. Sua consagração real aconteceu depois de sua participação no Woodstock 94, mas a parceria com o grupo de músicos que havia funcionado tão bem, estava chegando ao fim.

Quando chegou o momento de trabalhar em seu segundo disco, Sheryl não tinha banda, nem parceiros. Ela foi buscar ajuda em Jeff Trout, que vinha trabalhando, até então, como músico de apoio do The Wallflowers. O rapaz trabalha com a cantora até hoje. Atuando não apenas como parceiro de composição, mas também como guitarrista de seus shows. Para a gravação do disco, ela contou com o apoio de alguns músicos de estúdio, embora tenha sido a responsável pela gravação de todos os vocais, além de boa parte dos violões, guitarras, harmônica, baixo, teclado e piano.

 

Sheryl Crow em momento de descontração com Jeff Trott, em 2017

 

Como polêmica pouca é bobagem, a cantora passou por mais uma porrada meses antes do lançamento do disco. Kevin Gilbert, aquele mesmo rapaz que a havia namorado e que tinha apresentado ela ao Tuesday Night Music Club, foi encontrado morto. Kevin morreu de asfixia autoerótica. Como se tudo isso não bastasse, ela teria que enfrentar mais uma batalha durante a promoção do disco.

Sheryl Crow continuava trazendo os elementos do álbum anterior – ou seja a mistura de pop/rock com folk, country e blues – porém agora se utilizando de alguns loops e com uma produção um pouco mais moderna. O visual da cantora também mudou. Abandonou as jaquetas jeans e cabelos cacheados para vir com um visual mais roqueiro.

As letras abordavam assuntos diversos. As músicas que abordavam relacionamentos continuavam, porém ela foi um pouco mais à fundo. Em “Superstar” cantava sobre uma mulher que fantasiava com o estrelato. Em “A Change Would Do You Good” falava sobre a necessidade de sair do automático. Para explicar “Maybe Angels”, citou à NME que a ideia seria uma “canção extra-terrestre onde Kurt Cobain e John Lennon se juntavam no coro alado do céu”. Porém, em ao menos 3 músicas, ela tocou em pontos políticos e causou barulho.

“Redemption Day” abordava a indiferença dos Estados Unidos contra a guerra da Bósnia. A ideia nasceu depois de uma viagem que realizou ao lado da primeira dama. Em depoimento para Medium.com, afirmou: “nos anos 90, viajei para a Bósnia com a Hillary Clinton para defender os direitos humanos e os direitos das mulheres, bem como para visitar e tocar para as tropas. Atrocidades chocantes foram cometidas lá, mas acabaram reduzidas à frases de efeito nos noticiários da noite. O impacto emocional daquela viagem deixou marcas profundas em mim”.

 

Sheryl Crow e Johnny Cash, em 1999.

 

Embora não tenha se tornado um hit de FM, a canção cresceu com o passar dos anos, chegando a receber, inclusive, uma regravação do lendário Johnny Cash: “June faleceu em maio de 2003, e fui convidada para cantar em seu funeral. Um ou dois meses depois, recebi uma ligação do genro de Johnny dizendo que ele havia tocado minha versão de “Redemption Day” para Johnny, e que ele havia decidido gravá-la. Johnny então falou comigo ao telefone e começou a fazer perguntas sobre vários versos, querendo saber a inspiração por trás de cada um. Seu desejo de entender o que estava por trás da letra era o que lhe dava a capacidade de cantar a música de outra pessoa e nos fazer acreditar que era sua própria criação. Ao longo dos anos, tive a sorte de ver minhas músicas sendo gravadas por outros artistas, mas nenhuma experiência foi tão significativa ou me deixou tão honrada quanto Johnny gravar “Redemption Day”.

Em “Hard to Make a Stand”, a cantora saía em defesa do aborto, mas o maior escândalo foi em “Love Is a Good Thing” – escolhida como um dos singles do disco – onde fazia uma crítica direta à rede Wal-mart. No início da década de 90, a rede Wal-mart vendia, nos Estados Unidos, armas em suas vitrines. Do mesmo jeito que hoje você vai até o balcão e aponta para o fone ou o secador que você quer, você podia ir até o balcão e escolher seu revolver. Muitas dessas armas acabaram nas mãos de menores, que acabaram por cometer crimes divulgados nos noticiários da época.

Em 1992, dois menores mataram um funcionário de uma mecânica e alegaram ter comprado munição nas redes Wal-Mart. Sheryl havia escrito a letra minutos depois de ler uma notícia sobre um garoto de 14 anos que tentou matar um de 12. Adivinha de onde vinha a arma? Tal atitude acabou incomodando a rede, já que ela acusava a gigante de vender armas para menores de idade na letra da canção.

Em um dos versos, Crow cantava: “Watch out, sister/ Watch out, brother / Watch our children as they kill each other/with a gun they bought at the Wal-Mart discount stores”. No bom e velho português: “Atenção, irmã/ Atenção, irmão/ Observem nossos filhos enquanto eles se matam com uma arma que compraram na seção de descontos do Wal-mart”. A rede acabou proibindo que seus discos fossem vendidos em suas lojas. Algo que acabou prejudicando as vendas, já que as pessoas que moravam em cidades pequenas dependiam desses estabelecimentos para adquirirem suas cópias. As megastores, até então, ficavam restritas às cidades grandes. Dale Ingram, porta voz do Wal-mart, saiu em defesa da empresa alegando que: “vender um álbum que aborda um comportamento que vai contra nossas políticas é algo que não toleramos”.

 

Capa da edição japonesa

 

A cantora voltou a comentar o caso, recentemente, para o site PopCulture: “Eles enlouqueceram. Fui banida das lojas. Eles se recusaram a distribuir meus discos e tentaram me convencer a mudar a letra para Kmart. Eles tentaram me jogar contra a Kmart”. A cantora considerou a proposta extremamente indecente e decidiu comprar a briga. “Não vou mudar porque você não está confortável com a verdade”.

Embora não tenha gerado um hit à altura de “All I Wanna Do”, ela conseguiu um bom desempenho com os singles “If It Makes You Happy” e “Everyday Is a Winding Road”. Ainda assim, as vendas ficaram longe do esperado. Se Tuesday Night Music Club vendeu 7 milhões de cópias nos Estados Unidos, o segundo álbum não passou de 2.500.000. É de senso comum que, embora não esperassem bater as vendas do debut, o disco poderia ter ultrapassado os 4, talvez 5 milhões, caso não tivesse sido banido das redes de mercado.

Não há como negar, contudo, que o disco cresceu ao longo dos anos. Até hoje, os críticos consideram esse  seu melhor trabalho. Grande parte de seus admiradores têm ele entre seus preferidos. E você? Já havia escutado esse álbum? Já havia parado para reparar nessas letras? Se ainda não, vale a pena dar um play nos streamings. Sem dúvidas, uma das artistas mais talentosas e mais bacanas da década de 90.

 

Faixas:

01) Maybe Angels

02) A Change Would Do You Good

03) Home

04) Sweet Rosalyn

05) If It Makes You Happy

06) Redemption Day

07) Hard to Make a Stand

08) Everyday is a Winding Road

09) Love Is a Good Thing

10) Oh Marie

11) Superstar

12) The Book

13) Ordinary Morning

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