1986, o Ano de Ouro do BRock

1986, o Ano de Ouro do BRock

Por Micael Machado

Posso estar equivocado, mas, para mim, a geração que ficou conhecida como a do “BRock” nos anos 1980 começou em 1982, com o lançamento de “Você Não Soube Me Amar”, da Blitz. A partir daí, diversas bandas foram surgindo pelo país, algumas delas conseguindo um grande destaque lá no primeiro Rock in Rio, em 1985, como foi o caso dos Paralamas do Sucesso, do Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, e do Barão Vermelho. Em 1986, a implantação do plano cruzado no começo do ano trouxe uma melhora para a economia do país, a qual, aliada a uma sensação de “dias melhores virão” por parte dos brasileiros (com o fim da ditadura no ano anterior e uma nova era de liberdades que prometia vir pela frente), acabaram influenciando tanto a sociedade quanto as próprias bandas do rock nacional da época, sendo que, para mim, aquele foi o “ano de ouro” do BRock naquela década, pois muitos artistas lançaram discos que hoje são considerados os registros definitivos de suas discografias, alguns deles sendo, já na época, considerados essenciais, e, hoje, chamados de clássicos do estilo. Vamos então listar alguns deles para exemplificar esta minha ideia (separando os grupos por estados, para mostrar o quanto foi amplo o alcance do BRock pelo território nacional, especialmente o Sudeste e o Sul):

De São Paulo, por exemplo, vieram os Titãs, com Cabeça de Dinossauro, um disco até hoje considerado por muitos como o melhor de sua carreira, e que trouxe faixas clássicas para a banda (como “Polícia”, “Homem Primata”, “Bichos Escrotos” e “Família”), tocadas até hoje tanto nos shows quanto nas “rádios rock” que resistem pelo país (não à toa, o grupo está fazendo uma excursão comemorando os quarenta anos do registro, que é interpretado na íntegra durante os shows). Tivemos também o Ira!, com seu segundo registro, Vivendo e Não Aprendendo, a meu ver tão bom quanto o primeiro, com faixas clássicas como “Envelheço na Cidade”, “Dias de Luta”, “Flores em Você” e “Quinze Anos (Vivendo E Não Aprendendo)”. Temos também o Violeta de Outono, com seu EP de estreia Reflexos da Noite, onde, em apenas três faixas (“Outono”, “Trópico” e “Reflexos da Noite”), conseguiu deixar marcada em toda uma geração sua mistura de psicodelia e pós punk, que explodiria no ano seguinte, com o lançamento de seu primeiro registro completo, o qual leva o nome do grupo. E não podemos esquecer do RPM, com o seu Rádio Pirata ao Vivo, talvez o disco mais importante dessa geração, pois, ao vender quase 2 milhões de cópias (na época, pois o total de vendas hoje já se aproxima dos quatro milhões), mostrou às gravadoras que o BRock tinha interesse do público e, em termos mercadológicos, poderia render um bom dinheiro a elas. Este disco, na minha opinião, foi o que fez as gravadoras investirem em novas bandas a partir de 1986, levando o estilo a voar pleno e soberano nos céus da música brasileira por mais 3 ou 4 anos, até o início dos anos 90. (Mais ligados ao punk rock, mas não menos importantes, temos o Cólera, com seu segundo disco, Pela Paz em Todo o Mundo; o Inocentes, com seu essencial EP de estreia intitulado Pânico em SP; e o Ratos de Porão, com o disco Descanse em Paz, também seu segundo registro, e onde já apresentavam as primeiras características do “crossover” na música da banda).

Cabeça de Dinossauro, um dos melhores discos nacionais lançados em 1986.

Do Rio de Janeiro, podemos destacar os Paralamas do Sucesso, com Selvagem, para mim, até hoje o melhor disco de sua discografia, o qual fez a banda explodir no Brasil inteiro com músicas como “Alagados”, “Melô do Marinheiro”, “A Novidade” e “Você”. Tivemos também o Barão Vermelho, dando continuidade a sua carreira após a saída de Cazuza, com o disco Declare Guerra, que, apesar de não ter tido um grande sucesso comercial, trouxe músicas como “Torre de Babel”, “Bumerangue Blues” e a faixa título; o multi-instrumentista Lobão, com O Rock Errou, um de seus melhores trabalhos em carreira solo (com faixas como “Revanche”, “Noite e Dia” e “Canos Silenciosos”); e as estreias do Heróis da Resistência (com o álbum que leva o nome da banda), do baixista Leoni, recém saído do Kid Abelha, e do Biquíni Cavadão, com o disco Cidades em Torrente, de faixas como “Múmias”, “Timidez” e “Tédio”.

De Brasília, vieram a Legião Urbana, com o álbum Dois (para mim, o melhor disco de todo o BRock até hoje, com clássicos como “Tempo Perdido”, “Índios”, “Quase Sem Querer” e “Eduardo e Mônica”) e as estreias do Capital Inicial (com o registro que leva o nome da banda, e tem faixas como “Leve Desespero”, “Psicopata”, “Música Urbana”, “Veraneio Vascaína” e “Fátima”, sendo as três últimas “heranças” dos tempos em que o baterista Fê Lemos e o baixista Flávio Lemos integravam o Aborto Elétrico, ao lado de Renato Russo, da Legião Urbana) e da Plebe Rude, que, com o EP O Concreto Já Rachou, já chegou chutando as portas do rock nacional em faixas como “Até Quando Esperar”, “Proteção”, “Minha Renda” e “Brasília”, ainda essenciais nas apresentações do grupo mesmo quarenta anos depois.

Dois, para mim, o melhor disco de todo o chamado BRock

No Rio Grande do Sul, tivemos os discos de estreia de algumas bandas saídas da coletânea Rock Grande do Sul, lançada também naquele ano de 1986. São eles os Engenheiros do Hawaii, com Longe Demais das Capitais (e composições como “Toda Forma de Poder”, “Segurança”, “Sopa de Letrinhas” e a faixa título); os Replicantes, com o clássico O Futuro É Vortex (e hinos como “Surfista Calhorda”, “Hippie-Punk-Rajneesh”, “A Verdadeira Corrida Espacial” e a faixa título); e o Garotos da Rua, com o álbum que leva o nome da banda, e tem faixas como “Você É Tudo Que Eu Quero”, “Tô De Saco Cheio (Lá Em Casa Continuam Os Mesmos Problemas)” e “Sabe O Que Acontece Comigo?”.

Do Nordeste do país, gostaria de destacar os baianos do Camisa de Vênus, que lançou não somente um, mas dois discos hoje considerados essenciais para o estilo, o ao vivo Viva, gravado a partir de um show realizado no Caiçara Music Hall, em Santos, no dia 8 de março daquele ano, e lançado no mês de julho (e que, para mim, é o melhor disco ao vivo gravado por uma banda desta geração e lançado ainda na década de 1980, visto que, já na década de 1990, seriam lançados no mercado alguns outros registros gravados ainda nos anos 80, mas não lançados na época); e o essencial Correndo o Risco, lançado em novembro, e que tem faixas como “Simca Chambord”, “Deus me Dê Grana”, “Só o Fim” e “A Ferro e Fogo” (e também não é por acaso que a banda se encontra em turnê comemorando os quarenta anos destes dois clássicos do rock nacional).

Rádio Pirata ao Vivo, talvez o disco mais importante do BRock

O BRock continuaria em alta, como mencionei acima, ainda por mais alguns anos (pelo menos, até a chegada da década de 1990, onde a chamada “Era Collor” trouxe uma ascensão às paradas de ritmos como o sertanejo, o pagode e o fenômeno das “bundas cantantes” de grupos como É o Tchan e afins, os quais fizeram com que o rock nacional voltasse a uma espécie de “segundo plano’ mercadológico para as gravadoras), revelando novas bandas, e lançando outros discos que talvez sejam tão ou mais importantes do que os citados aqui, de alguns destes mesmos grupos, ou de outros diferentes. Mas, para mim, no geral, nenhum ano supera o de 1986 em termos de qualidade, o que pode ser comprovado por vários discos que completam 40 anos neste 2026, como os citados aqui. E você, tem algum outro disco deste ano que você considera como “essencial” e que não foi mencionado por mim? Deixe sua participação nos comentários.

5 comentários sobre “1986, o Ano de Ouro do BRock

  1. Eu acho curioso que o ano de 1986 seja marcado por bons discos no rock brasileiro, quando no internacional, tirando alguns (“Master of Puppets”, por exemplo), saíram muitas bombas (estão aí “Dirty Work” e “Press” para provar). Lembro bem desse ano porque eu e meus amigos compramos vários desses discos mencionados aqui, como o da Plebe Rude, os dois do Camisa de Vênus, Titãs (como mencionei na live, com a capa texturizada), Ira, Lobão (é verdade que acho que teve um pessoal que comprou por causa da capa, mas deixa para lá), e, claro, “Rádio Pirata Ao Vivo” e “Dois” eram verdadeiros “arroz de festa” (acho que no caso da Legião, todo mundo tinha – menos eu, que só fui comprá-lo depois que saiu “As Quatro Estações”). Parecia que a cena do rock brasileiro ia finalmente se fixar, mas as coisas mudaram e muito. Duas coisas bem chatas: alguns discos rapidamente perderam os elementos gráficos (“Vivendo e Não Aprendendo”, do Ira, a menos que você tivesse pegado a primeira tiragem, não tinha encarte), e na segunda metade do ano, as capas vinham impressas em papel de má qualidade (quase uma cartolina) e os vinis ficaram bem fininhos, por causa da falta de matéria-prima causada pelo plano Cruzado – alguns amigos meus começaram a comprar os álbuns novos em fita cassete porque ali não tinha como economizar. Mas praticamente todo mês tinha um disco novo legal na praça; era comprar o LP num dia e no seguinte levar para a escola para mostrar para os amigos no intervalo e fazer o pessoal babar de inveja.
    Em tempo: para mim o melhor de todos era O Concreto Já Rachou, da Plebe Rude (agora vai sair uma nova tiragem em vinil com um compacto de bônus), seguido pelo “Viva” do Camisa de Vênus e pelo “Legião Urbana Dois”

    1. Realmente, Marcello, eu não tinha feito esta associação em relação de qualidade dos discos “internacionais” comparados aos nacionais, eu teria de pesquisar mais um pouco para ver se a minha lista de “melhores” internacionais ficaria do mesmo nível da dos “dez mais” nacionais…

      Eu não sabia deste detalhe de que as edições iam mudando graficamente com o passar do tempo. O Plano Cruzado realmente estabilizou a economia por um tempo, mas, quando começou a fazer água, aí a coisa desandou rapidamente. Quem viveu, ainda há de lembrar…

      Eu não vou colocar os discos citados em ordem de preferência para o meu gosto musical, mas, se olharem bem a foto de abertura, da esquerda para a direita em cada coluna (como se fosse um livro), o “spoiler” é evidente… rsrsrs…

      E sou só eu ou mais alguém ficou pistola de relançarem o EP da Plebe só com o compacto de bônus? Não haveria material para transformar o EP em um álbum completo (como fizeram com o “Miséria e Fome” dos Inocentes), ou, que fosse, em um vinil duplo de 12″? Pro meu gosto, ficou meio “sem sentido” o relançamento nestes moldes (assim como o relançamento do “Cabeça Dinossauro” em vinil branco, que poderia ter sido duplo, com o segundo disco compreendendo as demos que saíram no CD de não sei quantos anos do disco)…

      E será que algum dia chegaremos a ouvir o “Mitologia e Intuição” como planejado pelo Renato para o que deveria ser o “Dois”? Esperança sempre há, mas já deixei de acreditar há tempos…

      1. Bela lista, Micael. Adoro o rock brasileiro dos anos 80. Tirando o Replicantes e o Cólera, só coisa fina. Agora vocês estão bem doidinhos em dizer que os lançamentos internacionais de 86 foram fracos.

        Em relação à reedição do Cabeça Dinossauro, concordo que poderiam ter incluído as demos. Só comprei essa nova edição porque a banda disponibilizou algumas cópias autografadas (pelos 3 integrantes atuais), daí resolvi pegar… O meu do Plebe já está encomendado, assim como o vinil do acústico do Capital (que ganhou 2 faixas bônus).

  2. Não sou tão fã assim destes discos do BRock, apesar de não contestar que Cabeça Dinoussauro e Dois são discos muito acima dos demais. Dos citados, Vivendo e Não Aprendendo é meu prefeirdo.
    Agora, o RPM foi o verdadeiro delírio no cenário musical de 1986. Até álbum de figurinhas foi lançado na época. Como que o RPM estourou tanto em 1985, e esse ao vivo fez tanto sucesso em 1986, é algo que não consigo realmente entender.

    Aproveito para citar, mesmo não sendo BRock

    Caetano Veloso – Caetano Veloso – discaço só com voz e violão, gravado para o mercado estadunidense
    Sampa Midnight: Isso não vai ficar assim – Itamar Assumpção, disco totalmente seminal e fora da casinha do Itamar
    Alma – Egberto Gismonti – reconstrução de obras primas do mago Gismonti
    Na Luz da Conquista – Astaroth – raridade do heavy metal gaúcho
    Golpe de Estado – Golpe de Estado – excelente estreia dos rapazes de São Paulo

    E por fim

    Himalaia – Fernando Pacheco – obra essencial do rock progressivo nacional

    1. Esse disco do Golpe, de fato, é excelente. Golpe de Estado é uma banda que mereceria ter sido maior do que foi.

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