Primordial: Muito Além do Black Metal

Primordial: Muito Além do Black Metal

Por Fernando Bueno

Quando pensamos em black metal a primeira imagem que nos vem à cabeça é das florestas geladas da Noruega com alguma igreja antiga queimando no horizonte e um indivíduo todo pintado em frente à sua grande obra. Todo mundo conhece esse movimento norueguês surgido no início dos anos 90, suas controvérsias e repercussões. Porém o black metal nunca ficou preso somente àquelas características.

Ao longo de todos esses anos surgiram inúmeras vertentes. Algumas enfatizaram aspectos atmosféricos, emocionais, outras incorporaram influências sinfônicas, folk ou experimentais. Entre elas, uma das mais interessantes foi o pagan black metal, um estilo que abandonou boa parte da temática satânica para buscar inspiração na história, na mitologia, na cultura e nas tradições pré-cristãs dos povos europeus.

Poucas bandas representam essa vertente de maneira tão consistente quanto os irlandeses do Primordial. Longe dos clichês do gênero, o grupo construiu uma discografia marcada por uma profunda carga emocional, forte identidade cultural e uma evolução musical que culminou, na minha opinião, em seu principal disco, To the Nameless Dead, aquele no qual o Primordial consolidou sua identidade. Porém até esse ápice da definição do seu som a banda começou a se desenvolver aos poucos. Os primeiros discos do Primordial nasceram claramente dentro da segunda geração do black metal europeu. Álbuns como Imrama (1995) e A Journey’s End (1998) apresentam riffs velozes, vocais rasgados e uma produção bastante crua, ainda que já fosse possível perceber um cuidado maior com atmosferas e melodias. Particularmente, são discos que nunca conseguiram me conquistar, assim como toda a cena norueguesa daquele período.

As coisas realmente começaram a mudar para o Primordial na virada para os anos 2000 com Spirit the Earth Aflame. O interesse dos irlandeses era o de criar músicas longas, com grande desenvolvimento emocional. Ali começaram a surgir com maior força elementos épicos, maior dinâmica e um trabalho vocal cada vez mais expressivo de Alan “Nemtheanga” Averill, cuja interpretação passou a ocupar um papel central na identidade da banda. Nos discos seguintes, Storm Before Calm (2002) e, principalmente, em The Gathering Wilderness (2005), a transformação tornou-se evidente. O black metal deixou de ser o elemento dominante para tornar-se apenas uma das ferramentas utilizadas pela banda.

Aqui cabe citar os músicos que participaram dessa evolução: depois de algumas mudanças a banda se firmou com o já citado Nemtheanga no vocal, Ciáran MacUiliam e Michael O’Florin nas guitarras, Pól MacAmlaigh no baixo e Simon O’Laoghaire na bateria. Essa formação foi a responsável por todos os discos seguintes desde Storm Before Calm.

Nesse momento da história do grupo chega o álbum To the Nameless Dead (2007) e entram em cena mais dois elementos: o doom metal e o rock progressivo. As músicas tornam-se mais arrastadas e cadenciadas, apoiadas em andamentos lentos, riffs grandiosos, mudanças constantes de intensidade, passagens contemplativas, crescendos cuidadosamente construídos e uma enorme preocupação com a narrativa musical.

No meio de todas essas misturas musicais o Primordial forjou seu principal disco e a pedra angular para sua carreira subsequente. O peso permaneceu intacto, mas a construção das músicas tornou-se muito mais sofisticada. As músicas são mais longas do que o normal do estilo em uma abordagem muito próxima da utilizada por bandas progressivas desde os anos 1970. Entretanto, a maior mudança, a meu ver, é na performance de Alan Averill, que também rompe com diversas convenções do black metal. Não são mais só vocais agressivos e rasgados, agora em sua interpretação alternam-se gritos, declamações e momentos quase litúrgicos, aproximando-se muito mais da interpretação teatral do que da simples agressividade. Essa maneira de cantar tornou-se uma das maiores marcas da banda.

Da abertura “Empire Falls” ao encerramento com “No Nation on This Earth”, a banda mantém uma tensão emocional constante, fazendo com que o disco funcione como uma obra única, e não apenas como uma coleção de músicas.

Outro aspecto que diferencia To the Nameless Dead é sua abordagem lírica. A Irlanda está presente em praticamente todo o álbum, mas não através de um nacionalismo simplista. As canções falam sobre povos derrotados, culturas apagadas e indivíduos esquecidos pela história oficial. O próprio título do disco ‘Aos Mortos Sem Nome’ funciona como uma homenagem a todos aqueles que desapareceram sem reconhecimento. Enquanto muitas bandas preferem exaltar as glórias da guerra, o Primordial evoca as consequências e tragédias desses eventos.

To the Nameless Dead transformou uma banda de black metal em uma das vozes mais singulares do heavy metal contemporâneo. Sem abandonar suas raízes e autenticidade, conseguiu expandir sua linguagem musical. Seu maior mérito é provar que o peso não está apenas na distorção das guitarras ou na agressividade dos vocais, mas também na profundidade das emoções. O disco posterior, Redemption at the Puritan’s Hand (2011) também é bastante aclamado pelos fãs, e o preferido de boa parte deles.

Para não deixar passar queria citar algo que venho pensando e queria até mesmo desenvolver em um texto mais detalhado. O fato de que o rock progressivo tem entrado cada vez mais no leque de possibilidades de bandas de praticamente todos os estilos. Um estilo que viveu o seu auge nos anos 1970, se tornou um patinho feio nas décadas seguintes, sem até mesmo motivo de chacota em alguns meios, mas permaneceu no imaginário de muitos fãs e aos poucos está retomando o seu prestígio.

 

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