Church of the Cosmic Skull: você está pronto para se juntar ao culto?

Church of the Cosmic Skull: você está pronto para se juntar ao culto?

Por Fernando Bueno

Se existe uma banda atual interessante de prestar atenção é o Church of the Cosmic Skull. A abordagem ao se tratar da banda não se restringe a apenas um aspecto. Obviamente a parte musical é, provavelmente, mais importante, mas, nesse caso, também é preciso considerar a centralidade de uma personalidade e um conceito muito bem definido.

Podemos começar pelo fundador e pela pessoa mais importante do hepteto: Bill Fisher, ou ‘Brother Bill’. Cantor, compositor e guitarrista criou a banda por volta do fim de 2015 e início de 2016. Segundo o legendarium da banda, apresentado no site oficial, foi nesse período que Fisher recebeu instruções da Cosmic Skull para que reunisse um grupo de sete músicos e formasse uma banda.

Os créditos oficiais dos quatro discos atribuem as composições todas para ele, além de atuar também na produção. Além do Church of Cosmic Skull ele também participa de outros projetos, sendo eles o Mammothwing e o Dystopian Future Movies. Fisher é uma figura fundamental para entender a banda: apesar da estrutura coletiva do septeto, há uma visão autoral bastante definida.

Bill Fisher não é apenas o músico central de tudo, o conceito da banda apresenta ele como uma espécie de guru da seita da Cosmic Skull, ou seja, há a construção deliberada de uma imagem de seita, ou comunidade religiosa/espiritual. Existe toda uma iconografia religiosa, roupas brancas, arco-íris, mensagens de iluminação espiritual e uma linguagem de culto. Mas isso funciona principalmente como uma construção artística e conceitual, misturando humor, psicodelia, filosofia e crítica às estruturas religiosas/cultistas.

Por ter toda essa aura mística em volta da banda e também por conta do título de seu primeiro álbum, Is Satan Real?, lançado em setembro de 2016, à primeira vista, pode sugerir um caráter satanista, anticristão ou ocultista. Entretanto a mensagem da banda tende muito mais ao humanismo, liberdade, amor, consciência e psicodelia.

Toda essa ideia apresentada remete muito àquelas seitas/comunidades que se proliferaram no fim dos anos 60, início dos anos 70. Sendo um bom exemplo disso a trágica seita de Charles Manson. Citada aqui por ser talvez a mais conhecida da época, mas existiram várias outras e não há intenção de relacionar os acontecimentos horríveis com o imaginário da banda. Church of the Cosmic Skull se apresenta oficialmente como duas coisas ao mesmo tempo: uma banda de rock e uma ‘spiritual organisation’, termos definidos pelo próprio Fisher. Bill Fisher é “Brother Bill”, o líder e guru, os demais integrantes são irmãos e irmãs, os fãs formam a Cosmic Family, existe um processo de iniciação chamado The Path, material de doutrinação, graus de participação e até uma ordem chamada Hidden Order of Subjective Truth. No entanto, analisando com mais critério, há uma clara ironia em tudo isso. Enquanto se apresentam deliberadamente como uma organização espiritual, expõem de maneira irônica diversas contradições e mecanismos associados a grupos sectários. A lavagem cerebral das seitas reais é citada de forma irônica. Portanto, o conceito pode ser considerado uma espécie de “seita fictícia funcional”: eles interpretam uma seita, permitem que o público participe da brincadeira como membro, mas usam essa estrutura para transmitir uma filosofia praticamente oposta à de um culto autoritário. Os princípios centrais, ou as doutrinas, dessa comunidade baseiam-se em sete elementos:

– Reconheça a natureza alucinatória da realidade
– Investigue todos os aspectos da realidade-alucinação
– Receba todos os fenômenos com equanimidade
– Celebre e defenda a liberdade da arte, da ciência e do pensamento
– Encare os erros com perdão e determinação
– Faça o que quiser, com amor no coração
– Mantenha o foco na unidade de todos os seres vivos

É curioso observar o que não existe nesses princípios: Deus, Satanás, pecado, salvação, vida após a morte, revelação divina ou obrigação de acreditar em qualquer entidade sobrenatural. Isso ajuda muito a entender o provocativo título ‘Is Satan Real?’. A banda não parece interessada em promover satanismo. Satanás, religião, culto e iconografia esotérica são ferramentas para discutir crença, percepção e manipulação.

Tendo sido apresentada a questão filosófica e conceitual do grupo, podemos seguir para a questão musical. Musicalmente, onde se encaixa a banda depois de apresentado todo esse conceito? Como o leitor pode esperar, há uma miríade de influências, o que torna a banda difícil de classificar, embora sua base remeta principalmente ao rock psicodélico dos anos 1960 e 1970. A própria banda usa o termo Occult Pop e a descrição mais famosa que existe para classificá-los é a mistura de Black Sabbath com o ABBA (talvez sABBAth?). As referências vão desde o próprio Black Sabbath, Deep Purple, Electric Light Orchestra, Queen, Fleetwood Mac, além de elementos de AOR e rock progressivo. Há momentos em que lembram bastante aquela tradição do rock britânico entre aproximadamente 1969 e 1976: Hammond, guitarras pesadas, harmonias vocais elaboradas e arranjos progressivos sem necessariamente virar virtuosismo gratuito. A utilização de diferentes teclados é bastante perceptível: Hammond, piano, Rhodes e sintetizadores aparecem ao lado da viola elétrica e, principalmente, dos grandes arranjos vocais. Em alguns períodos chegaram a utilizar harmonias de seis vozes.

Cabe aqui uma apresentação da formação original: além de Bill Fisher na guitarra e voz, Michael Wetherburn nos teclados, Amy Nicholson no cello elétrico, Loz Stone na bateria, Sam Lloyd no baixo e as vocalistas Jo Joyce e Caroline Cawley. Os outros músicos também participam dos vocais em momentos pontuais. Após o primeiro álbum, Amy Nicholson deixou o grupo e foi substituída por Joseph Stone, responsável pela viola elétrica e também pelos vocais.

Até o momento são quatro álbuns lançados. Há uma previsão citada por Fisher de sete álbuns, e muito provavelmente para fazer uma ligação com os sete elementos já citados acima. O principal deles, em uma avaliação pessoal até o momento, é mesmo o primeiro, no qual apresentam todos os conceitos descritos acima. Mas todos eles são de fácil assimilação e bastante recomendados.

Is Satan Real? é o álbum de estreia e estabelece praticamente todo o universo da banda: ocultismo psicodélico, Hammond, riffs pesados, harmonias vocais e melodias extremamente acessíveis. É provavelmente o disco mais imediatamente ligado ao hard/prog/psych dos anos 70 e talvez aquele em que a proposta do Church of the Cosmic Skull apareça de maneira mais direta. “Mountain Heart” abre o trabalho apresentando boa parte desses elementos, alternando peso e melodias quase pop, enquanto “Evil in Your Eye” é uma das melhores sínteses da banda, com seu riff pesado, teclados vintage e enormes harmonias vocais. Já “Answers in Your Soul”, mais longa e progressiva, explora melhor as possibilidades do septeto e ajuda a mostrar que existe bem mais por trás da aparente brincadeira de misturar Black Sabbath e ABBA.

Na sequência, Science Fiction (2018) é o disco em que a fórmula fica mais sofisticada. Entram ainda mais elementos de piano e teclados vintage e cresce bastante o lado melódico, ao mesmo tempo em que os arranjos ganham maior complexidade. A faixa-título está entre os melhores exemplos dessa evolução, combinando psicodelia, peso e um refrão extremamente melódico. “Cold Sweat” apresenta um lado mais direto e contagiante, com as harmonias vocais ocupando novamente papel fundamental, enquanto “The Others” leva a banda para terrenos mais progressivos e atmosféricos. É provavelmente o álbum em que fica mais evidente a mistura aparentemente improvável entre peso sabbathiano, rock progressivo setentista e harmonias pop.

Um ano depois surge Everybody’s Going to Die, que amplia ainda mais o componente pop/progressivo e a identidade conceitual. O título parece mórbido, mas essa contradição entre temas como morte e transcendência e músicas frequentemente alegres é justamente uma das marcas do Church of the Cosmic Skull. “Fantasy” representa muito bem esse contraste, com belas melodias e harmonias vocais quase festivas, enquanto “Sorcery & Sabotage” recupera o lado mais pesado e sombrio da banda. A faixa-título talvez seja a peça mais importante do álbum justamente por transformar uma constatação inevitavelmente mórbida em algo estranhamente positivo e de celebração, sintetizando musicalmente boa parte da filosofia do grupo.

Por fim, em 2022, surge There Is No Time, novamente com todas as composições e produção de Bill Fisher. O quarto álbum mantém os elementos fundamentais dos trabalhos anteriores, mas apresenta uma banda ainda mais confortável em transitar entre peso, psicodelia, progressivo e melodias pop. “Seven” é uma das faixas que melhor preserva o caráter grandioso e quase litúrgico do grupo, enquanto “One More Step” mostra sua capacidade de construir melodias acessíveis sem abandonar os arranjos elaborados. A longa “There Is No Time”, que encerra o álbum, funciona como seu grande momento progressivo e conceitual, reunindo diferentes ambientes e reforçando temas recorrentes como mortalidade, percepção e a passagem do tempo. Até o material oficial atualmente disponível, este continua sendo o trabalho de estúdio mais recente da banda, além de que na minha opinião fica abaixo dos outros três.

Outro aspecto importante é a opção pela independência artística. A banda afirma ter recusado propostas de grandes gravadoras para manter o controle sobre o próprio trabalho. Posteriormente, criou a Septaphonic Records, decisão que se encaixa perfeitamente nos Seven Objects, sobretudo no princípio que celebra e defende a liberdade da arte, da ciência e do pensamento.

Depois de toda essa explanação sobre a banda espero que você ouvinte vá já ouvir as músicas da banda. Uma forma interessante é assistindo aos clipes que estão disponíveis no YouTube. Já conhece a banda? Comente aqui embaixo o que acha dela. Ouviu depois de ler o texto, comente aí também o que achou!

 

 

2 comentários sobre “Church of the Cosmic Skull: você está pronto para se juntar ao culto?

  1. Ué, Fernando. Ao final da matéria deveria ter a ficha de inscrição da Cosmic Family! 😂 rsrs. Excelente leitura para quem gosta de entender não apenas o som, mas a alma de uma banda. Parabéns.

  2. Adoro a Cosmic Skull. Os dois primeiros discos são muito bons (principalmente o primeiro). Das bandas atuais, e nem tão atuais assim (caramba, 10 anos do Is Satan Real), é a que mais curto junto com o Greta Van Fleet. Queria ver eles ao vivo, pois os videos que disponibilizam no youtube parecem ser de um show muito bom.

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