The Rolling Stones – Foreign Tongues [2026]
Por Marcello Zapelini
Em setembro de 2025, Ronnie Wood confirmou que havia um novo disco dos Rolling Stones pronto para ser lançado em 2026, e negou que seria o último da banda, informando que já tinham dez músicas novas para o seguinte. Em abril de 2026, um single em vinil contendo “Rough and Twisted” foi lançado, creditado a The Cockroaches (incidentalmente, o mesmo nome adotado pelo grupo para fazer a abertura dos shows do April Wine no El Mocambo em 1977, que formou um lado de Love You Live e eventualmente renderia um disco próprio), em edição limitada a 1000 cópias. Na sequência, “In the Stars” foi lançada como primeiro single “oficial”, seguida por “Jealous Lover”, até o disco oficial sair em 10 de julho deste ano em diferentes edições (até uma especial para a Copa do Mundo foi lançada).

Embalado em uma capa medonha até para os baixos padrões stoneanos nessa área, Foreign Tongues saiu como vinil duplo e CD simples, com 14 músicas em pouco mais de 62 minutos, e conseguiu o feito de igualar os Beatles em álbuns que lideraram a parada britânica (15 para cada um – o campeão é Robbie Williams, com 16), mas atingiu até o momento apenas o 7º posto na Billboard. Recebido com elogios por boa parte da crítica, o disco chamou a atenção também pela lista de convidados especiais: Paul McCartney reprisa sua participação em Hackney Diamonds (apenas no baixo, como anteriormente; adoraria ouvir Macca e Jagger cantando juntos); Robert Smith (The Cure) aparece em duas músicas (guitarra uma, sintetizador e backing vocal noutra); Chad Smith acompanha uma versão acústica de “Beautiful Delilah” no bumbo; Steve Winwood toca teclados em nada menos que nove músicas, e seu maior destaque é no órgão (pena que ele não canta em nenhuma); Bruno Mars é creditado com o cowbell em “Never Wanna Lose You” (estou procurando para ouvir até hoje); o produtor Andrew Watt participa de quase todas as músicas na guitarra, baixo, percussão, teclado, backing vocals.
Charlie Watts é o baterista em “Hit Me In The Head” (e na faixa-bônus exclusiva do ITunes, “Bad Luck Hideaway”), seu substituto Steve Jordan toca nas demais, e Darryl Jones é um dos cinco(!) baixistas que participam. Sobre o disco em si, vale a pena comentar cada música:

A bluesy “Rough and Twisted” traz o grupo em seu habitat natural, com Wood na slide guitar, Richards nos seus riffs simples e Jagger na harmônica. Uma ótima abertura!
“In the Stars”, com seu clip nostálgico, é uma candidata a música para ser lembrada no futuro nas coletâneas. O riff de guitarra lembra um pouco “Rock and a Hard Place”, de Steel Wheels (1989), mas é mais elaborado, e a música como um todo é uma mistura de rock e pop muito gostosa de ouvir;
A balada soul “Jealous Lover” traz o falsete de Mick no destaque, mas, embora tenha gostado dela, o vocal não me atraiu muito;
A primeira das músicas com Robert Smith, “Divine Intervention”, traz guitarras totalmente rock’n’roll de Richards, Wood e do convidado especial, e um refrão que dá vontade de cantar junto. Embora não tenha nada de semelhante, ela sempre me lembra de “Respectable”, de Some Girls, pela energia com que é tocada;
A balada country “Ringing Hollow” traz a banda experimentando com o ritmo que pintou pela primeira vez em Aftermath (1966), e influenciou muita coisa legal desde então;

As duas covers, “You Know I’m No Good” e “Beautiful Delilah” têm sabor bem stoneano. A primeira substitui os metais pela harmônica (Jagger está tocando bastante o instrumento no novo álbum), mas a voz de Amy Winehouse ganha de goleada sobre a de Mick (que até canta bem, mas Amy era covardia), a segunda transforma o rock em blues e Richards e Wood dão um showzinho nos violões;
Gravada em 2021, “Hit Me In the Head” traz Charlie Watts em uma de suas últimas sessões com a banda, e o bom velhinho estava tocando com gana nessa que um dos melhores rocks do álbum;
“Covered in You” é mais leve, com Paul McCartney no baixo – mas, diferentemente de “Bite My Head Off”, de Hackney Diamonds, nessa aqui ele não chega a se destacar. Mas, tudo bem, a música é melhor;
“Back in Your Life”, a mais longa do disco, não se destaca tanto no tracklist como tinha sido “Sweet Sounds of Heaven”, do álbum anterior, mas é muito bonita, Winwood ganha destaque, e tem uma coda instrumental longa para
os padrões dos Stones. Poderia render bem ao vivo;

Não podia faltar a baladinha cantada por Keith, e “Some of Us” faz bom uso da voz pequena do guitarrista, contando com o apoio de Mick ao final, algo meio raro de se ouvir quando Richards assume o vocal principal;
“Mr. Charm”, “Never Wanna Lose You” (a que traz Robert Smith no sintetizador e Bruno Mars no cowbell, tente encontrá-los) e “Side Effects” são boas, mas se destacam menos que as anteriores. A segunda cresceu bastante em relação à primeira audição, as demais, ainda não, mesmo que “Mr. Charm” grude na cabeça e traga vocais raivosos de Mick.
Esperei até ter o CD (comprei na pré-venda a edição limitada com capa amarela da Amazon) nas mãos para ouvir pela primeira vez na íntegra; fiquei feliz de ver novamente o selo amarelo dos anos 70 da Rolling Stones Records, gostei do fato das letras serem bem legíveis no encarte, e no momento o álbum para mim soa como o melhor do grupo desde o longínquo ano de 1981, quando saiu Tattoo You.

Acho que um aspecto positivo é que Andrew Watt, nos dois discos que produziu, deu destaque às guitarras – algo que tinha ocorrido pela última vez somente em Steel Wheels, e é bom ver a banda fazer country e soul novamente, mas é no terreno do blues-rock que eles se mostram excepcionais. Mick Jagger revelou em entrevista que há mais música para ser lançada, e que a banda planeja shows (Keith, por outro lado, não deixa ninguém otimista no que tange a ver os Stones ao vivo novamente), mas de concreto tudo o que se tem por enquanto é uma turnê solo de Ronnie Wood que inclusive passará pelo Brasil em novembro. Resta esperar…
Anos atrás, quase todo disco dos Stones era recebido com “o melhor desde Exile On Main Street (injustiça com Some Girls e Tattoo You, claro), e hoje todos são com a pergunta “será que é o último?”. Para mim, faz tempo que isso não importa mais; a banda faz parte da minha vida há 50 anos, compro cada lançamento de estúdio e ao vivo (e algumas coletâneas…) desde 1982, e a verdade é que o mundo não muda nada com um novo álbum de Jagger, Richards e Wood – mas, para mim, fica um pouco mais divertido.

Track List
- Rough And Twisted
- In The Stars
- Jealous Lover
- Mr. Charm
- Divine Intervention
- Ringing Hollow
- Never Wanna Lose You
- Hit Me In The Head
- You Know I’m No Good
- Some Of Us
- Covered In You
- Side Effects
- Back In Your Life
- Beautiful Delilah

“… a verdade é que o mundo não muda nada com um novo álbum de Jagger, Richards e Wood – mas, para mim, fica um pouco mais divertido.”
Disse tudo nesse trecho, como diria Jagger “It’s Only Rock ‘n’ Roll (But I Like It)”. Curti demais esse álbum. Side Effects mesmo que não tão elogiada na resenha se tornou a minha favorita até então.
Que legal, Felipe, obrigado por comentar. “Foreign Tongues” é outro bom disco da banda, e acho que o fato de eles estarem se dedicando mais nas guitarras e contarem com um produtor simpático ao som deles ajuda a fazer dele algo bom de se ouvir. Desde que enviei a resenha para publicação, já ouvi o disco mais duas vezes, e das três músicas que considerei mais fracas, só “Mr. Charm” ainda não melhorou no meu conceito – “Side Effects” também está crescendo na minha apreciação.