Doro – Doro [1990]
Por Daniel Benedetti
Há discos que representam uma evolução natural. Outros registram um momento de transição. Doro (1990) pertence a uma terceira categoria: a de um álbum em que uma artista talentosa tenta sobreviver às exigências da indústria fonográfica. O disco Doro não fracassa por falta de qualidade musical, mas por sacrificar parte da identidade construída no Warlock em favor de um hard rock norte-americano excessivamente padronizado.
O contexto ajuda a explicar essa mudança. Após o sucesso de Triumph and Agony (1987), disputas judiciais impediram Doro Pesch de continuar usando o nome Warlock. Seu primeiro trabalho solo, Force Majeure, ainda preservava boa parte da identidade da antiga banda, embora já apontasse para um som mais acessível. Em seguida, Doro decidiu abandonar definitivamente o conceito de banda e entregou seu segundo álbum às mãos de Gene Simmons, auxiliado por Tommy Thayer e Pat Regan. Era uma tentativa clara de conquistar o mercado americano justamente quando o glam metal vivia seus últimos anos de hegemonia.

O resultado sonoro é elegante, competente e extremamente profissional. A produção privilegia guitarras limpas, refrões amplos e uma mixagem polida, distante da atmosfera sombria e da agressividade que caracterizavam o Warlock. Não há nada tecnicamente errado nessa escolha. O problema é que ela torna o disco menos individual. Gene Simmons imprime sua assinatura em praticamente toda a obra. Sua influência vai muito além da produção: participa da composição de diversas músicas, introduz três versões (“Only You”, “Rock On” e “I Had Too Much to Dream”) e cerca Doro de músicos ligados ao universo do KISS. Em consequência, em vários momentos parece que ouvimos um projeto idealizado por Simmons com Doro interpretando as canções, e não exatamente um álbum concebido a partir da personalidade artística da cantora.
Ainda assim, a principal força do disco permanece intacta: Doro Pesch. Sua voz continua sendo um instrumento raro dentro do hard rock. Ao contrário de vocalistas do glam metal da época, Doro nunca dependeu apenas da potência. Seu grande diferencial sempre foi a capacidade de transmitir sinceridade. Mesmo quando o material não atinge o mesmo nível de inspiração de seus trabalhos anteriores, ela interpreta cada música como se acreditasse profundamente em suas emoções.

“I’ll Be Holding On” exemplifica isso perfeitamente. A balada poderia soar excessivamente calculada nas mãos de outra cantora (ou cantor), mas Doro a transforma em uma interpretação carregada de sensibilidade. É uma demonstração clara de que seu talento vocal frequentemente supera a qualidade do próprio repertório. Outro mérito está nas versões escolhidas. A releitura de “I Had Too Much to Dream”, clássico psicodélico do The Electric Prunes, funciona surpreendentemente bem ao ser transportada para um ambiente de hard rock. Também “Only You” ganha uma interpretação convincente, enquanto “Rock On” preserva o espírito festivo do glam americano.

Entre as composições inéditas, “Broken” talvez seja o momento em que o álbum encontra seu melhor equilíbrio. O riff vigoroso, o refrão eficiente e a entrega vocal apaixonada lembram, ainda que discretamente, a força que Doro demonstrava nos melhores momentos do Warlock. “Unholy Love”, escolhida como principal single, possui todos os ingredientes comerciais esperados para a época, embora jamais alcance o impacto necessário para transformar-se em um grande sucesso. E é justamente aí que reside a principal limitação do álbum.
Na tentativa de dialogar com o mercado americano, Doro acaba entrando em um território extremamente competitivo, onde bandas como Bon Jovi, Whitesnake, Warrant, Poison e o próprio KISS já dominavam a linguagem. Em vez de destacar aquilo que tornava Doro única — sua herança europeia, sua dramaticidade e sua personalidade no heavy metal —, o disco prefere vestir uma roupa bastante familiar ao público dos Estados Unidos.
O resultado foi paradoxal. O álbum alcançou bom desempenho na Alemanha e na Suíça, mas não conseguiu repercussão significativa nos Estados Unidos. Pouco depois, o próprio mercado mudou radicalmente com a ascensão do grunge e do rock alternativo, tornando aquele modelo de hard rock comercial rapidamente datado. O fracasso comercial nos EUA levou a PolyGram a interromper os lançamentos da cantora naquele mercado por cerca de uma década.

Curiosamente, essa tentativa de americanização foi percebida já na época por parte da crítica. O Washington Post observou que Gene Simmons moldou Doro para um gosto mais mainstream, tornando sua música mais previsível, embora reconhecesse bons momentos, especialmente na excelente versão de “I Had Too Much to Dream”.

Vista hoje, porém, a obra ganha novos contornos. Longe da pressão comercial de 1990, fica mais fácil apreciar suas qualidades sem esperar um novo Triumph and Agony. É um disco agradável, bem produzido e interpretado com enorme competência. Apenas não representa o auge criativo de sua protagonista.
Doro acaba funcionando quase como uma fotografia de uma encruzilhada. De um lado, uma cantora que buscava consolidar sua carreira solo após perder o nome Warlock. Do outro, uma indústria tentando transformá-la em mais uma estrela do glam metal americano. A artista sobreviveu. O mercado mudou.
No fim das contas, o álbum confirma uma lição recorrente na história do rock: a personalidade costuma envelhecer melhor do que a tentativa de seguir tendências. E, felizmente para Doro Pesch, sua personalidade artística se mostraria muito mais duradoura do que a estética comercial que domina este disco.

Track list
- Unholy Love
- I Had Too Much To Dream
- Rock On
- Only You
- I’ll Be Holding On
- Something Wicked This Way Comes
- Rare Diamond
- Broken
- Alive
- Mirage

Não ouvi o disco na época e acabei me esquecendo de que ele existia. Eu gostava de Warlock, mas não consegui nenhum LP deles nos anos 80, quando comecei a ouvir heavy metal; fiquei curioso de escutar esse disco-solo, pois não me recordo de nem mesmo ter lido resenhas dele nas revistas no começo dos anos 90 – e eu colecionava as principais! O fato de ser algo diferente do Warlock me soa interessante, afinal, não faz sentido seguir carreira solo e continuar fazendo a mesma coisa.