Discografias Comentadas: Eagles – Parte I
Por Diogo Bizotto
Falar de Eagles é, para mim, falar não apenas de uma das minhas bandas favoritas, mas de uma das formações mais fascinantes da história da música popular. Um grupo com uma trajetória única, cujo sucesso não se limitou aos seus próprios domínios, mas ajudou como poucos a consolidar uma sonoridade identificada com o sul da Califórnia (EUA) na década de 1970, além de acompanhar o crescimento da própria indústria musical. Até a formação efetiva do quarteto original em 1971, como banda de apoio à cantora Linda Ronstadt, Glenn Frey (guitarra e vocal), Don Henley (bateria e vocal), Randy Meisner (baixo e vocal) e Bernie Leadon (guitarra, banjo e vocal), haviam acumulado experiência em empreitadas distintas, partindo de suas localidades de origem até chegar à sonhada Los Angeles, onde as coisas realmente estavam começando a acontecer em se tratando de música na segunda metade da década de 1960.

Natural de Detroit (Michigan), Glenn começou sua carreira profissional participando de uma gravação ao lado de Bob Seger, mudando-se em seguida para a Califórnia a fim de seguir seu sonho. Lá, formou a dupla Longbranch Pennywhistle com o também cantor e compositor J. D. Souther, lançando um disco autointitulado em 1969. A dupla chegou a dividir um apartamento no mesmo local onde também morava Jackson Browne, na época apenas mais um jovem músico em busca de aperfeiçoamento e sucesso. Henley, egresso do Texas, também mudou-se para Los Angeles, onde chegou a registrar um álbum com sua banda, Shiloh, produzido pelo cantor Kenny Rogers, em cuja casa chegou a morar por um tempo junto a seus companheiros de grupo. Randy, do Nebraska, acumulava como experiência mais relevante, até então, o fato de ter feito parte da primeira encarnação do Poco, uma das mais pioneiras formações a unir o rock com a música country norte-americana, liderada pelos ex-Buffalo Springfield Richie Furay e Jim Messina. Além disso, também havia sido baixista do grupo de apoio ao cantor Rick Nelson, a Stone Canyon Band. Bernie, por sua vez, vinha de Minneapolis (Minnesota) e era o mais gabaritado do quarteto. Multi-instrumentista habilidoso, já havia feito parte da banda que apoiava a dupla Dillard & Clark, formada pelo ex-The Byrds Gene Clark e pelo músico de bluegrass Doug Dillard. Além disso, também havia registrado dois álbuns junto ao The Flying Burrito Brothers (Burrito Deluxe, 1970, eThe Flying Burrito Bros, 1971) ao lado de Gram Parsons (apenas o primeiro) e Chris Hillman, também egressos do The Byrds.
O tempo ao lado de Linda acabou sendo curto, mas mesmo assim os rapazes chegaram a registrar ao seu lado o álbum Linda Ronstadt, lançado em janeiro de 1972. Com a bênção da cantora, até hoje efusivamente citada pelos integrantes do grupo como peça importantíssima em suas carreiras, o Eagles (sem o “The”) ganhou vida própria e seguiu seu caminho, assinando com a gravadora Asylum e apostando na capacidade de seus membros como compositores, além de contar com a ajuda de amigos próximos e da mão forte de Glenn Frey conduzindo as principais decisões acerca da carreira da banda.
Muitos até hoje desprezam o Eagles citando o fato de a banda ter investido em uma sonoridade na qual não teve papel de pioneirismo, no caso o country rock, e ainda ter supostamente “pasteurizado” o estilo, colocando-o ao alcance de um público mais amplo que o habitual. Injustiça? Não, pior: canalhice mesmo. Eagles, o álbum, é, acima de tudo, uma coleção de excelentes composições, a começar pela canção que abre o disco, “Take It Easy”. Primeiro de três singles, todos muito bem sucedidos, trata-se de uma criação conjunta entre Glenn e Jackson Browne, sendo inclusive registrada também no segundo disco de Browne, For Everyman (1973). A música é uma representação perfeita da sonoridade californiana da época: um folk rock descontraído, já ilustrando uma das principais características do Eagles, as harmonias vocais no estilo dos Everly Brothers, grande trunfo em se tratando de um grupo formado por quatro ótimos vocalistas. O segundo single, “Witchy Woman”, cantado por Henley, tem uma aura mais “mística” e sugere analogias com mulheres indígenas. Na mesma linha de “Take It Easy”, a relaxada “Peaceful Easy Feeling” foi a terceira canção a ser lançada como single, apresentando a primeira parceria do cantor e compositor Jack Tempchin com o grupo na assinatura de músicas, que inclusive prosseguiria décadas além ao lado de Glenn, responsável pelos vocais nessa canção. O lado mais roqueiro do disco fica a cargo de “Chug All Night” (cantada por Glenn), pela ótima faixa de encerramento, “Tryin’” (com os agudos vocais de Randy), e com a subestimadíssima “Nightingale”, mais uma deliciosa composição de Browne, dessa vez interpretada por Henley. Bernie, por sua vez, oferece suas contribuições vocais através de canções mais ligadas ao tradicionalismo: a explicitamente bluegrass “Earlybird”, calcada em sua performance ao banjo, e a magnífica balada “Train Leaves Here this Morning”, composição sua junto a Gene Clark, registrada originalmente no álbum The Fantastic Expedition of Dillard & Clark(1968). Além das citadas, Eagles reserva ainda duas belas interpretações levadas a cabo por Randy, a melancólica “Most of Us Are Sad” e a doída “Take the Devil”, dotada de um clima mais pesado que o restante das faixas. A produção do álbum ficou a cargo do inglês Glyn Johns (Led Zeppelin, The Who, Humble Pie), que convocou o quarteto para registrá-lo no Olympic Studios, em Londres. O primeiro disco do Eagles revelou, acima de tudo, um grupo de músicos que, além do tino para a criação de canções marcantes, jogavam para o time, sem exibicionismo. O rápido sucesso comercial foi uma consequência mais do que justa.
Desperado [1973]
O segundo álbum do Eagles mostrou-se uma empreitada ambiciosa. Ao invés de apostar em mais uma sucessão de faixas sem uma unidade temática determinada, a banda fez algo muito próximo de um disco conceitual, versando sobre gangues do Velho Oeste norte-americano e assuntos afins, inclusive colocando-se como tal na arte que ilustra Desperado e no material de divulgação. Na capa, o quarteto veste roupas típicas do século XIX e ostenta armas, portando-se como uma verdadeira gangue. Na contracapa, o bando aparece capturado e morto, engrossado pelos amigos Jackson Browne e J. D. Souther. Comercialmente, a atitude representou uma queda em relação ao anterior – que havia ocupado o 22º posto na Billboard e emplacado três singles –, alcançando apenas a 41ª posição e não colocando nenhum single no Top 40. Musicalmente, porém, rendeu um dos melhores álbuns da banda (favorito de muitos), apresentando pela primeira vez a parceria entre Glenn Frey e Don Henley na criação de músicas, formando uma das duplas de compositores mais sólidas e bem sucedidas da história. O primeiro resultado disso foi a extasiante faixa-título, canção de beleza rara, conduzida por piano e cordas e colocando a voz de Henley em posição de protagonismo. A canção pode não ter sido sequer lançada como single, mas o tempo tratou de eternizá-la como uma das mais contundentes obras da carreira do grupo, sendo coverizada por artistas do calibre de Johnny Cash e Neil Diamond. Em geral, a musicalidade do álbum puxa mais para o lado country da banda, em harmonia com sua temática lírica. Exemplos disso são a estupenda “Doolin-Dalton”, que abre o disco estabelecendo seu tom, versando sobre as gangues dos foras-da-lei Bill Doolin e Bill Dalton; “Saturday Night”, com Bernie ao bandolim; e “Doolin-Dalton/Desperado (Reprise)”. Obviamente, as faixas interpretadas por Bernie também seguem essa linha, caso da viajante “Bitter Creek”, de clima misterioso, e de “Twenty-One”, mais uma a representar seu lado bluegrass, incluindo, além do banjo, uma performance no dobro. Na seara rock ‘n’ roll, o Eagles apresenta a ardida “Out of Control”, inclusive com vocais (executados por Glenn) mais agressivos que o habitual, além de “Outlaw Man”. Esta, ao lado da folk rock “Tequila Sunrise”, outra parceria entre Glenn e Henley, dessa vez cantada pelo guitarrista, foram os singles extraídos de Desperado. A primeira, apesar da posição melhor (59ª), não se eternizou entre os fãs, enquanto a segunda, que chegou à tímida 64ª posição, tornou-se um clássico do calibre de “Take It Easy” e “Desperado”, totalmente alinhada com o clima praiano de Los Angeles. É preciso exaltar ainda a grande contribuição de Randy Meisner para o disco, “Certain Kind of Fool”, dona de uma de minhas letras favoritas. À primeira audição, parece abordar a vida de um fora-da-lei, mas revela-se uma analogia perfeita com a trajetória de um músico. Fracasso comercial? Acima disso, Desperado é um grande sucesso musical.
O desejo de Glenn Frey de metamorfosear o Eagles em uma verdadeira banda de rock ganhou mais força com o resultado comercial pouco satisfatório de Desperado. A primeira atitude nesse sentido foi dispensar o produtor Glyn Johns, que havia trabalhado nos dois discos anteriores, quando a gravação de On the Border já estava encaminhada e duas músicas já haviam sido registradas. Para seu lugar foi convocado Bill Szymczyk, credenciado por seu trabalho ao lado do guitarrista e amigo Joe Walsh em sua carreira solo e com o The James Gang. A segunda medida foi a adição de um terceiro guitarrista, também a fim de evitar que Glenn tivesse que solar nas músicas escritas por Bernie Leadon e vice-versa. A escolha recaiu sobre Don Felder, após ter registrado seu slide em “Good Day in Hell”, ainda como um mero convidado. Nativo da Flórida, o guitarrista havia tocado na adolescência com Stephen Stills (Buffalo Springfield, Crosby, Stills & Nash, Manassas), aprendido a usar o slide com Duane Allman (The Allman Brothes Band) e até dado aulas a Tom Petty. Além de “Good Day in Hell”, Felder chegou a tempo de também registrar solos na faixa de abertura, “Already Gone”, canção mostra que, se a ideia era soar mais rock ‘n’ roll e menos country, a banda estava no caminho certo, pois o resultado foi excelente. O mesmo caminho foi percorrido através de “James Dean”, da faixa-título e da já citada “Good Day in Hell”. É claro que a faceta mais country da banda não foi deixada de lado, aparecendo com grande ênfase em “Midnight Flyer”, que mais parece música para animar “saloons” típicos do Velho Oeste norte-americano. Apesar de ter colocado em maior evidência a vontade de soar como uma banda de rock, é nas baladas que se encontra a maior força de On the Border. “You Never Cry Like a Lover” tem cara de power ballad roqueira, enquanto “The Best of My Love”, cantada por Henley, evoca “Tequila Sunrise” e Peaceful Easy Feeling”, dando ao Eagles seu primeiro número 1 na Billboard e a certeza de que a banda estava no caminho certo. “Ol’ 55″, presente no primeiro álbum do colega de gravadora Tom Waits, Closing Time (1973), recebeu uma ótima versão (não na visão de seu criador, admito), com vocais divididos entre Glenn e Henley. Ainda no campo das baladas, Bernie Leadon entregou “My Man”, uma lindíssima homenagem a seu ex-parceiro de The Flying Burrito Brothers Gram Parsons, morto no ano anterior. Randy Meisner não ficou para trás, compondo e cantando aquela que tenho como favorita em On the Border, a lastimosa “Is It True”, demonstrando ter uma sensibilidade acima da média e, mais importante que tudo, sabendo transmiti-la através de uma emocionante interpretação. Com seu terceiro álbum, o Eagles contornou dificuldades e começou a tornar-se uma das principais atrações a Oeste do Atlântico. O grande passo viria no ano seguinte.
Se On the Border preparou o terreno, One of These Nights confirmou o Eagles como a banda número 1 dos Estados Unidos. Com mais tesão do que nunca ao trabalhar em estúdio e contando com uma unidade sólida, esbanjando confiança e competência, o quinteto deu um passo além e apresentou seu disco mais variado até então. O resultado refletiu-se nas vendas e One of These Nights, além da faixa que dá nome ao álbum, subiram ao topo da Billboard. A música, inclusive, apresenta uma incursão no rhythm ‘n’ blues, cheia de groove e vocais evidentemente influenciados pela soul music. A parceria entre Glenn e Henley, cada vez mais azeitada, gerou, assim como essa, o segundo grande hit do disco, a estupenda balada folk “Lyin’ Eyes”, cujo título e conceito surgiu antes que qualquer linha houvesse sido escrita. Além de ter galgado a 2ª posição na parada de singles, também foi agraciada com um prêmio Grammy, como melhor performance pop como grupo. O terceiro grande sucesso do álbum foi, merecidamente, aquela que é tida como a grande performance de Randy Meisner na banda, “Take It to the Limit” (4º lugar). Não à toa, tornou-se um dos momentos mais importantes do show, especialmente quando o baixista atingia as notas altas do final da balada, colocando sorrisos no rosto das plateias e até dos próprios integrantes. Don Felder, apesar de não ter o mesmo brilho vocal de seus companheiros, ganhou sua chance em “Visions”, que não é exatamente um destaque do álbum, mas não faz feio. Bernie Leadon, por sua vez, deixou registrada sua derradeira performance vocal com o grupo na última faixa, “I Wish You Peace”, escrita ao lado de sua então namorada, Patti Davis, filha do ator e político Ronald Reagan, que na época era governador da Califórnia e anos depois se tornaria presidente do país. Mais do que isso, deixou seu grande testamento na forma da instrumental “Journey of the Sorcerer”. A viajante canção, conduzida por seu banjo, enriquecida por cordas e pontuada pelo violino caipira, soa como um “bluegrass cósmico”, transmitindo perfeitamente o significado de seu título, tanto que se tornou tema da série de rádio (e depois produto multimídias) “O Guia do Mochileiro das Galáxias”. Ainda completam o álbum “Too Many Hands”, que se conecta ao passado mas revela uma evolução, e as baladas “Hollywood Waltz” e “After the Thrill Is Gone”, destacando esta última, cujos vocais e a composição são divididos entre Glenn e Henley. Insatisfeito com o rumo musical tomado pela banda, afastando-se de suas raízes country e bluegrass, além de ter entrado em atrito algumas vezes com Glenn devido ao seu estilo de conduzir os rumos da banda (preocupando-se excessivamente com cada passo a ser dado, segundo ele), Bernie deixou o Eagles após o término da turnê de One of These Nights. Seu substituto seria alguém “da casa”. Descubra quem é na segunda e derradeira parte desta discografia comentada…





