DVD: Santana In Concert [2012]

DVD: Santana In Concert [2012]

Por Micael Machado

Em 1987, a carreira do guitarrista Carlos Santana não andava em seus melhores dias. Seus álbuns mais recentes não haviam tido uma boa recepção tanto por parte da crítica quanto do público, mas a aparição no Live Aid dois anos antes havia recuperado um pouco de seu prestígio. Por isso, ele resolveu dar um tempo em sua carreira solo para reunir a Santana Band e gravar um álbum com uma sonoridade mais próxima de seus primeiros discos, ainda no início dos anos 1970. Com a participação dos antigos chapas Chester Thompson  e Gregg Rolie (teclados), Armando Peraza, Orestes Vilató e Raul Rekow (percussão), mais o monstro do baixo Alphonso Johnson (ex-Weather Report), o baterista Graham Lear (ex-REO Speedwagon) e o competentíssimo Buddy Miles (baterista da Band Of Gypsies, ao lado de Jimi Hendrix e Billy Cox, e com quem Santana já havia gravado em 1972), aqui apenas nos vocais, o grupo lançou o álbum Freedom naquele ano, e saiu em turnê de promoção pelo mundo (menos Gregg, que acabou substituído pelo vocalista e ocasional guitarrista Alex Ligertwood).
Um dos shows da tour, ocorrido no Palast Der Republik, na então Berlin Oriental, a 06 de abril de 1987, é o objeto deste DVD lançado no mercado brasileiro pela gravadora USA Records. Já bem conhecido dos colecionadores de bootlegs, o disco é uma excelente opção para aqueles que acham que a carreira do guitarrista resume-se a hits como “Maria Maria” ou “Smooth” conhecerem um pouco do seu trabalho anterior, muito mais relevante. Para os fãs de longa data, é uma oportunidade de visitar um período meio nebuloso de sua carreira, mas que, neste show, brilha quase tanto como nos anos 1970.
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Carlos Santana em Berlin Oriental, no ano de 1987
Santana, além de atacar como vocalista em “Before We Go“, está tocando muito ao longo do show, como se pode conferir nas clássicas “She’s Not There” e “Incident At Neshabur”. Mas, apesar disso (e da banda levar seu nome), ele não fica o tempo todo sob os holofotes, abrindo espaço para os outros músicos do grupo, como no solo alucinado de Chester Thompson em “One” ou no momento solo de Alphonso Johnson (que, sozinho no palco, se dá ao direito de usar até o pedal Taurus, instrumento muito mais próximo do rock progressivo do que do pop latino da Santana Band – além de também dar um show na já citada “One”, e de mandar muito bem na bela “Cavatina“, onde leva a música inteira ao Stick, com o acompanhamento de Santana na guitarra). Os nove instrumentistas no palco soam realmente como uma banda, e não como músicos de apoio para o guitarrista, algo que acontece com várias outras feras da guitarra que dão seus nomes aos seus grupos.
Mas, para mim, o maior destaque do DVD é a figuraça chamada Buddy Miles. Escalado como um dos vocalistas principais (além de, eventualmente, atacar alguns instrumentos de percussão), ele arrasa em canções como “Open Invitation” ou “Praise”, demonstrando todo o poder de sua voz recheada de soul. No blues “Just Got Back From Texas” e nas suas “Them Changes” e “We Gotta Live Together”, ele também mostra habilidade na guitarra, sendo um instrumentista canhoto, assim como seu ex-colega de banda nos anos 70 (porém, obviamente, não tão talentoso quanto Hendrix). Buddy começa o show todo arrumadinho, com terno, gravata e camisa social cheia de babados. Mas, lá pelo meio da apresentação, já está todo desorganizado, com a camisa aberta, o nó da gravata desfeito e o suor tomando conta de seu corpo rechonchudo. Além disso, ver o gorducho Miles “sensualizando” com as fãs da primeira fila durante “Once Its Gotcha” é, involuntariamente, hilário de tão ridículo. Buddy viria a falecer em 2008 de problemas cardíacos, mas seu talento ficou marcado para sempre na história da música, e alguns momentos memoráveis de sua trajetória podem ser encontrados aqui.
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Buddy Miles, um dos destaques do DVD
Uma das melhores partes do disco é a sequência “Black Magic Woman” (com citações a “Are You Experienced”, de Jimi Hendrix, e onde jogam uma rosa em Buddy, o que faz com que ele se atrapalhe momentaneamente com a letra, para logo se recuperar e fazer graça com a flor), “Gypsy Queen”, “Oye Como Va”, “Evil Ways” e “Jingo”, todos clássicos da primeira fase da Santana Band, e que mostram toda a musicalidade e o talento do grupo, com as percussões “comendo soltas” e o guitarrista “fritando” as cordas de sua guitarra com solos incendiários. Se você nunca ouviu a fase setentista de Carlos Santana, comece por esse trecho, e perceba que passou anos sem conhecer alguns dos melhores momentos que o rock setentista já produziu!
Freedom não conseguiu alavancar novamente a carreira de Santana (algo que ele só conseguiria no final dos anos 1990, com o multi-platinado Supernatural), e, desde então, o guitarrista vive uma constante de altos e baixos na carreira, como aliás já enfrentou em outros tempos. Um destes altos com certeza foi o show registrado aqui, onde a imagem e o som estão bastante aceitáveis, e alguns cortes de edição entre as canções, apesar de “quebrarem” a sequência do show, não chegam a atrapalhar. Uma pena o final estar editado, e o show acabar em um decepcionante fade out, constituindo um dos poucos pontos negativos deste DVD.
“Once it’s gotcha, you’ll lose your head in the clouds”
 
Track List:

1. The Beat of my Drum/Veracruz
2. Primeira Invasion / Open Invitation
3. She’s not There / Incident at Neshabur
4. One
5. Samba Pa’ti
6. Songs of Freedom
7. The Healer/Saja
8. Super Bodgie/Hong Kong Blues
9. Just Got Back from Texas (B. Miles – For Indio Blues)
10. Them Changes / We Gotta Live Together
11. Bass Solo (Alphonso Johnson)
12. Cavatina
13. Black Magic Woman / Gypsy Queen
14. Oye Como Va / Evil Ways / Jingo
15. Once its Gotcha
16. Europa
17. Soul sacrifice
18. Aranjuez / El Mar
19. Before We Go
20. Praise
21. Deeper, Dig Deeper

2 comentários sobre “DVD: Santana In Concert [2012]

  1. No alto dos meus 57 anos, tenho por Santana um respeito imenso. Foi o primeiro grupo a me introduzir no mundo do rock, isso por volta de 1977, quando comecei a gostar de “Abraxas”, um dos discos da vida de meu irmão. Fisgado pela latinidade explosiva do chicano, fui me aprofundando na obra do dito cujo, na medida do possível. Eram outros tempos. Internet era ficção científica ainda. Por anos, colecionei os álbuns da banda e os solos de Carlos Santana. O momento ao qual se refere o texto acima é justamente aquele em que a obra de Santana começou a perder o encanto para mim. Acompanhei os lançamentos de Santana até “All that I am”. Depois, parei. Deixei de gostar de Santana? Longe disso. Continua sendo um prazer revisitar os álbuns mais antigos. “Beyond appearances” foi o último álbum dele que realmente gostei. Depois desse, os outros álbuns pareciam mais do mesmo, com uma ou outra música boa, mas que não se comparava com o que Santana produzia até mesmo na Era Ligertwood. A verdade é que Santana foi gradativamente ficando chato, sem aquela energia coerentemente insana do passado. A cada novo lançamento, a sensação aumentava. “Milagro” é pavoroso. “Supernatural” é superestimado. E assim por diante. Sobre esse show: faltaram “Veracruz”, “She can’t let go” e “Victim of circunstance”, que são bem melhores que “Once it’s gotcha” ou “Songs of freedom”, na minha opinião. O grande destaque dessa época é a participação do grande Buddy Miles.

  2. Perdoa discordar do meu nobre irmão Micael, mas Santana estava vivendo uma fase excelente em 1987. Shangó, o penúltimo disco antes de Freedom, havia alcançado a décima segunda posição em vendas nos EUA, enquanto Beyond Appearences esteve entre os cinquenta mais, mesmo com a reformulação da banda de Santana. Os shows permaneciam lotados, tanto que o guitarrista teve que ficar três anos sem gravar por conta do alto número de shows. Freedom foi uma tentativa (fracassada) de unir o som dos anos 70 com o que Santana estava fazendo na década de 80, mas não deu muito certo, e ele mergulhou na carreira solo com o aclamado Blues for Salvador (nada a ver com a cidade brasileira do mesmo nome), gravado com praticamente o mesmo time de Freedom, e que recebeu o Grammy de melhor performance instrumental daquele ano. Os baixos de Santana foram nos anos 90, com o fraco Spirits Dance in the Flesh e Milagro (unico disco do guitarrista que não entrou entre os 100 mais vendidos nos Estados Unidos), mas recuperou tudo com Supernatural.
    Essa fase do grupo Santana nos anos 80 tem bons momentos. Apesar da alta dose de sintetizadores, o homem é um grande guitarrista, e ver ele fritando as cordas da guitarra é uma experiência que todos deveriam ter o prazer de assistir.

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