Deep Purple – Splat! [2026]
Por Marcello Zapelini
No último mês de julho, o Deep Purple lançou seu 24º álbum de estúdio, mais uma vez com um título bizarro (Splat!). A Mk. IX (Ian Gillan, Roger Glover, Ian Paice, Don Airey e Simon McBride) chega ao seu segundo disco de estúdio em dois anos, e a banda é produzida pela quinta vez pelo veterano – e talentoso – Bob Ezrin (um dos principais responsáveis pela banda estar em funcionamento, uma vez que os discos que produziu têm recebido elogios da crítica). Claro que, em se tratando de um grupo de veteranos, a dúvida que sempre aparece é se o disco é bom, e se vale a pena investir nele.

A primeira coisa que salta aos olhos (aos ouvidos?) é que o disco é mais pesado do que os anteriores, e a banda não investe em baladas suaves como “If I Were You” (de =1). Em segundo lugar, é interessante observar que o som tem se baseado cada vez mais nos teclados de Don Airey; Simon McBride é sem dúvida um excelente guitarrista, mas não é um riffmaster como foram Blackmore e Bolin – seu estilo se aproxima bem mais de Steve Morse. O terceiro aspecto que gostaria de destacar é que as letras de Gillan estão cada vez mais cheias de duplos sentidos e de seu humor bastante mordaz. Por fim, as músicas estão bem concisas e diretas: nenhuma chega a 5 minutos (claro, se você sentir saudade – e eu sinto – sempre dá para retornar à “Space Truckin’” de 30 minutos de Live in London).
Músicas como “Arrogant Boy”, “Jessica’s Bra” e “Guilt Trippin’” são bons exemplos da sintonia que Airey e McBride desenvolveram, uma vez que eles duelam e se complementam à perfeição. Aliás, Don merece um elogio especial pelo seu desempenho no álbum, com solos e bases praticamente perfeitos, trabalhando muito bem o piano além do tradicional órgão e incluindo um sintetizador aqui e ali (como em “Sacred Land”) para dar mais variedade. E como Simon já tocava com ele antes de entrar no Purple, explica-se a conexão entre eles; seus solos remetem mais a Morse do que a Blackmore – mas, afinal, ele não entrou para ser um clone do homem de preto. Quanto aos “clássicos”, Ian Gillan usa seus tradicionais overdubs em várias músicas, arrisca um basso profundo em “Diablo”, e desempenha bem para seus 80 anos. Ian Paice continua a âncora da banda: desce o braço quando é preciso, usa sua influência de jazz nos momentos em que a música pede e varia as batidas quando pode (“The Lunatic” é um de seus melhores momentos no disco). Roger Glover, infelizmente, praticamente sumiu na mixagem; ele sempre foi discreto, mas sempre se podia ouvir seu baixo palhetado; acho que só na faixa-título se consegue ouvi-lo com mais destaque.

Sobre as músicas em si, minhas favoritas são “The Only Horse in Town”, “Jessica’s Bra”, “My New Movie”, “The Lunatic” e “Arrogant Boy”; as melodias são bem trabalhadas, as letras, interessantes e cheias de imagens inesperadas (vale a pena ouvir o disco acompanhando as letras, aliás), e o desempenho da banda está no elevado padrão que esperamos do Deep Purple. Por outro lado, “Diablo”, em que pese o bom desempenho vocal de Gillan, não me atraiu nada (Keith Urban toca guitarra nela, mas tente encontrar) e “Guilt Trippin’” – que tem um bom duelo entre McBride e Airey (no piano) – é prejudicada pelo vocal meio forçado de Gillan. No meio do caminho, a faixa-título (com Don no clavinet, no melhor estilo de Stevie Wonder), “The Beating of Wings” (uma das mais leves), “The Rider” (bom refrão e um solo limpinho e bem trabalhado) e “Third Call” (outro bom solo de Simon) são boas músicas que estão ganhando destaque a cada audição que faço. A edição deluxe em vinil traz um single com “Guinnesis”, uma instrumental que tem sido tocada ao vivo no bis dos shows, mas que não consegui ouvir fora do YouTube.
O Deep Purple dos últimos dez anos (praticamente desde Infinite) é uma banda bem diferente daquela que aprendemos a amar décadas atrás, mas não perdeu sua identidade. Cada novo disco agrega algumas músicas ao setlist, mas na turnê seguinte elas infelizmente caem no esquecimento – normal para quem já tem 50 anos de estrada (1968-76 e 1984 até hoje) e teve grande sucesso. Respondendo as perguntas do primeiro parágrafo, o disco é bom e vale a pena investir nele – seria uma injustiça deixar um álbum como Splat!, em que fica nítido que a banda está entusiasmada por fazer novas músicas, cair no esquecimento.

Track list
- Arrogant Boy
- Diablo
- The Rider
- The Lunatic
- The Only Horse In Town
- Sacred Land
- The Beating Of Wings
- Guilt Trippin’
- Scriblin’ Gib’rish
- Jessica’s Bra
- Third Call
- My New Movie
- Splat!
