Soft Power com sangue, suor e lágrimas

Soft Power com sangue, suor e lágrimas

Por Fernando Bueno

Para quem acha que o Iron Maiden foi a primeira banda ocidental a desafiar a Cortina de Ferro, vale lembrar que doze anos antes, em 1970, o Blood, Sweat & Tears já havia realizado uma extensa turnê por países do bloco comunista. A diferença é que a história por trás dessa viagem foi muito mais complexa e controversa. É justamente essa história que o excelente documentário What the Hell Happened to Blood, Sweat & Tears? procura contar.

Dirigido por John Scheinfeld, o filme resgata um episódio pouco conhecido da trajetória de uma das bandas mais populares da virada dos anos 1960 para os anos 1970. Naquele momento, o Blood, Sweat & Tears vivia uma fase de enorme sucesso. Após a saída do fundador e vocalista Al Kooper, logo após um ótimo disco de estreia, a banda apostou em um novo cantor, o canadense David Clayton-Thomas. A mudança poderia ter sido traumática, mas aconteceu exatamente o contrário. O segundo álbum do grupo, Blood, Sweat & Tears (1968), tornou-se um fenômeno comercial, alcançando o primeiro lugar nas paradas americanas e rendendo sucessos como “Spinning Wheel”, “You’ve Made Me So Very Happy” e “And When I Die”. O disco ainda conquistou o Grammy de Álbum do Ano, superando concorrentes de peso, incluindo os Beatles.

Paralelamente à narrativa da turnê, o filme dedica bastante espaço à figura de David Clayton-Thomas. Filho de imigrantes ingleses radicados no Canadá, o cantor teve uma juventude turbulenta, marcada por conflitos com a polícia e problemas com as autoridades migratórias americanas. Sua trajetória pessoal ajuda a explicar algumas das tensões que surgiram durante aquele período. O documentário apresenta Clayton-Thomas não apenas como um vocalista talentoso, mas como alguém que carregava uma relação complicada com instituições e governos, tornando ainda mais irônica sua participação em uma iniciativa associada à diplomacia oficial dos Estados Unidos. A turnê, inclusive, foi uma forma de Clayton agradar o governo dos Estados Unidos e a banda considera tudo isso, e deixa claro somente nos dias de hoje, que foi chantageada pelo governo. As divergências internas de aceitar ou não essa turnê são discutidas também ao longo do vídeo.

Foi nesse contexto de popularidade que surgiu o “convite” para uma turnê por países da Europa Oriental. A viagem fazia parte de uma estratégia mais ampla do governo dos Estados Unidos durante a Guerra Fria. A ideia era utilizar a música, a arte e a cultura popular como instrumentos diplomáticos para aproximar populações que viviam sob regimes alinhados à União Soviética. Outros artistas já haviam sido enviados, mas era a primeira vez que tinham um grupo de rock fazendo isso. Décadas mais tarde, essa estratégia passaria a ser conhecida pelo termo soft power, que é a capacidade de influenciar por meio da cultura e dos valores, em vez da força militar ou econômica. Muito parecido com que a China faz hoje em dia.

O documentário mostra como o Blood, Sweat & Tears acabou se tornando uma peça involuntária desse grande tabuleiro geopolítico. A banda embarcou, em uma equipe que contava com mais de cinquenta pessoas, para uma série de apresentações em países como Polônia, Romênia e Iugoslávia, entre outros destinos situados atrás da chamada Cortina de Ferro. Embora cada país tivesse suas particularidades, todos compartilhavam governos autoritários, forte controle estatal e limitações significativas às liberdades individuais.

Um dos aspectos mais interessantes do filme é mostrar o contraste entre a percepção americana desses países e a experiência real dos músicos. Em muitos lugares, o grupo foi recebido com entusiasmo por jovens que viam no rock uma janela para o mundo exterior. As apresentações frequentemente atraíam multidões curiosas para conhecer uma das bandas mais famosas dos Estados Unidos.

Nem tudo, porém, correu da mesma forma em todos os destinos. A recepção na Iugoslávia foi consideravelmente mais fria, e o documentário explora as razões políticas e culturais que contribuíram para isso. Ainda assim, de maneira geral, a excursão foi considerada um sucesso do ponto de vista diplomático.

O grande mérito de What the Hell Happened to Blood, Sweat & Tears? está justamente em evitar respostas simples. O filme não retrata a banda como vítima nem como cúmplice consciente de uma operação política. Em vez disso, mostra como músicos podem acabar envolvidos em disputas ideológicas muito maiores do que eles próprios.

Quando o grupo retornou aos Estados Unidos, a reação foi muito diferente daquela encontrada na Europa Oriental. Em plena era dos protestos contra a Guerra do Vietnã e da crescente polarização política, muitos setores da contracultura passaram a enxergar a turnê com desconfiança. Para alguns críticos, o Blood, Sweat & Tears havia se deixado utilizar como instrumento de propaganda governamental. Por outro lado, setores mais conservadores também não abraçaram completamente a banda, que continuava associada ao universo do rock e às transformações culturais dos anos 1960.

O resultado foi uma situação desconfortável. O grupo acabou recebendo críticas de diferentes lados do espectro político, ficando preso em um debate que pouco tinha a ver com sua música. O documentário sugere que esse desgaste contribuiu para enfraquecer o prestígio da banda em um momento decisivo de sua carreira. Embora não tenha sido o único fator por trás da perda de relevância comercial que ocorreria nos anos seguintes, certamente deixou marcas duradouras em sua reputação. A banda lançaria pelo menos mais um clássico depois disso: Blood, Sweat & Tears 3.

Para os fãs de rock, o documentário oferece uma fascinante combinação de música, política e história. Para quem se interessa pela Guerra Fria, apresenta um exemplo concreto de como a cultura popular foi utilizada como ferramenta diplomática. E para quem aprecia histórias pouco conhecidas dos bastidores da música, revela um capítulo surpreendente da trajetória de uma banda que, apesar de ter vendido milhões de discos, acabou ficando à margem das grandes narrativas do rock clássico.

Talvez a melhor forma de definir What the Hell Happened to Blood, Sweat & Tears? seja compará-lo ao, já citado no início do texto, famoso documentário Behind the Iron Curtain, do Iron Maiden, lançado em 1984. Ambos mostram bandas ocidentais atravessando fronteiras políticas e culturais aparentemente intransponíveis. Mas enquanto a aventura do Iron Maiden costuma ser lembrada como uma história de triunfo e celebração, a do Blood, Sweat & Tears é muito mais ambígua, complexa e provocadora.

E é justamente por isso que merece ser descoberta.

 

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