Discos Que Parece Que Só Eu Gosto: Led Zeppelin – In Through The Out Door [1979]
Por Marcelo Freire
Há bandas cuja discografia se transforma numa espécie de prisão crítica. Quando um grupo constrói uma sequência quase inacreditável de álbuns marcantes, qualquer trabalho que se afaste ligeiramente desse padrão acaba sendo visto como um problema. Com o Led Zeppelin aconteceu algo parecido. Em meio a discos que ajudaram a moldar o peso do rock dos anos 1970 – pensando bem, discos que praticamente estabeleceram o que entendemos como rock pesado –, In Through the Out Door acabou ficando com a incômoda reputação de “disco menor”. Não exatamente rejeitado, afinal a história da banda é grande demais para isso, mas frequentemente tratado como um estranho no ninho, um trabalho que não se encaixa com facilidade na narrativa clássica do grupo – já prestou atenção que quando se fala nos grandes momentos do Zeppelin, ninguém menciona In Through the Out Door?

Sempre achei curioso como esse rótulo se repete sem que muita gente volte ao álbum com calma, pois o que sempre me intrigou nessa leitura é que ela diz menos sobre o disco e mais sobre a expectativa que criamos em torno da banda. Por isso trago para esta nossa seção um disco de que realmente gosto, seja pela qualidade das músicas, seja pelo que ele representou naquele momento da trajetória da banda. Se o baterista John Bonham não tivesse falecido em 1980, é bem possível que o álbum seguinte da banda seguisse um caminho mais pesado. Nesse cenário, In Through the Out Door provavelmente estaria hoje muito melhor posicionado dentro da discografia do grupo, e não como uma obra menor, mas como uma transição de equilíbrio delicado entre o que o Zeppelin já havia feito e o que talvez viesse a fazer depois.
Há duas boas portas de entrada para compreender esse equilíbrio delicado do álbum. A primeira talvez seja a própria faixa de abertura, “In the Evening”. A música começa com um daqueles riffs densos que parecem emergir diretamente do repertório clássico do Led Zeppelin, sustentado pela guitarra de Jimmy Page em um clima quase hipnótico, construído a partir de uma progressão simples, mas carregada, de peso e tensão. John Bonham ancora tudo com um groove sólido, enquanto John Paul Jones adiciona camadas discretas de sintetizador que ampliam o espaço sonoro sem diluir a força da guitarra. O arranjo, no entanto, reserva algumas surpresas: no meio da canção, a música se dissolve em uma seção atmosférica marcada por teclados etéreos e efeitos de guitarra, antes de retornar ao riff principal com ainda mais intensidade. Essa estrutura híbrida torna “In the Evening” particularmente reveladora dentro do disco. Ao mesmo tempo em que preserva o impacto do Zeppelin mais conhecido – pesado, expansivo, quase ritualístico –, a faixa também sugere uma banda aberta a explorar novas texturas e dinâmicas, ou seja, a transição que enxergo para o álbum. É como se a música funcionasse como uma ponte entre dois momentos da história do grupo: de um lado, o peso monumental que consagrou o Led Zeppelin ao longo da década de 1970; de outro, a curiosidade sonora que começava a aparecer com mais força naquele final de década. Quero reforçar que esse disco só se tornou o canto do cisne do grupo por um infortúnio.


Esse clima de tensão que percorre o arranjo de “In the Evening” também encontra eco na própria letra escrita por Robert Plant. Embora não seja uma narrativa direta, a canção sugere um estado emocional inquieto, quase febril, marcado por desejo, frustração e espera – elementos que aparecem repetidamente ao longo do disco: “Eu procuro uma mulher, mas a garota não vem / Então, não a deixe te fazer de bobo / Ela não mostra piedade, querida, ela não faz as regras”. Há uma sensação de movimento interrompido, de algo que tenta avançar, mas encontra resistência, o que combina bastante com o momento vivido pela banda naquele final de década. Musicalmente, Jimmy Page reforça essa atmosfera desde os primeiros segundos da faixa. O som inicial da guitarra, com aquele caráter quase fantasmagórico, foi construído a partir do uso do chamado bowed guitar (técnica em que o músico utiliza um arco de violino para fazer vibrar as cordas da guitarra), combinado com efeitos de processamento reverso e manipulações de estúdio que ampliam a sensação de suspensão sonora. O resultado é uma introdução que parece emergir lentamente do silêncio antes que o riff principal se imponha com força total. Detalhes como esse ajudam a perceber que “In the Evening” não é apenas a faixa que abre o álbum, mas também uma espécie de síntese do momento criativo do Led Zeppelin ali: uma música que ainda dialoga com a grandiosidade do Zeppelin clássico, mas que já aponta discretamente para outras possibilidades de textura e atmosfera.


A segunda porta de entrada é um detalhe visual do álbum, que ajuda a compreender melhor o momento da banda. A arte da capa foi criada pelo coletivo de design Hipgnosis, responsável por muitas capas icônicas do rock dos anos 70 e do próprio Led: a do Houses of the Holy (1973), uma das mais lindas de todos os tempos, do Presence (1976) e a do póstumo Coda (1982). In Through the Out Door foi lançado com seis capas diferentes, todas mostrando exatamente a mesma cena dentro de um bar: um homem (será o que espera a sua garota, da letra de “In the Evening”?) sentado ao balcão, um bilhete sendo queimado, algumas figuras ao redor; no entanto, cada versão apresenta o episódio a partir de um ponto de vista distinto. Dependendo do ângulo, a história parece ligeiramente diferente. A ideia conversa diretamente com o próprio título do disco (algo como “entrar pela porta da saída”), que sugere uma espécie de movimento inesperado, entrar por onde normalmente se sai. Durante as sessões, chegou-se inclusive a cogitar o título Look, algo como “olhe”, “veja”, um convite a observar. Talvez não seja coincidência que um disco nascido em meio a circunstâncias tão complexas tenha acabado acompanhado de um conceito visual que insiste em lembrar que a mesma história pode ser vista de muitas maneiras. O Led Zeppelin de 1979 já não era exatamente o mesmo de alguns anos antes, e as músicas de In Through the Out Door parecem a prova disso.


Se você for um dos sortudos que possui um exemplar original do LP (acham mesmo que por aqui essas coisas chegavam facilmente lá nos longínquos e inacreditáveis anos 70?) e observar com atenção a capa interna, descobrirá um pequeno truque curioso. A arte foi impressa com uma tinta especial que reage à água. Ao umedecer levemente a superfície, cores escondidas começam a aparecer, como se a imagem revelasse camadas que estavam ali desde o início, mas que só se tornam visíveis quando alguém decide olhar de outro modo. É um detalhe físico do objeto, quase um pequeno brinquedo gráfico, mas que, olhando hoje, parece uma metáfora involuntária para o próprio disco.


Ainda assim, talvez a camada mais importante desse disco não esteja apenas na imagem da capa ou na maneira como o LP revela cores escondidas quando tocado pela água. Ela está no próprio (des)equilíbrio interno da banda naquele momento: o Zeppelin atravessava um de seus períodos mais turbulentos. Robert Plant ainda lidava com o impacto devastador da morte de seu filho, ocorrida em 1977. Jimmy Page enfrentava uma dependência severa de heroína, e John Bonham também vivia um período de excessos não apenas com drogas. O grupo praticamente não gravava material novo desde Presence, lançado em 1976. Era um cenário complicado para qualquer banda, quanto mais para uma que havia redefinido o peso do rock ao longo da década anterior, avassaladora em suas turnês e que não pisava nos palcos havia cerca de dois anos. O último concerto da grande turnê que antecede In Through the Out Door ocorreu em 24 de julho de 1977, no Oakland–Alameda County Coliseum, na Califórnia, durante a North American Tour 1977. Desde que surgiram, nunca haviam ficado tanto tempo longe dos palcos. Depois daquele show, a banda só voltaria a tocar ao vivo em 4 de agosto de 1979, no festival de Knebworth, na Inglaterra. Até então, durante boa parte da carreira do Led Zeppelin, o eixo criativo girou principalmente em torno da parceria entre Jimmy Page e Robert Plant. Em In Through the Out Door, no entanto, algo se desloca de maneira perceptível. Enquanto Page, Bonham e Plant lidavam com seus próprios demônios pessoais, quem acaba assumindo um protagonismo inesperado nas sessões é John Paul Jones.


Isso não significa que John Paul Jones surgisse ali como uma força inédita dentro da banda. O multi-instrumentista já havia sido peça fundamental no som do grupo desde o início, mas raramente aparecia com tanto protagonismo nas composições. O fato de sua personalidade reservada, e da genialidade explosiva de seus companheiros de banda, muitas vezes o colocarem fora dos holofotes não diminui a dimensão de sua contribuição. Basta lembrar de uma peça como “No Quarter”, cuja atmosfera sombria, marcada pelos teclados etéreos de Jones, se tornou uma das marcas mais fascinantes do repertório da banda — sobretudo nas longas versões ao vivo que transformavam a música em um verdadeiro mantra obscuro. Em In Through the Out Door, no entanto, esse papel estrutural deixa de ser apenas um elemento de sustentação e passa a ocupar o centro do processo criativo. “Acho que você poderia dizer que In Through the Out Door é um disco meu, da mesma maneira que Presence é do Jimmy,” resume o baixista com uma franqueza admirável em entrevista a Ritchie Yorke em 1991. A afirmação pode simplificar um pouco a dinâmica interna da banda, mas ajuda a entender o espírito do álbum: muitas das ideias musicais nascem a partir de estruturas de teclado, sintetizadores e experimentações conduzidas por Jones, deslocando sutilmente o centro de gravidade do Zeppelin.


Essa mudança de eixo ajuda a explicar muito da sonoridade do álbum. Em vez de riffs dominantes e guitarras monumentais, que até aparecem no disco, porém em menor quantidade do que estamos acostumados a ouvir no Zeppelin, o disco se constrói muito mais a partir de texturas, arranjos e climas. Parte desse deslocamento criativo também se explica pelas próprias circunstâncias das gravações. Em função do exílio fiscal que impedia a banda de trabalhar no Reino Unido naquele momento (muitos artistas britânicos faziam o mesmo para evitar as altíssimas taxas do Reino Unido), o Led Zeppelin acabou se instalando no Polar Studios, em Estocolmo. O estúdio funcionou de 1978 a 2004 e foi fundado pelos músicos do ABBA Björn Ulvaeus e Benny Andersson, e pelo empresário da banda, Stig Anderson, proprietário da gravadora Polar Music. O icônico estúdio foi usado para gravar os três últimos álbuns do ABBA, Voulez-Vous (1979), Super Trouper (1980) e The Visitors (1981). Após o fim do ABBA, todos os membros do grupo continuaram usando o estúdio para gravar seus projetos solo, bem como uma série de outros artistas conhecidos gravaram no Polar. Em 1981, torna-se um dos primeiros estúdios digitais do mundo.


Ali, enquanto Jimmy Page e John Bonham atravessavam um período particularmente turbulento marcado pelos excessos da vida de rock star, Robert Plant e John Paul Jones, ambos sóbrios, assumiram boa parte da condução das sessões. Muitas das ideias do álbum começavam a tomar forma durante o dia, quando os dois se reuniam no estúdio para construir as bases das músicas utilizando teclados e sintetizadores – entre eles o imponente Yamaha GX-1 pertencente a Benny Andersson. Só mais tarde, já pela noite, Page e Bonham chegavam para acrescentar suas partes às estruturas que haviam sido preparadas.
E não é difícil entender o fascínio de John Paul Jones pelo equipamento. O Yamaha GX-1 era praticamente um “laboratório sonoro” da década de 1970. Lançado em 1973, ele não era um sintetizador comum: era um instrumento gigantesco, modular, com vários teclados e pedais, capaz de produzir camadas de som muito complexas. Era tão caro e raro que pouquíssimos músicos no mundo possuíam um – entre eles Andersson. Para se ter uma ideia, o GX-1 podia custar o equivalente a mais de 50 mil dólares na época, algo astronômico para os anos 70, além de pesar centenas de quilos. Possuía três manuais de teclado, pedaleiras e módulos de controle que permitiam criar sons sintéticos, camadas harmônicas e texturas orquestrais difíceis de obter com outros instrumentos da época. Não é difícil perceber como essa ferramenta acabou influenciando o caráter de várias músicas do álbum – sobretudo em “Carouselambra”, em que as camadas de sintetizadores passam a ocupar o espaço que, em muitos momentos da história da banda, era dominado pela guitarra. Ter Jones e Plant estruturando as músicas durante o dia, enquanto Page e Bonham apareciam à noite não era exatamente o método clássico de trabalho da banda, mas era a forma possível de manter o Zeppelin funcionando naquele momento.


É justamente nesse ponto que In Through the Out Door revela sua camada mais escondida. “Carouselambra” é, para mim, a verdadeira joia oculta do álbum, e foi ouvindo-a esses dias que me veio a ideia deste texto. Com mais de dez minutos, dominada por teclados, sintetizadores e mudanças de clima, ela não soa como uma simples tentativa de repetir o Led Zeppelin clássico, nem como uma fuga completa da identidade da banda. Soa como o Zeppelin daquele momento: ferido, reorganizado, menos dependente da guitarra como centro absoluto, mas ainda ambicioso, inquieto e capaz de construir uma peça longa, cheia de movimento interno. Durante boa parte da faixa, John Paul Jones conduz a arquitetura da música, enquanto Page aparece de maneira mais contida; quando a guitarra ganha mais força, sobretudo na parte final, não parece uma correção de rota, mas a lembrança de que o DNA da banda continua ali.
Se “In the Evening” funciona como ponte entre o Zeppelin consagrado e o que poderia vir depois, “Carouselambra” é a melhor prova de que esse depois já começava a aparecer dentro do próprio disco. O resultado é um disco que soa, em vários momentos, surpreendentemente introspectivo. As letras de Plant também carregam um tom mais reflexivo, às vezes até inquieto, que muitos ouvintes associam às tensões internas da banda naquele período. Canções como “All My Love” e “I’m Gonna Crawl” parecem olhar menos para mitologias e épicos imaginários e mais para fragilidades muito humanas.

Já “Fool in the Rain” reforça, por outro caminho, como o disco também merece uma escuta mais atenta. À primeira audição, ela parece quase uma anomalia dentro da discografia do Led Zeppelin: groove leve, clima quase tropical, um ritmo que flerta com o shuffle e depois se abre para uma seção central inesperada, marcada por uma espécie de atmosfera de carnaval distante. Mas é justamente aí que o Zeppelin mostra algo que sempre fez muito bem: a capacidade de absorver influências e transformá-las em algo próprio. John Bonham conduz a música com uma elegância impressionante, e a bateria acaba sendo o elemento que mantém tudo firmemente ancorado no universo da banda, mesmo quando o arranjo parece apontar para lugares pouco explorados por eles até então.
Talvez por tudo isso In Through the Out Door tenha sido recebido com certa desconfiança por parte de quem esperava apenas mais uma dose do Zeppelin monumental de discos como Led Zeppelin IV ou Physical Graffiti. Curiosamente, porém, o público da época não parece ter compartilhado dessa reserva. O álbum estreou diretamente no primeiro lugar das paradas tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido, demonstrando que o interesse pelo grupo permanecia intacto.

O mais intrigante é que o disco acabou se transformando, involuntariamente, no último capítulo da história de estúdio da banda. Jimmy Page chegou a comentar posteriormente que o plano para o álbum seguinte era retomar um som mais pesado e centrado na guitarra. A morte de John Bonham, em 1980, interromperia definitivamente essa possibilidade. O que nos resta, então, é este disco estranho, às vezes incompreendido, mas profundamente revelador. Em vez de um erro na discografia do Led Zeppelin, In Through the Out Door me parece hoje algo muito mais interessante: o registro de uma banda gigantesca tentando encontrar novos caminhos quando as circunstâncias já não permitiam repetir as fórmulas do passado e que, segundo Page, provavelmente os levaria a algo mais visceral (basta lembrarmos a passagem de Led Zeppelin III para Led Zeppelin IV).
E é impossível não pensar nesse “seguir” que nunca chegou a acontecer. Pouco mais de um ano depois do lançamento do disco, a morte de John Bonham encerraria definitivamente a história do Led Zeppelin. O álbum seguinte, que Jimmy Page imaginava mais pesado e centrado na guitarra, nunca existiu. O que ficou foi este último retrato de estúdio: imperfeito, diferente de tudo que veio antes, mas com algumas pequenas pistas sobre caminhos que a banda talvez ainda pudesse ter explorado. É por isso que a imagem da capa continua funcionando tão bem como metáfora. In Through the Out Door é desses discos que mudam quando olhamos de novo. De um ângulo, pode soar como obra menor; de outro, como documento de crise; de outro ainda, como ensaio de futuro. E, quando tocado com um pouco mais de atenção, como aquela capa interna que revelava cores escondidas, deixa aparecer camadas que sempre estiveram ali, esperando apenas que alguém decidisse olhar de outro modo.

Track list
- In the Evening
- South Bound Suarez
- Fool In The Rain
- Hot Dog
- Carouselambra
- All My Love
- I’m Gonna Crawl

Gosto bastante de In Through the Out Door, mas é inegável que sua qualidade é bem aquém dos demais discos. “Carouselambra” e “In the Evening” são excelentes músicas, enquanto “Fool in the Rain” e “South Bound Saurez” são aquelas que coloco entre as piores do Led. Já “All My Love” é bem lindinha, “Hot Dog” é daquelas brincadeiras que o Led adorava fazer, e “I’m Gonna Crawl” indica o que Robert Plant fez no início de sua carreira solo.
Penso que se o Led continuasse, e fizesse algo como “Wearing and Tearing”, daí teriamos um disco espetacular na sequência. Mas a vida não permitiu descobrirmos o que iria acontecer, e acabou nos brindando com “Big Log” e The Outrider nos anos 80 ….