A Young Person’s Guide to: Caetano as Guest [Parte I]

A Young Person’s Guide to: Caetano as Guest [Parte I]

Por Mairon Machado

Um dos maiores arroz de festa na música mundial se chamado Caetano Emanuel Viana Teles Veloso, ou simplesmente Caetano Veloso. O bahiano de Santo Amaro da Purificação, que está de aniversário hoje, completando 84 anos, reverenciado e aclamado como talvez o maior nome da MPB em todos os tempos, tem uma lista infinita de participações em discos de artistas e bandas, que não negaram – ou até usaram do – o nome de Caetano para ganhar uma promoçãozinha extra com a mídia e, por que não, até com os fãs do cantor e compositor.

Como a lista é enorme, resolvi fazer uma série de três partes com 14 canções de Caetano como convidado em discos de artistas masculinos (parte 1), femininos (parte 2) e bandas + Gil / Bethânia / Gal (parte 3). Um critério que escolhi é pegar canções que não apareceram no CD de raridades/inéditas dos boxes da série 40 Anos Caetanos (a saber Pipoca Moderna, Certeza da Beleza e Que De-Lindo), mas algumas são tão boas que, caso surjam nestas listas, serão citadas que estão nestas compilações. O segundo foi não pegar participações de Caetano cantando músicas dele em discos de outros artistas, e acredite, há muito disso.

Por fim, como é que como Caetano participou também de muitas canções dos conterrâneos Gil, Gal e Bethânia, e as participações relevantes/com canções boas ao meu gosto, em grupos não chega a quatorze, decidi colocar algumas das contribuições dele no suposto lado B da coletaneazinha A Young Person’s Guide, deixando o lado A justamente para sete contribuições em bandas (e com surpresas que muita gente aqui vai me crucificar).

Além dos 14 citados, vale trazer que o artista também colaborou com os seguintes artistas (álbuns): Jorge Ben (Salve Simpatia); Carlos Mendes (Ímã); Marito (Companheiros); Arrigo Barnabé (Janete); Nilton Marçal (Recompensa); Moraes Moreira (Mestiço É Isso); Péricles Cavalcanti (Canções); Carlinhos Vergueiro (15 Anos de Carreira); Pablo Milanés (Ao Vivo no Brasil); Toni Costa (Gente de Rua); Luiz Caldas (Flor Cigana); Toots Thielemans (The Brasil Project Vol. 1 e Vol. 2); Roberto Mendes (Matriz); Lô Borges (Meu Filme); Cauby Peixoto (Cauby Canta Sinatra); Carlinhos  Brown (Alfagamabetizado); Francis Hime (Álbum Musical); Ivan Lins (Viva Noel); Roberto Mendes (Roberto Mendes & Convidados); Orlando Morais (Agora); Saul Barbosa (Cidade Aberta); Raphael Rabello (Mestre Capiba); Carlos Bolão (Pulsação); Lee Ritenour (Festival); Lanny Gordin (Duos); Dadi (Dadi), Leo Gandelman (Sabe Você), Jorge Drexler (Bailar En La Cueva), Stefano Bollani (Que Bom) e Jherek Bischoff (Composed), assim como as participações ao lado de Zeca Pagodinho e Roberto Silva nos álbuns 2 e 4 do projeto Casa de Samba, respectivamente.  Mas com certeza há muito mais além destes que tenho na minha coleção, o que exige um grande tempo de pesquisa e garimpo.

Sendo assim, vamos para as quatorze faixas gravadas em álbuns de artistas masculinos, e daqui um tempo, a segunda e terceira parte.


LADO A

1. “Pra Chatear”: Ronnie Von – Ronnie Von N° 3 [1967]

Pouco antes de sua estreia com Gal Costa em Domingo, Caetano participou ao lado de Ronnie Von nesta marchinha de carnaval psicodélica, escrevendo e fazendo um dueto vocal muito bom com o eterno Pequeno Príncipe. Caetano parece ainda bem tímido no estúdio, mas sua marcante voz já é característica, além de ser a primeira gravação oficial do baiano ligada ao Carnaval. Simples, mas fundamental!

2. “Áquas” – Walter Smetak – Smetak [1975]

O músico e compositor suíço veio para o Brasil em 1937, e aqui, tornou-se um dos maiores nomes do cenário avant-garde nacional, dando origem ao grupo Uakti e influenciando muitos outros artistas. Dentre eles, Caetano Veloso. No seu álbum de estreia, em 1975, Caetano participa como editor, produtor e também com o corpo. Sim, com o corpo, já que ele usa de palmas e batidas em diversas partes do corpo (barriga, pernas, bochechas) para criar canções fora dos padrões. Em “Áquas”, entre grunhidos, barulhos de água, gotas, bolhas estourando, uma gaitinha desafinada e sons aleatórios, o ouvinte que não tem um contato com o estilo se quer imagina que é Caetano quem está fazendo alguns destes barulhos. Serve como um registro raríssimo da capacidade do baiano perambular por dentre os mais variados mundos musicais.

3. “Não Quero Ver Você Dançar”: Sergio Dias – Sergio Dias [1980]

Canção do álbum de estreia de Sergio Dias – o qual havia participado na Sitar de “Terra”, do álbum Muito (Dentro De Uma Estrela Azulada), lançado por Caetano em 1978 – em carreira solo, ela recoloca os tropicalistas em uma faixa puramente funkeada e cheia de swingue. O naipe de metais aqui é assombroso, no melhor estilo Motown, e o baixão grooveado de Jamil Joanes, junto com a batera de Paulinho Braga, dão ainda mais movimento para uma ótima canção. Caetano colabora com a letra e com o rap que contrapõe os vocais de Serginho, e este manda ver nos seus solos. Se você gosta de Mutantes, irá torcer o nariz. Mas se você aprecia boa música de qualquer gênero, irá se deliciar. Detalhe adicional: no mesmo álbum, Caetano contribui com a letra de “O Grão”. Apesar de não colocar sua voz nela, vale a pena a audição, assim como todo o disco em si.

Com Erasmo Carlos

4. “Quero Que Vá Tudo Pro Inferno”: Erasmo Carlos – Convida … [1980]

Uma das mais brilhantes reconstruções musicais que Caetano fez em sua carreira está aqui. O rock cheio de energia que Roberto Carlos registrou em Jovem Guarda (1965), e que virou um dos símbolos de uma geração no Brasil, ganha uma cara mais romântica e leve na voz de Caetano junto d’A Outra Banda da Terra. Um dos melhores discos com convidados na história do Brasil, Erasmo Carlos Convida … fornece muitas obras similares às gravações originais do Tremendão ao lado de gigantes como Tim Maia, Maria Bethânia, Rita Lee, Gilberto Gil …, mas é nessa desconstrução malemolente de Caetano que está um de seus maiores brilhos. Sensacional!

5. “Cidadão-Cidadã”: Jorge Mautner – Bomba De Estrelas [1981]

Extraída do sensacional disco de convidados de Jorge Mautner, “Cidadão-Cidadã” tem uma vibe Thin White Duck em seus quase 5 minutos de duração, que me encanta. As vozes de Caetano e Mautner – que vieram a gravar em 2002, juntos, o álbum Eu Não Peço Desculpas – se complementam junto a um andamento envolvente de baixo (Arnaldo Brandão), bateria (Wilson Meirelles) e piano (Tomaz Improta). O saxofone, a cargo de Marcelo Neves, e o mandolim de Ronald Pinheiro, dão um charme a mais para a canção. E como não valorizar as passagens do piano elétrico de Improta? Um dos grandes músicos da música brasileira nos anos 70 e 80, e que aqui entrega mais uma contribuição essencial. Muitos acham que Mautner é um exagerado, e suas composições são no mínimo sem graça. Honestamente, curto muito a carreira dele, e tenho em “Cidadão-Cidadã” uma de suas melhores composições musicalmente falando. A letra aqui, honestamente, que se foda. Eu quero é me maravilhar com a voz de Caetano e o solo de saxofone.

Ao lado de Milton Nascimento

6. “As Várias Pontas De Uma Estrela”: Milton Nascimento – Ănĭmă [1982]

Tendo um timaço de banda (Wagner Tiso ao piano, Robertinho Silva na bateria, José Renato no violão de 12 cordas e Paulinho Carvalho no baixo), “As Várias Pontas de Uma Estrela” é a fusão da baianidade tropicalista de Caetano com a sensibilidade mineira do Clube da Esquina. Que música! As vocalizações de Milton acompanhadas pelo piano de Tiso introduzem para a voz marcante de Caetano surgir cantando sua linda letra. O contraponto vocal de Milton, com seus falsetes ao fundo da voz de Caetano, funciona muito bem, e a faixa desenvolve-se com o piano e o dedilhado de violão, com Caetano soltando a voz no refrão. Na medida que a faixa vai rolando, Caetano canta com uma raridade, enquanto Milton apenas surge fazendo sempre o contraponto vocal. O encontro de dois gigantes, que trabalhariam juntos anos depois na trilha do filme O Coronel e o Lobisomem. Mas isso é papo para outra postagem, ficando aqui a dica de uma das belas canções da MPB nos anos 80. Esta faixa aparece em Certeza Da Beleza – Raridades 3 (83-94), no box da terceira caixa Quarenta Anos Caetanos, mas ela é tão bela que merece estar aqui.

7. “Chegou No Vento”: Vinícius Cantuária – Vinícius Cantuária [1982]

Vinícius foi um dos fundadores d’O Terço, e foi membro crucial das bandas de apoio de Caetano entre 1978 e 1984, no caso A Outra Banda da Terra e Banda Nova, gravando álbuns cruciais como Muito (Dentro De Uma Estrela Azulada), Cinema Transcendental e Velô, só para citar alguns. Em Outras Palavras (1981), Caetano já havia gravado o que se tornou sucesso “Lua E Estrela”, composição de Vinícius, que em sua estreia solo no ano seguinte, chama o chefe para colaborar com “Chegou No Vento”. Este xote animado é ótimo, lembrando “Esperando Na Janela” (de Gil), contando a relação de amor de alguém que anda pelas estradas que levam a Maceió, e é perfeito para se curtir uma festinha ao som de música nordestina. Caetano e Vinícius se alternam nas vozes com um entrosamento de quem se conhece há tempos, e a música flui com uma naturalidade gostosa que, mesmo não se gostando do ritmo, acaba agrando. No mesmo álbum, Vinícius registra “O Grande Lance É Fazer Romance”, também de Caetano, essa já mais soturna, que sempre fiquei curioso em ouvir na voz do baiano, o qual ainda participou de “Banda Nova” no álbum Siga-Me, lançado por Vinícius em 1985, e também de “Aqua Rasa”, do álbum Vínicius (2001)

Ao lado de Vinicius Cantuária

LADO B

1. “Maria Bethânia”: Nelson Gonçalves – Eu & Eles [1985]

Na metade dos anos 80, o gigante Nelson Gonçalves tentou revitalizar sua carreira, gravando grandes sucessos ao lado de cantoras e cantores modernos. Assim, lançou os álbuns Nós (1987), Eu & Eles (1985) e Ele & Elas (Vol. 1 de 1984 e Vol. 2 de 1986), com convidados diversos, como Lobão, Milton Nascimento, Tim Maia, Fagner, Gal Costa, Tetê Espíndola e Caetano Veloso, entre outros e outras. Quando criança, Caetano era apaixonado pela música “Maria Bethânia”, tanto que seu amor por essa música foi responsável pelos pais batizarem a irmã com o nome da canção. Nada mais justo que Nelson chamar Caetano para interpretar essa pérola do cancioneiro nacional, obra de Capiba. Apesar dos teclados oitentistas, a canção conta com um belo arranjo orquestral de Reinaldo Arias, e nela, Nelson solta seu vozeirão grave na primeira estrofe, com a delicada voz de Caetano fazendo a segunda estrofe. A partir de então, os dois vão alternando suas vozes, dando dramaticidade e dor para uma das maiores obras que a música popular brasileira pariu. Clássico!

2. “Olhos Negros”: Johnny Alf – Olhos Negros [1990]

Falar de Johnny Alf é chover no molhado. Um dos maiores cantores, pianistas e compositores do Brasil, Johnny fez fama como um dos primeiros nomes da Bossa Nova, ao lado de João Gilberto e Tom Jobim, mas com um detalhe: o músico era de classe pobre, negro e homossexual, e conseguiu mesmo assim se sobrepor através do seu talento em uma classe totalmente racista, preconceituosa e da elite carioca. Em 1990, Johnny uniu uma constelação de estrelas para gravar Olhos Negros. Gal Costa, Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso são alguns dos 10 convidados do álbum, e coube ao baiano Caetano registrar a faixa-título. Conduzido pelo indefectível piano de Johnny, e o maravilhoso arranjo orquestral a cargo de Guto Graça Mello, Caetano brilha nesta faixa que tem todo o ar e charme da orla de Copacabana misturados com a embriaguez de Ipanema. Ou seja, uma faixa puramente do sul carioca, que ganha a pimenta baiana para complementar a grave voz de Johnny. Para quem aprecia MPB, melhor que isso não há.

3. “Responso”: Keiler Rêgo – Oratório De Santo Antônio [1993]

Para quem acha que Caetano só começou a flertar com o evangelismo e com religião no final da década passada, mero engano. Em 1993, através de convite do maestro e compositor Keiler Rêgo, Caetano entregou sua voz para o hino “Responso”, lançado no álbum Oratório de Santo Antônio. É no mínimo curioso ouvir a doce voz de Caetano cantando um hino religioso sobre camadas de teclados e do piano elétrico. A letra é dedicada à Santo Antônio, e o hino é uma bonita canção, além de uma raridade dentro da vasta discografia de Caetano.

Ao lado de Fito Paez, em 1994

4. “Mariposa Tecknicolor”: Fito Paéz – Circo Beat [1994]

Esta faixa bônus de Circo Beat ficou bem curiosa de se ouvir na voz de Caetano. Um dos grandes sucessos da carreira de Fito Paéz, aqui recebe uma versão em português, feita por Herbert Vianna, cantada pelos dois, dividindo os vocais igualmente, e não sei o que é mais curioso, se Paéz cantando em português ou Caetano soltando sua voz em um rock rápido e bem discrepante da malemolência baiana que conhecemos. Um ótimo rock, quase que uma preciosidade musical para os que curtem o rock advindo dos hermanos, principalmente pela energia portenha exalada na canção.

5. “Assum Branco”: José Miguel Wisnik – Pérolas Aos Poucos [2003]

A música minimalista de José Miguel Wisnik é praticamente desconhecida pela população geral brasileira, mas dentre os chamados “intelectuais” da cultura nacional, Wisnik é considerado um dos grandes compositores deste século. Eu fico no meio termo em relação à sua obra, mas gosto bastante de Onkotô, álbum/trilha que ele gravou ao lado de Caetano em 2006. Pouco antes, no álbum Pérolas Aos Poucos, a parceria Wisnik/Caetano começou através de “Assum Branco”, uma faixa que óbvio, liricamente remete ao clássico “Assum Preto”, mas que aqui, ganha na dramaticidade do piano de Wisnik, e na tocante interpretação de Caetano, o qual não faz força para simplesmente arregaçar as caixas de som. Linda faixa, mais uma das tantas a serem descobertas deste grande compositor/músico brasileiro.

6. “Lisboa Que Amanhece”: Sérgio Godinho – O Irmão Do Meio [2003]

No final dos anos 90, Caetano era um nome super em voga na Europa, principalmente pelo sucesso do álbum ao vivo Prenda Minha. Isto acabou o levando a fazer shows por lá, e também a gravar com músicos europeus, dentre eles, o ator, compositor e cantor português Sérgio Godinho. Em seu álbum de convidados, O Irmão do Meio, Godinho chamou Caetano para contracenar na romântica “Lisboa Que Amanhece”, uma bela canção carregada no órgão farfisa e na bela condução bossa-novística do violão, com um clima bem tropicalista, onde a voz de Caetano predomina, contrastando com o português carregado de sotaque de Godinho. Uma boa canção, que remete fácil a musicalidade do nosso Brasil varonil, mas com toda a presença de Portugal na voz de Godinho.

Em estúdio, com Vitor Ramil

7. “Milonga De Los Morenos”: Vitor Ramil – Délibáb [2010]

Em um disco intimista, no qual Vitor retoma seus tempos de Ramilonga, privilegiando a cultura dos pampas, eis que surpreendentemente ele convida o baiano Caetano para interpretar “Milonga De Los Morenos” E não é que o sotaque baiano se encaixa muito bem com a letra em espanhol? Ok, Caetano já havia tido a experiência de gravar em espanhol no álbum Fina Estampa (1994), mas confesso que sempre que ouço esta canção, me assusta positivamente como a voz acalentada de Caetano se encaixa perfeitamente no ritmo milongueiro. Belíssima canção, que encerra aqui a primeira parte de Caetano como convidado de artistas masculinhos.

2 comentários sobre “A Young Person’s Guide to: Caetano as Guest [Parte I]

  1. E da Máfia do Dendê não se vai falar? A verdade é que parece haver um conluio entre alguns nomes da Tropicália, principalmente coronel Caetano, e grande parcela da imprensa para endeusar determinados artistas…Parece que para alguns da mídia é impossível falar de Caetano, Gil, Maria Bethânia e Gal Costa sem endeusá-los até as raias do capachismo. Muitos artistas se aproximam de Caetano para se aproveitarem de todo um eco sistema de influência, publicitário e de divulgação que se movimenta, coisa de máfia que dá a impressão de intimidar qualquer um que não faça parte da patota, quando isso acontece.

    Tem de se ser muito ingênuo para achar que essa adoração por coronel Caê seja totalmente espontânea e desinteressada por parte de muitos artistas do meio musical e se refira apenas a qualidade, que existe, da obra musical do baiano…

    1. Caetano, cara moreno, baiano de Santo Amaro, tem muita coisa boa. Cresci ouvindo muita coisa dele, é fato, é certo. Mas, sei lá, há um algo vago naquilo que ele compôs, que hoje o coloca em um patamar abaixo do que entendo ser meu gosto pessoal. À frente dele, coloco Milton, Gil, Chico, e mais uns dez. Com o tempo, Caê se tornou pretensioso demais. E essa coisa de todo mundo ter de ir pedir a bênção ao baiano se tornou um aspecto meio desagradável em sua presença morena. Caetano é chato. Mas, quando acerta: meu Deus! Enfim, o Emanuel Teles já foi superbacana. Hoje o acho superestimado. Mas isso é só a minha opinião.

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