A Young Person’s Guide To: Caetano As Guest (Bands + Gal & Bethânia)

A Young Person’s Guide To: Caetano As Guest (Bands + Gal & Bethânia)

Por Mairon Machado

Encerro hoje as coletâneas relativas às participações de Caetano Veloso em álbuns de outros artistas. Depois do Volume I, com artistas masculinos, e o volume II, com artistas femininos, hoje é a vez de apresentar as contribuições do baiano em álbuns de bandas, da irmã Maria Bethânia e da super-parceira Gal Costa.

As participações de Caetano em discos de bandas não foram muitas, e decidi não incluir nada d’Os Doces Bárbaros, já que é apenas um EP e o álbum ao vivo, ambos icônicos e fortemente representados em diversas coletâneas, e nem do Grupo Cê, já que são três álbuns de estúdio (e mais três ao vivo) fundamentais para os anos 2000, e que um dia irei tratar por aqui. Sendo assim, escolhi sete para o Lado A da coletânea, e deixei de fora “coisas” bem estranhas, advindas dos discos de: Meninos Do Pelô (Adota Eu – “Roda Pião); Bate Lata (Gente É Pra Brilhar, Não Pra Morrer De Fome – “Gente”); Jammil (Três – “Tempo de Estio”); Timbalada (Vamos Dar Uma Volta No Guetho (Ao Vivo) – “Margarida Perfumada” e “A Luz de Tieta”) e Só Pra Contrariar (Acústico – “Final Feliz”). Então, para fechar a coletânea, selecionei três canções de Caetano em discos de Bethânia, e quatro canções em discos da Gal.

Com Bethânia, que gravou inúmeras canções do mano Caetano, ele gravou o álbum ao vivo de 1978 Maria Bethânia e Caetano Veloso, e além das citadas abaixo, tem a participação em “Alguém Me Avisou” (Talismã, 1980), “O Canto De Dona Sinhá (Toda Beleza Que Há)” (Maricotinha, 2001), “Saudade Dela” (Encanteria, 2009), “Maria Bethânia, A Menina Dos Olhos De Oyá” (Mangueira, A Menina Dos Meus Olhos, 2019), e ainda sua presença ao violão em “Ciclo” (Ciclo, 1983). Já com Gal, ele gravou Domingo, sua estreia em vinil, no ano de 1967, e Temporada de Verão (1974), álbum ao vivo que marca o retorno de Caetano e Gil (igualmente presente no álbum) ao Brasil após o exílio em Londres.

A baiana também gravou inúmeras canções do conterrâneo. Além das citadas no texto, existem também as participações dele em “Flor do Cerrado” (Cantar, 1974), “Salvador Não Inerte / Ladeira Do Pelô” (Plural, 1990) e “A Luz De Tieta” (trilha de Tieta Do Agreste, 1996).

Vamos à seleção que escolhi, e se você sentiu falta de alguma, ou lembra de algo que não foi citado nos três textos, por favor, traga nos comentários.


Lado A

1. “Brigitte Bardot”: Asdrubal Trouxe O Trombone – A Farra Da Terra [1983]

O famoso grupo de teatro Asdrubal Trouxe O Trombone revelou ao Brasil nomes como Luis Fernando Guimarães, Regina Casé, Patrycia Travassos, Evandro Mesquita, entre outros. Nos anos 80, a banda levou para os estúdios a anarquia, diversão e ironia que chocou (e conquistou) o Rio de Janeiro, tendo como produtor artístico Caetano. Seu único disco, o excelente A Farra da Terra, apresenta canções que lembram muito o que a Blitz havia feito um ano antes, e entre elas, Caetano faz Backing Vocals em “Baleia (Eu Quero Mamar”), “Blues da Passagem”, “Iansão” e “Quem Parte Quem Fica”, sendo a voz central, junto de Regina Casé, em “Brigitte Bardot”. Com letra de Péricles Cavalcanti, é uma espécie de valsa à francesa, que enaltece a beleza da musa, capaz de inspirar poetas como o próprio Caetano e Bob Dylan, mas traz também a ironia ao dizer que “Agora pede liberdade para os animais“, no qual é nítido que Caetano segura a risada. Puro sarcasmo, no melhor do humor nacional dos anos 80. Para fechar, ouçam “Heavy Metal”, uma das melhores obras de Péricles Cavalcanti!

2. “Bem Brasil”: Premeditando O Breque – O Melhor Dos Iguais [1985]

Uma das bandas mais sarcásticas do Brasil, o Premeditando O Breque estourou nas rádios brasileiras com o mega-sucesso “São Paulo, São Paulo”, de 1983. Saídos da Vanguarda Paulista do final dos anos 70, misturando rock, MPB, e até música erudita, a banda era centrada no talento dos guitarristas Wandi Doratiotto (que acabou tornando-se famoso ao apresentar o programa Bem Brasil) e Mário Manga. Com letras de um humor ácido, muito à frente para o seu tempo, e que certamente inspirou os conterrâneos do Ultraje a Rigor, no terceiro álbum os paulistas chamaram Caetano para ser a voz principal da sensacional “Bem Brasil”. Um sambaço que ironiza o fato que nosso país “não tem terremoto, não tem revolução, é um país abençoado onde todo mundo põe a mão“. O disco inteiro é fantástico (o que é a interpretação de Cristina Correa em “Balão Trágico”, o peso de “Carrão De Gás” ou a espetacular crítica aos playboys de “Trampo Jóia”?), e deveria aparecer mais nas audições dos roqueiros Brasil à fora.

Com o pessoal do Premeditando O Breque

3. “Ilê De Luz”: Ilê Aiyê – Canto Negro [1989]

A música negra da Bahia tem uma potência a ser descoberta pelos preconceituosos brancos do resto do país, e felizmente, Caetano nunca abandonou suas raízes baianas, principalmente na segunda metade dos anos 80 e durante os anos 90. Antes mesmo do sucesso do Olodum, ou da grandiosidade da Timbalada de Carlinhos Brown (revelado ao mundo por Caetano no seu álbum de 1987), o Ile Aiyê já fazia história pelas ruas do pelourinho baiano, na década de 70 (fundado em 1° de novembro de 1974, é o primeiro bloco afro do Brasil), se consolidando como uma das maiores expressões culturais do Carnaval de Salvador. Esse sonzaço carregado pela percussão forte do grupo, tem uma melodia linda, e uma letra impactante: “Me diz que sou ridículo / Nos teus olhos sou mau visto / Diz até tenho má índole / Mas no fundo, tu me achas bonito, lindo!” e segue: “Negro sempre é vilão / Até meu bem provar que não, que não É racismo meu? Não“. Esse cântico/protesto é uma das melhores produções do estilo. Para ser ouvido sempre, mas principalmente, com a proximidade do 20 de novembro, ser apresentado nas escolas.

4. “Sampa”: Os Cariocas – Reconquistar [1992]

Grupos vocais foram sucessos nacionais nos anos 40 e 50 aqui no Brasil, influenciados por nomes vindos principalmente dos Estados Unidos. Os Cariocas surgiram em 1942, liderados por Ismael Neto, e em 1991, em comemoração aos 50 anos da banda, lançaram Reconquistar, álbum que trouxe a participação de grandes nomes da música brasileira, e entre eles, Caetano. O baiano reinterpreta “Sampa”, mega-sucesso do contestado álbum Muito (Dentro de Uma Estrela Azulada) (1978), e que ganhou uma cara totalmente diferente para o lindo samba original. Aqui, ela virou algo puramente bossa-nova, que nas vozes d’Os Cariocas, ganha todo o charme de uma Ipanema ou Copacabana enaltecendo a maior cidade do país. Caetano surge entre orquestrações e piano, cantando frases de um dos mais belos poemas criados para São Paulo, e assim, vai alternando estrofes com os cantores d’Os Cariocas, encerrando com a bela sacada “E Os Cariocas podem te curtir numa boa“, dando uma pequena modificada na letra, mas que caiu muito bem para o momento. Quem não curte o estilo deste grupo (e de outros como MPB4, Quarteto em Cy ou Boca Livre, só para citar alguns), passa longe, mas para quem tem ouvidos abertos, é uma recriação muito interessante.

5. “Kanela Y Menta”: Ketama – Toma Ketama! [2000]

O grupo Ketama surgiu em Madrid, em meados dos anos 80, mesclando o flamenco com o pop. Em 2000, com uma carreira já bastante experiente, o grupo lançou Toma Ketama!, álbum que vendeu mais de 200 mil cópias somente na Espanha, e que traz a presença de Caetano em “Kanela Y Menta”. A faixa é puramente flamenca, onde o violão de Juan Carmona e a base percussiva extremamente dançante são as atrações maiores, além de um refrão grudento. Para quem gravou um disco como Fina Estampa (1993), a participação de Caetano cantando em espanhol até que é interessante aqui, principalmente por se aventurar em um estilo que não se encontra em nenhum outro álbum dele. Certamente, não é uma das melhores canções que o baiano gravou, mas pelo ineditismo de entrar no mercado espanhol, e pelo violão flamenco sempre bem-vindo, vale a pena inserir “Kanela Y Menta” nesta coletânea.

6. “Menino Deus”: A Cor Do Som – Acústico [2005]

No álbum/show que comemorou o retorno d’A Cor do Som aos palcos, após 10 anos, Caetano participa de um dos maiores sucessos dos meninos. “Menino Deus” é uma ode à cidade de Porto Alegre, registrada originalmente em Magia Tropical (1982), que mudou os rumos de um grupo virtuoso instrumentalmente para estourar nas rádios com algo mais popular. Caetano já solta a voz de cara, acompanhado pelo violão e o piano elétrico, e assim, único nos vocais, faz a mais bela versão que A Cor do Som nunca antes havia registrado para uma obra-prima, acompanhado pelo magistral mandolin de Armandinho, pelo belíssimo acordeão de Marcos Nimrichter e um arranjo fabuloso. Clássico!

7. “Hoje Sou Trovão”: Fresno – A Sinfonia De Tudo Que Há [2016]

Em um disco ambicioso, onde os gaúchos da Fresno tentaram mostrar ao Brasil que eram capazes de fazer um álbum sério, e criaram um álbum conceitual sobre “enxergar o universo como uma grande canção”, Caetano entrega sua voz para “Hoje Sou Trovão”. Uma faixa sombria, muito diferente de tudo o que Caetano já participou antes. Sua fala contrapoe os vocais de Lucas Silveira, com grande destaque para o refrão e o peso da guitarra e do baixo, além das percussões que estão em toda essa complexa faixa. Apesar do disco soar um tanto quanto melodramático, e os vocais de Lucas me darem uma certa repulsa, confesso que me surpreendi com o álbum, e “Hoje Sou Trovão” é uma forte candidata a melhor canção da banda.

Com Maria Bethânia

Lado B

1. “Pássaro Proibido”: Maria Bethânia – Pássaro Proibido [1976]

O ano de 1976 fez com que o quarteto baiano Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia levasse aos palcos os Doces Bárbaros, uma das maiores fusões de gênios que o Brasil já viu. Naquele ano, além do espetacular álbum ao vivo que registrou a turnê, Bethânia lançou Pássaro Proibido, cuja faixa-título foi composta em parceria com o irmão Caetano, e que por curiosidade, é o único músico desta faixa levada pelo seu violão e a voz com os manhosos tremelicos que são pura e unicamente Caetano. Um clássico, que honestamente, nunca entendi por que está aqui e não em Jóia ou Qualquer Coisa, os discos solos de Caetano de 1975.

2. “Alguém Me Avisou”: Maria Bethânia – Talismã [1980]

Bethânia é uma das poucas artistas que atravessou os anos 80 sem se entregar aos eletrônicos em algum momento, ou ao “som de elevador” que tocava direto nas AMs e FMs. Manteve seu foco na MPB, e em Talismã, teve a difícil tarefa de suceder os aclamados Álibi (1978) e Mel (1979), o quais venderam mais de 1 milhão de discos em menos de um ano. Com um timaço de banda (Tulio Mourão ao piano, Luizão Maia no baixo, Perinho Albuquerque na guitarra, Enéas Costa na bateria, entre outros), o álbum oscila entre baladas e canções mais suaves, mantendo a linha de seus antecessores. Mas com “Alguém Me Avisou”, revisão da obra da imortal Dona Ivone Lara, vem o samba alegria que fez de Talismã mais um disco sucesso de vendas, atingindo a marca de 700 mil cópias em apenas seis meses. Uma das canções mais conhecidas da carreira de Bethânia, conta com um molejo sensacional, e sua divisão de vozes com Caetano, e ainda com Gil, é sensacional. Complementando esse mega-clássico, uma orquestração fabulosa. Uma pena que Caetano e Bethânia não incluiram “Alguém Me Avisou” no repertório da turnê que fizeram recentemente, mas aqui, é obrigatória a presença. No ano seguinte, o trio gravou Brasil, junto de João Gilberto. Mas isso é papo para outra postagem.

3. “Purificar O Subaé”: Maria Bethânia – Alteza [1981]

Em um de seus melhores discos, Bethânia interpreta a genial letra de Caetano neste ótimo samba-ecológico em defesa do Rio Subaé, localizado em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, cidade natal dos irmãos. Na excelente letra de Caetano, ele evoca os poderes de deuses e deusas das águas para “purificar o Subaé” (o simples fato de unir o nome da cidade ao rio já é genial) e mandar os malditos que contaminaram o Subaé (empresas que jogaram chumbo e outros metais pesados no local), com todas as águas que desaguam no rio (no caso, do Sergimirim) auxiliando para salvar “a gente morena … os mariscos e os peixes” contra um “progresso vazio“. Caetano, além da letra, colabora com os vocais (que também tem Gil e Nicinha, esta irmã de Bethânia e Caetano), e deixou para eternidade uma das melhores canções ecológicas que o Brasil criou.

Com Gal Costa

4. “Que Pena (Ela Já Não Gosta Mais de Mim)”: Gal Costa – Gal Costa [1969]

Neste incrível disco de estreia da Gal, comandada pelos arranjos precisos do saudoso Rogério Duprat, Gal eternizou a versão de “Baby” que a fez conhecida nacionalmente, e que conta com a voz do autor Caetano. Sanduichada entre ela e outra obra-prima de Caetano, no caso “Divino Maravilhoso”, vem este sambinha na linha Jorge Ben, sensacional, no qual Gal e Caetano dividem os vocais gostosamente, como só os dois sabiam fazer. A voz doce e manhosa de Gal é de se colocar a “Galcha” debaixo do braço e ficar agarrado eterno, e Caetano complementa tudo com uma suavidade única. Sensacional, como quase tudo que esses dois fizeram juntos.

5. “No Tabuleiro Da Baiana”: Gal Costa – Aquarela Do Brasil [1980]

No disco tributo de Gal ao sensacional Ary Barroso, ela chama o amigo Caetano para interpretar a versão definitiva de “No Tabuleiro Da Baiana”. Nela, Caetano e Gal alternam-se nas frases, fazendo um sambaço, onde ambas as vozes destacam-se. Gal vivia uma fase espetacular nos agudos, e Caetano aqui não abusa das vibrações vocais, tornado a canção ainda mais agradável. Os dois divertem-se nitidamente através desse clássico de Ary, e não tem como não ficar contagiado pela alegria que sai das caixas de som.

6. “Groupie”: Gal Costa – Minha Voz [1982]

Álbum de enorme sucesso na carreira de Gal, graças ao mega-clássico “Pegando Fogo”, Minha Voz apresenta ótimas canções – como a definitiva versão para “Borzeguim”, de Tom Jobim -, e entre elas, esse jazz broadway extremamente pomposo, com presenças de Rita Lee, Gilberto Gil, Chico Buarque e Caetano Veloso, que encaixam-se perfeitamente na ideia da letra da canção, de alguém que virou fã destes artistas. Mas aqui eles não entram cantando, e sim trocando ideias em conversas bastante íntimas com Gal. Entre inserções de trechos musicais dos artistas citados, Caetano acaba revelando para ela que ia na casa de Gal para querer namorar Dedé, e fala para Gal “você quer ser minha namorada, hein Gal“, e ambos soltam uma risada mais que gostosa, íntima, de dois amigos que “se amam“, como afirmado na sequência. As revelações de Gal sobre ser fã dos demais é igualmente muito legal, e um registro de como uma artista gigante pode ter humildade de revelar sua paixão por outros artistas.

7. “Sorte”: Gal Costa – Bem Bom [1985]

Bem Bom é um dos discos mais bem sucedidos da carreira de Gal, chegando a marca de 800 mil cópias vendidas no Brasil, e 100 mil cópias em Portugal. Muito disso e por conta de duas parcerias atemporais registradas neste disco. “Dia de Domingo” (com Tim Maia) e “Sorte”, ao lado de Caetano. Essa baladaça repleta de sintetizadores, com presença de nomes como Pedrão Baldanza no baixo, Marcelo Costa na bateria e Tony Costa nas guitarras, traz a datação musical dos anos 80 de forma explícita, mas que fez muito sucesso entre a geração dos anos 80. As vozes de Gal e Caetano se alternam nas estrofes, a canção é simples, romântica, e fecha esta série de coletâneas com o saudosismo da voz de Gal em nossas mentes.

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