Do Pior Ao Melhor: Jethro Tull (Parte I)

Do Pior Ao Melhor: Jethro Tull (Parte I)

Por Marcello Zapelini

Uma banda com uma longa história, muitas mudanças de formação, muitas mudanças no som, e apenas uma constante: o flautista alucinado Ian Anderson. Nascido na Escócia em agosto de 1947, Anderson mudou-se para Blackpool em 1959, e nessa cidade ele formou sua primeira banda, The Blades, em que ele tocava guitarra e harmônica, além de cantar. Três membros da banda seriam integrantes do Jethro Tull nos anos 70: Jeffrey Hammond-Hammond, John Evan e Barriemore Barlow. Eventualmente, Anderson desistiria da guitarra após concluir que nunca seria muito bom no instrumento; The Blades viraria John Evan Band e posteriormente John Evan’s Smash, quase sempre incluindo Hammond-Hammond e Barlow. E em algum momento dessa história ele pegou a flauta que se tornaria a assinatura do seu som.

Até o começo dos anos 90 o grupo gravou regularmente, sempre sob a liderança de Anderson, com formações instáveis que não chegavam a gravar mais do que quatro discos em sequência, e a partir de 1991, os álbuns foram se tornando esporádicos até cessarem completamente em 2003. O JT continuaria se apresentando ao vivo até 2011, quando Anderson pôs fim ao grupo e seguiu em sua carreira solo, que iniciara em 1983 com Walk into Light. Eventualmente, em 2017, Anderson decidiu trazer o grupo de volta (para aproveitar o fato de que no ano seguinte o grupo completaria 50 anos), mas sem incluir seu velho colega Martin Barre: os músicos que o acompanharam nessa volta do grupo eram veteranos de seus discos solo, e dois deles (John O’Hara e Scott Goodier) já tocavam com o JT desde 2007.

Desde 2022, o JT já lançou três discos de estúdio e fez dezenas de shows; somando discos de estúdio, ao vivo, coletâneas oficiais e box sets, o catálogo da banda possui mais de 60 lançamentos, mas, como de praxe, a seção abordará apenas os discos de estúdio. Como o som da banda varia bastante, não é surpresa nenhuma se a minha lista não corresponder com a de mais ninguém, mas gosto não se discute, se lamenta…


24) Under Wraps (1984)
Este álbum é muito criticado pelo excesso de eletrônica; Ian Anderson buscava uma sonoridade diferente, mas não deu certo. Ele e Barre defendem o disco, mas poucos fãs o fazem, pois há muitos sintetizadores, baterias eletrônicas e muito pouco do antigo Jethro Tull. O álbum saiu com 11 faixas (15 no CD e em fita), indicando que a opção por músicas curtas continuava. Particularmente, gosto de “Under Wraps #2”, “Astronomy”, “Lap of Luxury” (sim, eu gosto) e “Nobody’s Car”, mas as demais simplesmente não ficam na memória. Instrumentalmente, o grande destaque é o tecladista Peter-John Vettese. A recente edição em box set pareou o álbum com Walk Into Light, primeiro álbum-solo de Ian, e ofereceu versões remixadas com bateria humana (em vez de programada), além do raro Live at Hammersmith ‘84, mas não mudou muito meu conceito: Under Wraps é o disco mais fraco do Tull.


23) Rock Island (1989)
Uma nova formação estreou aqui, com Doane Perry (que acompanhara as turnês anteriores) e Maartin Allcock entrando na bateria e teclados, respectivamente (Peter-John Vettese toca em algumas músicas). O álbum me decepcionou, afinal, gostara bastante de Crest of a Knave. Os arranjos privilegiam a guitarra de Martin, mas as músicas não chamam muito minha atenção. “Kissing Willie” e “Rattlesnake Trail” abrem o disco com a mistura de hard rock com flauta, e os destaques incluem “Ears of Tin” (com uma bela introdução), “Heavy Water”, “Strange Avenues” e, especialmente, “Another Christmas Song”. Mas a faixa-título (um tanto monótona), “Undressed to Kill” (prejudicada pelo vocal ruim de Anderson), “Big Riff & Mando” (uma completa bobagem) e “The Whaler’s Due” (Gary Brooker lidou melhor com o assunto) não me atraem. A reedição em CD trouxe três músicas ao vivo gravadas em Zurique em 1989 com Allcock nos teclados – se eventualmente Anderson relançar este álbum em box set, esse show é um candidato a ser lançado na íntegra.


22) Catfish Rising (1991)
O álbum continua na veia mais rocker de Rock Island, gostei muito no lançamento e hoje não me atrai tanto. Sem tecladista oficial (Anderson e alguns convidados dividem a função), o álbum investe na sonoridade mais hard e bluesy dos dois anteriores; no entanto, o grande destaque para mim é a belíssima “White Innocence” (que na época não saiu no vinil). O disco abre com a hard “This is Not Love”, uma das que mais gosto, e traz as boas “Rocks on the Road”, “Still Loving You Tonight” (muito bonita), “Doctor to My Disease”, e as divertidas “Tall Thin Girl” e “Sleeping With the Dog” (um blues que não teria ficado feio em This Was), mas algumas músicas, como “Thinking Round Corners” e “Sparrow on the Schoolyard Wall” testam a nossa paciência. É curioso que o CD traga três bônus em relação ao LP original (“White Innocence”, “Sleeping With the Dog” e “When Jesus Come to Play”), e duas delas estejam entre as minhas favoritas. A reedição em CD trouxe “Nights in the Wilderness” e uma versão ao vivo para “Jump Start”.


21) The Jethro Tull Christmas Album (2003)
Mesclando gravações inéditas com versões para antigos números natalinos da banda, este disco é bom, soando em alguns momentos como uma volta ao passado. Anderson, Barre e Perry são acompanhados por Andrew Giddings nos teclados e Jonathan Noyce no baixo, e James Duncan, filho de Ian, toca bateria em várias músicas. As regravações de “A Christmas Song” e “Another Christmas Song” são boas, mas uma nova “Bourée” soa desnecessária, e, entre as músicas novas, “First Snow on Brooklyn”, “Birthday Card at Christmas” e “Last Man at the Party” são os destaques. Depois deste, o Tull ficaria quase vinte anos sem lançar novo disco de estúdio, e várias gravações ao vivo contemporâneas ou de arquivo seriam lançadas, além de algumas coletâneas. Em 2024, a box The Jethro Tull Christmas Album – First Snow at Christmas trouxe o original, um remix de Bruce Soord e dois shows de Natal, um deles com a Ian Anderson Band e o outro trazendo Anderson, Barre, Duncan e dois músicos que permanecem no grupo até hoje, David Goodier (baixo) e John O’Hara (teclados).


20) J-Tull Dot Com (1999)
Esse disco subiu na minha opinião com os anos – na época que saiu não curti muito – mas ainda está longe do melhor do Jethro Tull. Anderson, Barre, Perry se juntam a Noyce e Giddings, e tanto Barre quanto Giddings (a breve vinheta “Nothing @ All” e “Hot Mango Flush”, respectivamente) ganham créditos de composição. A abertura com “Spiral” é muito boa, “The Dog-Ear Years” é bastante interessante, a faixa-título traz a cantora indiana Najma Akhtar em bela performance, além de manter o clima oriental de Roots to Branches, “Hunt by Numbers” traz um ótimo riff de guitarra, e “A Gift of Roses”, “Far Alaska” e “Bends Like a Willow” completam os destaques deste Dot Com; a sequência de “Hot Mango Flush”, “El Niño”, “Black Mamba” e “Mango Surprise” é bem fraca e não faria falta alguma. Recentemente (agosto de 2026) saiu J-Tull Dot Com – Another Cast of the Net, box com três CDs e um Blu-Ray incluindo o álbum original, o remix de Bruce Soord e algumas sobras de gravação, bem como versões ao vivo de três músicas gravadas na turnê de lançamento em 2000 – pena que Anderson não incluiu o show completo.


19) Rokflote (2023)
Lançado pouco depois de The Zealot Gene e baseado no folclore viking, Rokflote não se destaca na discografia do Jethro Tull. É interessante ver a banda explorando a mitologia nórdica em um disco praticamente conceitual, mas as músicas em si chamam menos a atenção que nos outros dois discos lançados na década atual, investindo numa sonoridade hard folk. O guitarrista Joe Parrish-James toca bem (e se destaca mais que seu antecessor Florian Opahle), mas Martin Barre continua deixando saudade. “Guardian Watch”, “Wolf Unchained” e “Cornucopia” (com sua belíssima melodia) são muito boas, “The Navigators” tem um clima épico que ganharia muito com uma guitarra mais forte, e “Trickster”, com seu acordeon bem colocado, são as minhas favoritas num disco que, mesmo não ficando numa posição elevada, honra a memória do grupo e pode ser ouvido sem grandes problemas. A cantora Unnur Birna participa declamando alguns versos nas músicas de abertura e encerramento, as boas “Voluspo” e “Ithavoll”. Interessantemente, o disco para mim ganha força e qualidade da sexta música (“Wolf Unchained”) para o final.


18) Roots to Branches (1995)
Este disco marcou a saída de Dave Pegg depois de mais de quinze anos com a banda – e a oficialização de Andrew Giddings nos teclados. Para mim, sempre foi apenas razoável. A faixa-título, “Rare and Precious Chain”, “This Free Will” (a melhor nessa seara), “At Last, Forever” e “Beside Myself” investem numa sonoridade oriental que era novidade para a banda na época. “Out of the Noise” já se aproxima mais do que conhecemos e a hard “Dangerous Veils” é uma das melhores músicas do disco, com ótimos riffs de guitarra. “Valley” e “Wounded Up, Old and Treacherous” são mais bluesy, remetendo ao começo da carreira do grupo. Esse é outro disco que melhora no final, com a sequência “At Last, Forever”, “Stuck in the August Rain” e “Another Harry’s Bar”, a primeira com um sabor mais épico, as duas últimas, baladas muito bonitas que encerram o álbum melancolicamente. Roots to Branches foi outro disco que me impressionou mais quando comprei, mas não chega a ser ruim.


17) The Zealot Gene (2022)
Quando ninguém mais esperava nada de novo do Jethro Tull, saiu este álbum creditado ao grupo (algumas faixas trazem apenas Ian Anderson, que alegou dificuldades de reunir a banda por causa da pandemia). E ele se saiu com a melhor música de abertura de um disco da banda desde Crest of a Knave, a excelente “Ms. Tibbetts”. O álbum traz várias músicas de Anderson a solo, dentre elas a bela “Three Loves, Three”, e quando a banda está completa (Florian Opahle na guitarra, John O’Hara nos teclados, David Goodier no baixo e Scott Hammond na bateria), a impressão geral é de que o disco é bom, mas falta a guitarra de Martin Barre para tornar as músicas mais memoráveis. “Shoshana Sleeping”, “The Zealot Gene”, “Sad City Sisters” e “The Fisherman of Ephesus” são boas músicas que, se não substituem os clássicos no coração dos fãs, pelo menos justificam a continuação do grupo. Opahle saiu durante a produção e foi substituído por Joe Parrish-James em uma música.


16) Curious Ruminant (2025)
Até o momento, a última obra de Anderson e seu Jethro Tull. Com Jack Clark, o terceiro guitarrista diferente em três álbuns (Martin Barre, onde estás que não me respondeis?), Curious Ruminant lida com temas mais mundanos do que o anterior RökFlöte e traz um músico idoso que reflete sobre o ocaso da vida. O álbum começa bem, com o piano de O’Hara iniciando “Puppet and the Puppet Master”, que também dá as caras na faixa-título. “Dunsinane Hill” e “The Tipu House” trazem o folk rock do final dos anos 70 de volta, ao passo que “Over Jerusalem” reflete sobre o destino da cidade sagrada para as três grandes religiões monoteístas do mundo. Ian nos entrega um épico tardio em “We Drink from the Same Well”, composto a partir de trechos de composições que ele testou ao longo dos anos ao vivo, quando a banda se entregava a devaneios instrumentais para que ele pudesse repousar a voz. Embora seja um pouco desconjuntada, a música impressiona pela ousadia em um período tão tardio da carreira do grupo. No final, o poema “The Interim Sleep” é declamado sobre uma base instrumental – e a poesia de Anderson arrepia. Pode ser o último disco da banda; está longe de ser o melhor, mas também não é o pior.


15) This Was (1968)
O primeiro disco do Jethro Tull é bem diferente dos demais, mais bluesy (por causa de Mick Abrahams) e não é um disco ruim; passa longe disso, pois um LP essencialmente de blues com uma flauta proeminente é algo totalmente inesperado, mas também não fica em posição muito elevada na discografia do grupo na minha opinião – sobretudo porque a banda faria melhor. “My Sunday Feeling”, “Serenade to a Cuckoo” (do jazzman Roland Kirk, primeira música que Anderson aprendeu na flauta) e “A Song for Jeffrey” são as músicas mais conhecidas e que mais se destacam, mas tem outras coisas boas no disco, como a acústica “Some Day the Sun Won’t Shine for You”, “Beggar’s Farm” e “Dharma for One”. O grupo se completava com Glenn Cornick no baixo e o ótimo Clive Bunker na bateria, que junto com Abrahams se destaca na versão de “Cat’s Squirrel”, celebrizada pelo Cream. Pouco depois do lançamento do disco, Mick Abrahams foi expulso – ou decidiu sair – e seguiu carreira com o Bloodwyn Pig. A box set que celebra o disco traz as versões originais em mono e stereo, o remix de Steven Wilson e várias gravações da época, incluindo sessões da BBC.


14) Too Old to Rock’n’Roll, Too Young to Die (1976)
O mais fraco dos discos dos anos 70 para mim, Too Old… é mais lembrado pela faixa-título, que se tornou um clássico até hoje tocado nos shows (ironia à parte). Com o excelente baixista John Glascok no lugar de Hammond-Hammond (e se destacando não somente com ótimas linhas, mas também no backing vocal), o álbum tem uma capa bem elaborada (com a HQ narrando a história de Ray Lomas, um rocker fictício), mas o repertório é meio fraquinho. “Quiz Kid” tem um daqueles riffs marcantes de Martin Barre, “Crazed Institution”, “Pied Piper” e “Salamander” são boas músicas que parecem ser pouco desenvolvidas, ao passo que as bluesy “Taxi Grab” (com Anderson na harmônica, instrumento que tinha sumido do som do Tull) e “Bad-Eyed and Loveless” destoam do que o grupo fazia na época (ainda que não sejam ruins). Já as baladas “Chequered Flag (Dead or Alive)” e “From a Dead Beat to an Old Greaser” (com David/Dee Palmer no saxofone) são muito bonitas e, junto com a faixa-título, formam os destaques do álbum para mim. “Big Dipper” não decola, sendo a música que menos gosto aqui. No cômputo geral, Too Old to Rock’n’Roll, Too Young to Die é um LP apenas mediano, que não se sobressai na discografia do Jethro Tull. A box não mudou minha opinião, mas um dos DVDs, com um especial de TV para o álbum, é muito legal.


13) War Child (1974)
Bom disco, mas um dos mais fracos da banda nos anos 70. A banda tinha conseguido se manter pelo terceiro disco consecutivo com a mesma formação, e abriu espaço para algumas experimentações sonoras, como John Evan no acordeon e Anderson tocando muito mais sax soprano do que flauta, bem como os efeitos sonoros na faixa-título, “Skating Away on the Thin Ice of the New Day”, e em “Bungle in the Jungle” – o hit do disco, mas uma música que nunca me disse muito. Na minha opinião, os destaques vão para “Skating Away…” (minha favorita aqui), “Ladies”, “Two Fingers” (uma regravação de “Lick Two Fingers Clean”, que datava dos tempos de Aqualung), “The Third Hoorah”, “Backdoor Angels” (com um ótimo interlúdio instrumental) e “Sealion”. Algumas músicas dão a impressão de que podiam ter sido mais desenvolvidas (“Only Solitaire” me vem à cabeça), outras trazem arranjos orquestrais que parecem estar sobrando, e as sessões renderam bastante material adicional (“Glory Row”, que sairia em coletânea no futuro, é uma das melhores músicas que ficaram pelo caminho). A box set traz farto material gravado à época, bem como versões orquestrais para um filme que Anderson tinha em mente.

Com uma discografia tão vasta, em dois dias complemento esta minha lista de Do Pior Ao Melhor. Quem será que ficou em primeiro??

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