Messa – The Spin [2025]
Por Fernando Bueno
Muita gente que me conhece pode ter uma impressão equivocada quando apresento uma banda italiana. Por conta da minha insistência no assunto, é natural que qualquer grupo vindo da Itália remeta imediatamente a alguma das grandes formações do rock progressivo dos anos 1970. Mas não! Desta vez, vamos falar de uma banda contemporânea que, em 2025, lançou um dos grandes discos do ano: o Messa.
Formado em 2014, na cidade de Cittadella, o Messa vem do Vêneto, no norte da Itália. Cittadella é uma histórica cidade medieval, conhecida por suas muralhas que cercam o centro urbano. É difícil afirmar até que ponto esse ambiente se reflete diretamente na música do grupo, mas existe algo de antigo, sombrio e misterioso na atmosfera construída pela banda. Seu som transita entre o heavy metal, o doom metal, o gothic metal e a psicodelia, combinando peso, passagens hipnóticas e momentos de maior contemplação.

A formação reúne Marco Zanin, no baixo; Rocco Toaldo, na bateria; Alberto Piccolo, na guitarra, no piano e nos sintetizadores; e Sara Bianchin, nos vocais. A presença de uma vocalista é um dos elementos que chamam a atenção e pode despertar comparações com bandas como Lucifer e Castle Rat. As semelhanças, porém, não se limitam à voz feminina: há também pontos de contato na construção dos riffs, na atmosfera sombria e na maneira como o peso do instrumental se combina com elementos de outras vertentes do rock e do metal. Ainda assim, o Messa desenvolve uma identidade própria, sem se limitar às convenções do gênero.
Embora tenha alcançado um público mais amplo com The Spin, lançado em 2025, esse não é o primeiro trabalho da banda, mas seu quarto álbum de estúdio. O disco representa, portanto, não um ponto de partida, mas o resultado de uma trajetória iniciada mais de uma década antes. E é justamente aí que vale a pena prestar atenção: o Messa não surgiu do nada em 2025, como me pareceu. A banda já vinha construindo seu caminho, explorando diferentes possibilidades sonoras até chegar a um trabalho que merece ser ouvido com atenção.

A primeira faixa, “Void Meridian”, apresenta muito bem o que encontraremos ao longo do álbum. Os riffs de “At Races” são relativamente simples, assim como os de “Fire on the Roof” e “Reveal”, mas isso está longe de ser um defeito. Pelo contrário: essa simplicidade torna as músicas bastante acessíveis e contribui para a unidade do disco. Todas elas me remetem, de alguma forma, a algum álbum do In Solitude, banda sueca que também soube explorar essa atmosfera sombria sem abrir mão de boas melodias. “Fire on the Roof”, em particular, é um dos grandes destaques do trabalho, com melodias vocais marcantes e um instrumental que não fica atrás.
Em “Immolation”, a introdução do piano cria uma atmosfera diferente, trazendo uma delicadeza que contrasta com o peso de outras faixas. Há até mesmo algo de pop em sua construção, embora isso não signifique um afastamento completo da identidade sombria do Messa. É um daqueles momentos em que a banda demonstra que não precisa recorrer à distorção e aos riffs pesados o tempo todo para prender a atenção do ouvinte.
Já em “The Dress” é Sara quem assume o protagonismo. O início lento e aparentemente delicado vai ganhando intensidade à medida que os instrumentos se tornam mais pesados e sua interpretação vocal cresce em força. Essa dinâmica se alterna ao longo da faixa, criando uma tensão que mantém o ouvinte envolvido até o final. Com pouco mais de oito minutos, é a segunda música mais longa do disco e também uma das que melhor demonstram a capacidade da banda de trabalhar com contrastes. Vale destacar ainda a participação do trompete, que acrescenta uma cor inesperada à sonoridade da faixa.
Se em “Immolation” o piano chama a atenção, em “Reveal” é um violão acústico que abre caminho para uma experiência bastante peculiar. Com uma sonoridade que me remete ao blues de Robert Johnson, a introdução prepara o terreno para algo que talvez você não espere encontrar: um blues acompanhado por blast beats! É isso mesmo. A combinação do violão com a bateria acelerada, somada ao reverb e ao eco na voz de Sara e às guitarras carregadas de efeitos, faz de “Reveal” uma das faixas mais particulares do álbum. O resultado é um contraste interessante entre elementos tradicionais e uma abordagem que flerta com territórios bem mais extremos.
Para fechar o disco, temos “Thicker Blood”, uma faixa que não tem pressa para chegar a lugar algum. Aos poucos, a música vai se construindo, alternando riffs lentos e pesados de doom metal com passagens minimalistas em que a voz de Sara ganha destaque. Gradualmente, o andamento acelera, chegando a incluir breves rajadas de bumbo duplo. Em seguida, começa a seção final, construída sobre um riff de andamento moderado e groove hipnótico, que parece prender a música em um movimento circular.
Depois de alguns minutos, quando tudo parece seguir seu curso, Sara solta, quase inesperadamente, alguns gritos típicos do black metal. A partir daí, a música começa a desacelerar gradualmente até parar por completo. É um encerramento que resume bem a proposta do Messa: construir atmosferas, brincar com expectativas e transitar entre diferentes estilos sem perder a coerência. Um grande disco termina aqui.
Também não posso deixar de comentar a bela capa, que, de alguma forma, traduz o clima do álbum. A imagem apresenta uma escultura real chamada Uroboro, criada pelo artista italiano Nico Vascellari em 2023. A peça foi feita em mármore wasabi e tem aproximadamente 57 centímetros de largura e altura. O encarte traz outras fotografias do objeto, explorado a partir de diferentes ângulos. Gosto quando a arte visual não funciona apenas como embalagem, mas ajuda a construir o universo estético de um disco. Nesse caso, as imagens combinam muito bem com a atmosfera misteriosa e as várias camadas sonoras que encontramos ao longo da audição. Vale citar que a capa do vinil tem as cores trocadas e com o vinil transparente o conjunto fica muito bonito.
Ainda não ouvi nenhum dos três álbuns de estúdio anteriores do Messa, mas, depois de The Spin, preciso corrigir isso o quanto antes. Li por aí que os discos são bastante diferentes uns dos outros, o que só aumenta minha curiosidade. Se a banda já consegue reunir tantas influências e criar uma sonoridade tão particular neste trabalho, fico imaginando os caminhos que percorreu até chegar aqui.
E você, já ouviu algum dos álbuns do Messa? O que achou de The Spin? E, se conhece os trabalhos anteriores, vale a pena percorrer a discografia em ordem de lançamento ou há algum disco que merece atenção especial? Deixe sua opinião nos comentários!

Fernando, eu curto demais esse álbum, que surpresa boa ver a sua resenha sobre ele!