Resenha de Livro: Long Road: Pearl Jam e a trilha sonora de uma geração

Resenha de Livro: Long Road: Pearl Jam e a trilha sonora de uma geração

Por Micael Machado

No prefácio de seu livro Long Road: Pearl Jam e a trilha sonora de uma geração, de 2022 (no original, Long Road: Pearl Jam and the Soundtrack of a Generation, o qual foi lançado no Brasil em 2025 pela editora Belas Letras), o escritor, jornalista e crítico cultural Steven Hyden escreve que, “como crítico musical, o assunto que mais gera interesse em mim é a evolução da carreira de um artista… No caminho tão único do Pearl Jam, eu me interesso por sua improvável sobrevivência e evolução, e como tudo isso reflete – e é moldado por – sua geração e a época em que viveram. Devo acrescentar que essa jornada pela longa estrada da carreira da banda é pessoal. Não entrevistei os integrantes para essa empreitada, até porque já existe um livro com os pensamentos que o Pearl Jam tem sobre o Pearl Jam – chama-se Pearl Jam Twenty, e foi lançado em 2011. E, como eu já disse, sou um crítico musical, e isso significa que tenho a arrogância irritante (porém cativante, eu espero!) de ser um sabe-tudo que acredita que pode analisar e explicar o legado de uma banda melhor que os próprios membros dela“. Mais ao final, ele coloca que “este livro poderia ser interpretado como uma tentativa de ‘solucionar’ o Pearl Jam, ou, pelo menos, explicar sua popularidade e perseverança“. E, ao longo de 270 páginas, Hyden vai tentando “explicar” o que ele considera ser a história da banda, com o livro avançando em ordem cronológica, sendo que cada capítulo tem por título o nome de uma música da banda escolhida para representar aquele período de tempo específico tratado nele (música esta cuja audição de uma versão bastante específica é recomendada pelo autor para acompanhar a leitura do mesmo, ainda que, muitas vezes, a versão selecionada venha de um obscuro bootleg ao qual, aparentemente, apenas Steven e alguns poucos outros privilegiados tiveram acesso).

Assim, passamos ao longo da obra por capítulos que abordam o início do grupo – com Eddie Vedder (vocais, guitarras) gravando a hoje famosa fita “Momma-Son”, onde o então surfista e frentista de San Diego colocou vocais e letras sobre três faixas instrumentais compostas por Stone Gossard (guitarras), Jeff Ament (baixo) e Mike McCready (guitarras) (e gravadas com Matt Cameron na bateria, então membro do Soundgarden), a qual, para o autor, “está para o Pearl Jam como o assassinato dos pais de Bruce Wayne está para o Batman” – e uma longa parte com o autor explicando como The Who foi uma importante influência para as letras de Vedder nestas primeiras composições; um outro capítulo explicando como o clipe de “Hunger Strike”, do Temple of the Dog, foi importante para aumentar a popularidade do Pearl Jam na MTV (leia a tese, ela acaba fazendo sentido); um outro dedicado à importância e às polêmicas geradas pelo clipe de “Jeremy”, e um outro dedicado à importância de Neil Young e de sua participação junto à banda no VMA de 1993 (onde tocaram “Rockin’ In The Free World”, a qual, indiretamente, possivelmente tenha sido o evento que fez com que eu, particularmente, viesse a me interessar pela obra de Young); um outro capítulo dedicado à saída de Dave Abbruzzese do grupo (o qual o autor confessa pensar, até hoje, como sendo o “verdadeiro” baterista do Pearl Jam), um outro dedicado ao fracasso comercial de No Code, que levaria a uma recepção em termos de vendas ainda menor do posterior Yield, à saída do baterista Jack Irons e à adoção daquilo que o autor chama de “forma definitiva” da banda, com a chegada de Matt Cameron – e de uma filosofia de não lançar mais um disco por ano (ou perto disso) em anos futuros -, com a banda, a partir de então, na visão do autor, tirando o pé do acelerador, tanto em termos de atividades nos estúdios quanto em termos de composição, sendo que um dos capítulos finais é dedicado a “explicar” por que o Pearl Jam saiu de ser a “voz de sua geração” no começo dos anos 1990 para se tornar uma banda que faz “músicas de casamento” (leia o livro para entender) em alguns dos discos com Cameron na bateria – onde os membros do grupo já não tinham mais uma “angústia adolescente” como no início das carreiras, mas, isto sim, famílias e boas casas para cuidar e tratar. Há ainda capítulos tratando da briga do grupo contra a Ticketmaster em meados dos anos 1990, e de como isso levou o Pearl Jam a gravar o disco Mirror Ball como banda de apoio de Neil Young; da tragédia ocorrida no Festival de Roskilde em 2000 (onde oito pessoas morreram asfixiadas ou pisoteadas pela multidão que superlotava o local) e de como a banda foi afetada por ela; e um capítulo tratando das coletâneas Rearviewmirror, de 2004 e Lost Dogs, de 2003 (a primeira, considerada “um pouco entediante” por Hyden, e a segunda como “um convite a curtir áreas mais obscuras da discografia da banda“, segundo o autor).

Capa da versão em inglês de Long Road: Pearl Jam e a trilha sonora de uma geração

Há vários trechos, espalhados em diversos capítulos, tentando “explicar” por que músicos como Kurt Cobain e Scott Weiland (e, com menos espaço no livro, mas não menos importantes, também nomes como Chris Cornell e Layne Staley) pereceram pelo caminho, enquanto Vedder segue firme à frente do Pearl Jam; ou mostrando a influência que músicos como Bruce Springsteen, Tom Petty ou Pete Townshend tiveram sobre o vocalista da banda de Seattle; um longo (e quase enfadonho) trecho onde o autor “explica” a diferença entre rock alternativo e indie-rock, e trechos criticando algumas bandas que surgiram, segundo o autor, no rastro do sucesso do Pearl Jam, como Live, Counting Crows e até a cantora Alanis Morissette…

Há boa parte de um capítulo tratando dos 72 discos ao vivo gravados durante a turnê de divulgação de Binaural (os quais o autor afirma ter ouvido mais de uma vez, e que, quando agrupados, “representam minha coleção favorita de músicas do Pearl Jam”, conforme Hyden escreve, antes de entrar em uma análise quase minuciosa das diferenças entre os CDs – e entre as próprias interpretações das músicas – à medida que a turnê ia acontecendo); trechos sobre a trilha sonora do filme “Na Natureza Selvagem” (e sobre a própria obra cinematográfica, intitulada “Into the Wild” no original), gravada por Vedder em carreira solo (e que o autor considera ser o seu “disco favorito relacionado ao Pearl Jam em sua era pós-Greatest Hits”, o que, no contexto do livro, é o período de Yield e em diante, o qual o autor chama de “anos de ‘rock de pai’ do Pearl Jam” – leia a obra para entender) e sobre as comparações que o autor encontra entre a devoção dos fãs do Pearl Jam à banda com a devoção expressada pelos fãs do Grateful Dead ao grupo de Jerry Garcia e companhia (ao menos, nos Estados Unidos).

Contracapa da versão nacional de Long Road: Pearl Jam e a trilha sonora de uma geração

Long Road: Pearl Jam e a trilha sonora de uma geração (cuja capa escolhida para a versão nacional ficou, para o meu gosto, bem aquém da que consta da edição original em inglês) está longe de ser um livro de leitura essencial para os fãs do quinteto de Seattle. É, sim, uma obra interessante (e a mim, particularmente, finalmente veio esclarecer como o baterista Jack Irons do Red Hot Chili Peppers – que, depois, viria a tocar com o próprio Pearl Jam, como escrito acima – acabou sendo o responsável por entregar a Vedder a citada fita com as composições do trio Gossard/Ament/McCready que viria a dar origem ao Pearl Jam) e de leitura fácil (ajudada pela excelente tradução de Fernando Scoczynski Filho). Mas é um livro que qualquer fã da banda poderia ter escrito, pois é muito baseado em “achismos” e no que “eu entendo que tenha acontecido” e no que “eu absorvi desta situação”, sendo o “eu”, no caso, o autor do livro, que, em sua escrita, se parece, muitas vezes, com aquele seu amigo na mesa do bar que fala, fala e fala sobre a banda favorita dele e do que ele acha dela, sem dar muito espaço para quem o está ouvindo colocar um pensamento contraditório ou, até mesmo, complementar o que está sendo dito pelo “especialista” (afinal, não temos como “dialogar” com o livro e chegar a um pensamento “comum” entre o que o autor e o leitor pensam). Me parece certo que muitas coisas não necessariamente ocorreram pelos motivos, pelas razões ou da forma como Hyden entende, mas que aquilo que está em sua obra são, sim, as versões que ele entendeu e de como ele compreendeu a história da banda. Pode ter sido tudo diferente, pode até ter tido alguma semelhança, mas não significa que esta é a versão definitiva da história. Até porque, como ele mesmo escreve, já existe um livro que traz essa versão, o qual se chama Pearl Jam Twenty, e é bem mais recomendável a quem quer saber a “verdadeira” história do Pearl Jam.

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