Na Caverna da Consultoria: Douglas Gouveia
Por Fernando Bueno
Conheci o Douglas no grupo de WhatsApp da Collectors Room e percebi que temos muito em comum em relação ao tipo de música que ouvimos, primcipalmente no momento atual. Nas nossas conversas percebi que a coleção dele era muito grande, parecia que ele tinha tudo sobre o que comentávamos e eu percebi que ele daria uma ótima edição para essa nossa coluna.
Olá Douglas, tudo bem? Desde já, obrigado por compartilhar seu amor pela música conosco. Antes de mais nada se apresente para os leitores da Consultoria do Rock.
Primeiramente, gostaria de agradecer a oportunidade de falar sobre minha paixão por música e colecionismo. Fiquei um pouco surpreso com o convite, mas é sempre um prazer compartilhar esse assunto com outras pessoas. Meu nome é Douglas Gouveia, tenho 48 anos, sou funcionário público e moro em Cubatão, uma das cidades da Baixada Santista, no litoral do estado de São Paulo.

O prazer é nosso também. Qual foi seu primeiro contato com a música? Existe alguém que serviu como um mentor e te ajudou a descobrir esse mundo?
Meu primeiro contato com a música foi em casa mesmo, nos anos 80. Meu pai tinha pelo menos uma centena de LPs, portanto, minha casa sempre foi um ambiente bastante musical. Mas ele não era propriamente um colecionador, pelo menos não no sentido de organizar, catalogar ou correr atrás de discografias completas. Ele simplesmente tinha seu gosto musical e ia comprando os discos que lhe interessavam.
Eu cresci gravando fitas cassete das coisas que chamavam minha atenção, mas até meados dos anos 90 eu era basicamente um ouvinte de rádio FM. O colecionismo de discos, de fato, chegou para mim na época da faculdade, por volta de 1997, incentivado por duas coisas: a aquisição de um disco específico, do qual falarei adiante, e a influência de um amigo que na época já possuía uma coleção de cerca de 4.000 itens entre CDs, DVDs e até laser discs. Conhecer esse cara foi o empurrão que faltava para eu mergulhar nesse mundo. Portanto, pode-se dizer que ele foi sim, uma espécie de mentor.
Caramba! Você ainda tem contato com esse seu amigo? Como será que está a coleção dele atualmente?
Sim, tenho contato com ele via redes sociais e WhatsApp, mas é raro a gente se falar. A última vez que nos encontramos foi há uns dois anos, quando ele entrou em contato dizendo que estava se desfazendo de alguns itens da coleção e perguntou se eu tinha interesse. Para resumir a história, fui até a casa dele e saí de lá com aproximadamente uma centena de discos. Foi isso mesmo que você leu: UMA CENTENA! Isso responde à segunda parte da pergunta, pois ele se desfez de muita coisa e ficou apenas com o que realmente lhe interessava.
Essa é uma decisão difícil para todo colecionador. Qual foi o seu primeiro disco? Você se lembra da situação em que o adquiriu? Você ainda o tem?
Meu primeiro disco foi Pulse, do Pink Floyd. Um colega de trabalho apareceu com esse CD na época do lançamento e eu fiquei simplesmente impressionado, porque até então, para mim, CD era apenas um disquinho que vinha em uma caixinha de plástico. A embalagem, o encarte com as fotos, a arte gráfica da capa e o LED piscante chamaram muito a minha atenção, e ali eu percebi que aquilo poderia ser um item colecionável.
Algum tempo depois comprei o disco em uma loja, mas não consegui a edição com o LED, o que por muito tempo foi uma frustração para mim. Esse CD rodou à exaustão em um Discman (toca-CD portátil com fones de ouvido, caso algum jovem esteja lendo isso) e acabou ficando bastante arranhado por causa do manuseio.
Mais tarde comprei outra edição, ainda sem LED, para substituir e deixar na prateleira e apenas recentemente consegui encontrar uma edição usada em ótimo estado, com o famigerado LED ainda funcionando. Mas sim, guardei o primeiro disco por questões nostálgicas.
Quando você percebeu que estava se tornando um colecionador? Aquele momento que você percebeu que queria todos os discos de uma banda, mesmo eles não sendo tão bons, por que não queria deixar um “buraco na coleção”?
Como falei, a aquisição do Pulse foi o pontapé inicial da coleção. A partir dali eu já sabia que seria um colecionador de discos, pois sempre tive comigo essa coisa do colecionismo. Desde criança colecionava gibis, miniaturas, carrinhos, selos postais e até moedas. A paixão pela música se uniu ao interesse pela mídia física, no caso os CDs e não parei mais desde então. Inicialmente fui comprando discos de bandas e artistas que eu já conhecia, enquanto descobria coisas novas. Completar a discografia dos artistas preferidos foi algo natural desde o princípio.
Tem algum artista(s) ou estilo(s) que você dá especial atenção?
Eu sempre curti música pop. Como um jovem que cresceu nos anos 80, ouvi muito A-ha, Tears for Fears, Pet Shop Boys, New Order, bandas das quais sou fã até hoje. Quando comecei a colecionar, passei a prestar atenção em outros estilos musicais, e uma nova porta se abriu principalmente depois que comprei uma coletânea do Van Halen (Best of Volume 1). A música pesada entrou de vez na minha cabeça e, a partir daí, foi um cruzamento de informações que acabou me levando à várias vertentes do rock, principalmente o progressivo. Foi quando descobri coisas como Genesis, Yes, Emerson, Lake & Palmer, Marillion, Rush e tantos outros.
Ok, essa resposta já ficou longa demais, mas é que realmente não consigo me definir com facilidade. Gosto de um pouco de tudo: do pop ao rock, da música eletrônica ao prog, além de blues e jazz. Minha banda preferida é o Rush e de tempos em tempos revisito a discografia, mas costumo variar bastante o que estou ouvindo.
Como sua família lida com essa paixão? Já teve alguma situação que os discos geraram algum atrito dentro do ambiente familiar?
Minha família lida bem com isso. Nenhum tipo de atrito por conta do colecionismo.
Isso é um pouco incomum, mas é ótimo que seja assim. Todo colecionador tem alguma história inusitada na compra de algum disco. Qual foi a sua?
A minha, provavelmente, é a forma como consegui Live Scenes From New York, do Dream Theater. Para contextualizar, esse é o álbum ao vivo em que a banda executa o excelente Scenes from a Memory na íntegra. Ele foi lançado, por uma infeliz coincidência, em 11 de setembro de 2001 — exatamente o dia dos atentados ao World Trade Center, nos Estados Unidos. Como se isso já não fosse impactante o suficiente, a capa original trazia uma imagem de uma maçã (a “Big Apple”) com o skyline de Nova York em chamas, incluindo as Torres Gêmeas. Não demorou para que a banda lamentasse o ocorrido e anunciasse o recolhimento imediato dos CDs para que a arte fosse substituída.
Eu havia comprado o disco na pré-venda, por meio de uma loja virtual brasileira que, apesar do anúncio oficial, não se pronunciou nem enviou qualquer aviso aos compradores. Com o passar dos dias, acabei considerando o pedido praticamente perdido — e, sendo sincero, aquilo nem era uma grande preocupação naquele momento, já que todos estavam acompanhando, consternados, os acontecimentos ao redor do mundo.
Algum tempo depois, porém, veio a surpresa. Quando finalmente recebi a encomenda e abri o pacote, percebi que a minha cópia ainda trazia a capa original. Muito provavelmente, a loja já havia feito o pedido ao fornecedor antes do recolhimento, e algumas unidades acabaram escapando. Por sorte, a minha foi uma delas.

E você já fez alguma loucura para conseguir algum determinado disco?
Não que eu me lembre… Salvo alguns excessos, sempre fui muito pé no chão na hora de conseguir alguma coisa que eu quero para a minha coleção. É claro que as parcelas no cartão de crédito estão sempre se encontrando, mas nunca me desfiz de nada, ou paguei algum preço muito exagerado por algum item. Não é um hobby barato, mas a gente precisa ter um certo autocontrole. Lá no começo, peguei a discografia praticamente inteira do Jethro Tull de uma vez só, pasmem, via site das Lojas Americanas. Mas eram outros tempos, os discos eram todos lançados no Brasil, os preços eram bastante acessíveis. Hoje isso seria impossível! (pelo menos prá mim)
E a maior pechincha que você já conseguiu?
A única que me vem à memória aconteceu meio por acaso, há poucos anos. Durante uma parada de viagem, entrei em uma loja de conveniência e, em meio a CDs do Padre Marcelo, Reginaldo Rossi e sertanejos genéricos, dei de cara com um álbum do Kansas — Always Never the Same — por R$ 9,90. Tudo bem, não é exatamente um marco na discografia da banda, mas foi tão peculiar e aleatório que não pensei duas vezes: levei na hora.

Qual foi o disco, ou outro tipo de item, que você mais demorou para conseguir? E como foi?
Novamente falando dele, foi o Pulse do Pink Floyd, a edição com LED que está fora de catálogo há anos. Consegui apenas ano passado (2025), em uma feira de discos aqui na região onde moro. Ao longo dos anos eu já havia me deparado com alguns, sempre com a caixa detonada ou o LED defeituoso. Nem acreditei quando vi um em perfeito estado! O preço foi um pouco salgado, mas como eu nem tinha mais esperança de conseguir, paguei feliz o que o vendedor pediu. Pode-se dizer que demorei praticamente 30 anos para ter essa edição.
Você tem um foco principal em relação ao formato? CD ou LP? Ou ambos?
Meu foco é o CD. Gosto muito de boxes e edições especiais, mas LP nem me atrevo a começar, tanto pela falta de espaço quanto pelos preços exorbitantes.
De maneira geral, quais são os números da coleção?
De acordo com o Discogs, tenho 2.886 itens na coleção, sendo 2.679 CDs, 129 DVDs e 78 blu-rays.
Você começou a cadastrar no Discogs já com um número grande na coleção? Isso é geralmente um impeditivo para outros colecionadores fazerem o mesmo.
Sim, comecei em janeiro de 2018 e já tinha uns 2200 itens. Lembro bem da época e do número, pois no primeiro ano, cadastrei 1500 CDs. Particularmente falando, achei bem divertido mexer com isso e hoje, assim que chega um item novo, eu já cadastro imediatamente.
Qual sua relação com o streaming?
Eu uso o Spotify diariamente, pois meu trajeto de ida e volta do trabalho é bem longo. Antes eu convertia meus CDs preferidos para MP3 e passava para o celular; portanto, o advento do streaming acabou com esse trabalho. Houve uma época em que eu fazia questão de não ouvir o disco que me interessava sem antes escutá-lo na mídia física, mas parei com essa bobagem. Pode parecer um contrassenso, mas hoje ouço mais música via streaming do que por meio da mídia física, já que é raro eu estar em casa.
Você tem alguma mania ou modo de organização pessoal?
Eu organizo na ordem alfabética e cronológica, sem separar estilos musicais. Tenho também o hábito de posicionar os discos sempre da direita para a esquerda na prateleira.
Qual é o item mais raro da sua coleção? Ele é o item mais especial que você tem?
Eu tenho alguns itens raros na minha coleção e, sinceramente, não consigo definir qual deles é o mais especial. Obviamente eu cito o Live Scenes from New York, do Dream Theater, com a capa original das torres gêmeas em chamas, que mencionei anteriormente.
Mas acho que mais especial é a edição Super Deluxe de 2112, do Rush, lançada em 2012: Vem no formato de livro de capa dura trazendo o álbum remasterizado em CD, a versão em Blu-ray com som 5.1 e, o mais legal, uma HQ de 40 páginas que ilustra toda a história conceitual do disco.
E, só para citar mais um item raro, a edição especial de East of the Sun, West of the Moon, do A-ha, parte de uma série de relançamentos da discografia da banda: essa versão é CD duplo + DVD, com demos, outtakes e apresentações na América do Sul nos anos 1990. Por algum motivo sumiu do mapa e, de acordo com o Discogs, é o item mais caro da minha coleção — se é que dá para levar muito a sério os preços praticados por lá.
É sempre um bom parâmetro. Já teve a oportunidade de fazer compras no exterior?
Nunca saí do Brasil… Minhas compras sempre se resumiram a lojas físicas e lojas virtuais. Em algumas situações específicas, contei com a ajuda de amigos que estavam viajando para trazer itens que não encontrava facilmente por aqui.
Outra característica bastante marcante da sua colecao sao os Funkos. Como essa colecao paralela comecou e como ela se relaciona com a colecao de discos?
A coleção de Funkos começou em 2015, mas inicialmente se limitava a personagens de filmes, principalmente de Star Wars e Marvel. Hoje, já são cerca de 300 peças no total, mas demorou um bom tempo até eu começar com os Funkos “musicais” (série Rocks). Os primeiros dessa linha foram os do Elton John e Freddie Mercury, que adquiri em 2019.
Um detalhe dessa coleção é que eu só compro peças de artistas de que realmente gosto ou de quem eu tenha ao menos um disco na prateleira. Até então, eles ficavam misturados aos Funkos de filmes e séries, mas, quando fiz o projeto da estante que aparece nas fotos, tive a ideia de mandar fazer prateleiras com um espaço maior para posicionar cada um deles junto aos CDs, em frente à sua respectiva discografia.
Com isso, eles estão sempre mudando de posição, toda vez que eu reorganizo os discos. Mais uma mania maluca de colecionador!
Qual é a banda que “todo mundo gosta”, menos você e aquela que “ninguém gosta”, mas você adora?
Aqui entra aquela questão: “Nem tudo que é bom eu gosto e nem tudo que eu gosto é bom”… Dito isso, acho Ramones insuportável! rsrs… E não sei se “ninguém gosta”, mas vejo muita gente falando mal da Dave Matthews Band. Eu adoro! Mas vou parar por aqui, pois tem muita banda idolatrada por aí que eu não curto e vice-versa; gosto é uma parada muito pessoal né?
Eu tentei o Dave Matthews Band, mas não deu. Agora aquelas perguntas que nunca faltam aqui nas nossas entrevistas: quais os dez melhores discos da década de 60?
Rubber Soul — The Beatles (1965)
Highway 61 Revisited — Bob Dylan (1965)
Pet Sounds — The Beach Boys (1966)
Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band — The Beatles (1967)
Are You Experienced — The Jimi Hendrix Experience (1967)
Disraeli Gears — Cream (1967)
Abbey Road — The Beatles (1969)
Led Zeppelin — Led Zeppelin (1969)
Tommy — The Who (1969)
In the Court of the Crimson King — King Crimson (1969)

Quais os dez melhores discos da década de 70?
É sério isso? Apenas dez dos anos 70?!! Vamos lá…
Led Zeppelin IV — Led Zeppelin (1971)
Who’s Next — The Who (1971)
Close to the Edge — Yes (1972)
Machine Head — Deep Purple (1972)
The Dark Side of the Moon — Pink Floyd (1973)
Selling England by the Pound — Genesis (1973)
Physical Graffiti — Led Zeppelin (1975)
A Night at the Opera — Queen (1975)
2112 — Rush (1976)
The Wall — Pink Floyd (1979)
Quais os dez melhores discos da década de 80?
Moving Pictures — Rush (1981)
Signals — Rush (1982)
Thriller — Michael Jackson (1982)
War — U2 (1983)
Power, Corruption & Lies — New Order (1983)
1984 — Van Halen (1984)
Misplaced Childhood — Marillion (1985)
5150 — Van Halen (1986)
The Joshua Tree — U2 (1987)
Appetite for Destruction — Guns N’ Roses (1987)
Quais os dez melhores discos da década de 90?
Violator — Depeche Mode (1990)
Ten — Pearl Jam (1991)
Achtung Baby — U2 (1991)
Use Your Illusion I — Guns N’ Roses (1991)
Use Your Illusion II — Guns N’ Roses (1991)
Images and Words — Dream Theater (1992)
Jagged Little Pill — Alanis Morissette (1995)
(What’s the Story) Morning Glory? — Oasis (1995)
Mellon Collie and the Infinite Sadness — The Smashing Pumpkins (1995)
Scenes From a Memory – Dream Theater (1999)
Quais os dez melhores discos do século 21?
Deadwing — Porcupine Tree (2005)
Octavarium — Dream Theater (2005)
On an Island — David Gilmour (2006)
Fear of a Blank Planet — Porcupine Tree (2007)
In Rainbows — Radiohead (2007)
Clockwork Angels — Rush (2012)
Hand. Cannot. Erase. — Steven Wilson (2015)
Blackstar — David Bowie (2016)
Folklore — Big Big Train (2016)
Fear Inoculum — Tool (2019)

Se tiver que citar apenas três discos que mudaram sua vida quais seriam eles? Tem alguma história em especial em relação à eles?
Prometo que é a última vez que falo dele (até porque a entrevista já está terminando, rsrs), mas o Pulse é inevitável — foi o ponto de partida da minha coleção. Também preciso citar o ao vivo A Show of Hands, do Rush, que me deixou completamente impressionado quando descobri que toda aquela sonoridade era reproduzida no palco por apenas três músicos. Foi isso que me levou a mergulhar na discografia da banda, que acabou se tornando a minha favorita de todos os tempos. E, claro, Images & Words, do Dream Theater, que me marcou pelo virtuosismo técnico e pela forma como mostrou que era possível unir rock progressivo e metal de maneira tão consistente.
Quais as bandas atuais que você indicaria para os nossos leitores? E quais bandas já mais veteranas você pediria mais atenção?
Posso citar Frost*, uma das bandas mais interessantes do prog moderno, surgida no Reino Unido em meados dos anos 2000. Liderada pelo multi-instrumentista e produtor Jem Godfrey (que também trabalhou com nomes do pop britânico), a banda mistura rock progressivo clássico com elementos contemporâneos como música eletrônica e pop com uma pegada mais acessível em certos momentos.
DarWin (estilizado assim mesmo, com “W” maiúsculo) é um projeto relativamente recente dentro do rock progressivo, mas que chama atenção pelo nível altíssimo dos músicos envolvidos. Idealizado pelo guitarrista e compositor DarWin que dá nome ao grupo, juntamente com o baterista Simon Phillips (Toto), traz uma sonoridade mais refinada, extremamente técnica e virtuosa, com discos temáticos e ares de trilha sonora em algumas passagens. Até hoje já passaram pelo grupo nomes como Greg Howe, Guthrie Govan, Derek Sherinian e Billy Sheehan.
Quanto às bandas veteranas eu preciso citar Camel, pois confesso que eu mesmo nunca dei muita atenção ao grupo e apenas recentemente passei a ouvir com mais cuidado e perceber a importância da banda dentro do cenário do rock progressivo, mesmo ela nunca tendo alcançado o mesmo patamar de outros medalhões como Genesis e Yes.
E prá fechar, eu citaria Marillion, mais especificamente a fase Steve Hogarth, que ao meu ver, tem uma certa rejeição por parte dos fãs mais radicais da era Fish. Discos como Brave, Marbles e até o mais recente An Hour Before It’s Dark, de 2022, são obras incríveis que merecem ser conferidas.
Qual foi o último disco que você comprou e o que você mais anda ouvindo recentemente?
Na verdade, foram dois lançados esse ano: BB King’s Blues Summit 100 do Joe Bonamassa, e Woodcut, o disco novo do Big Big Train. Estou ouvindo esses dois praticamente em loop, desde que os comprei.

Com os discos citados para os anos 2000, as respostas das perguntas anteriores e pelas nossas conversas on line, nota-se que você é um entusiasta desse rock progressivo mais recente. E por “mais recente” me refiro a bandas que não seja os medalhões dos anos 70. Você entende que o estilo se renovou e que hoje voltou com força novamente?
Sim, sou entusiasta do prog moderno. A verdade é que, apesar de reconhecer a importância dos medalhões (que me fizeram pegar gosto pelo estilo), a música muito virtuosa e conceitual acabou me cansando um pouco, me deixando meio saturado. Inclusive, passei um bom tempo sem ouvir rock progressivo e só “recentemente”, ao descobrir bandas como as que citei anteriormente — Frost*, Porcupine Tree, Big Big Train etc. — meu interesse pelo estilo reacendeu.
Entendo, sim, que o gênero se renovou e, apesar de não estar exatamente na moda, algumas bandas atualizaram o estilo e seguem levando adiante o legado deixado pelos grupos clássicos…
A propósito, você teria um minuto para ouvir a palavra de Big Big Train? rsrsrs
Eu já estou convertido tem tempo….rs. Qual será o futuro da sua coleção?
Humm… essa é uma pergunta difícil. Tenho sentido algo meio estranho em relação à minha coleção, como se meus dias de comprador de discos estivessem chegando ao fim. Sempre digo que, para um colecionador, a falta de espaço pesa mais do que a falta de dinheiro — e esse é um fator importante. Claro que a gente sempre dá um jeitinho, mas espaço físico tem limite.
Outro ponto é o preço cada vez mais alto e abusivo dos CDs, algo até compreensível por se tratar de um hobby bem nichado hoje em dia. E tem também o fato de que, salvo algumas lacunas de discografias de artistas e bandas que curto, eu já tenho praticamente tudo o que gostaria. Ultimamente, percebo que estou mais comprando edições especiais, relançamentos e substituindo itens que estão na prateleira. Descobrir algo realmente novo tem sido raro — e, para ser sincero, nem tenho buscado muito. Tenho aproveitado mais o que já tenho.
Agora, sem querer pesar o clima no fim da entrevista, existe também aquela questão inevitável: “o que será da minha coleção quando eu morrer?”. Não sei se era exatamente essa a ideia da pergunta, mas de vez em quando brinco com isso aqui em casa. Dizem que não vão se desfazer, mas, por via das dúvidas, já deixei instruções de como consultar o Discogs e verificar o preço médio dos itens. Acho que ainda vão levantar uma boa grana com isso! hahahahaha
No fim, a luta sempre vai ser transferir essa nossa paixão para os nossos filhos. Porém a coleção para nós é importante, pois vimos ela começar do zero e eles, recebendo milhares de itens de uma vez, talvez não deem a mesma importância.
Tenho uma filha de 19 anos que ama música e obviamente, ouve coisas pop que a molecada dessa idade curte, mas também aprecia estilos variados, como MPB, jazz, blues e bastante coisa oitentista. Portanto, eu diria que consegui influenciá-la positivamente. Hoje, inclusive, é bastante comum ela me apresentar algo interessante que ouviu, pois conhece o meu gosto musical.
Quanto ao colecionismo propriamente dito, aí eu acho que não faz parte do contexto dessa geração, não é mesmo? Eles têm um mundo de opções ao alcance no streaming e a ideia de ter que ir até a prateleira, escolher um disco, abrir a caixinha e ainda colocar no CD player soa quase como uma atividade extenuante… rsrs
Novamente gostaria de agradecer pela sua disponibilidade e deixo aqui um espaço para você deixar um recado aos nossos leitores.
Eu que agradeço o espaço e a oportunidade de falar sobre um assunto que faz parte da minha vida há tanto tempo. Falar de música e de colecionismo é, de certa forma, revisitar a própria história. Cada disco ali tem um momento, uma fase, uma lembrança.Se eu puder deixar um recado, é que as pessoas ouçam música, independentemente do formato, do estilo ou da época. Não importa se é no streaming, no CD, no vinil ou no YouTube… o importante é a conexão que a música proporciona.
E, para quem coleciona, que continue fazendo isso pelo prazer, sem neura, sem obrigação, porque no fim das contas, mais do que uma coleção, o que a gente acumula mesmo são experiências.
Obrigado e bons sons a todos!
