Faster Pussycat – Faster Pussycat [1987]

Por Daniel Benedetti
O álbum Faster Pussycat, lançado em julho de 1987, representa um documento bastante fiel de uma época específica do rock norte-americano: o auge e, ao mesmo tempo, o início da saturação da cena da Sunset Strip. Mais do que apenas um disco de estreia, ele funciona como um retrato cru de um ecossistema musical e social em que atitude, estética e sobrevivência urbana caminhavam lado a lado. Ao resumir seu conteúdo e contexto, é impossível dissociar o trabalho da atmosfera decadente e excessiva de Los Angeles em meados dos anos 1980, quando o glam metal se dividia entre a aspiração ao mainstream e a preservação de um certo espírito marginal.
O Faster Pussycat surge exatamente nesse ponto de tensão. Formada em 1986, a banda não se posicionava como uma promessa polida, moldada para rádios FM, mas como um reflexo direto da vida noturna que orbitava clubes, becos e palcos pequenos da Strip. O próprio nome, inspirado em um filme cult de Russ Meyer, já anunciava a intenção provocativa e exagerada, quase uma paródia consciente dos excessos que a cena celebrava. Havia ali um senso de identidade que não dependia apenas da música, mas de uma postura estética e comportamental.
A figura central desse processo é o vocalista Taime Downe. Mais do que frontman, ele atuava como articulador simbólico da cena, especialmente por sua ligação com o clube Cathouse, espaço fundamental para a consolidação de bandas e personagens daquele circuito. O Faster Pussycat não apenas tocava nesse ambiente: ele emergia dele, absorvendo sua crueza, sua promiscuidade estética e sua lógica de sobrevivência. Essa vivência urbana moldou tanto o conteúdo lírico quanto a sonoridade do álbum.

Musicalmente, o disco se ancora em uma síntese clara: o hard rock setentista, especialmente de matriz norte-americana, encontra a aspereza do punk e a teatralidade do glam. A influência de bandas como Aerosmith e Rolling Stones é evidente nos riffs, no balanço e na estrutura das músicas, enquanto a atitude debochada e por vezes cínica remete a nomes como New York Dolls e Sex Pistols. O resultado não é particularmente inovador, mas é coerente e honesto dentro de sua proposta.
O contrato com a Elektra Records coloca o grupo dentro da engrenagem da indústria em um momento de corrida desenfreada por bandas da Sunset Strip. Ainda assim, o álbum não soa excessivamente domesticado. Produzido por Ric Browde, o disco mantém uma abordagem relativamente crua, evitando o excesso de camadas e polimentos que caracterizavam produções mais radiofônicas da época. Essa escolha estética reforça a identidade sleaze da banda e a distancia, ainda que modestamente, de contemporâneos mais calculados comercialmente.
O processo de gravação, realizado no Amigo Studios, reflete a urgência típica de uma banda recém-contratada. Não há indícios de experimentação ou longas elaborações em estúdio; tudo aponta para um registro direto, quase documental, de um repertório já testado ao vivo. Taime Downe concentra a maior parte da autoria das composições, com contribuições recorrentes dos guitarristas Greg Steele e Brent Muscat, o que garante uma certa unidade temática e sonora ao álbum. Completam a formação o baixista Eric Stacy e o baterista Mark Michals.

A abertura com “Don’t Change That Song” estabelece de imediato o tom do disco. Trata-se de um hard rock vibrante, com ecos claros do Aerosmith setentista, tanto na estrutura quanto na entrega vocal. “Bathroom Wall”, talvez a canção mais emblemática do trabalho, aprofunda essa proposta ao mergulhar no submundo sexual urbano. Em contraste relativo, “No Room for Emotion” apresenta uma abordagem mais cadenciada e melodicamente acessível.
“Cathouse” funciona quase como um hino interno. Inspirada diretamente no clube homônimo, a faixa celebra o excesso — drogas, sexo, sociabilidade noturna — com uma intensidade que remete ao hard rock clássico. “Babylon” amplia o escopo lírico ao recorrer a uma metáfora bíblica para falar de decadência urbana.

A partir de “Smash Alley”, o álbum reforça sua ligação com a geografia mítica da Sunset Strip. “Shooting You Down” e “City Has No Heart” mantêm a mesma intensidade, ainda que sem grandes variações. “Ship Rolls In” representa um dos momentos menos inspirados do disco. Com um riff mais pálido e uma construção previsível, a faixa aborda temas recorrentes como expectativa e recompensa, usando a metáfora marítima para falar de ciclos de sorte e oportunidade.
O encerramento com “Bottle in Front of Me” resgata o vigor do álbum ao misturar blues e hard rock em uma celebração amarga do alcoolismo como mecanismo de escape.

Em termos de recepção, o álbum alcançou apenas a 97ª posição nas paradas norte-americanas, e seus singles não tiveram grande repercussão comercial. Ainda assim, a banda conquistou visibilidade significativa, incluindo turnês com nomes estabelecidos e destaque na imprensa especializada. A crítica foi majoritariamente favorável, reconhecendo no disco uma leitura honesta e energética do hard rock setentista filtrado pelo glam dos anos 1980.
Com o passar do tempo, Faster Pussycat passou a ser visto como um trabalho que merece resgate. Não se trata de um disco revolucionário, mas de um álbum sólido, bem executado e representativo de uma vertente menos higienizada do glam metal. Sua maior virtude está na primeira metade, onde a fusão entre riffs inspirados, atitude urbana e senso de diversão alcança seus melhores momentos.
Em síntese, o disco de estreia do Faster Pussycat permanece como um registro consistente de uma banda que talvez não tenha alcançado o estrelato de alguns contemporâneos, mas que soube capturar, com autenticidade, o espírito de uma cena específica. Para ouvintes iniciados no glam metal ou admiradores do hard rock setentista, trata-se de uma obra que ainda oferece prazer, energia e um olhar direto sobre uma era marcada por excessos e contradições.

Track list
- Don’t Change That Song
- Bathroom Wall
- No Room For Emotion
- Cathouse
- Babylon
- Smash Alley
- Shooting You Down
- City Has No Heart
- Ship Rolls In
- Bottle In Front Of Me
