Supertramp – Crime of the Century [1974]

Supertramp – Crime of the Century [1974]

Por Daniel Benedetti

A trajetória que desemboca em Crime of the Century representa um ponto de inflexão decisivo na história do Supertramp, não apenas por consolidar uma formação estável, mas por cristalizar uma identidade estética que até então existia de forma fragmentada. Lançado em 25 de outubro de 1974 pelo selo A&M Records, o terceiro álbum de estúdio da banda sintetiza anos de tentativas, crises e amadurecimento artístico, posicionando o grupo de maneira singular no panorama do rock britânico dos anos 1970.

Até chegar a esse momento, o Supertramp percorreu um caminho tortuoso, típico de bandas que buscavam conciliar ambição artística com viabilidade comercial. A gênese do grupo remonta a 1969, quando Rick Davies, tecladista e vocalista, recebeu apoio financeiro do milionário neerlandês Stanley August Miesegaes. Esse patrocínio foi crucial para viabilizar os primeiros passos da banda, oferecendo liberdade criativa em um período de efervescência do rock britânico, marcado pela expansão do formato da canção e pela incorporação de elementos progressivos. Nesse contexto surge a parceria com Roger Hodgson, cuja sensibilidade melódica e introspectiva contrastava com o viés mais bluesy e pragmático de Davies. Essa tensão criativa, longe de ser um obstáculo, tornou-se o motor estético que definiria o som do Supertramp.

A formação clássica do Supertramp: Bob Sienberg, Roger Hodson e Dougie Thomson (em pé); Rick Davies e John Helliwell (sentados)

Os primeiros álbuns — Supertramp (1970) e Indelibly Stamped (1971) — não alcançaram repercussão comercial significativa, o que resultou na dissolução parcial da formação original e no fim do financiamento de Miesegaes em 1972. Esse período de instabilidade forçou Davies e Hodgson a reavaliar não apenas a estrutura do grupo, mas sua própria linguagem musical. A reconstrução ocorrida entre 1972 e 1973 revelou-se decisiva: a entrada do baixista Dougie Thomson, do baterista Bob Siebenberg e do multi-instrumentista John Helliwell estabilizou a banda e ampliou significativamente seu vocabulário sonoro. Sopros, texturas harmônicas refinadas e um uso expressivo de teclados passaram a conviver com uma escrita pop sofisticada, acessível sem ser simplista.

É nesse ambiente de maturidade recém-conquistada que Crime of the Century se forma. Gravado entre fevereiro e junho de 1974 em estúdios londrinos como Trident Studios, Ramport Studios e Scorpio Sound, o álbum reflete um rigor criativo pouco comum. Davies e Hodgson chegaram a produzir cerca de 42 demos durante o processo de composição, das quais apenas oito foram selecionadas. Esse dado revela não escassez, mas abundância criativa filtrada por uma curadoria severa. Todas as faixas são creditadas à dupla, ainda que cada compositor mantenha sua identidade: Davies mais ancorado no rhythm & blues e Hodgson em uma escrita melódica e introspectiva. Parte do material, inclusive, teve origem em composições concebidas anteriormente para a trilha do filme Extremes (1971), demonstrando reaproveitamento criterioso de ideias.

Encarte de Crime of The Century, seguindo a arte gráfica da capa

A produção ficou a cargo de Ken Scott em parceria com a própria banda. Scott, com experiência prévia ao lado de artistas como David Bowie e The Beatles, trouxe um nível técnico e uma sensibilidade sonora que se refletem na clareza dos arranjos e na riqueza de detalhes da gravação. A engenharia de som, assinada por Scott e John Jansen, evidencia cuidado minucioso com timbres e dinâmicas, reforçado pelos arranjos de cordas de Richard Hewson. O resultado é um disco que se tornou referência não apenas artística, mas também técnica.

A dimensão conceitual de Crime of the Century se estende à arte gráfica. A capa, concebida pelo fotógrafo Paul Wakefield sob supervisão do diretor de arte Fabio Nicoli, nasceu de um processo incomum: Wakefield foi convidado a ler as letras antes de criar a imagem. Inspirado pelo título do álbum e por uma linha de “Asylum”, concebeu a icônica janela de cela flutuando no espaço, com mãos segurando as grades. A imagem, construída com múltiplas exposições e efeitos de estúdio, traduz visualmente os temas centrais do disco: alienação, confinamento psicológico e repressão da individualidade.

Single de “Bloody Well right”

Musicalmente, o álbum se desenvolve como um arco temático coerente. “School”, faixa de abertura, introduz de imediato a metáfora da educação como mecanismo de condicionamento social, questionando autoridade e conformismo. Em seguida, “Bloody Well Right” adota uma postura mais direta e bluesy, abordando desigualdade social e privilégios de classe com ironia mordaz — não por acaso, foi escolhida como single e alcançou a 35ª posição na parada norte-americana. “Hide in Your Shell” mergulha no isolamento emocional, apoiada por uma base de baixo e saxofone expressivos e pelo vocal empático de Hodgson, enquanto “Asylum” explora uma teatralidade intensa ao tratar da loucura institucionalizada e da relatividade da sanidade.

Single de “Dreamer”

“Dreamer” explicita a veia pop do Supertramp, contrapondo sonho e pragmatismo em uma canção de apelo imediato, que alcançou a 13ª posição na parada britânica de singles. “Rudy”, por sua vez, assume caráter quase cinematográfico, narrando a história de um personagem marginalizado em busca de fuga, com destaque para teclados e intervenções de guitarra. “If Everyone Was Listening” adota tom mais contido e reflexivo, questionando a falha na comunicação e a surdez simbólica da sociedade. A faixa-título encerra o álbum de forma tocante e profunda, sugerindo que o “crime do século” não é literal, mas a repressão sistemática do diferente e da individualidade.

Do ponto de vista comercial e crítico, Crime of the Century marcou a virada definitiva do Supertramp. O álbum alcançou a 38ª posição na principal parada norte-americana e a 4ª no Reino Unido, além de um sucesso extraordinário no Canadá, onde permaneceu mais de dois anos nas paradas e recebeu certificação de Diamante. Estimativas indicam vendas superiores a 500 mil cópias apenas nos Estados Unidos. A recepção crítica foi variada: Robert Christgau, do Village Voice, mostrou-se ambivalente, enquanto avaliações retrospectivas, como a de Adam Thomas no Sputnikmusic, destacaram o disco como uma das expressões mais contundentes de alienação juvenil da década de 1970, justamente por seu equilíbrio entre elementos progressivos e pop.

Após o lançamento, a banda embarcou em uma extensa turnê entre 1974 e 1975, ampliando sua base de fãs no Reino Unido, Europa e América do Norte. O sucesso, contudo, trouxe novas pressões: o álbum seguinte, Crisis? What Crisis?, precisou ser gravado nos intervalos entre as turnês, recorrendo a sobras de material de Crime of the Century. Ainda assim, o impacto do disco de 1974 já estava consolidado, refletido em sua presença recorrente em listas e publicações especializadas, incluindo o livro 1001 Álbuns que Você Deve Ouvir Antes de Morrer e rankings dedicados ao rock progressivo.

Em retrospecto, Crime of the Century se afirma como um trabalho-chave não apenas na discografia do Supertramp, mas no diálogo mais amplo entre rock progressivo e canção pop nos anos 1970. Ao unir rigor composicional, produção sofisticada, temática consistente e acessibilidade melódica, o álbum representa a síntese de um processo de amadurecimento artístico raro. Amado por muitos e rejeitado por outros, permanece como um registro incontornável de uma banda que encontrou, nesse disco, seu ponto de equilíbrio entre ambição e comunicação — um equilíbrio que, décadas depois, continua a convidar redescobertas atentas.

Contra-capa do LP

Track list

  1. School
  2. Bloody Well Right
  3. Hide In Your Shell
  4. Asylum
  5. Dreamer
  6. Rudy
  7. If Everyone Was Listening
  8. Crime of the Century

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