Bangers Open Air – Memorial da América Latina (26/04/2026):
Por Davi Pascale
Fotos: Davi Pascale
O Bangers Open Air nada mais é do que o Summer Breeze com outro nome. O local onde ocorre é o mesmo, a estrutura é a mesma, a galera que está por trás é a mesma, o critério para escolha dos artistas é o mesmo. Você escolhe se quer encarar o evento como a quarta edição do Summer Breeze ou a segunda do Bangers.
O festival, que ocorreu no Memorial da América Latina, traz a mesma estrutura dos festivais europeus. Ou seja: cast mesclando artistas de hard rock e heavy metal, diversos palcos, espaço para pegar autógrafos, lojas de discos, etc. Evento realmente imperdível para os fãs de música pesada. Dessa vez, optei pela segunda noite. O que levei em consideração foi a escolha do cast. Optei pela noite que tinha mais atrações que batiam com o meu gosto.
Justamente por termos apresentações ocorrendo em palcos simultâneos, não é raro termos que escolher o que assistir. Às vezes, temos que deixar de conferir algum artista que admiramos por conta de ter outra atração que gostamos ainda mais ocorrendo em outro palco. Ou alguém que não se apresenta por aqui com tanta frequência. Dessa vez, perdi dois shows que gostaria muito de ter assistido: a banda de hard rock sueca Crazy Lixx e o lendário Udo Dirkschneider, mas ok. Embora ainda não tenha presenciado um show do projeto Dirkschneider, já assisti um show da banda UDO. E o Crazy Lixx acredito que ainda retorne para o Brasil algumas vezes. Bem, vamos lá…
Cheguei em torno de 11:10h e a fila para retirar senha do signing sessions já estava dando volta, o que fez com que acabassem minhas esperanças de ter um CD assinado pelo Within Temptation. Afinal, comecei a fazer as contas e notei que se ficasse esperando ali para ver se conseguiria senha, acabaria perdendo o show do Primal Fear, algo que não estava muito disposto. Sendo assim, quando deu por volta de 12:00, desencanei do autógrafo e fui para os shows.

Enquanto corria para a área dos shows principais, dei de cara com a banda Visions of Atlantis se apresentando. Não sou muito familiarizado com o som dos ‘piratas’. Assisti umas 2 músicas para ter uma ideia do que se tratava e já corri para os palcos principais. Assim que cheguei, estava rolando o show do Project 46. A banda não faz meu gênero, mas a apresentação foi muito boa. Os músicos se demonstraram bem competentes e ganharam o (pequeno) público que já estava por lá.
Por volta de 12:50h, iniciava o Primal Fear. Embora não tenham vindo com o Matt Sinner, estava com muita vontade de ver o show. Até para ver se apagavam a memória ruim que havia ficado após assisti-los no Live n Louder. Na época, o Ralf Scheepers deu ataque de estrelismo e abandonou o palco após poucas músicas. De lá para cá, continuei acompanhado os discos, mas havia desencanado de assisti-los.
Dessa vez, o cantor entrou com outra postura. Mais de bem com a vinda, mais comunicativo e, o melhor de tudo, sua voz continua intacta. O set contou com aproximadamente 10 músicas e misturou faixas de seu mais recente trabalho, Domination, com clássicos como “Chainbreaker”, “Nuclear Fire” e “Metal Is Forever”. A banda está afiadíssima, os agudos de Scheepers continuam todos ali. O festival havia iniciado em grande estilo.
Como haviam dois palcos, um grudado no outro, e os shows eram intercalados, não havia grandes esperas entre uma atração e outra. Entre o fim de um artista e o início de outro, não demorava mais do que 10 minutos. Algumas vezes, não passava de 5. Sendo assim, não demorou para que o Nevermore subisse ao palco. Esse eu também já havia assistido no mesmo Live n Louder. Ainda na fase que contavam com o saudoso Warrel Dane. Honestamente, não sabia o que esperar da nova formação, mas fiquei bem feliz com o que assisti.

Da formação clássica, seguem apenas o guitarrista Jeff Loomis e o baterista Van Williams. O time foi completado por Jack Cattoi (guitarra), Semir Özerkan (baixo) e Berzan Önen (voz). Quem me impressionou, de verdade, foi o cantor turco. O cara tem uma voz forte, seu timbre chega a lembrar o Warrel Dane, mas ele está longe de ser uma mera cópia. Ele não fica tentando emular o antigo vocalista. Acredito que, em pouco tempo, esse cara vai ficar bem conhecido entre os headbangers. Voltando ao show, o set foi curto, porém pesado e cheio de garra. Foram apenas 8 sons, com os músicos iniciando ao som do clássico ”Narcosynthesis” e passando por porradas como “Engines of Hate”, “Enemies of Reality” e “Born”. Foi aquele ótimo aperitivo que te deixa com o gosto de ‘quero mais’…
Sai Nevermore, entra Amaranthe. Essa é uma banda que, por algum motivo, acabei não acompanhando tão a fundo. Tenho na minha coleção apenas os 2 primeiros álbuns. A banda conta com 3 vocalistas que entram e saem do palco a todo instante. Um ataca no vocal gutural, os outros dois cantam com voz limpa, sendo um deles a gatinha Elize Ryd. Para quem nunca ouviu nada, eles fazem um metal moderno misturando guitarras pesadas, melodias pop e até alguns elementos eletrônicos. Pelo que andei pesquisando aqui, o set passou por todos os álbuns, tendo o Manifest como maior destaque. Indiscutivelmente, fizeram um bom show e ganharam o respeito do público.
E eis que chega um dos momentos que estava mais aguardando, a apresentação do Winger. Essa é uma banda que acompanho desde o lançamento do Pull (1993) e nunca tinha tido a oportunidade de assistir ao vivo. Essa turnê está sendo anunciada como a tour de despedida e conta com todos os integrantes da formação original. Aqui no Brasil, eles são conhecidos como a banda que tocava a música dos cigarros Hollywood (“Miles Away”), mas quem conhece a banda, sabe da qualidade do trabalho deles. Todos são músicos de ponta e entregaram álbuns bem bacanas ao longo dos anos. Colocaria eles no mesmo patamar de um Asia. Infelizmente, a imagem que ficou é de que poderia ter sido melhor. A apresentação – que teve os álbuns Winger e In The Heart Of The Young como foco principal – foi marcada por diversas falhas técnicas, um Kip Winger furioso que a todo momento ia no fundo do palco brigar com a equipe e um som pobre de bateria. A performance melhorou nos 20 minutos finais, mas a chama já havia se apagado. O set foi bem escolhido – com direito a clássicos como “Can´t Get Enough”, “Easy Come Easy Go”, “Seventeen”, “Magdalaine” e, é claro, a já citada “Miles Away” – os músicos são ótimos, mas a situação não estava a seu favor. Uma pena… Tinha de tudo para ser um dos melhores shows da noite.

Depois de termos visto, o monstro Reb Beach, era hora de assistirmos outros 2 monstros das 6 cordas: Richie Kotzen e Adrian Smith. Para quem está por fora, a dupla Smith/Kotzen aposta em um hard rock cruzado com blues. O som deles é bem melódico e traz os 2 músicos dividindo os vocais e os solos. Imaginem, sei lá, um Winery Dogs menos virtuose. Nos palcos, o time é completado por 2 músicos brasileiros: a baixista Julia Lage (Vixen) e o baterista Bruno Valverde (Angra). O trabalho dos músicos é de primeiríssimo escalão, mas a plateia respondeu pouco. Mesmo com os músicos entregando sons espetaculares como “Blindsided”, “Scars” e “White Noise”, o público só levantou de verdade no final da apresentação, quando decidiram puxar o clássico “Wasted Years” (Iron Maiden). Aliás, vale uma menção à Julia que interpretou todos os fraseados do Steve Harris com precisão.
E eis que chega um dos shows mais aguardados da noite. Não apenas por mim, mas por boa parte do público que compareceu nesse domingo. Era a hora do Within Temptation invadir o palco. Sem dúvidas, uma das melhores apresentações da noite. Show super bem produzido, banda afiada e Sharon Den Adel é um show à parte. A linda vocalista domina o palco, tem o público na palma de suas mãos, além de ser uma cantora de mão cheia. Sharon é super afinada e sobe todas as notas altas com facilidade. O set – que durou 80 minutos – trouxe bastante música de seu álbum mais recente – Bleed Out – mas não deixou de ter algumas surpresas. O grupo surpreendeu os presentes ao puxarem sons como “The Howling” e “Forsaken”, que não tocavam há mais de uma década, além de relembrarem clássicos como “Faster”, “Stand My Ground”, “Paradise”, “Ice Queen” e “Mother Earth”. Apresentação, simplesmente, impecável.
Gostei bastante da minha experiência no Bangers Open Air. Os shows ocorreram todos no horário, qualidade de som estava muito boa (tirando o show do Winger), a parte de estrutura estava muito organizada. Só acho que poderia ser repensada a questão das signing sessions. Tanto o local que ocorre (muito longe da área dos shows, poderia ocorrer mais perto do merchan, por exemplo), quanto das retiradas de senhas. Esse lance de fila única faz com que o publico perca algumas apresentações do evento. Não sei, talvez distribuir as senhas do artista perto da signing sessions daquele artista. Ou ter um local, onde a pessoa vai lá e já retira a senha assim que chega ao evento. Sei lá, um painel onde a pessoa passa o código do ingresso, seleciona a atração e pega a senha impressa. Não é possível que em pleno 2026 ainda precise ficar horas na fila, com sol na cabeça, para ver se vai conseguir ou não a senha que deseja. Mas… vamos lá que ainda falta comentar o headliner…

A noite foi encerrada com o show do Angra celebrando 35 anos de banda e 25 de Rebirth. Muitos estavam com medo desse show. Sim, a banda é merecedora da posição de headliner. Sim, os caras são grandes músicos e possuem uma ótima discografia. Sim, ver essa reunião é um momento emocionante. No entanto, as constantes declarações acaloradas de Fabio Lione em recentes podcasts, geraram desconfiança do clima que iríamos encontrar no palco. E, graças a Deus, eles deixaram os (possíveis) conflitos nos bastidores.
O show teve início com a formação atual. Ou seja: Rafael Bittencourt, Marcelo Barbosa, Felipe Andreoli, Bruno Valverde e Alirio Netto. O grupo iniciou a noite de maneira nostálgica mandando os clássicos “Nothing to Say” e “Angels Cry”. O instrumental não tem o que tirar, nem por. Já tem bastante tempo que esse time está junto e os músicos estão mais do que azeitados. Em relação ao vocal, diria que Alirio se saiu bem. Sim, é possível pegar alguns deslizes, mas vamos dar um desconto. Primeira apresentação, diante de um publico gigantesco, tensão nos bastidores… Tudo entra na conta. Tenho certeza que o rapaz entregará um trabalho de altíssimo nível para os fãs. Conheço o trabalho dele há vários anos. Seu talento é indiscutível.
Na sequencia, Alirio deixa o palco para que o mago Fabio Lione entre em cena. O cantor fez um curto agradecimento ao público sobre seu tempo na banda e entregou 2 sons do álbum Cycles of Pain (“Vida Seca” e “Tides of Change”), além de uma versão matadora de “Lisbon”. Embora tenha sido muito criticado por uma parcela de fãs ao longo dos anos, para mim, foi quem entregou o melhor trabalho vocal nesse show. Agora… Só um parecer, na hora de se despedir, Fabio ficou sozinho no palco, todos os músicos se retiraram. Não sei se foi algo pensado para evitar indiretas, mas achei uma despedida fria. Acho que ao menos Rafael Bittencourt, como líder, deveria ter vindo a frente do palco dizer algumas palavras para o público e para Lione. Lembro que assisti o grupo no Rock in Rio de 2015, quando o Kiko Loureiro passou a vez para o Marcelo Barbosa, e o momento foi muito mais humano. Voltando ao show… Antes que o momento tão aguardado ocorresse, Alirio retornou ao palco para relembrar “Wuthering Heights” e “Carolina IV”. Duas músicas bem difíceis de interpretar e que segurou com enorme competência. Só a parte do piano que, honestamente, me deu a sensação de alguma coisa faltando….
E chegamos à parte 2, a tão aguardada reunião da era Rebirth. Sai, Bruno Valverde. Entra, Aquiles Priester. Sai, Marcelo Barbosa, entra Kiko Loureiro. Sai, Alirio Netto. Entra, Edu Falaschi. Acompanho o Angra desde o início. Assisti a banda, pela primeira vez, no Monsters of Rock 1994, ainda com Andre Mattos. Assisti eles com o Edu, na época, 2 vezes. Uma dividindo o palco com Whitesnake e Judas Priest, em 2005 e outra, em um show só deles na Via Funchal, no ano seguinte. Portanto, foi nostálgico ver os caras juntos novamente.
Segui acompanhando a carreira deles ao longo dos anos. Tanto da banda, quanto as carreiras solo, os projetos paralelos. Sendo assim, já estava a par da luta que o Edu vem enfrentando ao longo dos anos com o refluxo, do quanto isso afetou sua voz. Ou seja, já sabia que não deveria esperar uma performance perfeita. Ainda mais tendo noção da complexidade das músicas. Tendo em vista, os problemas que enfrenta e o quão difícil é o repertório, diria que ele se saiu bem. Sua performance foi acima do que esperava, sem contar que ele estava visivelmente feliz no palco. Depois de ter saído de uma maneira tão pra baixo, foi muito legal ver o Edu participando de um evento desses e sendo ovacionado pela plateia.

Nessa segunda parte, eles reviveram “Ego Painted Grey” (Aurora Consurgens), mas o foco foram os álbuns Rebirth e Temple of Shadows. Ou seja, os discos clássicos dessa formação. Não faltaram sons como “Nova Era”, “Acid Rain”, “Heroes of Sand” e “Spread Your Fire”. Aquiles Priester e Felipe Andreoli continuam impressionando a todos com sua técnica e precisão incomum. Kiko Loureiro dispensa comentários. Um dos melhores guitarristas da atualidade, e não me refiro somente ao brasileiros.
O show estava super bem produzido e contou com fogos, fumaças, mas o que ninguém esperava foi a tocante homenagem ao saudoso Andre Mattos. A terceira parte iniciou ao som de “Silence and Distance”, ao som do Andre na voz e piano, enquanto diversas fotos do cantor eram exibidas no telão. A banda entrou na segunda parte da música com Edu Falaschi e Alirio Netto dividindo os vocais. No instrumental, estavam Bruno Valverde, Rafael Bittencourt, Felipe Andreoli, Marcelo Barbosa e Kiko Loureiro. Na hora de executarem “Late Redemption”, Valverde saiu do palco, deixando a responsa para Aquiles Priester, mas o melhor ainda estava por vir. Ao final, todos os músicos se reuniram no palco para executarem o hino “Carry On”.
Verdade seja dita. O Angra entregou um show de primeiro mundo. Não deixou nada a dever para os artistas gringos. A qualidade de som estava muito boa, o show estava muito bem produzido, muito bem ensaiado. Muito bacana ver uma banda brasileira encerrar um festival desse porte, ainda mais entregando uma apresentação desse nível. Sem dúvidas, uma das melhores bandas da cena brasileira. Espero que essa apresentação sirva para abrir os olhos da galera e fazer com que deixem os ataques de lado e voltem a curtir o belo legado que esses músicos construíram, enquanto eles ainda estão por aí.
A produção do evento já confirmou a edição de 2027 e já iniciou a venda dos blind tickets. Particularmente, prefiro esperar mais para o fim do ano. Ainda tem alguns shows que quero conferir e não consegui comprar ingresso ainda. Prefiro esperar a confirmação dos artistas, ver qual noite me agrada mais. Será que teremos o Twisted Sister com Sebastian Bach? Será que teremos um novo headliner? Enfim… ainda tem muita água para rolar. De todo modo, vida longa ao Bangers e ao Angra.

