Zé Ramalho – Coletiva de Música Paraibana [2018]
Por Mairon Machado
Em 26 de maio de 1976, um dos momentos mais importantes, e menos conhecidos, da carreira de Zé Ramalho acontecia no palco do Teatro Santa Rosa, na Paraíba. Durante muitos anos se falou sobre o tal incidente no qual Zé supostamente “teria cortado os próprios cabelos em pleno palco durante um acesso de fúria e indignação, ao mesmo tempo que quebrava uma televisão“, mas isso parecia mais uma lenda urbana, tal qual a associada ao álbum Paêbirú, e seu misterioso desaparecimento das lojas por conta da enchente do rio Capibaribe em Pernambuco.
Mas, eis que a gravadora Discobertas, através de uma verdadeira escavação nos arquivos pessoais do bardo paraibano, encontrou a tal apresentação, e em 2018, trouxe ao mundo no formato de vinil. Mas é a edição em CD, de 2021, que chama a atenção, por trazer o show praticamente na íntegra, e o tal momento lendário sendo conferido para ver como realmente foi o que aconteceu naquela noite quente em João Pessoa.

Até chegar o dia 26 de maio de 1976, é necessário contextualizar o momento pelo qual Zé passava na época. José Ramalho Neto torna-se Zé ramalho muito cedo. Tendo perdido o pai ainda criança, o menino da Paraíba foi criado pelo avô, que lhe passou ensinamentos sobre culturas e tradições do nordeste na quase provinciana João Pessoa dos anos 50 e 60. Quando adolescente, no final dos anos 60, Zé passa por alguns grupos, dentre eles Os Demônios – ainda estudante do colégio Pixo X -, Os Quatro Loucos, substituindo o guitarrista Vital Farias, com quem participou de festivais em João Pessoa, Eles e The Gentlemen, estas já no início dos anos 70, que levou Zé a sair do estado, tocando nas redondezas em cidades do Pernambuco e de Alagoas, inclusive gravando um compacto (“Cristina”) pelo selo Rozenblit, hoje, raríssimo, assim como seu único álbum, auto-intitulado, de 1972.
Os anos passaram e Zé tenta buscar a sorte no Rio de Janeiro, onde participa da última edição do Festival Internacional da Canção, de 1974, e conhece Geraldo Azevedo, com quem iria fazer parcerias importantes tempos depois. Isolado em uma casa de praia, emprestada por uma tia, a qual batizou de Vila Do Sossego, Zé passa a criar canções que se tornariam sucesso em sua carreira, em um período que o próprio chama de Trimestre Das Revelações. Grava, ao lado de Lula Côrtes, o cultuado Paêbirú, com toda sua mitologia por trás da qual vou passar em branco aqui.

Em 1975, ano de lançamento de Paêbirú, Zé começa a chamar atenção do meio musical na cidade do Rio de Janeiro (RJ) como integrante da banda do cantor pernambucano Alceu Valença, destacando-se no Festival Abertura daquele ano, promovido pela Rede Globo. Foi nele que Marília Gabriela, apresentadora do mesmo, cunhou o nome Zé Ramalho da Paraíba. Participa como violonista do álbum Vivo!, lançado por Alceu Valença em 1976, mas um desentendimento com Alceu fez Ramalho deixar a banda e voltar para João Pessoa (PB).
É lá que nosso herói decide investir em shows solo, cantando suas músicas. Em parceria com o poeta Pedro Osmar, organiza a Coletiva de Música Paraibana, e nela, Zé exorciza seus demônios de não ter vingado no Sul, preparando um roteiro que iria abalar à todos os que o conheciam, utilizando uma tesoura para tosquear seu passado em pleno palco, como protesto contra a mídia, e tendo uma surpresa extra nessa sua manifestação.
Lançado em vinil originalmente no ano de 2018, e em CD em 2021, com duas bônus, o show conta apenas com Zé na voz e violões, e abre com “O Sobrevivente”, no qual Zé entoa o poema de Carlos Drummond de Andrade, contando sobre as dificuldades de se ser um artista, mostrando já a animosidade e decepção que corria pelo sangue de Zé naquele tempo. Seguimos com “Jardim Das Acácias”, levada apenas pelo violão de Zé, e muito fiel ao que viemos conhecer, algum tempo depois, no álbum A Peleja Do Diabo Com O Dono Do Céu (1979), mas com mais improvisos vocais, que fazem a canção atingir nove minutos, levando ao primeiro discurso de Zé na noite, “Discurso 1”, que é o primeiro bônus do CD.

Zé começa falando que “é um dia muito bonito, importante para falar um monte de coisas para vocês … ” e assim ele começa a fazer seu discurso a favor dos artistas paraibanos, que sofrem o preconceito das mídias, taxados de marginais e maconheiros, repudiados, e que a coletiva paraibana surge para firmar o lugar do músico paraibano. As forças das palavras de Zé impactam, detonando os críticos de música e defendendo o artista paraibano, e na sequência, ele chama ao palco dois músicos que irão lhe acompanhar na próxima canção, Paulinho e Israel, e emenda, emocionado, que “essa música que nós vamos tocar é muito especial para mim, permita-me abusar disso, Mas é que há três dias atrás faleceu meu avô, talvez a única criatura honesta que eu tenha conhecido no mundo, foi ele quem me criou, saindo do sertão, do brejo. Eu nunca tive pai, então vovô fez o papel de avô, de pai, e antes de morrer, fez o papel de filho também, para mim. Avôhai é uma palavra mágica, significa avô e pai. Vovô, esteja em paz, e tenho certeza que está aqui, me olhando“. Com mais de dez minutos de duração, “Avôhai” é uma dolorida declamação de amor ao avô-pai de Zé Ramalho, surgindo com um tema nordestino na viola e nas vocalizações, seguindo com os acordes atemporais de um dos maiores sucessos da carreira do paraibano, acompanhado aqui apenas pela percussão e violão.
Chegamos então no ponto de êxtase do show, registrado como “Discurso 2”, o segundo bônus do CD, e que é o momento no qual Zé, descrente de seu futuro como artista, começa seu sacrifício, e que chegou a hora da tesoura. Então, ele explica que “durante sete anos, esse cabelo de louco representou para essa cidade … em cada fio de cabelo desse daqui, tem dez histórias para contar“. Enquanto ele vai fazendo seu discurso, ele começa a cortar seu cabelo em pleno palco, um cabelo cuidado durante 7 anos. A plateia, embasbacada, reage de forma incomodada enquanto ouvimos o discurso agressivo de Zé, e os tics da tesoura cortando as “belas madeixas carregadas de piolho, lacraias, lama“. Zé provoca a plateia, chegando a se irritar com um dos presentes que o provoca: “quer vir cortar meu irmão, queria que vocês encarassem isso com muito respeito, por que se você nunca teve peito de deixar um cabelo crescer assim, você fique na sua meu irmão”, e segue exalando sua tristeza, sua decepção, sua raiva e frustração, cortando o cabelo, fazendo seu sacrifício.
“Vocês passariam sete anos, criando um filho, para depois matá-lo?“. Enquanto corta o cabelo, citando Sansão, surge um momento que a plateia acaba não resistindo, caindo em risadas quando um dos presentes diz que “mas eu que queria cortar” e Zé responde “chegue amor, venha, vou lhe dar um beijo na sua boca … vem mostrar que você é paraibano“. Zé faz uma crítica ao fato de o chamarem de Zé Ramalho da Paraíba, e encerra seu ato quebrando uma TV em pleno palco (infelizmente não registrado no CD e tão pouco no LP), dedicando uma homenagem para o colega Alceu Valença, entoando então a bela “Espelho Cristalino”, junto de “Adeus Segunda-Feira Cinzenta”, canção de Alceu Valença unida a obra criada pelo próprio Zé em mais de nove minutos de lindas explorações musicais nos violões e na interpretação dolorida dos vocais do paraibano.

Fechando o show, “A Dança Das Borboletas”, outra parceria de Zé com Alceu, com um clima bastante soturno em sua introdução, no qual novamente Zé usufrui de interessantes vocalizações, e a interpretação hipnotizante do violão torna os quase dez minutos da canção uma perfeita ode ao musicalismo do interior da Paraíba, além de fazer citações ao cangaço e também entoar trechos de “Vem Vem”, de Geraldo Azevedo
São as presenças dos “Discursos” os pontos principais desta edição em CD, pois são registros históricos de um momento ímpar na carreira de Zé, e que haviam aparecido no CD Zé Ramalho Da Paraíba, de 2008, mas agora surgem exatamente do momento onde foram entoados. Na sequência, no segundo semestre de 1976, Zé, determinado a buscar um novo destino em sua vida, montou seu show de despedida de João Pessoa (PB), Um dia Antes da Vida (registrado no CD homônimo, também lançado pela gravadora Discobertas), que fecha o ciclo inicial da trajetória artística do cantor na sua terra natal. Dois dias depois deste show, embarcou para o Rio, onde, através da indicação de Nelson Motta, assina contrato com a gravadora CBS (via selo Epic) para fazer, em 1977, o primeiro álbum solo, Zé Ramalho, lançado em 1978.
Dali em diante, Ramalho virou nome nacional na MPB e essa fase inicial em João Pessoa (PB) se tornou a pré-história da carreira do cantor, deixando uma história pouco conhecida fora da Paraíba, e que felizmente foi resgatada para o deleite dos fãs e dos admiradores da Música Nacional Brasileira. Busque este e outros lançamentos da Discobertas (em especial, Atlântida, Um Dia Antes da Vida e Cine Show Madureira 1979), e descubra uma das melhores fases de um artista nacional, principalmente por ser embrionária, crua, e simplesmente dilacerante.

Track list
1. O Sobrevivente
2. Jardim Das Acácias
3. Discurso 1
4. Avôhai
5. Discurso 2
6. Medley: Espelho Cristalino / Adeus Segunda-Feira Cinzenta
7. A Dança Das Borboletas
