O Rock Ao Vivo em 1976
Por Marcello Zapelini
Acho que não é exagero algum apontar 1976 como o ano em que o disco ao vivo se tornou uma proposta comercial atraente para os músicos e suas gravadoras. O responsável por isso é Peter Frampton, guitarrista e vocalista habilidoso que até então nunca tivera exatamente um smash hit em sua carreira solo, e de repente se tornou um ídolo por meio de um duplo ao vivo, Frampton Comes Alive. Uma verdadeira “febre” de duplos ao vivo se seguiu, com vários músicos e bandas sonhando em repetir o sucesso de britânico. Claro, os discos ao vivo de rock já tinham uma longa história, e no começo da década de 70 o formato do “duplo ao vivo” se tornou quase obrigatório para os grandes músicos de rock. Mas na metade dos anos 70, os álbuns ao vivo vinham experimentando um certo declínio comercial, à exceção de obras-primas como Kiss Alive e Live Bullet (Bob Seger & The Silver Bullet Band), que venderam mais do que os álbuns de estúdio desses artistas lançados até então.
Independentemente dessas histórias de sucesso, o ano de 1976 é marcado por uma quantidade bastante significativa de bons discos ao vivo que agora estão completando seus cinquentenários. Para a seleção dos álbuns, como em todas as listas que costumo fazer, o critério adotado é o meu gosto pessoal. Dessa maneira, acredito que quem for comentar irá trazer suas próprias opções como contribuição para a lista. Optei por tirar alguns álbuns importantes da lista lançados nesse ano, como o já citado de Bob Seger, The Song Remains the Same (Led Zeppelin), Steal Your Face (Grateful Dead), Renaissance Live at Carnegie Hall e Blow Your Face Out da J. Geils Band, pois já os comentei a fundo em postagens anteriores. Como bônus, três lançamentos posteriores de gravações de 1976 – um deles, um dos álbuns ao vivo que mais ouvi em minha vida.
PETER FRAMPTON – Frampton Comes Alive!
Apesar de jovem (25 anos na época), Peter Frampton era um veterano com dez anos de carreira quando lançou este megahit em janeiro de 1976. Gravado nos EUA em 1975, o álbum foi oferecido à gravadora A&M como simples, mas quando os executivos sugeriram um duplo, Frampton o expandiu – e deu certo, pois Frampton Comes Alive! foi o disco ao vivo mais vendido de todos os tempos até que Eric Clapton Unplugged arrebatou a coroa em 1992. O lado A é uma ótima mostra de pop rock, com a agradável “Something’s Happening”, do álbum Somethin’s Happening (1974), e engata com outra do mesmo disco, “Doobie Wah” (com bons solos do chefe), “Show Me The Way”, que traz o famigerado talk box que fez a fama de Peter (ainda que ele não tenha sido o primeiro a usá-lo, foi quem o popularizou); ela foi uma das responsáveis pelo sucesso do LP (curiosamente, em Frampton, de 1975, ela e “Baby I Love Your Way” não chamaram muita atenção) e se encerra com “It’s a Plain Shame” (que revisita o primeiro LP, Wind of Change). Já o lado B é quase todo acústico, com “All I Want to Be (Is By Your Side)”, “Wind of Change” e “Baby I Love Your Way”, e se encerra com “I Wanna Go To The Sun”, que traz de volta a guitarra de Peter. No segundo LP, a breve “Penny For Your Thoughts” é um dueto de violões, mas a sequência é bem rocker, com “I’ll Give You Money”, “Shine On” (única música do Humble Pie presente, em versão que não compromete, mas não supera a original) e a (boa) cover para “Jumpin’ Jack Flash”. O último lado traz a balada “Lines On My Face”, única música que nunca dei muita bola, e a versão estendida de “Do You Feel Like We Do?”, outro hit com talk box. Uma Deluxe Edition com quatro músicas adicionais (estendendo o programa em cerca de 20 minutos) saiu em 2001, e é a melhor disponível no mercado, trazendo as músicas na ordem dos shows originais.
JOHNNY WINTER – Captured Live!
Johnny Winter And Live tinha sido, em 1971, o álbum mais vendido da carreira do guitarrista albino, e em 1976 ele reuniu material de três shows gravados na California em 1975 para este álbum – que não seria o único live de Johnny em 76, pois Together Live, gravado com o irmão Edgar, também sairia no mesmo ano. Composto majoritariamente por covers de clássicos como “Bony Moronie” e “It’s All Over Now” (calcada na versão dos Stones de 1964, mas com uma introdução que nem juntando todos os quatro guitarristas que passaram – ou estão – por lá – conseguiriam reproduzir), a famosa cover de “Highway 61 Revisited” (Bob Dylan), o disco traz um blues de autoria dele (“Sweet Papa John”), uma composição de John Lennon inédita à época (“Rock’n’Roll People”) e outra de Rick Derringer (“Roll With Me”), que fora parceiro tanto de Johnny quanto do irmão. Naturalmente que a guitarra de Johnny é o grande destaque, mas o segundo guitarrista Floyd Radford também tem seus momentos de brilho (especialmente quando acompanha Winter), e a cozinha de Randy Jo Hobbs (baixo, backing vocals) e Richard Hughes (bateria) se intromete pouco, armando as bases para que o disco se torne uma festa de solos de guitarra. No meu ponto de vista, o lado B do LP é superior ao lado A, pois é composto por duas músicas mais longas, que dão mais espaço para Johnny mostrar sua habilidade inacreditável na slide guitar em “Highway 61…” e no blues “Sweet Papa John”, em que o mestre está em seu habitat natural, são de cair o queixo de qualquer aficionado por guitarras. E esse é o público-alvo do disco: se você não gosta de guitarras bem tocadas, passe longe.
DR. FEELGOOD – Stupidity
Um dos meus favoritos nesse ano cheio de bons álbuns ao vivo traz a formação original com Lee Brilleaux (vocal, harmônica e guitarra), Wilko Johnson (guitarra e vocal), John B. Sparks e The Big Figure (bateria, backing vocal). Gravado em dois shows na Inglaterra (um lado para cada) por Vic Maile (que os fãs do Motörhead conhecem bem), separados por seis meses de diferença, Stupidity é uma verdadeira festa de rock’n’roll do começo ao fim. Incluir Stupidity aqui corrige uma pequena injustiça, que foi não ter incluído o LP nos Cinco Discos para Conhecer Wilko Johnson que saiu em 2023 nesta Consultoria. Esse foi o primeiro disco ao vivo a chegar ao primeiro lugar no Reino Unido logo na primeira semana, mas não fez sucesso nos EUA. Com 13 músicas no LP e mais duas em um single bônus, o álbum oferece bastante para o ouvinte, entre clássicos do rock e rhythm &blues e originais de Johnson. Wilko e Lee comandam a festa, o primeiro com sua guitarra seca e o segundo com sua harmônica sensacional (e, claro, sua voz horrorosa), tornando difícil destacar alguma música em especial; mas adoro a versão para “I’m a Hog For You Baby”, a faixa-título (do mestre Solomon Burke), “Roxette”, “She Does it Right” e “All Through the City” (composições de Wilko), “I’m a Man” (o velho blues de Bo Diddley nunca decepciona, aqui com vocal de Wilko e Lee dando um show na harmônica), “Walking the Dog”, as duas versões para músicas de Chuck Berry (“I’m Talking About You” e “Johnny B. Goode”), bem como a sensacional “Riot in Cell Block No. 9”. E, claro, é interessante ouvir Lee Brilleaux na slide guitar em “Back in the Night”, embora em termos de guitarras você esteja sempre querendo mais Wilko Johnson. Uma reedição em CD acrescentou músicas de shows entre 1976 e 1990, mas o ideal seria uma nova contendo os shows originais completos.
ROBIN TROWER – Live!
Primeiro registro ao vivo oficial trazendo o ex-Procol Harum, gravado no ano anterior para uma rádio sueca – e, de acordo com Trower, eles não sabiam que estavam sendo gravados, acreditavam que o show estava apenas sendo transmitido; quando ouviram o tape, perceberam que era bom demais para ser deixado de lado. Lançado em fevereiro de 1976 (um ano depois da gravação, aliás), Live! traz a formação clássica com James Dewar (baixo, vocal), Bill Lordan (bateria) e o chefe Robin Trower (guitarra) num repertório que revisita os três discos-solo de Robin lançados entre 1973 e 75 (“I Can’t Wait Much Longer”, “Daydream” e “Rock Me Baby” representam Twice Removed from Yesterday, “Too Rolling Stoned”, “Lady Love” e “Little Bit of Sympathy” vieram de Bridge of Sighs e somente “Alethea” provém de For Earth Below). O álbum se inicia com uma ótima versão para “Too Rolling Stoned”, em que Trower abusa do wah-wah; a coda é um pouco mais curta do que na versao de estúdio. A bela “Daydream” mostra como o guitarrista podia ser lírico em seus solos, e a voz de James está simplesmente perfeita. Trower incendeia a plateia com sua versão heavy blues de “Rock Me Baby”, originalmente gravada por B. B. King, e figurinha carimbada em seus shows dos anos 70, e “Lady Love” mantém o peso – mas tudo isso é apenas uma preparação para aquela que, para mim, é a grande música de Live!: “I Can’t Wait Much Longer” está simplesmente linda, com Dewar mostrando porque é um dos vocalistas mais injustiçados do rock britânico dos anos 70 e Trower rasgando os dedos num solo absolutamente maravilhoso; para completar, Lordan consegue melhorar a marcação de bateria do ótimo Reg Isidore, que tocou na versão original. “Alethea” mantém o álbum em alto astral, com direito a curto solo de Bill Lordan. “Little Bit of Sympathy” traz Trower soltando fogo pela guitarra para não ficar por trás. Live! chegou à respeitável 10ª posição nos EUA, e uma edição especial de 50º aniversário saiu no começo de abril de 2026, trazendo o disco em sua mixagem original no CD 2 e a gravação completa da rádio (remixada para esse relançamento) no CD 1, contendo 11 músicas – e aí você percebe que as sete da versão original sofreram alguns edits. Portanto, essa nova edição é imperdível!
ROXY MUSIC – Viva! Roxy Music
O álbum traz material de shows entre 1973 e 1975 e foi lançado após o grupo ter decidido “dar um tempo”. A formação inclui três baixistas (John Wetton toca nas gravações de 1974, John Gustafsson, nas de 1975, e Sal Maida, nas de 1973) – Rick Wills é creditado também, mas nenhuma foi gravada no seu período no Roxy. O repertório não inclui nenhuma música de Stranded, um dos meus favoritos, e trazia “Pyjamarama”, que só fora lançada em compacto. “Out of the Blue” abre (muito bem) os trabalhos, com Phil Manzanera brilhando como sempre e Bryan injetando tensão nos vocais, uma das músicas que trazem Wetton no baixo; “Pyjamarama” leva de volta a 1973, e “The Bogus Man”, “Do the Strand” e “In Every Dream Home a Heartache”, todas músicas de For Your Pleasure (segundo LP da banda) estão entre os destaques do disco – a primeira ficou mais soturna, a última, mais dramática, ao passo que a segunda encerra o show (como normalmente fazia) deixando a gente comgosto de quero mais. Essas três foram extraídas de dois shows em Newcastle em 1974, terra natal de Bryan Ferry e incluem o ótimo John Wetton na formação. A única música de Siren – então último LP de estúdio do Roxy – é “Both Ends Burning”, uma música excelente que infelizmente está numa versão ruim, prejudicada pelos backing vocals irritantes das Sirens (Doreen Chanter e Jacqui Sullivan). O álbum se completa com “Chance Meeting”, do primeiro LP, em outra boa versão. Viva! Roxy Music tem agora uma nova edição em vinil acompanhada de um poster da capa do disco, mas, para mim, o ideal seria uma box set contendo os shows completos. Mas, como o Roxy não tem se destacado nessa área, não aposto minhas fichas nessa possibilidade.
JOE WALSH – You Can’t Argue With a Sick Mind
Gravado para o programa da TV americana Don Kirshnert’s Rock Concert, o único disco solo ao vivo oficial de Joe traz vários amigos como Joe Vitale (bateria e flauta em “Turn to Stone”), Jay Ferguson (teclados, ex-Spirit), Rocky Dijon (percussionista que tocou com os Stones) e os Eagles Don Felder, Don Henley e Glenn Frey (que já tinham colaborado com ele no álbum anterior, So What). O álbum abre com a ótima “Walk Away”, que remete à James Gang e depois engata com “Meadows”, uma das músicas mais conhecidas de Walsh, em versão que não traz as palhaçadas vocais da versão de estúdio na introdução, mas compensa com ótimo solo de guitarra. “Rocky Mountain Way”, outro clássico absoluto, segue e completa o antigo lado A, em outra versão que difere do original e traz Joe usando o talk box – mas sem o sucesso de Peter Frampton. O lado B trazia dois outros clássicos dele, “Help Me Through the Night” (com o apoio dos Eagles) e “Turn to Stone”, em que o guitarrista brilha como deve, bem como “Time Out”, única música que, na época, não foi exibida na TV e a menos conhecida do disco (a versão original saiu em So What). Uma curiosidade é que tanto na contracapa quanto no envelope as músicas estão fora da ordem em que aparecem no disco. Walsh entraria no Eagles logo depois, e ao longo dos anos lançaria mais discos-solo, mas, infelizmente, nunca revisitou este álbum ao vivo de título curioso. É outro disco que gostaria de ver com bonus tracks, pois o programa exibiu quatro músicas a mais e o show (gravado no Santa Monica Civic Auditorium) era bem mais longo.
BOB DYLAN – Hard Rain
Bob ficara mais de 7 anos sem fazer turnês quando juntou The Band para a tour que rendeu Before the Flood. No ano seguinte, ele concebeu o ambicioso projeto Rolling Thunder Revue, que juntou vários músicos (dentre eles Joan Baez e Roger McGuinn), e em 1976, com um cast menos estelar, fez a segunda “perna” da turnê; quase no seu final, gravou dois shows em Fort Worth (Texas) e Fort Collins (Colorado), este último filmado para um programa de TV na NBC. O álbum e o programa sofreram críticas bem pesadas, mas, embora Hard Rain não seja tão bom quanto as gravações de 1975, não é um desastre: o álbum começa com uma ótima “Maggie’s Farm”, com Mick Ronson na guitarra, e segue com uma boa “One Too Many Mornings”. A vibe sessentista continua com “Stuck Inside of Mobile with the Memphis Blues Again”, em outra boa versão, e com “Lay Lady Lay” (bem diferente da original e, em minha opinião, bem melhor) – no lado A, apenas “Oh Sister” provinha do então disco mais recente de Dylan, o ótimo Desire, em versão que destaca o violino da excelente Scarlet Rivera, como no original. O lado B traz três músicas de meu álbum favorito de Bob, Blood on the Tracks; as versões para “Idiot Wind” e “You’re a Big Girl Now” são muito boas (em especial a segunda), mas não superam as originais de estúdio. Por outro lado, “Shelter from the Storm”, apesar de bem animada, não me agrada muito, diferentemente da original. O lado B se completa com “I Threw it All Away”, outra refugiada dos anos 60, gravada originalmente para Nashville Skyline, e nesse caso a nova versão é melhor do que a original. Hard Rain foi o segundo disco ao vivo de Bob em dois anos, mas nunca foi muito benquisto pelos fãs do bardo de Minnesota. Mas, pessoalmente, eu gosto.
WINGS – Wings Over America
O triplo ao vivo lançado no final de 1976 foi acompanhado pelo filme Rockshow, e dá um panorama completo do que era um show de Macca com o Wings em sua única formação estável (Paul e Linda, Denny Laine na guitarra e vocal, Jimmy McCulloch na guitarra e vocal e Joe English na bateria). Como todo álbum triplo, é difícil destacar músicas individualmente, mas preciso mencionar a abertura com “Venus and Mars”/”Rockshow”/”Jet” e o encerramento com “Hi Hi Hi” e a inédita “Soily”, que mostram a veia rocker de Paul; as versões para “Maybe I’m Amazed”, “Live and Let Die” (se Axl Rose tivesse um pingo de vergonha na cara não a cantaria nunca mais), “Let ‘Em In” e “Band on the Run” são muito boas, e é bem legal ver Denny Laine recuperar “Go Now”, que ele gravara com o Moody Blues (Paul adorava a versão deles). Denny também canta a ótima “Time to Hide”, mas gosto mais da original em Wings at the Speed of Sound. O ótimo McCulloch brilha em várias músicas e tem seu momento de cantor em “Medicine Jar”, English é um baterista seguro (ainda que nada arrojado), Linda ganha apoio de Laine e Macca nos teclados, e Denny se mostra um parceiro perfeito para Paul, assumindo o baixo quando o chefe vai para o piano, mas o show é mesmo de McCartney, cantando muito bem e inclusive impressionando no baixo Rickenbacker na introdução de “Spirits of Ancient Egypt”, além de tocar violão e piano em várias músicas. O lado C é inteiramente acústico e traz uma versão para “Richard Cory”, de Paul Simon, bem como Macca (quase) solo em “Yesterday”. Joe English afirmou que os vocais do disco tiveram que ser refeitos em estúdio porque havia uma voz desafinada no coro – eu fico me perguntando quem seria – mas, fora isso, foram poucos overdubs. No todo Wings Over America mostra porque Paul era o único Beatle a se apresentar ao vivo regularmente: ele realmente parecia estar gostando, e, francamente, é o único live dele que você precisa.
RUSH – All the World’s a Stage
Primeiro duplo ao vivo do Rush e um ótimo fechamento para a fase mais heavy da banda. Falar da inacreditável musicalidade dos canadenses é chover no molhado, então vamos direto às músicas; o lado A traz todo o poder de fogo da banda, emendando “Bastille Day” e “Anthem” antes de tirar um pouco o pé do acelerador com o medley “Fly By Night/In the Mood”. Duas outras músicas mais cadenciadas, “Something for Nothing” e “Lakeside Park” preparam o terreno para uma versão de cerca de ¾ da música original para “2112” – e isso tudo é apenas o disco 1! Sobre “2112”, claro que uma versão completa da suíte faz falta mas, de todo modo, o que é apresentado mata a vontade. Até aí, já estava bom demais, mas o fato é que a banda generosamente incluiu mais alguns clássicos no segundo LP. A ótima “By-Tor and the Snow Dog” ganha uma versão mais intensa do que a de estúdio, e o medley “Working Man/Finding my Way” é sensacional, com o solo de bateria de Neil no meio – ele ainda não era a monstruosidade que se tornaria, mas o então bigodudo já dava mostras que seria um dos grandes nomes do instrumento (e era apresentado por Geddy como “the professor”). O segundo disco apresenta mais duas músicas: a fantástica “In the End”, em outra versão memorável, e a boa “What You’re Doing”. O público canadense curte bastante e a qualidade de gravação é boa (mas os álbuns ao vivo seguintes do Rush ganhariam nesse quesito), e para mim a grande revelação é Alex Lifeson, que enriquece as bases e solos do original sempre que tem oportunidade. All the World’s a Stage é essencial para os fãs do Rush e me faz pensar no quanto seria legal ter acesso a pelo menos um dos shows completos gravados para o disco. Para concluir, acho que devo ser o único que, quando Geddy começa a cantar em “2112”, pensa “…and the meek shall inherit nothing” (quem conhece Zappa sabe do que estou falando).
LYNYRD SKYNYRD – One More for/from the Road
Uma injustiça é este álbum incendiário não aparecer mais vezes na lista de melhores live de todos os tempos. One More… traz o Lynyrd Skynyrd no auge, com a artilharia guitarrística de Allen Collins, Gary Rossington e Steve Gaines (que estreia na banda com esse disco) à toda velocidade. A sequência inicial só dá uma chance de respirar quando uma versão fantástica da belíssima “Tuesday’s Gone” aparece, depois de “Workin’ for MCA”, “I Ain’t the One” e “Searchin’”, com Ronnie agitando ao máximo, Artimus, Leon e Billy preparando as bases e os três guitarristas voando uns sobre os outros, alternando-se nas bases e solos; algumas músicas trazem o charme dos backing vocals das Honkettes. O lado B é ainda melhor, contendo “Saturday Night Special”, “Travellin’ Man”, “Whiskey Rock’n’Roller” e a maravilhosa “Sweet Home Alabama” (que no show original é uma das últimas músicas). O segundo LP começava com outras três pedradas de Southern rock, “Gimme Three Steps”, “T for Texas” e “Call me the Breeze”, dando sequência no lado B com “The Needle and the Spoon”, a versão (calcada no Cream) para “Crossroads” (Allen era fanático por Eric Clapton) e uma linda – mas editada – “Free Bird” encerrando os trabalhos. Aliás, é preciso buscar a edição em CD duplo de 25º aniversário para tê-la completa; essa Deluxe Edition apresenta as músicas na ordem original dos shows e mais alguns bônus (incluindo algumas músicas que saíram em coletâneas e reedições), e hoje é a melhor disponível. Como se sabe, o Lynyrd original só gravaria mais um disco de estúdio e se reagruparia como banda de apoio para Gary e Allen (The Rossington-Collins Band) três anos depois, e, em 1987, como Lynyrd Skynyrd novamente. One More for/from the Road é o testamento perfeito para uma das melhores bandas americanas de todos os tempos e tenho que admitir: bate uma tristeza gigante ouvir o álbum e lembrar que só Artimus Pyle e a vocalista Leslie Hawkins ainda estão vivos.
Bonus Tracks – os “póstumos”
Os discos escolhidos para esta seção compartilham em comum o fato de terem sido lançados postumamente, sendo que, no caso de Made in Europe, o Deep Purple usava gravações do início de 1975 – mas, como foi um dos primeiros discos que ouvi do grupo e sempre foi considerado parte integrante do “cânone” da banda, optei por incluir aqui. Na sequência, o Rainbow de Ritchie Blackmore mostra a excelência da sua segunda formação, e um dos 3247 shows postumamente lançados do Grateful Dead marca a presença dessa banda que retornava aos palcos.
DEEP PURPLE – Made in Europe
Lançado em novembro de 1976, Made in Europe é um álbum que traz Paice no topo da forma, Coverdale e Hughes praticamente perfeitos, Lord dando tudo de si e um Blackmore longe de seus melhores dias – no Live in London, para ficar num exemplo, ele está melhor. “Burn” abre os trabalhos (como sempre nos shows da Mk. III) os trabalhos com o peso e intensidade exigidos. A bluesy “Mistreated”, uma das músicas favoritas de Ritchie nessa fase traz o guitarrista brilhando como deveria (em “Burn” ele me soa no piloto automático) e David puxando “Rock Me Baby” numa das melhores versões do clássico. “Lady Double Dealer”, apesar de boa, mostra que Ritchie já não tinha o coração no Purple: além de seu solo ser inferior ao da versão de estúdio, ele dá espaço para Lord voar no órgão; junto com a faixa-título (aqui em versão que pouco acrescenta à original), ela representa Stormbringer. O setlist se completa com “You Fool No One”, expandida para incorporar solos de Lord, Blackmore e Paice, como era normal na época. O álbum foi gravado, de acordo com as notas de capa, em shows em Graz (Áustria), Paris (França) e Saarbrücken (Alemanha) em abril de 1975. As más línguas afirmam que este Made in Europe foi mexido em estúdio, usando-se um tape loop para o ruído da plateia, editando-se alguns dos solos, e que quase todas as músicas foram gravadas em Saarbrücken (único não lançado na íntegra atualmente). As vendas foram menores do que o esperado, mas ainda assim o álbum chegou ao 10º posto na Alemanha e 12º na Inglaterra. Uma curiosidade: a edição brasileira vinha com capa gatefold, como a original britânica, mas a americana tinha capa simples.
RAINBOW – Live in Germany 1976 (1994)
Quando comprei o CD duplo, tudo o que eu conhecia do Rainbow com Dio ao vivo era On Stage – bom, mas nada que realmente fizesse jus a uma banda com Ritchie Blackmore, Ronnie James Dio, Cozy Powell, Jimmy Bain e Tony Carey! Um dos discos ao vivo que mais ouvi em toda a minha vida, Live in Germany 1976 traz Blackmore em plena forma, em performances memoráveis que deixam o ao vivo oficial de 1977 no chinelo. As versões de “Mistreated”, “Still I’m Sad” e “Catch the Rainbow”, por exemplo, são bem melhores do que as gravações japonesas que compõem On Stage, e ainda temos “Do You Close Your Eyes” e “Stargazer” mostrando a excelência do grupo ao vivo 50 anos atrás. A abertura com “Kill the King” é semelhante, e mostra o quanto a banda estava à frente do seu tempo em termos de peso: que outra banda chegava aos pés deles nesse quesito em 1976? Ouvindo este álbum, bem como outros registros ao vivo do Rainbow nessa época a gente entende as razões para Dio sair em 1978 – afinal, há longos trechos instrumentais e solos quilométricos de Blackmore que fazem com que Ronnie não tivesse nada para fazer.
GRATEFUL DEAD – Live at The Cow Palace 12/31/1976 (2007)
Em 1976 o Grateful Dead voltava aos palcos depois de mais de um ano (após o término da turnê com o Wall of Sound, o grupo fez apenas 4 shows em 1975). E para fechar o ano, a banda se apresentou no The Cow Palace, na Califórnia, que em 2007 seria lançado pela Rhino Records. Dentre os muitos álbuns ao vivo do grupo, este se destaca por não fazer parte de nenhuma coleção. Transmitido pela rádio, o álbum representa bem o que era um show da banda naquele ano em termos de repertório, mas não começa muito bem, com o grupo soando no piloto automático. Mas, de repente, tudo começa a se encaixar: Jerry puxa a rocker “Deal” (infelizmente numa versão bem curtinha), e logo depois uma versão de mais de 23 minutos para “Playing in the Band” traz a banda como deveria soar sempre, encerrando o primeiro set da apresentação. O segundo set começa com “Sugar Magnolia”, clássico do grupo que engata com “Eyes of the World” e conduz ao grande destaque desse disco: “Wharf Rat” está simplesmente sensacional, uma das minhas versões favoritas dessa linda música de Garcia e Robert Hunter. A suíte “Help is on the Way/Slipknot”, do então último disco de estúdio do Deaf (Blues for Allah, de 1975), mostra que a banda estava muito bem azeitada, e os dois bis, com “One More Saturday Night” e “Uncle John’s Band” seguida do coro dos músicos em “We Bid You Goodnight”, deixam o fã buscando o babador.
