The Scream – Let It Scream (1991):
Por Davi Pascale
Nos últimos anos, John Corabi vem chamando a atenção por conta do ótimo trabalho que vem realizando ao lado do The Dead Daisies. No entanto, quem conhece sua trajetória sabe há quanto tempo ele vem batalhando na cena. Descobri o rapaz na década de 90, mais precisamente no ano de 1994, por conta do álbum que gravou ao lado do Motley Crue. Muitos torceram o nariz para o disco, eu não. Gostei bastante do som que criaram e também gostei muito do trabalho vocal de Corabi. Voz forte, rasgada, bem bluesy. Era um novo Motley, mas ainda impactante.
Tratei de correr atrás sobre quem era ‘o novo vocal do Motley’ e logo descobri que havia registrado um disco ao lado de um outro conjunto, o The Scream. Tentei conseguir um exemplar na época, mas não era tão fácil, e como a internet ainda não era esse mundo sem fim que conhecemos hoje, demorei alguns anos até conseguir minha cópia. Só consegui adquirir o disco quando ele foi relançado em 2001.
Para quem não sabe nada sobre a banda, o The Scream nasceu das cinzas do Racer X. Aqui no Brasil, muita gente só foi conhecer o Racer X quando o Paul Gilbert retomou o grupo no final da década de 90. A banda, contudo, foi criada em 1985. Paul Gilbert se mudou para Los Angeles, com apenas 16 anos de idade, em 1983 e foi estudar guitarra no Guitar Institute of Technology (escola que pertencia ao Musicians Institute). Após se graduar, em 85, foi contratado pela instituição e lá conheceu o baixista Juan ‘John’ Alderete. Os dois decidiram criar uma banda juntos e deram origem ao Racer X.

Pouco após o lançamento de Street Lethal, algumas mudanças ocorreram. Gilbert decidiu que gostaria de ter um segundo guitarrista na banda e decidiu convidar um de seus alunos, Bruce Bouillet. Não demoraria muito e eles teriam um problema para resolver. O baterista Harry Gschoesser era austríaco e precisava retornar ao seu país, já que seu visto havia expirado. Para seu lugar, os músicos trouxeram o grande Scott Travis. A banda vinha chamando a atenção com seus shows, mas a história logo chegaria ao fim com a saída de Paul Gilbert para se dedicar ao Mr. Big.
Frustrados com os novos acontecimentos, Scott, Juan e Bruce falaram demais na reunião e Jeff Martin abandonou o barco no mesmo dia que Gilbert. Jeff foi para o Badlands substituir Eric Singer na bateria, enquanto os demais músicos se juntaram ao John Corabi e criaram uma nova banda. Os músicos chegaram a se apresentar com diferentes nomes até chegarem ao definitivo: The Scream.
Antes de gravarem seu primeiro – e único disco – mais uma mudança. Scott Travis foi convocado para o Judas Priest. Para substituí-lo, recrutaram Walt Woodward III, que tocava em uma banda chamada Shark Island. O time deu liga. Os músicos eram excelentes e logo começaram a chamar a atenção. “Nós não fizemos muitos shows, mas certamente havia um interesse no que estávamos fazendo por conta das bandas que nossos músicos já haviam passado”, esclarece John Corabi no encarte da reedição de 2001.
É comum que artistas iniciantes façam apresentações para os chefões das gravadoras na tentativa de conseguir um contrato. Muitas vezes, mandar a demo não é o suficiente. Muitos executivos querem se certificar que os artistas que eles estão contratando não são farsantes e dão conta do recado. O grupo fez uma série de apresentações para ver se conseguiam um contrato de gravação. 4 empresas demonstraram interesse em trabalhar com os garotos. Entre eles, estava Peter Paterno, da Hollywood Records. “Peter Paterno era um profissional do entretenimento e havia recebido o sinal verde da Disney para que começasse o selo Hollywood Records. (…) Nós discutimos as opções e escolhemos essa nova ‘família’.

Let It Scream chegou ao mercado em 1991. Nessa época, o hard rock estava em alta. Nesse ano, foram lançados vários álbuns marcantes do gênero como Slave To The Grind (Skid Row), Use Your Illusion (Guns n´ Roses) e Lean Into It (Mr. Big). O grupo era visto como uma uma promessa e a gravadora decidiu investir nos meninos. Para trabalhar com o grupo, foi escolhido nada mais, nada menos do que Eddie Kramer (Led Zeppelin, Jimi Hendrix, Kiss). “Nem em um milhão de anos, imaginaria trabalhar com esse cara. Eddie era divertido e talentoso”. O grupo decidiu dar o sangue e fazer o melhor disco que conseguiam. “Me lembro de nós 4 sentados em nossa sala de ensaios, em Van Nuys (California), tentando encontrar os acordes perfeitos, as letras perfeitas. Tudo à base de cafeína, álcool e cigarros. Escrevíamos e reescrevíamos curtindo cada minuto do processo”.
O esforço valeu a pena. Ainda que o disco não tenha se tornado um sucesso comercial, acabou se tornando um álbum meio que cult, e a qualidade do trabalho é indiscutível. Os riffs são ótimos, o trabalho vocal é fenomenal. Para quem curte aquele som mais pesado que marcou a trajetória de Corabi ao lado do Motley e do Union, recomendaria sons como “Man In The Moon” e “I Don´t Care” (cuja a introdução me lembra “Street Fightin´ Man” do Lynch Mob, diga-se de passagem). Os fãs de Dead Daisies, que curtem aquele som festeiro mesclando influências de anos 70 e 80, irão se deliciar com faixas como “I Believe In Me”, “Love´s Got a Hold On Me” e “Give It Up”. Para quem curte, as famosas baladas , vale prestar uma atenção em “Father, Mother, Son” e “You Are All I Need”.
O som dos rapazes era impactante. Pesado, mas sem perder o ar de diversão. Arranjos bem trabalhados, mas ainda assim longe de ser algo criado para um pequeno nicho. Era possível pegarmos referências de Led Zeppelin, Aerosmith, Rolling Stones, Van Halen… Não sei se teriam de fato se tornado um grande nome caso tivessem durado mais (a banda foi para o vinagre depois que John Corabi foi para o Motley. Os músicos até tentaram emplacar um segundo disco com um novo cantor, mas acabou engavetado pela gravadora). Honestamente, acredito que não. Afinal, o hard rock logo, deixou de ser a bola da vez. Agora que vale a pena redescobrir essa verdadeira pérola, não tenho dúvidas…
Faixas:
01) Outlaw
02) I Believe In Me
03) Man In The Moon
04) Father, Mother, Son
05) Give It Up
06) Never Loved Her Anyway
07) Tell Me Why
08) Loves Got a Hold On Me
09) I Don´t Cry
10) Every Inch a Woman
11) You Are All I Need
12) Catch Me If You Can
