Almah – Fragile Equality [2008]

Por Daniel Benedetti
Fragile Equality ocupa um lugar singular na discografia do Almah e, por extensão, na trajetória artística de Edu Falaschi. Lançado em 2008, o segundo álbum de estúdio da banda não apenas consolida a transição do Almah de projeto solo para banda em tempo integral, como também cristaliza uma ambição estética clara: discutir sentimentos humanos universais por meio de uma linguagem musical pesada, técnica e emocionalmente sofisticada. Para fãs experientes — especialmente aqueles familiarizados com o percurso de Falaschi no metal brasileiro e internacional —, Fragile Equality surge como um documento revelador de um artista em busca de identidade própria fora de um contexto que já lhe havia rendido reconhecimento global.

O contexto de criação do álbum é essencial para compreender seu peso simbólico. Após a pausa nas atividades do Angra, Falaschi decidiu investir no Almah, antes um projeto paralelo, como uma entidade artística autônoma, com vida própria e compromisso contínuo. Essa decisão reverbera em todo o disco: há uma evidente preocupação em afirmar personalidade, tanto musical quanto conceitual. Diferentemente do álbum de estreia, gravado com músicos convidados e pensado como obra solo, Fragile Equality nasce de um processo coletivo, em que a formação estável influencia diretamente os arranjos, a coesão sonora e a identidade do grupo. Ao lado do baixista do Angra, Felipe Andreoli, peça central na obra, contribuindo em várias composições, a banda ainda contava com os guitarristas Marcelo Barbosa (futuro Angra) e Paulo Schroeber e o baterista Marcelo Moreira.

Gravado no Norcal Studios, em São Paulo, e produzido pelo próprio Falaschi em parceria com Felipe Andreoli, o disco apresenta um som mais denso e agressivo do que muitos esperavam. Ainda que o power metal continue sendo o eixo central, ele é constantemente tensionado por elementos de thrash, heavy tradicional e metal progressivo. Essa combinação não soa gratuita: ela reflete o próprio conceito do álbum, centrado na ideia de equilíbrio frágil entre forças opostas — emoção e razão, liberdade e opressão, esperança e desilusão. Musicalmente, isso se traduz em riffs cortantes, mudanças rítmicas frequentes e uma abordagem vocal que alterna agressividade e lirismo com notável naturalidade.

O disco é aberto com “Birds of Prey” um power metal intenso e técnico, com Edu cantando de uma forma mais agressiva que fazia no Angra, na mesma época. “Beyond Tomorrow” continua com uma sonoridade pesada e bastante técnica, com destaque para a seção rítmica. “Magic Flame” é mais curta e mais direta, com uma pegada que lembra o Helloween. Na sequência, “All I Am” que, embora sendo mais melódica e mais suave, seu forte refrão e a interpretação emocional de Edu, trazem um sentimento de tristeza – mas belo. “You’ll Understand” tem mais influências progressivas, com passagens mais intrincadas.

Uma pegada Rebirth (do Angra) pode ser ouvida em “Invisible Cage”, com presença de música regional brasileira junto ao power metal da banda. “Fragile Equality” é muito pesada (para o padrão do disco), com uma pegada próxima ao Thrash Metal moderno. “Torn” é uma composição forte, contando com bastante peso e intensidade, sendo um Power Metal que também chega a flertar com o Thrash. Explorando possibilidades vocais de Edu, “Shade of My Soul” é uma balada competente. “Meaningless World” encerra o álbum com um resumo da musicalidade do disco: um power metal intrincado e técnico.

Do ponto de vista da recepção, Fragile Equality obteve resultados expressivos, especialmente considerando o mercado internacional. A entrada na parada da Oricon, no Japão, e a rápida venda da primeira tiragem nacional são indicativos de um interesse que ultrapassou as fronteiras brasileiras. Críticas especializadas destacaram a evolução em relação ao disco de estreia, ressaltando a diversidade de influências e o aprimoramento técnico e composicional. Avaliações positivas em bases de dados respeitadas e análises posteriores reforçaram a percepção de que o álbum consolidou o Almah como um nome relevante no cenário do power metal contemporâneo.
A turnê de divulgação, embora mais curta do que o inicialmente planejado, cumpriu o papel de apresentar ao público um grupo coeso e confiante. O encerramento desse ciclo coincidiu com o retorno das atividades do Angra, o que naturalmente redirecionou as prioridades de Falaschi e Andreoli. Ainda assim, Fragile Equality permaneceu como um marco, tanto para o Almah quanto para a carreira de seu principal mentor.

Ao se observar o álbum em retrospecto, é difícil não perceber ecos de Temple of Shadows, obra que redefiniu parâmetros artísticos na carreira de Falaschi. Em Fragile Equality, essa referência é emulada de forma consciente, mas não servil. O disco aposta em um power metal agressivo, com flertes constantes com o thrash e o metal progressivo, sem abrir mão de momentos de sensibilidade melódica. O resultado é um trabalho que equilibra ambição técnica e profundidade emocional.
Diante disso, pode-se afirmar que Fragile Equality figura entre os melhores trabalhos de Edu Falaschi fora do Angra. Mais do que isso, o álbum funciona como um prenúncio da carreira solo que o músico desenvolveria anos depois, já na década de 2020. Trata-se de um disco que resiste ao tempo justamente por não se limitar a fórmulas de gênero, mas por buscar, em sua música e em suas letras, uma reflexão honesta sobre a complexidade dos sentimentos humanos — sempre em equilíbrio frágil, sempre em tensão.

Track list
- Birds Of Prey
- Beyond Tomorrow
- Magic Flame
- All I Am
- You’ll Understand
- Invisible Cage
- Fragile Equality
- Torn
- Shade Of My Soul
- Meaningless World
