Por Mairon Machado

Há muito tempo atrás, em uma época onde jamais se imaginaria que a ditadura pudesse voltar ao Brasil, os lançamentos especiais eram algo muito incomuns no mundo da música. Os Box Sets como conhecemos hoje eram poucos, raros, e com preços relativamente módicos. Para compensar, a maioria dos lançamentos só ocorria na Europa, Estados Unidos ou Japão, e chegavam ao Brasil totalmente podados, quando chegavam.

É o caso de 20 Years of Jethro Tull – The Definitive Collection, lançado em maio de 1988 para comemorar os 20 anos do grupo liderado pelo flautista, violonista, saxofonista, baixista, vocalista, cobrador de escanteio e cabeceador Ian Anderson. A ideia desse projeto surgiu em 1986, quando o escritório oficial da Chrysalis (gravadora do Tull) começou a receber uma enxurrada de cartas de fãs da banda perguntando o que seria feito para comemorar os então 20 anos do grupo. Assim, Anderson se reuniu com alguns colaboradores, escarafunchou os arquivos de gravações e decidiu entregar aos fãs um material repleto de novidades e canções raras. Assim, depois de um árduo trabalho de masterização de faixas obscuras, e praticamente esquecidas em um porão qualquer, nasceu 20 Years of Jethro Tull – The Definitive Collection.

A caixa, envelopes indivuais e encarte com árvore genealógica

O box set que chegou no mercado inglês consiste de 5 LPs (ou 3 CDs) que irei apresentar aqui, fazendo um breve comentário sobre a versão enxuta logo após. Os LPs vêm acondicionados em uma caixa de papelão (que era o usual na época dos boxes em LP), cada qual em um encarte especial. Acompanha ainda um livreto de 24 páginas contando sobre a história do Jethro Tull de forma bem sucinta, mas informativa, escrita pelos fãs David Rees e Martin Webb, além de uma bela árvore genealógica mostrando os entra e sai diversos no grupo, e seus reflexos em outros grupos, e diversas fotos.

Na parte musical, o fã do Tull não tem do que reclamar. Afinal, são 65 faixas para serem ouvidas em mais de quatro horas de audição, sendo que das 65, apenas 11 haviam sido lançadas (até então) oficialmente em discos da banda. Cada LP é destinado a uma proposta de canções para o fã se divertir, com nomes individuais.

O primeiro chama-se The Radio Archives, que como o nome diz, resgata apresentações do Tull pelas rádios britânicos ao longo de sua carreira. Aqui vale com certeza as 6 faixas registradas nos programas Top Gear e Saturday Club da BBC entre 1968 e 1969, com a formação inicial do Tull (Anderson, Mick Abrahams nas guitarras e vocais, Glenn Cornick no baixo e Clive Bunker na bateria, ou Martin Barre no lugar de Abrahams), e é uma oportunidade gigante de ouvirmos a paulada “Love Story” ou a estonteante “Stormy Monday Blues”, que mostra como o Tull sabia muito bem tocar blues. Também é um deleite ver a agilidade de Anderson com seus dedilhados velozes no violão de “Fat Man”, “Cold Wind To Valhalla” e “Minstrel in the Gallery”, as duas últimas em versões somente com Anderson acompanhado de uma percussão (Barriemore Barlow), registradas pelo estúdio da banda, Maison Rouge, para ser transmitidas em uma entrevista para a BBC em 1975. Fecham o primeiro LP “Grace” (das mesmas sessões da entrevista citada acima), três faixas registradas em 8 de abril de 1982, em um show no Hamburg Congress Centrum Halle que foi transmitido na Alemanha,das quais destaco a bela dupla instrumental “Pibroch (Pee Break) / Black Satin Dancer”, e “Velvet Green” retirada do programa Sight ‘n’ Sound da BBC em 1977. Ou seja, um LP só de novidades, tudo inédito até aqui.

O segundo LP chama-se The Rare Tracks (Released But Only Just), e consiste de uma compilação de faixas lançadas em singles, EPs, ou que ficaram engavetadas para lançamentos futuros, mas não tinham visto a luz do dia até então. Aqui temos bastante material dos anos 80, o que pode não agradar (e particularmente para mim é o que acontece) aos fãs mais xiitas, pois ouvir faixas como “I’m Your Gun”, “Down At The End Of Your Road” ou “Too Many Too” podem soar bem desagradáveis para quem curte os discos clássicos do Tull. Essas canções são de 1981, mas nunca haviam sido lançadas. As atrações centrais vão para “17”, ótima faixa que está no lado B do compacto “Sweet Dream” (1969), a belíssima “One For John Gee”, em homenagem ao empresário que acreditou na banda em seu início de carreira, e lado B da bolachinha “Song For Jeffrey” (1968), e principalmente a raríssima “Aeroplane”, gravação da John Evan Band (a banda que levou a criação do Jethro Tull) lançada em 1967 num compacto da MGM quase extinto sob o errôneo título de Jethro Toe, e que mostra grandes inspirações jazzísticas para a trupe, graças ao trabalho fantástico de Barriemore Barlow na bateria, ou “Sunshine Day”, blues animado e com Mick Abrahams nos vocais, lançado como lado B do mesmo single da MGM.. Ainda há “Jack Frost And The Hooded Crow”, existente somente como lado B do single “Coronach” (1981), faixa que foi lançada em 1986 como uma ideia de David Palmer (maestro, teclados) para o canal 4 TV Historical Series, mais especificamente para o programa The Blood of the British, “March The Mad Scientist” e “Pan Dance”, duas faixas que presentes no EP Solstice Bells (1976), “Strip Cartoon”, lado B do compacto “The Whistler” (1977), “King Henry’s Madrigal”, do EP Home (1979), e “A Stitch In Time”, do single de mesmo nome, lançado para promover o álbum Live: Bursting Out (1978). Ou seja, se não temos tantas canções inéditas, temos um grande apanhado de raridades que chegaram nas mãos de poucos naquela época (e ainda hoje).

O terceiro LP é batizado Flawed Gems (Dusted Down). Aqui o pessoal da Chrysalis realmente levantou os móveis, e foi na parte mais profunda de seu arquivo, tirar a poeira para trazer aos fãs materiais raríssimos. Nele ouvimos pela primeira vez trechos da suíte que ficou conhecida como “The Chateau D’isaster”, que apareceram posteriormente no álbum Nightcap. Este projeto era para ter sido lançado após Thick as a Brick, mas Anderson não gostou do resultado, reescreveu tudo e assim nasceu A Passion Play. Os onze minutos da suíte entregues aos fãs aqui são sensacionais, e que bom que Anderson teve bom senso e lançou essa obra na integridade. Mais três faixas dos anos 80 aparecem, registradas entre 1981 e 1982, totalmente passáveis, assim como “Crossword”, de 1979, pré-A, a desprezada “Lick Your Fingers Clean”, retirada na última hora de Aqualung e que nunca encontrou espaço nos demais lançamentos do grupo, “Beltane”, retirada também de última hora, mas agora de Heavy Horses, e duas faixas que nem o pessoal do Jethro Tull tem muitas informações, “Saturation”, provavelmente de 1974, e ótima faixa aliás, assim como o bluezão “Blues Instrumental”, provavelmente de 1978. Vale pela “The Chateau D’isaster Tapes” com certeza, mas poderiam ter escavado mais, e trazido outras raridades, como vieram a aparecer nos relançamentos de 40 anos.

Seguimos em frente com o quarto LP, The Other Side Of Tull, o que apresenta a maior quantidade de músicas já lançadas oficialmente. Esse LP é dedicado para o lado acústico do Tull, privilegiando as faixas curtas somente com o violão de Anderson. Então, aqui estão “Cheap Day Return” (Aqualung), “Nursie” (Living In The Past), “Only Solitaire” (Warchild), “One White Duck/ 0^¹° = Nothing At All” (Minstrel in the Gallery), “Salamander” (Too Old To Rock ‘n’ Roll, Too Young To Die), “Moths” (Heavy Horses) e “Under Wraps 2” (Under Wraps), tais quais como estão nos seus respectivos álbuns. Soma-se também “Life’s A Long Song”, registrada no EP homônimo de 1971. Porém, há adendos para esse LP. Por exemplo, somos surpreendidos por “Dun Ringill” e “Wond’ring Aloud” ao vivo do Hammersmith Odeon em 1987, a última com Don Airey nos teclados, quatro faixas inéditas registradas enre 1978 e 1982, que ficaram de fora dos discos lançados nesse período, e “Part of the Machine”, gravada especialmente para esse lançamento, ou seja, em 1988 (março), com o Tull tendo na formação Ian Anderson, Martin Barre, Dave Pegg (baixo), Martin Allcock (bouzoki, teclados) e Gerry Conway (bateria). É outro disco que peca um pouco nas novidades, mas tem o fator positivo de uma canção totalmente nova.

Por fim, o último LP chama-se The Essential Tull. A sacada aqui foi genial, já que ao invés de fazer uma mera compilação com os maiores clássicos do Tull, recebemos versões ao vivo totalmente inéditas para faixas que consolidaram a carreira da banda. Concentrando-se em uma apresentação no Hamburg Congress Centrum Halle na Alemanha, em 1982 (citada no LP 1), com Anderson, Barre, Pegg, Conway e Peter Vettese (teclados), ouvimos “Aqualung”, “Locomotive Breath” e a surpreendente “Sweet Dream”, e o sorriso se espalha pela face. Do show no Hammersmith Odeon de 29 de outubro de 1987, com Airey no lugar de Vettese e Doane Perry no lugar de Conway, temos “Songs From The Wood” e “Thick as a Brick”. De uma apresentação no Tower Theatre da Filadélfia em novembro de 1987 (mesma formação do show do Hammersmith), surgem “Living In The Past” e “Farm On The Freeway”, e encerram o último bolachão a versão original de “Bungle in the Jungle” (Warchild), e as canções do compacto “Witch’s Promise”, com a faixa homônima e seu lado B, “Teacher”. Ou seja, uma alegria sem tamanho para os fãs, que após a audição, certamente irá ter uma satisfação tremenda.

A versão enxuta (que também saiu lá fora) veio em formato duplo, com 27 faixas que compilam um pouco de cada um dos cinco álbuns aqui citados, e tem a presença na sua capa interna da árvore genealógica. Porém, mesmo não sendo grandiosa quanto a caixa resenhada, tenho um grande carinho pela versão nacional, já que foi ela a responsável por me apresentar ao Tull (assim como A Classic Case, Aqualung e Thick as a Brick) lá no início da década de 90. O que me faz pensar algo um pouco quanto intrigante, ao menos para mim, e que quero compartilhar com vocês.

A árvore genealógica do Tull em 1988

Afinal, quando desse lançamento, o Jethro Tull completava 20 anos como sendo uma banda de carreira longa, tendo lançado diversos discos e modificado a formação por diversas vezes, ou seja, era uma banda dita “antiga”. Que banda surgida em 2000 tem hoje o status que o Jethro Tull tinha em 1988, ou até mesmo a carreira/relevância/”velhice” da trupe de Anderson? Sei lá, parece que o tempo passou mais devagar agora, ou aqueles 20 anos do Jethro Tull entraram em uma viagem espacial na velocidade da luz, e com isso se transformaram em mais ou menos 50 anos. Se bem que pensando bem, isso tem lógica, já que a música do Tull nos faz viajar longe rapidamente. Reflexões de um físico em época de quarentena …

Track list

20 Years Of Jethro Tull – The Definitive Collection

The Radio Archives

1. Song For Jeffrey

2. Love Story

3. Fat Man

4. Bourée

5. Stormy Monday Blues

6. A New Day Yesterday

7. Cold Wind To Valhalla

8. Minstrel In The Gallery

9. Velvet Green

10. Grace

11. The Clasp

12. Pibroch (Pee Break) / Black Satin Dancer (Instrumental)

13. Fallen On Hard Times

Rare Tracks (Released But Only Just)

1. Jack Frost And The Hooded Crow

2. I’m Your Gun

3. Down At The End Of Your Road

4. Coronach

5. Summerday Sands

6. Too Many Too

7. March The Mad Scientist

8. Pan Dance

9. Strip Cartoon

10. King Henry’s Madrigal

11. A Stitch In Time

12. 17

13. One For John Gee

14. Aeroplane

15. Sunshine Day

Flawed Gems (Dusted Down)

1. Lick Your Fingers Clean

2. The Chateau D’Isaster Tapes

3. Beltane

4. Crossword

5. Saturation

6. Jack-A-Lynn

7. Motoreyes

8. Blues Instrumental (Untitled)

9. Rhythm In Gold

The Other Sides Of Tull

1. Part Of The Machine

2. Mayhem, Maybe

3. Overhang

4. Kelpie

5. Living In These Hard Times

6. Under Wraps 2

7. Only Solitaire

8. Cheap Day Return

9. Wond’ring Aloud

10. Dun Ringill

11. Salamander

12. Moths

13. Nursie

14. Life’s A Long Song

15. One White Duck / 0¹º = Nothing At All

The Essential Tull

1. Songs From The Wood

2. Living In The Past

3. Teacher

4. Aqualung

5. Locomotive Breath

6. Witch’s Promise

7. Bungle In The Jungle

8. Farm On The Freeway

9. Thick As A Brick

10. Sweet Dream

Track list

20 Years Of Jethro Tull

1. Stormy Monday Blues

2. Love Story

3. A New Day Yesterday

4. Summerday Sands

5. March The Mad Scientist

6. Lick Your Fingers Clean

7. Overhang

8. Crossword

9. Jack-A-Lynn

10. Part Of The Machine

11. Mayhem, Maybe

12. Kelpie

13. Wond’ Ring Aloud

14. Dun Ringill

15. Life’s A Long Song

16. Nursie

17. Grace

18. Witch’s Promise

19. Living In The Past

20. Aqualung

21. Locomotive Breath

6 comentários

  1. Leonardo

    Essa caixa é ótima. Consegui comprar em 94 a versão em cd. Mas a grande maioria das faixas raras e inéditas foram incluídas nas versões recentes e remasterizadas dos álbuns do Tull lançados a partir dos anos 2000. Já era difícil de se achar quando comprei agora é um item bem raro. Ótima resenha!

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    • Mairon

      Legal meu caro. Eu ouvi JT acho que em 1990, pela coletanea desse box e os outros citados no texto. Foi um baque! Abraços

      Responder

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