O disco proibido da Marvel? A curiosa história do Icarus
Por Fernando Bueno
O Icarus foi uma banda britânica ativa no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, ligada ao cenário psicodélico/progressivo da época. É difícil encontrar informações mais confiáveis sobre o grupo, mas o resumo do que consegui foi que a banda se formou por volta de 1968 na Inglaterra, passando alguns anos tocando e mudando membros até chegar à formação registrada no álbum apresentado aqui. Esse disco, The Marvel World of Icarus, é daqueles lançamentos que permitem diferentes abordagens ao analisá-lo. Ele é peculiar por conta de seu conceito lírico, é agradável de se ouvir, um hard prog bastante comum do período, e ele é envolto em polêmicas.
Os integrantes que participaram do disco são Steve Hart (vocais), John Etheridge (guitarra), Iain Hines (teclados), Jimmy Wiley (baixo), Peter Curtain (bateria) e Norrie Devine (sax, flauta, clarinete), com participações adicionais de Jonathan Plotel e David Plotel em algumas partes. Além disso cada um assumiu a persona de um dos super-heróis, sendo creditado como um pseudônimo (veja imagem a seguir). No geral, o disco transita com uma mistura de psicodélico, rock progressivo e alguns elementos de jazz-rock.

Logo de cara, o que chama atenção é a capa que mais parece alguma edição de algum crossover de vários heróis. A capa já adianta o conceito bastante curioso do álbum. The Marvel World of Icarus é um disco conceitual dedicado a personagens da Marvel Comics, com músicas intituladas como “Spiderman”, “Fantastic Four”, “Hulk”, “Iron Man”, “Thor”, “Black Panther”, “Silver Surfer”, “Captain America” e outras referências aos heróis da editora.
Em “Spiderman” temos um hard rock mais potente, voz rasgada e um peso um pouco mais presente. Já em “Fantastic Four” temos uma música que vou chamar de ‘música de seriado de tv dos anos 70’. Pois conseguimos enxergar mentalmente uma abertura de uma série, meio tosca, meio galhofa, parecida com o que tivemos com os seriados de Batman, Hulk e outros. As estrofes são declamadas, com flautas presentes durante praticamente a música toda e citações aos Dr. Doom, vilão principal que será abordado nos filmes do Marvel Comics Universe nos próximos anos.

Em “Hulk” a banda traz um pouco da influência do fusion, que é o background do Icarus. “Madame Masque” vem em seguida, com o personagem mais desconhecido dos fãs. Se trata de uma vilã da Marvel ligada principalmente ao universo do Iron Man. Surgiu como Whitney Frost, uma socialite/criminosa marcada no rosto que passa a usar uma máscara dourada. Nos quadrinhos clássicos, ela alterna entre antagonista e figura trágica, além de ter forte ligação romântica com Tony Stark em certas fases. Para um álbum como esse, ela era uma escolha interessante porque trazia um elemento feminino e dramático entre tantos heróis masculinos. Também mostra o quanto os músicos eram fãs que realmente liam e conheciam bastante o universo da Marvel. Em relação à música é, a meu ver, a principal faixa do disco, com o principal trabalho de voz de Steve Hart, uma melodia linda que chega a lembrar os melhores momentos de Elton John.
Na sequência vem uma faixa alusiva a um personagem que poucos sabem que era de propriedade da Marvel “Conan, the Barbarian”. Apesar de não fazer parte do mundo em que os outros heróis se relacionavam, era uma revistinha que saia sob o nome da Marvel Comics. Porém dentro do mundo da Era Eboriana conforme todos conhecem. Também é uma das melhores faixas do disco, inicia com um fraseado de baixo que é acompanhado de outros instrumentos ao longo do desenvolvimento da música. Destaque novamente para a flauta.
O já citado acima, “Iron Man”, é a faixa seguinte. Um ótimo trabalho de teclados, com a letra declamada com força e novamente é um exemplo do que chamei de “música de seriado de tv”. “Thor” tem um instrumental interessante, mas a parte lírica é em primeira pessoa como se o Deus Thor estivesse apenas se apresentando para seus devotos. Na sequência vamos lá para Wakanda, “Black Panther”, em uma música que inicia de forma suave e tem uma mudança de andamento pontuada com uns teclados bastante espertos.
A única faixa que não tem exatamente o nome do herói em seu título é “The Man Without Fear” que é sobre Daredevil ou o Demolidor como ficou conhecido aqui no Brasil. Bastante legal essa música. Um dos destaques e um pouco na linha da Mark I do Deep Purple. Para “Silver Surfer” uma música bastante calma e bastante adequada para um personagem que viaja sozinho pelo espaço. Em “Things Thing” eles voltam a citar um dos componentes do Quarteto Fantástico em mais uma música que tem um jeitão de Deep Purple.

Para finalizar “Captain America” que é basicamente uma abertura de seriado puro. Nada de interessante e digno de nota. Acho que seja a faixa mais fraca do disco e acaba destoando do restante. Parece que um personagem tão importante não poderia ficar sem sua homenagem e acabaram fazendo qualquer coisa. No geral o álbum oscila entre momentos realmente inspirados e outros quase caricatos, o que acaba se tornando parte de seu charme cult.
Essa temática acabou gerando problemas e aqui entra a polêmica que citei no início do álbum: a Marvel processou o grupo/distribuidora por uso não autorizado dos personagens. Há relatos de que a empresa exigiu, em um primeiro momento, 50% dos lucros das vendas do disco. Não foi atendida e a gravadora optou por recolher e interromper a distribuição do disco pouco depois do lançamento — o que teria contribuído para que a banda não conseguisse sustentar-se e se dissolvesse logo em seguida. Vale lembrar que a Marvel ainda estava longe de se tornar o império multimídia atual. Em 1972, seus personagens pertenciam muito mais ao universo dos quadrinhos cult e da contracultura pop do que ao mainstream.
Outro fator citado foi o desempenho comercial fraco da obra: mesmo antes de eventuais disputas legais, o álbum não vendeu bem, e a repercussão foi pequena fora de círculos de colecionadores e fãs de raridades psicodélicas. Com isso, essa gravação acabou sendo o único registro oficial de Icarus, e cópias originais de vinil tornaram-se bastante procuradas por colecionadores ao longo dos anos. Há relatos de que frequentadores das lojas de discos, ao encontrar o álbum junto de outros discos de progressivo/hard rock, achavam que a loja tinha cometido algum erro de colocar discos infantis juntos das bandas que eles estavam procurando. Aí, muitos passavam direto pelo álbum e sequer se interessavam em saber o que tinha ali.
Um dos músicos, o guitarrista John Etheridge, seguiu depois para outros projetos (em algumas fontes ele é mencionado como tendo ido para o Darryl Way’s Wolf após o fim da banda). Muitos anos depois, com a enxurrada de relançamentos em CD no final dos anos 80 e início dos anos 90 esse álbum voltou à tona.Porém, caso o leitor tenha interesse em adquirir o disco, cuidado com a versão unofficial que é facilmente encontrada por aí. Curioso é que em alguns lançamento o desenhista da Marvel, Jack Kirby, era creditado. Pra quem quiser ouvir o disco vai ter que ser pelo Youtube mesmo, não está disponível no Spotify. As fotos da banda que estão presente nessa matéria foram tiradas de uma edição mais recente em vinil, porém, notem que não são fotos de divulgação para o álbum. São fotos pessoais que inclusive contam pessoas que não faziam parte da banda. É o que conseguiram encontrar.
