Datas Especiais: 40 Anos de Animal Boy, dos Ramones

Datas Especiais: 40 Anos de Animal Boy, dos Ramones

Por Micael Machado

Segundo de uma série de três discos gravados pelos Ramones junto ao baterista Richie Ramone (e o único dos três a ainda não ter um texto próprio aqui no site, embora o dedicado ao primeiro deles, Too Tough to Die, tenha sido perdido no famoso e lamentável “incidente UOL” anos atrás), Animal Boy completa 40 anos de lançamento neste 19 de maio de 2026 (mesmo dia em que o vocalista Joey Ramone estaria completando 75 anos, caso ainda estivesse vivo), ainda como um disco, a meu ver, injustiçado não só por parte da imprensa como pelos próprios fãs do quarteto nova iorquino (completado à época, para quem porventura ainda não souber, pelo guitarrista Johnny Ramone e pelo baixista Dee Dee Ramone), visto ser, na minha opinião (e nunca encontrei alguém que concordasse comigo) o melhor registro da longa discografia do grupo, gravado durante a melhor fase da banda em sua carreira.

Gravação esta que não foi nada fácil. Afinal, como é bem conhecido hoje em dia, Joey e Johnny não se falavam direito há anos, e, à época, Johnny e Dee Dee também estavam com a relação entre si bastante estremecida. Já Richie, apesar de estar na banda desde 1983, já ter tocado em um álbum (onde, inclusive, atuou como compositor em algumas faixas) e feito várias turnês com os “brothers”, não era considerado um membro “efetivo” por quase ninguém do staff da banda, sendo tratado muitas vezes apenas como “mais uma peça” da grande engrenagem que mantinha os Ramones girando. Além de tudo isto, Joey estava bastante inclinado a deixar o grupo e gravar um álbum solo, por não aguentar mais os conflitos e situações desagradáveis do dia a dia da turma, e mesmo Dee Dee já andava tendo ideias de abandonar o barco e partir para uma carreira solo. A escolha do ex-baixista dos Plasmatics Jean Beauvoir para a produção (Jean também era contratado do empresário dos Ramones à época, Gary Kurfirst, e foi, de certa forma, “imposto” ao grupo por ele e pela gravadora) também não ajudou muito. Beauvoir já tinha composto, produzido e tocado com o guitarrista Little Steven e com o Kiss (dentre outros), mas a banda achou que seu estilo não funcionou direito com o que os Ramones buscavam para o seu álbum.

Dando sequência ao que haviam feito em Too Tough to Die (onde Johnny queria mostrar que os “irmãos” podiam ser tão ou mais agressivos que seus “sucessores”, uma geração mais nova de bandas de Nova Iorque – muitas delas, inspiradas pelos próprios Ramones -, as quais faziam uma música mais rápida e agressiva que a do grupo do guitarrista), Animal Boy tem diversas faixas mais próximas ao hardcore veloz e “sujo” que estava em alta na época do que ao punk leve e feliz dos primeiros discos da banda. Faixas como “Freak Of Nature”, “Eat That Rat” (cantada por Dee Dee) ou “Apeman Hop” (um pouco mais lenta que as outras duas, e contando com um engraçado diálogo no início simulando uma língua africana, e que eu, pessoalmente, nunca consegui saber do que se trata, efetivamente) são bem mais rápidas e agressivas do que o normal nas fases da banda em que outros bateristas usavam as baquetas do grupo (além de, juntas, ultrapassarem os cinco minutos por apenas 11 segundos). A própria faixa título (única composta em parceria entre Dee Dee e Johnny neste álbum) é uma das mais agressivas do disco (e sou só eu que acho o riff de abertura desta faixa muito parecido com o de “Papai Noel Velho Batuta”, dos Garotos Podres? – sendo que a música do quarteto paulista foi lançada um ano antes da dos americanos, vale lembrar), assim como a faixa de abertura “Somebody Put Something In My Drink”, composta por Richie, tornando-se, para muitos, em um dos destaques do track list deste álbum, e um dos clássicos da carreira da banda.

Os Ramones no encarte de Animal Boy: Richie e Joey (acima), Dee Dee e Johnny (abaixo)

Também bastante pesada, mas mais liricamente do que musicalmente, é “Mental Hell”, onde Joey escancara o seu estado mental à época e sua vontade de deixar tudo para trás e partir para buscar novos ares (“Frustração, repugnância, irritação, repugnância, inferno mental… Eu não me sinto muito bem” relata o vocalista na letra). Dee Dee também expõe suas frustrações na “alegrinha” “Crummy Stuff”, com seu refrão repetitivo e infantil (coloco “infantil” aqui não no sentido divertido e engraçado de algumas das primeiras composições do grupo, mas mais parecido com um pirralho chato e irritante que você já não suporta mais depois de alguns minutos), onde a letra diz que seu compositor “já teve o suficiente dessa coisa ruim“. Esta foi outra composição lançada em single, embora seja uma das que eu menos gosto no álbum, ao lado de “Hair Of The Dog”, um pop punk “alegrinho” demais, que sempre me pareceu um pouco deslocado em relação às outras faixas do álbum.

“Deslocada” (mas muito melhor que a anterior) também seria um belo adjetivo para a baladaça “She Belongs To Me”, que, mesmo com o excesso de sintetizadores (instrumento que, aliás, marca uma presença muito maior aqui do que em outros registros do quarteto), ainda é uma das minhas favoritas do estilo na carreira da banda. O que sempre achei curioso é ela ter sido composta por Dee Dee, e não por Joey, que, normalmente, era o “encarregado” dessas faixas mais “românticas” nos discos dos “brothers”. Vindo, portanto, do baixista e não do vocalista, a letra de “She Belongs To Me” não tem nada de “romântica”, descrevendo o protagonista ameaçando um sujeito que parece interessado por sua namorada (“Fique longe dela, porque eu estou ficando com raiva… Você vai se arrepender se nós tivermos que brigar“), culminando em um refrão extremamente misógino, que, certamente, faria a banda ser “cancelada” nos tempos de “politicamente correto” que vivemos hoje (“Não me diga como devo amar minha garota, ela pertence a mim“). Outra faixa que não tem nada de “romântica” é “Love Kills” (talvez a mais próxima do estilo “tradicional” dos Ramones em todo o disco), inspirada no filme Sid and Nancy: Love Kills, do diretor Alex Cox, também de 1986, sobre o relacionamento entre Sid Vicious (baixista dos Sex Pistols) e Nancy Spungen, que culminou com o músico sendo acusado da morte de sua namorada (li em algum lugar que Dee Dee teria composto esta faixa com a intenção de que ela fizesse parte da trilha sonora do filme, tendo ela sido recusada pelos produtores da película, algo que não sei confirmar. Quero também lembrar que esta foi a canção escolhida para Dee Dee cantar, como convidado, no último show da banda, em Los Angeles, registrado no disco ao vivo We’re Outta Here, de 1997. Dee Dee subiu ao palco, esqueceu a letra, mandou um “é assim que eu sou“, e saiu ovacionado do mesmo jeito!)

Capa do single Bonzo Goes to Bitburg

Assim como Too Tough to Die tinha duas faixas bastante “pops” a “acessíveis” no meio de outras mais agressivas (me refiro a “Chasing the Night” e “Howling at the Moon (Sha-La-La)”), Animal Boy também possui, abrindo e fechando o lado B, duas composições bem mais acessíveis que o restante do track list (ambas também lançadas como singles), as quais são, desde sempre, as minhas composições favoritas da carreira do grupo. A primeira é “My Brain Is Hanging Upside Down (Bonzo Goes to Bitburg)”, uma das poucas faixas com letras abertamente políticas na carreira do grupo, e onde Joey e Dee Dee (em sua única composição em parceria no disco) criticam a visita do então presidente norte americano Ronald Reagan a um cemitério militar alemão em Bitburg, na então Alemanha Ocidental, em maio de 1985. A música já havia sido lançada como single na Inglaterra em junho do mesmo ano em que tal visita ocorreu (quase onze meses antes de aparecer em Animal Boy, portanto) sob o título de “Bonzo Goes to Bitburg” (sendo que “Bonzo” era um apelido pejorativo para o então Presidente, referindo-se a um chimpanzé de “Bedtime for Bonzo”, um filme de comédia de 1951 estrelado pelo então ator Ronald Reagan), mas, para o álbum, teve o título alterado a pedido de Johnny, que não concordava com a letra, visto ser partidário de Reagan, a quem, certa vez, se referiu como “seu presidente favorito de toda a sua vida“.

Single estadunidense de “Something to Believe In”

A outra é a faixa de encerramento, “Something To Believe In”, também uma das melhores letras de Dee Dee em sua carreira, e cujo vídeo clipe (único gravado para promover Animal Boy) é uma paródia das campanhas beneficentes da época, como o Live Aid e a campanha Hands Across America, criando assim a Ramones Aid. A primeira vez que assisti a este vídeo foi em um VHS (pirata) do famoso documentário Lifestyles of the Ramones, e, ao ver tantos artistas juntos (participaram do clipe músicos como Debbie Harry, Weird Al Yankovic e Afrika Bambaataa, além de membros de bandas como X, The B-52’s e Spinal Tape, dentre muitos outros) promovendo uma campanha de auxílio a algo (que não fica exatamente claro no vídeo, visto que todos pedem apenas para “darem a mão“), achei que era uma campanha real, e só anos depois vim a saber que se tratava de uma zoeira do grupo com os “bem intencionados” artistas de então que participavam voluntariamente (ou não) destes movimentos.

Os três singles do disco trazem, principalmente em suas versões de 12 polegadas, alguns dos melhores “lados B” da carreira do grupo. O lado B da versão 12″ do single “Bonzo Goes To Bitburg” tinha “Go Home Ann” (outra música cuja letra, certamente, seria considerada misógina hoje em dia, mas que, para mim, é uma das melhores composições do grupo nesta fase com Richie na bateria); o lado B da versão 12″ do single “Crummy Stuff” tinha a sombria (e magistral) “(And) I Don’t Wanna Live This Life” (que depois foi renomeada para “I Don’t Want To Live This Life (Anymore)” na coletânea All the Stuff (And More) Volume 2); e o lado B da versão 12″ do single “Something To Believe In” tinha “(You) Can’t Say Anything Nice” (das três, talvez a que eu menos aprecie). Todas elas, a meu ver, seriam escolhas melhores para o álbum do que faixas como “Hair Of The Dog” ou a própria “Crummy Stuff”. Infelizmente, quis o destino (e a banda) que não ocorresse assim, e essas faixas ficaram relegadas ao conhecimento apenas dos verdadeiros fãs da banda, que buscam além do óbvio.

Contracapa da versão nacional em CD de Animal Boy

Segundo o Discogs, Animal Boy chegou a ser lançado em vinil no Brasil à época (eu, particularmente, tenho uma história de certa forma bem engraçada com a minha cópia importada do disco, como já contei quando participei da seção Na Caverna da Consultoria), mas só teve uma edição oficial em CD no ano de 2024, por iniciativa conjunta dos selos Wikimetal Music e Oporto Da Música (lançada junto às edições dos outros dois discos deste período da banda). Infelizmente, esta edição não agregou ao track list os lados B citados acima, por motivos que desconheço, nem outras versões facilmente encontradas na internet ou em bootlegs para demos e faixas alternativas, como a versão de “Freak of Nature” com os vocais de Dee Dee. Mesmo podendo ter sido ainda melhor do que saiu (e tendo duas faixas ali pelo meio que nunca me atraíram muito), continua sendo, como disse, meu disco favorito da minha banda favorita, e duvido muito que isto venha a mudar um dia! Já a carreira do grupo continuou, ainda que Richie saísse da banda após a gravação de Halfway To Sanity para dar lugar à volta de Marky, o qual permaneceria no posto até o final, em 1996! Mas isto é papo para outro momento!

I’m looking for something to believe in / And I don’t know where to begin…

Track List

1. Somebody Put Something In My Drink
2. Animal Boy
3. Love Kills
4. Apeman Hop
5. She Belongs To Me
6. Crummy Stuff
7. My Brain Is Hanging Upside Down (Bonzo Goes To Bitburg)
8. Mental Hell
9. Eat That Rat
10. Freak Of Nature
11. Hair Of The Dog
12. Something To Believe In

Um comentário em “Datas Especiais: 40 Anos de Animal Boy, dos Ramones

  1. Inspirado pelos comentários na live sobre o Pet Sounds e o Rising, decidi revisitar a discografia do Ramones, que eu tinha parado de ouvir na época do “Pleasant Dreams” e retomado no “Brain Drain” – ou seja, tinha deixado toda a fase do Richie de lado e mais um pouco. Não ouvi o bastante dos discos que não conhecia para poder me pronunciar, mas esses álbuns com o Richie são melhores do que esperava!

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