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Por Diogo Bizotto

Texto publicado originalmente em 2011

 

Ah, Bon Jovi… a banda que tantos amam odiar. Contando com uma legião de detratores quase tão ferrenha quanto a de fãs, o Bon Jovi trilha seu criticado porém vitorioso caminho desde 1983, graças a milhões de admiradores que sempre mantiveram a banda no topo desde 1986, quando ocorreu o lançamento de seu terceiro disco, Slippery When Wet, que tomou de assalto as paradas da Billboard através de seus bem sucedidos singles, como “Livin’ on a Prayer”, “You Give Love a Bad Name” e “Wanted Dead or Alive”. Contudo, mesmo entre os fãs, naturalmente existem discos que passam longe de ser unanimidade, caso dos recentes The Circle (2009) e Lost Highway (2007). Nenhum desses, porém, recebe o desprezo da própria banda como os dois primeiros álbuns do grupo, em especial o segundo, 7800° Fahrenheit.

Estaria exagerando se dissesse que 7800° Fahrenheit está entre os melhores discos do Bon Jovi, mas não hesito em afirmar que o amante da boa farofa oitentista tem muito a descobrir no track list desse álbum, que pode soar datado, mas continua fazendo brotar as mais primordiais emoções neste ouvinte. Até a recente turnê do álbum The Circle, nenhuma canção do disco era executada há 20 anos, com a exceção de “Tokyo Road”, tocada esporádica e especialmente no Japão.

Mais que razões racionais me fazem considerar 7800° Fahrenheit um álbum de meu agrado. Apesar de se tratar de um representante legítimo do pop metal oitentista, gênero famoso pelo tom festivo de suas canções e pelas vestes e cabelos um tanto espalhafatosos dos músicos, o disco apresenta, atrás de uma cortina de malícia e descontração, especialmente em “In and Out of Love” e “King of the Mountain”, uma aura um tanto triste e deprimida, não apenas em suas letras, mas na própria música, refletindo uma época de incertezas enfrentada pelo grupo. Não à toa, em dadas épocas de minha vida, me pego escutando esse álbum repetidamente, identificando-me com os lamentos cantados por Jon Bon Jovi, potencializados por um instrumental bem encaixado nessa proposta.

A primeira impressão para quem começa a ouvir o álbum é de que, não apenas a sonoridade, mas o tom “pra cima” do anterior, Bon Jovi (1984), seria mantido. A faixa que abre 7800° Fahrenheit, In and Out of Love, esbanja safadeza através de sua letra maliciosa e das vocalizações de Jon, em um pop metal carregado por um bom riff de guitarra. Apesar de, anos mais tarde, a música ter feito parte da coletânea Cross Road (1994), hoje em dia a banda declara passar longe de curtir a canção, além de seu cômico videoclipe. Bobagem. “In and Out of Love” pode não ser nenhuma maravilha, mas não faz feio frente ao que praticavam outros grupos de hard rock surgidos na época. O bom solo de guitarra do talentoso Richie Sambora não me deixa mentir.

David Bryan, Tico Torres, Jon Bon Jovi, Alec John Such, Richie Sambora

O primeiro ponto baixo do disco vem com “King of the Mountain”, que, apesar de uma tentativa de empolgar através dos vocais de Jon e dos bradados backing vocals, não é auxiliada pelo andamento quadrado impresso pelo instrumental. Segunda balada do disco, Silent Night mostra-se ainda mais brega que “Only Lonely”, investindo mais no caráter “ballad” do que no “power”, através da profusão de timbres plásticos de teclado. Trata-se de uma excelente mostra da precipitação que alguns têm ao declarar que gostam do Bon Jovi mais antigo, mas não curtem a profusão de baladas “mela-cueca” presente em discos mais recentes. Pois afirmo com a mais absoluta veracidade, de quem conhece o trabalho do grupo de cabo a rabo: desde o início o Bon Jovi sempre trouxe músicas assim em seus track lists, começando com “She Don’t Know Me” e “Love Lies”, presentes no primeiro álbum. Digo mais: o último disco lançado, The Circle, não conta com uma power ballad típica sequer, dessas de fazer com que o público acenda seus isqueiros (hoje em dia, seus odiosos telefones celulares) durante sua execução.

“Tokyo Road” é a tentativa de uma narrativa mais ambiciosa, incluindo uma introdução em japonês na voz de uma menina, logo interrompida pelos riffs de Richie Sambora, apresentando o hard rock mais vigoroso do álbum, fazendo a base para que Jon desenvolva sua história que, apesar de não ter conseguido confirmar, parece se referir a um jovem que, tendo ido lutar na Guerra do Vietnã, passou suas “férias” do conflito na capital do Japão, algo que lhe traz boas memórias. É importante lembrar que, após um certo tempo de combate, todos os soldados norte-americanos tinham direito a um período de descanso com despesas pagas em um país próximo, geralmente desenvolvendo turismo sexual. Japão, Tailândia e Filipinas eram os destinos mais usuais dos combatentes.

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Richie Sambora e Jon Bon Jovi ao vivo

A faixa que encerra o álbum, “Secret Dreams”, traz uma curiosidade: trata-se da única a contar com créditos para o baterista Tico Torres como compositor. Um riff totalmente heavy metal a abre e conduz seu andamento, que, não fosse a produção e a profusão de teclados, poderia soar bem mais próximo do estilo citado. Escolha acertada para encerrar um disco que, mesmo contando com alguns pontos baixos, merece muito mais atenção do que usualmente recebe. Apesar de alguns exageros que causam a rejeição dos detratores e até de muitos fãs, 7800° Fahrenheit tem valor, especialmente se avaliado tendo em vista as circunstâncias da época e mantendo na mente que sim, trata-se de um disco de sonoridade datada. Talvez uma carga pessoal de sentimentos faça-me ser mais complacente com suas faixas, mas continuarei defendendo-o e reforçando suas qualidades. Pior disco do Bon Jovi? De maneira alguma!Track list:

1. In and Out of Love
2. The Price of Love
3. Only Lonely
4. King of the Mountain
5. Silent Night
6. Tokyo Road
7. The Hardest Part Is the Night
8. Always Run to You
9. (I Don’t Wanna Fall) to the Fire
10. Secret Dreams

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