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Por Mairon Machado

Quando esse livro chegou às lojas, em 1986, o alvoroço em torno das polêmicas declarações que a cantora norte-americana dava, ao longo das mais de duzentos e sessenta páginas, foi gigantesco. O sucesso foi tamanho que, sete anos depois, Hollywood, através do diretor Brian Gibson, lançou o filme What’s Love Got to Do with It (Tina, no Brasil), outro grande sucesso.

E não foi à toa que Eu, Tina – A História da Minha Vida causou tanto estardalhaço. Escrito pela própria cantora, em parceria com Kurt Loder, o livro é um banquete de informações, polêmicas, fotos inéditas e muitas histórias chocantes.

São quinze capítulos, que narram a história de Anna Mae Bullock (seu nome verdadeiro). Desde sua infância na pequena cidade de Nutbush (Tennessee) até o estrondoso sucesso do álbum Private Dancer (1984) com Tina enchendo estádios ao redor do planeta.

Trazendo entrevistas com pessoas importantes ligadas à cantora (organizadas por Loder), somos levados pela infância sofrida da menina, que viu a separação dos pais, sendo criada por diferentes parentes: ora pelo pai, ora pela mãe, ora pela avó e, a maior parte do tempo, com sua irmã mais velha, Alline. Detalhes da infância de Anna Mae – como o destaque vocal na Igreja Batista que seu pai frequentava, a promissora jogadora de basquete e o trabalho como empregada doméstica – nos levam para a adolescência de Tina em um texto gostoso de se ler, muito informativo e simples.

Na adolescência, Tina conta sobre o primeiro grande drama de sua vida (a morte de sua irmã Evellyn), bem como a mudança para St. Louis, onde ficou fascinada pela noite da cidade e acabou conhecendo o guitarrista Ike Turner. Antes do relacionamento com Ike, conta também sobre seu primeiro amor, Harry Taylor, mas não enrola muito tempo nesse período e firma os dois pés na longa e tortuosa história com Ike. E aqui o livro realmente começa.

O início da carreira de Ike Turner (considerado como o primeiro homem a gravar uma canção de rock ‘n’ roll, “Rocket 88”, ao lado dos Kings of Rhythm), seu desejo pelo sucesso e as aparições em diversos clubes de St. Louis, sendo tratado como um grande ídolo local, passam pelos olhos do leitor deixando sempre aquela vontade de lermos mais e mais. Quando Tina finalmente entra na banda de Ike, as coisas esquentam. A partir de então, a vida de Tina vai do céu ao inferno em quase todas as páginas.O nascimento do seu primeiro filho (com o músico da banda de Ike, Raymond Hill) e sua conturbadíssima relação com Ike são narradas de forma emocionante, dolorida e cheia de ressentimentos por parte da cantora, que através das linhas e páginas do livro, joga toda sua raiva contra o ex-marido, contando sobre as agressões, violência e dificuldades que sofreu como a principal artista dos anos 60, sendo comandada por um ditador. As coisas pioram depois que Ike passa a usar cocaína, afetando a dupla financeiramente e também na parte criativa do guitarrista.

Ao mesmo tempo que sofria com as agressões e traições de Ike, e tratando o ex-marido sempre como um fracassado compositor e comandante de grupo, que passava a maior parte do tempo a agredindo, Tina exibe seus valores individuais, destacando o sucesso de “River Deep, Mountain High” (gravada em 1966 em uma parceria com Phil Spector) e a relevante participação no filme Tommy, como Acid Queen, no ano de 1975.

No primeiro dia de julho de 1976, Tina fugiu de Ike e entrou em um longo período de ostracismo, voltando a trabalhar como empregada doméstica. Entretanto, graças a ajuda dos Rolling Stones (com os quais excursionou em 1982) e de David Bowie (gravando uma participação especial no álbum Tonight, sendo esta um dos ídolos do camaleão), a americana voltou ao estrelato colocando o álbum Private Dancer na primeira posição da parada Rhythm & Blues americana e sendo segundo lugar nos Estados Unidos, além de fazer um dos papeis principais no filme Mad Max – Além da Cúpula do Trovão (1985). E é nesse ponto que o livro encerra.

Participam dessa história depoimentos de Rhonda Graam (principal produtora de Tina Turner), Harry Taylor (seu primeiro namorado), Ike Junior (filho de Ike Turner), Ike Turner, Roger Davies (responsável por recuperar a carreira da cantora), Ann Cain (gerente de Ike), Bill Wyman (baixista dos Rolling Stones) entre outras personalidades que corroboram a história de Tina, tornando o livro muito mais atrativo e deixando sempre o leitor aguçado pelo que vem pela frente e cumprindo assim com o nome do livro, pois a História da vida de Tina Turner está completamente exposta nesse ótimo livro.

Capa e contra-capa da versão americana do livro

Onze anos depois, em 1997, Ike Turner resolveu se defender e lançou A Verdadeira História Que Nunca Foi Contada Sobre Tina Turner, dando sua versão para os fatos que Tina fez questão de jogar no ventilador e  deixando marcada nos anais das polêmicas envolvendo rock stars a frase: “Sim, eu bati nela, mas não bati mais do que o indivíduo normal bate em sua mulher“. Apesar de não ter feito tanto sucesso quanto Eu, Tina – A História da Minha Vida, o livro também causou algum rebuliço, mas isso é história para outro post, deixando o espaço dos comentários para uma eventual discussão.

1 comentário

  1. CLEIBSOM CARLOS

    Algo que eu percebi recentemente e que talvez seja uma viagem minha, é a influência da persona de palco de Tina Turner em Mick Jagger, o próprio…Vi alguns vídeos do início da carreira dela e é inegável: Mick Jagger é uma Tina homem, se é que vocês me entendem…

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