Pat Torpey, Billy Sheehan, Eric Martin e Paul Gilbert

Por Diogo Bizotto
No final dos anos 80 surgiram algumas bandas de hard rock que, combinando músicos que já contavam com um significativo status, seja entre o público ou no próprio meio artístico, foram rotuladas por muitos como supergrupos. Entre eles estavam nomes como Blue Murder, Badlands, Damn Yankees e Bad English. Apesar da grande expectativa do público e do sucesso inicial, incluindo alguns hits, nenhum deles passou do segundo álbum, dissolvendo-se em pouco tempo. Exceção a essa realidade foi o Mr. Big, quarteto formado em 1988, em Los Angeles (EUA). Unindo o guitarrista Paul Gilbert (Racer X), o baixista Billy Sheehan (Talas, David Lee Roth) e o baterista Pat Torpey (Impellitteri, Robert Plant), além do vocalista Eric Martin, que, apesar de não ser tão popular em todo o país, era dono de um grande prestígio no estado da Califórnia, o Mr. Big conseguiu conciliar sucesso e longevidade, e, apesar de um hiato ocorrido entre 2002 e 2009, continua na ativa desde então.

Contando inicialmente com uma boa recepção, especialmente no Japão, país onde seus integrantes até hoje são superestrelas, o Mr. Big chegou a colocar uma música no topo da parada de singles da Billboard, a balada acústica “To Be With You”. A combinação da sensibilidade pop com a alta proeficiência dos músicos em seus instrumentos atraiu uma grande quantidade de fãs, e, não à toa, os ingressos para os shows no Brasil, um realizado ontem (9) e outro a acontecer hoje (10), no qual estarei presente, esgotaram-se com antecedência. Aproveitando a passagem do grupo por nosso país, publicamos hoje essa discografia comentada. Apreciem!

Mr. Big [1989]

Quem já conhecia o trabalho de Paul Gilbert no metálico Racer X, onde havia estabelecido uma reputação como um guitarrista altamente técnico, e de Billy Sheehan na banda de David Lee Roth (ex-Van Halen), não se admirou ao se deparar com a absurda introdução de “Addicted to That Rush”, em um crescendo unindo baixo, guitarra e bateria de maneira extremamente técnica e energética. Para fazer frente a uma massa sonora tão sólida, somente um vocalista muito especial, e Eric Martin realiza aqui esse trabalho com sobras, apresentando sua ótima voz que, apesar de legitimamente moldada para o hard rock, demonstra uma pureza quase virginal tal qual Steve Perry (Journey), assim como influências de cantores de soul music. Apesar da faixa citada ser o maior destaque do álbum, outras canções mantém o nível de empolgação no alto, como as sólidas “Wind Me Up”, “Take a Walk” e a grooveada “Merciless”. As primeiras power ballads do grupo dão as caras em Mr. Big, destacando a ótima “Anything For You”, sucitando o amor de alguns e o ódio de outros pelas interpretações oferecidas por Eric Martin nesse tipo de música. A setentista “Blame It on My Youth” e a legitimamente pop metal “How Can You Do What You Do” também são dignas de menção, além do cover para “30 Days in the Hole”, do Humble Pie. Para muitos, trata-se do melhor registro do quarteto, mas que, na minha opinião, seria suplantado pelo seguinte.

Lean Into It [1991]

Se em seu primeiro disco, o Mr. Big já deixou claro que não permitiria que sua elevada técnica superasse a criação de boas canções, no segundo a banda confirmou e aperfeiçoou esse compromisso. Seguindo a mesma linha de “Addicted to That Rush”, “Daddy, Brother, Lover, Little Boy” introduz os trabalhos com um hard rock metalizado exalando energia pelos poros e apresentando solos de guitarra e baixo absolutamente insanos, incluindo o uso de furadeiras elétricas para tocar os instrumentos. “Alive and Kickin'” e “My Kinda Woman” injetam um bem vindo tempero setentista, enquanto “A Little Too Loose” é pura malandragem, incluindo um pequeno trecho na voz grave de Billy Sheehan. As power ballads, que se tornariam uma das marcas registradas do grupo, aparecem com força através das ótimas “CDFF-Lucky This Time” e da bem sucedida “Just Take My Heart (16ª posição na Billboard). Mais bem sucedida ainda foi a acústica “To Be With You”, que, com suas presentes harmonias vocais, escalou o cume das paradas de singles de diversos países, incluindo sua terra natal. “Road to Ruin” tem cara de sucesso, mas infelizmente não foi lançada como single. Outra que merecia um reconhecimento maior é “Green-Tinted Sixties Mind”, forte candidata ao trono de melhor composição do Mr. Big. Com um acento psicodélico e um refrão explicitamente pop, além de uma excelente introdução executada por Gilbert usando a técnica de tapping, a canção é não menos que viciante. A banda ainda conseguiria criar ótimos álbuns posteriormente, mas nenhum tão equilibrado e de tanta qualidade quanto Lean Into It.

Bump Ahead [1993]

Seguindo a tradição dos anteriores, Bump Ahead é aberto com uma faixa rápida e extremamente técnica, ressaltando as raízes heavy metal de Paul Gilbert e Billy Sheehan, na forma de “Colorado Bulldog”. A velocidade é quebrada em seguida com o groove pesado de “Price You Gotta Pay” e com a primeira power ballad do álbum, a delicada “Promise Her the Moon”, uma de minhas favoritas do grupo. Se em Lean Into It o sucesso foi conquistado através da acústica “To Be With You”, em Bump Ahead parece que o grupo tentou emular à força o mesmo êxito, registrando um cover para “Wild World”, original do cantor Cat Stevens, que repercutiu suficientemente bem, inclusive no Brasil, mas não reproduziu a histeria causada pela antecessora. “The Whole World’s Gonna Know”, dotada de um tom mais sério que o habitual, revela-se uma canção mid-tempo pesada, destacando-se facilmente como um dos pontos altos da carreira da banda. Fator que pode agradar muitos e ao mesmo tempo irritar tantos outros é a quantidade de baladas presentes no álbum, tipo de faixa que ainda se faz presente em “Nothing But Love” e “Ain’t Seen Love Like That”, particularmente de meu agrado. O disco é encerrado com outro cover, a canção que emprestou o nome ao quarteto, a fantástica “Mr. Big”, original do Free. Mesmo não tão boa quanto a original (tarefa praticamente impossível), o grupo passa longe de fazer feio.

Hey Man [1996]

Menos metálico e investindo mais nos grooves, Hey Man chegou em uma época na qual o Mr. Big já havia perdido totalmente a relevância em um Estados Unidos onde o hard rock havia sido varrido para os mais mofados porões do underground. No entanto, o álbum chegou ao topo da parada japonesa, consolidando o estranho paradoxo que a banda se tornou. Musicalmente, o disco dá os primeiros sinais de cansaço do quarteto, que, apesar de ainda oferecer bons hard rocks carregados de vitalidade, como “Trapped in Toyland”, “Where Do I Fit In?”, “Out of the Underground” e “Fool Us Today”, já não soa tão inspirado quanto nos anteriores. Assim como o anterior, Hey Man carrega nas baladas, oferecendo a acústica “Goin’ Where the Wind Blows”, e as boas “The Chain” e “If That’s What It Takes”, além da setentista “Mama D.”, dotada de bons riffs de Gilbert. Um grande destaque do disco é “Take Cover” e sua belíssima linha de bateria, ressaltando o trabalho de Pat Torpey, que mesmo tocando com Paul e Billy, tidos entre os melhores em seus instrumentos, nunca se intimidou, demonstrando solidez e criatividade. Paul Gilbert acabou deixando o grupo em 1997 a fim de seguir carreira solo e reformar o Racer X, mas não antes de registrar quatro novas faixas ao lado do grupo para uma coletânea, incluindo uma contando com sua performance vocal, “Unnatural”.

Get Over It [1999]

Lançado em 1999 no Japão e em 2000 nos Estados Unidos, Get Over It apresentou Richie Kotzen como o novo guitarrista do grupo. Apesar de também ser dono de elevada técnica, tendo inclusive registrado álbuns na linha shredder, Richie trouxe uma nova paleta de cores para o trio remanescente, incluindo uma queda para o blues e o funk que foi explorada com propriedade nesse disco, atenuando ainda mais as tendências heavy metal do Mr. Big e ressaltando a exploração de bons grooves, em músicas mais ricas em swing. “Electrified” abre em bom nível, trazendo um solo de baixo e deixando bem clara a diferença de Richie para Paul, sem ser melhor nem pior, apenas distinto. Candidata à melhor do disco, a blueseira “Static” traz uma sólida linha de bateria e mostra que a inclusão do novo guitarrista também acrescentou qualidade vocal à banda, visto que Kotzen também é um bom cantor, não somente nos backings. “Superfantastic” e “My New Religion” são as baladas acústicas da vez, sendo a primeira o hit da época, e trazem um tom de familiaridade, enquanto músicas como a pop “A Rose Alone” e as funkeadas “Hole in the Sun” e “How Does It Feel” diferem consideravelmente de tudo que o grupo havia registrado anteriormente, e exibem um Pat Torpey mais solto e relaxado. Aliás, é preciso destacar também sua excelente introdução em “Dancin’ With My Devils”, uma das melhores canções da fase Kotzen no Mr. Big. Alguns desaprovaram sua adição, sentindo falta da marcante presença de Paul Gilbert, mas considero a renovação muito bem vinda.

Actual Size [2001]

Se existe um álbum que me faz questionar a superioridade de Lean Into It sobre os outros, esse é Actual Size. Apesar de, por um lado, manter algumas faixas mais funkeadas (especialmente a ótima “Suffocation”) e infectadas de blues, o segundo e derradeiro disco com Richie Kotzen adota um direcionamento mais pop rock e cheio de melodias memoráveis em diversos momentos, como em “Shine”, um dos maiores sucessos do grupo no Oriente e hoje em dia presença obrigatória nas apresentações solo de Kotzen, autor da faixa. Causou estranhamento o fato de que, exceto na alegre “How Did I Give Myself Away”, os integrantes do Mr. Big compuseram em separado (junto a parceiros externos à banda), e Billy Sheehan, que iniciou a banda em 1988, ocupado com outros projetos, apenas contribuiu na supracitada, talvez em um prenúncio da dissolução do grupo, que ocorreria em 2002, repercutindo desentendimentos entre Eric Martin e o baixista. Felizmente, no decorrer das faixas a situação foi de total harmonia, destacando a otimista “Wake Up”, a deliciosamente pop “Lost in America” e a hardeira “Crawl Over Me”. O espaço das habituais baladas é ocupado por “Arrow”, “I Don’t Want to Be Happy e “Nothing Like It in the World”, todas na medida para satisfazer quem aprecia esse tipo de canção. Billy, que após a gravação do disco foi demitido pelos outros integrantes, acabou retornando sob pressão empresarial, mas concordando apenas em realizar a turnê de despedida, decretando o (até então) fim das atividades do Mr. Big.

What If… [2010]

Sete anos após o término do grupo, em 2009 o Mr. Big colocou suas diferenças de lado e voltou à ativa, trazendo de quebra o retorno de Paul Gilbert e sua timbragem característica. O disco inicia em alto estilo com “Undertow”, que, remetendo a “Take Cover” (de Hey Man), é dona de um instrumental que passa a ideia de constante evolução, além de contar com um belo refrão. A presença de Paul certamente traz uma conexão mais forte com o passado do quarteto, mas isso não significa que se trate de um disco datado, ao contrário. Apesar de “American Beauty”, “Still Ain’t Enough For Me” e “Around the World” trazerem as pirotecnias instrumentais típicas de algumas canções dos primórdios, faixas como a pesada “Nobody Left to Blame”, “Once Upon a Time” e “I Won’t Get in My Way” soam bastante atuais. Uma viagem ao passado é “Kill Me With a Kiss”, que conta com riffs que poderiam ter sido criados por Ritchie Blackmore em seus anos de Deep Purple. As duas baladas, a power “Stranger in My Life” e a acústica “All the Way Up”, cumprem bem seu papel, especialmente a primeira, uma das melhores canções do álbum. Particularmente, apesar de ter gostado de What If…, acredito que o Mr. Big ficou devendo em relação aos dois antecessores, mas tenho consciência de que essa opinião não é compartilhada pela maioria dos fãs do grupo, que viram com muito bons olhos o retorno de Paul Gilbert.

7 comentários

  1. Thiago

    Uma das minhas bandas favoritas de Hard Rock. Meu primeiro CD deles foi um "Best Of"…e desde então a admiração pelo grande trabalho do Mr.Big só vem crescendo. Gosto tanto da fase Gilbert quanto da fase Kotzen…e realmente é muito curioso o grande sucesso que eles fazem no Japão. Inclusive já alcançaram a marca de 100 shows em terras nipônicas. Será que alguma outra banda do meio já atingiu essa marca?
    abrassss

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  2. Ricardo Seelig

    O Mr Big nunca foi uma das minhas bandas favoritas, mas gostei muito desse último disco, que pra mim é um dos melhores de 2011.

    Excelente texto, Diogo, parabéns!

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  3. diogobizotto

    Valeu, Ricardo… como você deve ter notado, citei o fato de que esse retorno com "What If…" foi bastante aclamado pelos fãs, em grande parte por contar com Paul Gilbert, mas devo admitir que, pro meu gosto pessoal, preferi o direcionamento dos dois álbuns abteriores. Quem me conhece dirá que isso se deve à presença de Richie Kotzen, do qual sou muito fã, mas digo que adorei o direcionamento desses álbuns por completo, e gostei especialmente da performance de Pat como baterista e compositor. Masssss… apesar disso, não hesito em dizer: "Lean Into It" é o disco definitivo o grupo.

    Fui ao show ontem, e foi uma excelente experiência: casa lotada, muita interação com a plateia, Billy e Paul esmerilhando, set longo, público participativo… consegui até ser xingado pelo Eric Martin! Hahaha…

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  4. Mairon Machado

    Lean Into It é um dos melhores discos da década de 90. Não conheço a fase Kotzen, mas conhecendo o amor que o Diogo tem pelo guitarrista, acaba sendo suspeito, hehhee

    Falando sério, bem legal o post, e tenho uma pergunta: por um acaso quem faz as capas dos discos do Mr Big é a Hipgnosis? Essas capas me lembram muitos as do Scorpions pós-Uli Roth

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  5. Anderson Belem

    E vem mais um em Julho!! A primeira faixa está circulando e é instigante! Tomara que role uma ‘turnezinha’ Br!!

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    • Diogo Bizotto

      Anderson, eu confesso que fiquei bem decepcionado com o material que foi divulgado até agora. O álbum anterior já havia ficado aquém do que eu espero do Mr. Big, mas as músicas mais novas dão ainda mais a impressão de que a banda quer se afastar da identidade que construiu ao longo dos anos, aliando técnica a grandes melodias na forma de canções irresistíveis, sem medo nem de soar autoindulgente e menos ainda de soar pop demais.

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