Por Fernando Bueno
No fim dos anos 90 minha única fonte de informações era a revista Rock Brigade, que recebia mensalmente por ser assinante. Fui leitor assíduo durante cerca de oito ou nove anos. Após isso, passei a comprá-la esporadicamente, quando sobrava alguma grana (época de faculdade é dura). Na virada do século, a onda do metal melódico era muito forte na revista e todo mês havia altas notas para discos lançados por bandas do estilo, fossem elas conhecidas ou novatas. As notas altas para os discos, as entrevistas, os anúncios de CDs e tudo o mais acabava criando uma obrigação para que eu conhecesse todas aquelas bandas. Porém, depois que entrava em contato com seu som, percebia que muitas não apresentavam nada de novo. Essa época também foi o início do meu aprofundamento no rock progressivo, o que ajudou a fazer com que eu perdesse o interesse nesse subgênero do metal.
Na época, cheguei a escutar algumas músicas isoladas do Kamelot e acabei não me interessando. Não sei se tive azar e acabei escutando as músicas mais fracas dos discos, mas foi a primeira impressão. Lembrando que aquele era o tempo dos programas de compartilhamento de arquivos Soulseek e Kazaa, e baixar um álbum inteiro só valia a pena se você tivesse gostado realmente das músicas que ouviu. Comprar discos nessa época era raro. Só comprava mesmo das bandas que eu era fã incondicional.
A maior parte daquela safra de bandas acabou se perdendo pelo caminho, outras mudaram um pouco seu direcionamento musical e outras se mantiveram porque faziam algo de qualidade. De um tempo para cá voltei a me interessar por alguns grupos que sempre estão presentes nas discussões, os quais não tinha o costume de ouvir devido a todos os motivos já apresentados. Pensei: se até hoje falam da banda, é porque alguma coisa boa deve ter. E esse foi o caso do Kamelot, que em setembro de 2010 nos apresentou Poetry for the Poisoned.
Logo de início temos “The Great Pandemonium”, que junto com a canção que fecha o álbum, “Once Upon a Time”, são as músicas de maiores destaque. Roy Khan foi um estudante de ópera e talvez por isso consiga se entregar à música e realmente interpretá-la, modificando sua voz de acordo com o que a música pede. Também temos nele um exemplo de que grandes vocalistas não precisam, necessariamente, cantar em tons lá nas nuvens.
O som do álbum também chama atenção. Produção muito bem feita, timbres bem escolhidos, tudo certinho, bem pensado e executado. Pesado e melancólico podem ser os adjetivos que descrevem o álbum, e muito disso se deve aos sons e melodias criadas pelo bom guitarrista Thomas Youngblood. O instrumental, sem nenhum exagero característico do estilo, tem bom gosto e criatividade. Da mesma maneira que Khan faz com a voz, o  instrumental também joga para o time.
Achei desnecessária a divisão da faixa título em quatro partes. Até parece que os fãs da banda já não estão acostumados com músicas mais longas. Até porque cada parte da música escutada separada soa totalmente sem sentido. Apesar de tudo, para mim acaba não mudando nada, já que tenho o costume de sempre escutar os discos inteiros e na ordem.
Confesso que, antes mesmo de ouvir esse disco, fiquei com um pouco de má vontade devido à quantidade de convidados especiais. Como ainda não havia escutado, achei exagerado e imaginei que o Kamelot queria apenas fazer média com músicos e fãs de outros estilos. Esse desconforto aumentou quando lembrei que Roy Khan saiu da banda pouco tempo depois do lançamento do álbum. Cheguei até a pensar que a quantidade de participações tinha a ver com a previsão da saída do vocalista, que foi substituído por Fabio Lione na última turnê, que inclusive passou pelo Brasil. Entretanto, depois de ouvir o álbum mudei de opinião, e acredito que os convidados tenham sido aproveitados muito bem, com coerência e totalmente dentro do contexto de cada música. Os duetos de Roy Khan com Simone Simons, vocalista da banda Epica, em “House on a Hill” e na faixa título são alguns dos melhores elementos do disco. Como curiosidade é interessante citar que o nome Epica foi usado pelo Kamelot para batizar seu sétimo disco de estúdio em 2003.
O Kamelot mostra com Poetry for the Poisoned que temos que continuar a busca por conhecer boas bandas e dar chances para outras, mesmo que elas não tenham começado tão bem assim.

1 comentário

  1. Ricardo Seelig

    Para mim, o Kemelot é a melhor banda do chamado metal melódico, apesar de que acho que os caras nem fazem mais esse estilo, tal a variedade dos seus álbuns. Uma pena que o Roy saiu e, segundo se fala por aí, Fabio Lione assumirá definitivamente o seu lugar.

    Fernando, se você gostou desse disco, ouça também o 'The Black Halo', de 2005, que é o melhor álbum do Kamelot.

    Abraço.

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