I Wanna Go Back: Pride of Lions [2003]

15 de junho, 2011 | por Diogo Bizotto
Diversos
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A coluna “I Wanna Go Back” passará a ser publicada quinzenalmente a partir desta edição. Até o dia 29 de junho!


Por Diogo Bizotto
Quem conhece o gênero sabe que a seara mais melódica do rock vivenciou seu auge do final dos anos 70 até meados dos anos 80, época onde grupos como Journey, Foreigner, Toto, Boston e REO Speedwagon acumularam discos de platina e lotaram arenas ao redor de globo. O AOR pode ter experimentado um descenso desde então, e mesmo as bandas mais reconhecidas sofreram uma queda vertiginosa na popularidade, mas nunca deixou de revelar bons nomes no decorrer dos anos. Um desses é a dupla Pride of Lions, que fez sua estreia fonográfica em 2003, trazendo todos os elementos que fizeram do estilo uma forte expressão musical em uma era passada.

Além das características habituais, como os refrões grandiosos, a especial atenção às melódicas linhas vocais e a produção esmerada, o Pride of Lions tem pedigree. O mentor por trás do grupo é nada menos que Jim Peterik, guitarrista, tecladista e vocalista que coescreveu um dos maiores hits dos anos 80, “Eye of the Tiger”, presente no álbum homônimo do grupo que liderava, o Survivor. Completa a dupla uma das melhores revelações vocais da década passada, o talentoso Toby Hitchcock, 27 anos mais jovem que Peterik. É bom não se deixar enganar pela pinta de calouro evangélico do Programa Raul Gil: apoiado pela família desde a infância, Toby desenvolveu um estilo que sim, deve muito à música gospel norte-americana, mas também carregado de técnica e recursos. Perfeito para a sonoridade que Jim estava desenvolvendo na época que o conheceu.

Jim Peterik e Toby Hitchcock

Além de ser guitarrista base, tecladista e ocasional vocalista, Jim Peterik é o produtor e escritor de todas as faixas desse disco que conseguiu, em 2003, trazer à tona a magia de sua época de Survivor, mesmo que sem o mesmo êxito comercial de outrora. O time, completo por Mike Aquino (guitarra solo), Clem Hayes (baixo), Ed Breckenfeld (bateria), Hilary Jones (bateria) e Christian Cullen (teclado), compensa a falta de renome com performances seguras, mostrando que aprenderam as lições com o velho Jim e executaram com muita competência o material que surgiu em sua mente. Mike, em especial, muitas vezes carrega em seus dedos as marcantes melodias presentes em diversas canções de Pride of Lions.

É uma delas que abre “It’s Criminal”, remetendo diretamente ao passado de Peterik. Segundo ele, trata-se de uma sobra do álbum Vital Signs (1984), clássico do Survivor, devidamente finalizada durante o novo processo de gravação. Apesar do ótimo status de Vital Signs, “It’s Criminal” certamente constituiria uma adição valiosíssima ao álbum. Seu andamento mais veloz contrapõe-se à seguinte, “Gone“, uma semibalada iniciada com a voz de Jim Peterik, que apesar de ser dono de um registro mais grave, bastante diferente do versátil Toby Hitchcock, trabalha bem dentro de suas limitações. Mas é inegável que a música adquire outra dimensão quando a voz de Toby invade os alto-falantes, conduzindo este que é apenas um dos vários refrões bombásticos presentes no disco.

Jim Peterik

Ao ouvir a balada “Interrupted Melody” e descobrir que, mais uma vez, trata-se de uma sobra do Survivor, surge uma constatação inevitável: que compositor de mão cheia é esse Jim Peterik! E que sorte teve em encontrar em Toby, um jovem de voz cristalina, virginal, o parceiro ideal para levar suas ideias musicais adiante em uma época tão atípica, onde esse tipo de sonoridade não é bem acolhida nas paradas musicais. “Sound of Home” é outra que confirma que o Pride of Lions não é nada mais que a continuação do ótimo trabalho desenvolvido por Jim na época de Survivor, com suas linhas de teclado remetendo diretamente aos anos 80, mas com uma produção atual, e, diga-se de passagem, muito bem executada por Jim e Larry Millas. Se houvesse um dicionário sonoro, é possível que a palavra “estrondoso” viesse acompanhada do refrão de “Sound of Home”, tamanha a energia empregada.

A longa “Prideland” acalma os ouvintes com sua instrumentação rica em detalhes e prepara para a mais hardeira do disco, a guitarrística “Unbreakable”, que propositalmente se associa às canções criadas por Jim em parceria com o guitarrista Frank Sullivan (também do Survivor) para as trilhas sonoras da série de filmes “Rocky”: “Eye of the Tiger” e “Burning Heart”. Mesmo a letra não nega a inspiração nessas músicas, que são parte da memória musical de milhões de pessoas, mesmo sem saber quem as executa.

“First Time Around the Sun”, apesar de ser a menos atraente do disco, possui um belo e estendido solo final, que a valoriza, mas não tanto quanto “Turn to Me“, que segue a linha acelerada de “It’s Criminal”, mas ainda mais “pra cima” e irresistível. Um verdadeiro deleite para quem é fã do estilo, conquistando pela simplicidade de suas melodias, apesar de possuir mais uma ótima sequência de solos de guitarra, que desenrolam-se por quase dois minutos, até o final da faixa. Excelente duelo entre Jim e Mike Aquino!

Toby Hitchcock

Fica difícil encontrar mais adjetivos para continuar descrevendo um álbum como esse. Para quem não é fã do estilo, minhas palavras podem soar exageradas, mas tenha certeza: ao menos nos domínios do AOR, trata-se não apenas de um dos melhores discos lançados nos últimos 20 anos, mas um dos registros definitivos do estilo. Isto é, dependendo do seu gosto musical, Pride of Lions pode variar de uma grande prazer auditivo a um suplício insuportável. Fico com a primeira opção, que é reforçada pelas faixas que seguem, a trabalhada “Madness of Love” (incluindo um solo de baixo), a dramática “Love Is on the Rocks” e a breguíssima (mas boa) balada “The Last Safe Place”.

Não posso deixar de reservar um destaque especial para “Music and Me“. Acompanhá-la com o encarte na mão, apreciando sua letra, é garantia de identificação para aqueles que têm a música como parte importante de sua vida desde a juventude, seja tocando ou apenas como apreciador. Seus climas distintos formados pela variação vocal entre Toby e Jim constituem a perfeita escolha para encerrar um disco nivelado por cima. Não à toa, o Pride of Lions não conseguiria repetir um resultado tão bom nos lançamentos subsequentes. Quanto a esse primeiro álbum, não tenho medo algum de classificá-lo como um dos melhores discos do gênero. É fã de AOR e ainda não possui o disco? Não sei no que andas perdendo tempo…

Track list:

1. It’s Criminal
2. Gone
3. Interrupted Melody
4. Sound of Home
5. Prideland
6. Unbreakable
7. First Time Around the Sun
8. Turn to Me
9. Madness of Love
10. Love is on the Rocks
11. Last Safe Place
12. Music and Me



4 Comentarios

  1. Mister disse:

    Caro Diogo!
    O mais longe que você foi na discografia do Peterik foi sua associação com o Survivor, mas o cara já mandava ver muito antes (como imagino que você saiba, mas nos poupou). Em 70 ele cometeu a arrasa quarteirão “Vehicle”, com a brass band The Ides of March. A banda pode ser “one hit wonder”, mas que puta música! E tem o dedo dele numa série de músicas de bandas que definiram o AOR, além do Survivor. Outra coisa bacana desse guitarrista são seus vídeos mais recentes no youtube. Enquanto seus companheiros de banda ostentam um look “melhor idade”, ele é todo estiloso, com suas calças justas sob bota cowboy, colete sobre camisetinha regata para realçar os bracinhos malhados, echarpes no pescoço, faixa no cabelo “tia veia que freqüenta o Jassa” e uma coleção de óculos da grife Sílvio Brito. Uma figuraça adorável e simpaticíssima.

  2. diogobizotto disse:

    Beleza, Marco? Com pouca idade o cara já era um belo de um compositor, e "Vehicle", apesar de único sucesso do The Ides of March, é um musicão! Não quis citar esse fato para não me estender em demasia, até porque, mais que isso, o cara sempre foi também um especialista em fornecer material para os mais diversos artistas. Em uma época quando, por exemplo, o Survivor ainda não tinha um hit, o .38 Special já havia feito de uma música sua um belo sucesso, elevando a carreira do grupo.

    Sobre seu estilo, estabeleço uma comparação com os tiozões do Scorpions, em especial o guitarrista Rudolf Schenker, que certamente não quer ostentar seus mais de 60 anos, hehehe…

  3. Mister disse:

    Tivesse eu muito mais cabelo e muito menos barriga, com certeza frequentaria a mesma butique. Abração, Diogo, muito legal seu texto!!!

  4. Muito legal o texto. Ouvindo as faixas disponibilizadas, jamais diria se ratar de uma banda recente. Muito Survivor mesmo. Agora, tem que ter coragem para escrever

    " trata-se não apenas de um dos melhores discos lançados nos últimos 20 anos, mas um dos registros definitivos do estilo."

    Eu não ficaria jamais com a segunda opção pelo que ouvi, mas para disco definitivo do gênero, teria que ouvir bem mais.

    De qqer forma, mais um ponto positivo paar o AOR!

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